29 janeiro 2010

"Os portugueses são bons militares, bons funcionários, bons médicos e bons capitães"

"Os portugueses são bons militares, bons funcionários, bons médicos e bons capitães"


Quem assim escrevia entrou na história como o mais "reaccionário", "xenófobo" e "isolacionista" dos reis do Sião pré-moderno, crisól de inverdades posteriormente disseminadas pelos adeptos do business do ópio e das esprituosas, do tráfico de coolies e da diplomacia de canhoneira. O jovem príncipe Jessadabodin era já em 1820 um experimentado político, mão direita de seu pai, o rei Rama II, que se interessava mais por literatura que pelos negócios de Estado. Jessadabodin ascenderia ao trono em 1824 e conhecemo-lo hoje por Phra Nangklao ou Rama III. Fizera o seu longo tirocínio como adjunto do Phra Khlang - ministro responsável pelo comércio marítimo e pelos contactos com os farang - e sabia de cor todos os estrangeiros que insistentemente requeriam ao Sião a "abertura dos portos ao livre comércio". O Sião tinha, obviamente, intensas relações comerciais com o mundo exterior, pelo que a tese do isolacionismo quer apenas dizer que o Sião mantinha relações económicas prioritárias com a China e defendia-se das arremetidas europeias.


Ora, o nosso Jessadabodin foi sempre um astuto político, um excelente administrador e defensor dos interesses do Sião. Sabia que os britânicos estavam em crescendo, que os holandeses não eram parceiros credíveis, mas que havia um outro povo que aqui vinha há séculos e com o qual nunca os siameses se haviam travado de razões. Cercado de servidores protuguet, o príncipe conhecia-lhes a religião, distinta da sua, sabia que detinham a lingua franca do comércio da região, que dominavam uma rede invisível mas efectiva de contactos em todos os grandes portos, de Bombaim a Calcutá, a Chittagong a de Yangún, de Penang a Malaca, que estavam na recém criada Singapura, detinham marcante influência na Batávia holandesa e ocupavam relevante vantagem ao longo do Aname e do Tonkin. Sabia que esses farang católicos tinham como líder espiritual o Primaz das Índias - o arcebispo de Goa - e que detinham o monopólio dos contactos com o govenador de Goa, o capitão-general e o Senado de Macau.


Em meados da década de 1810, recebera a corte siamesa reiterado pedido de concessão de facilidades ao comércio português. Vinte anos antes, Banguecoque era ainda um imenso estaleiro fervilhante de obras (passara a capital no ano anterior) e aqui chegara um sacerdote português, de seu nome Francisco das Chagas, com a proposta da assinatura de um tratado entre as duas cortes. Os siameses temeram que a proposta vulnerabilizasse a sua ainda precária e recém conquistada liberdade e que estes farang (portugueses) podiam ser daqueles "birmaneses brancos que adoram um outro Deus" (ou seja, luso-descendentes da Birmânia) e que aqui vinham para espiar. Como escreveu Jessadabodin, "naquele tempo, o Sião estava em guerra com os birmaneses e estes enviavam gente para recolher informações sobre nós [siameses], pelo que o Senabodin (Ministro do Interior e primeiro-ministro) detestava os estrangeiros e não confiava nos portugueses que estavam em Banguecoque, pensando que estes eram enviados e amigos dos birmaneses (...)". "Então, o Rei [Rama II] não permitiu que os pedidos dos portugueses fossem atendidos".


Tudo não passava de mal entendido pois, escreve Jessadabodin, "o govenador de Goa acaba de enviar o senhor Calos da Silveira para requerer uma vez mais a concessão de terra. O Sr. Silveira declarou perante toda a corte reunida para o ouvir que a cidade de Goa e a cidade de Macau são do Rei de Portugal e que os portugueses não se envolvem nem com birmaneses nem com vietnamitas". Julgamos que o príncipe desenvolveu toda a sua competência para resolver o problema, pois a carta que acabo de vos transcrever foi redigida no preciso momento em que o enviado português se encontrava em Banguecoque. O príncipe faz elogio rasgado aos protuguet siameses e aos portugueses e alicia os seus leitores - o Rei e os ministros - com as qualidades que aqueles possuíam. O documento que agora traduzi põe de manifesto um dos argumentos-chave da minha tese: os portugueses eram, em inícios do século XIX, uma elite entre os restantes europeus que vaguevam pela Ásia. A tese dos esfarrapados do bandel, dos alcoólicos brigões e dos piratas aventureiros cai por terra quando a investigação progride em testemunhos que abatem, um a um, os mitos que depois britânicos e franceses erigiram ao longo dos séculos XIX e XX. A História faz-se com documentos e não com opiniões. Por outras palavra, é um processo permanente de interpretação, criação e destruição de mitos.

Depois da sua morte, Rama III foi insultado, denegrido e obscurecido. Dele se disse que usurpara o trono a Mongkut, que era um tirano, que fora um acirrado anti-cristão, que a sua teimosia impediu o "progresso" do Sião. A verdade, porém, é que sob o seu reinado que o Sião atingiu a dimensão de um império, que os cofres se encheram de ouro e prata e que as armas siamesas venceram sucessivas guerras (Laos, Camboja, Vietname, sultanatos malaios). Era o tempo em que as embaixadas estrangeiras entravam de gatas e se prostravam aos pés do grande rei que só quis, a viver em Banguecoque, o representante de uma nação europeia. Essa nação era Portugal. Rama III é, sem dúvida, o meu monarca siamês predilecto.


2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Envia o texto para os sítios exactos. Infelizmente eles nem saberão que o Sião é a Tailândia.

Daniel Azevedo disse...

"A História faz-se com documentos e não com opiniões."

Mas os documentos são escritos por alguém que tem as suas opiniões e é sempre, de alguma forma, tendencioso.
Como é que na sua investigação "filtra" esse polarizar de opiniões?