31 janeiro 2010

O povo do sanuk e das vedetas

Há uma meia dúzia de palavras e expressões que os thais usam com recorrência na língua falada, posto que na escrita, muito elaborada que dir-se-ia ser uma outra língua, são mais sofisticados na expressão de ideias e sentimentos. Se falarmos com um thai mais de dez minutos, fatais como o tempo, surgirão obrigatoriamente, semeando o discurso, os adjectivos e advérbios ดี=díí (fantástico), สนุก=sanuk (divertido), มาก=máák (muitíssimo), ความสุข=kwamsuk (alegre) e ตลก=talók (engraçado).


Este é um povo lúdico que, como dizia um atento observador britânico no século XIX, "brinca a trabalhar e trabalha a brincar". Os thais não se concentram mais de dez minutos sem uma folga de risos e inocentes brincadeiras. Dizia um professor de Filosofia ocidental de uma prestigiada universidade de Banguecoque que dava dez minutos de Aristóteles e logo, para o intervalo de sanuk, tinha de imitar o andar do Estagirita ou inventar uma rábula sobre gastronomia grega (o pão, as azeitonas e o vinho), para logo mergulhar no pensamento duro do filósofo. Em 1997, quando o país mergulhou na tremenda crise financeira que quase levou à bancarrota, uma delegação do FMI chegou a Banguecoque para discutir com o governo de então um programa de urgência que evitasse a catástrofe. Ora, em plena reunião, os ministros levantaram-se das suas cadeiras e correram para a sala contígua para assistir ao último episódio de uma telenovela cómica (talók) que então batia recordes de audiência. Durante meia hora riram-se até às lágrimas, bateram palmas, discutiram a sorte dos heróis e dos maus da fita e, depois, como se nada se tivesse passado, voltaram com ar de Estado para a mesa de trabalho.

Outra das fixações dos thais é o mundo de fantasia das estrelas. Há mil e um concursos para misses (Miss Thailand Universe, Miss Thailand World, Miss Thailand, Miss Teen Thailand, Miss Tiffany, Miss Queen International, Miss Chang, Miss Thai Tourism), sendo que os concuros para Miss Queen e Tiffany são destinado a travestis, enquanto o de Miss Chang se destina a eleger a mais bela gorda do país. Estes concursos concitam discussões acaloradas, milhões de cartas, telefonemas e e-mail's, parangonas nos jornais e revistas, cobertura em directo pelas televisões e até manifestações de torcedores. As estrelas (dárà) ocupam grande parte do trabalho da comunicação social. Há estrelas actores e actrizes (nak sadééng), há estrelas da canção ligeira (nák róng), há estrelas da moda, estrelas do desporto, estrelas da gastronomia, estrelas dos anúncios comerciais. As crianças e jovens thais vivem neste mundo de sonho de estrelato desde que abandonam a maternidade. Perto de minha casa realizam-se, duas ou três vezes por semana, os mais desvairados concursos (dança, canto, acrobacia) que mobilizam milhares de rapazes e raparigas em busca do sucesso.


Pintados e maquilhados como máscaras indianas, adornados de prata, ouro e cores berrantes, cabelos esculpidos com laca e fixador, saltam para o palco e ali estão horas seguidas desfilando e exibindo as suas graças e talentos por entre uma infernal algazarra e um mar de palmas e guinchos. Curioso, marca de elegância e civilidade, nunca ali ouvi um apupo, um insulto ou um palavrão. Os thais gostam da má língua, não na acepção ocidental, ácida e malsã, mas em comentários carregados de graça sobre a quantidade de make up que uma actriz usa para transformar a tez castanha em branca, o cabelo que terá cortado do rabo de um cavalo para a trança exótica, o cheiro a perfume que só se explica pelo patrocínio conseguido junto de uma marca de renome, o facto de não se rir porque acabou de comer nám pláá (molho de peixe, que provoca um hálito diabólico), a grande e desleixada barriga dos fói tong (fios de ovos).

Este não é, decididamente, um povo cinzento, cheio de vergonhas, esmagado pela fatalidade do castigo e do pecado. Contudo, o riso, o sanuk e a quase insuportável incapacidade para afivelar o sério desaparecem noutros domínios da vida. Não brincar com temas de religião, não tocar na monarquia, não fazer reparos sobre a história e orgulho da nação são os mais acertados e oportunos conselhos que se podem dar a um estrangeiro. Os thais não toleram o mais suave exercício de graça e irreverência. Se o estrangeiro, desavisado ou estúpido, insiste, não discutem. Afivelam um olhar duro e distante, quase de desprezo e não perdoam. Esse estrangeiro jamais será recebido ou jamais os terá como convidados do sanuk destruído pela afronta.


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