22 janeiro 2010

O monárquico sem anel de armas e sem voz enrolada

João Camossa (1925-2007) era um homem extravagante. Dele se dizia, com o escarninho da malévola estupidez - daquela que olha aos sapatos, à gravata e aos trapos para emitir certificado de respeitabilidade - que parecia um deserdado, um homem da rua, enfiado no seu sobretudo de grossa lã 365 dias por ano, a hirsuta barba amarela queimada pelo tabaco, o monte de papéis e livros de alfarrabista sob o braço. O mundo está cheio de medíocres, de homens e mulheres proclamados normais e gente de bem que nunca acrescentaram um grama à fatalidade da biologia do nascer, do alimentar-se e do morrer. A mediania apagada, ansiosa por fugir à sanção do olhar repressor, desejosa de gregarismo, olha para estes estranhos dissidentes com medo, por neles julgar ver a solidão, a exclusão e a pobreza aterradoras. Para pessoas que se esgotam em jogos sociais, no parece-bem, na moralzinha bem apresentada das palavras [e sobretudo da intolerância], João Camossa era um incómodo.


Contudo, quem dele se abeirasse e o ouvisse discorrer sobre as suas paixões - a História, a doutrina portuguesa, a tradição, o património literário e o património monumental, a olissipografia - quedava-se mudo, não se atrevendo cortar o fio do raciocínio informado, a profundidade da reflexão, o brilho das metáforas, o provocador das associações que ia entretecendo. Camossa não mandava calar nem levantava a voz, mas as conversas em que participava depressa se transformavam em monólogos.


Tive a honra de o conhecer em 1982, quando, presidente da JM (Juventude Monárquica) desenvolvi com o meu irmão Nuno, o João Portugal, o André Folque Ferreira e o Eduardo Rosa Silva a primeira grande experiência de activismo monárquico no Portugal pós-25. Ao contrário de muitos dirigentes do PPM, barricados nas inibições que a sua condição de aliados menores da AD aconselhava e ansiosos em agradar aos desertos mentais da tecnocracia iletrada, João Camossa viu naquela centena de rapazes e raparigas de vinte anos a grande esperança do ideal monárquico. Na altura, lembro-me, chamaram-nos tudo e até a processos disciplinares, com audições formais e depoimentos recorreram. O nosso crime ? Falar em monarquia, cobrir as paredes de Lisboa com cartazes monárquicos, exibir a azul-e-branca, vencer sucessivas eleições nos liceus de Lisboa, participar nos comícios da AD com centenas de jovens estridentes que quase deixavam à margem as poderosas JC e JSD. Confesso que cometemos erros, mas esses erros, produto da imaturidade, deviam ter sido interpretados como erros do crescimento e não punidos com a severidade desses castelos de papel que são os estatutos. É a velha tara jurídica das direitas portuguesas !


Ora, voltando a Camossa, ele era demasiado lúcido para cobrir o que quer que fosse com o manto da poesia. Era um radical pessimista antropológico mas dava-se às pessoas. Lembro-me que desfiava a imensa bagagem literária e escolhia, precisamente, as obras mais sombrias sobre os homens, as suas parvoíces e maldade, as intolerâncias graníticas, as teimosias e crueldade. Um dia trouxe-me Os Vulcões de Lama, o último romance de Camilo e disse: "Miguel, leve-o e sorva-o até à última página". O homem que se apresentava como Anarco-Miguelista conhecia demasiado a história e os homens para sobre eles esperar grande coisa. Noutra circunstância, Camossa entrou na sede do PPM, então na Rua da Escola Politécnica. Vinha radiante, trazendo na mão o jornal Rex, orgão informativo da Juventude Monárquica. Eu havia escrito o editorial que era, confesso sem remorso, uma chuva de Orgãos de Estaline em palavras. Camossa disse-me: "se vocês pudessem, amanhã teríamos a bandeira hasteada na Praça do Município". Foram precisos vinte e tal anos para que o sentido da nossa militância fosse compreendida. No fundo, as pessoas não mudam. Eu sou, sem tirar, aquilo que era há vinte anos e tenho a supina alegria de ver que o mundo mudou e que hoje, aquilo de que fomos acusados é moeda corrente. Estávamos, pois, vinte anos adiantados sobre o tempo.


No próximo dia 26 de Janeiro, merecidamente, o Centro Nacional de Cultura vai prestar homenagem a esse amigo. Camossa foi presidente do CNC, como poderia ter sido mais, muito mais, se os monárquicos de anel e voz enrolada não olhassem aos sapatos, à gravata e aos trapos antes de olharem para os homens. Está por fazer a antologia dos seus muitos escritos dispersos por revistas, jornais e boletins. Talvez se faça, finalmente, justiça a João Camossa, o grande incompreendido.


"Foi em tudo a antítese da vulgaridade. Inteligente e profundo, muito original-o que não quer dizer que fosse irrealista nem muito menos ingénuo- no modo como via o presente e como preconizava o futuro. Desconcertante, ousado e por vezes genial nas intervenções públicas, escapando a toda e qualquer disciplina, muito anárquico na doutrina, e no modo de vida. Sem embargo, era naturalmente sociável e um bom companheiro. Político à maneira antiga, da política como jogo- entretenimento supremo da existência e como luta pura por ideais, avesso ao poder, que entendia que corrompia. Foi um devotado adepto da Monarquia, cujo ideal serviu fielmente por toda a vida. Associava, no seu ideário, restos de integralismo lusitano ao seu característico anarquismo comunalista e à sua sólida opção democrática, pugnando indefectivelmente pela liberdade e pelos direitos da pessoa humana. Com a ironia permanente à flor da pele, frequentemente sarcástico, céptico em muita coisa, mas amando sempre a sua portugalidade."

D. Duarte de Bragança (2007)


Clair de Lune

10 comentários:

João Amorim disse...

caro Miguel

O João Camossa vive nas suas palavras.

NanBanJin disse...

Antes de ler mais este belíssimo artigo - que me trouxe à memória os rostos, as vozes, as almas de outras pessoas que conheci há muito, vindas da mesma geração de João Camossa, e que o tempo já levou além deste mundo precário - estava aqui a folhear "A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore" de Raúl Brandão e não resisto a deixar aqui este trecho sentido:

"Morrer é não sentir, não ver, não ouvir, e o que custa, não é perder tudo isto sempre igual, sempre a mesma coisa, deixar as pedras com que arquitectamos para além. Vede: a vida aborrece, cada um guarda no seu íntimo a secreta esperança de realizar não sei o quê... Muitas vezes nem se sabe... E se a ilusão cai por terra, morta e inerte, fica sempre a aspiração de sonhar, a raiva de tecer mais doirado... As mesmas acções, as mesmas côres, direis vós... Cá fora é certo, mas dentro o cenário muda: o cenário está em brasa. Queres ser rei? Queres vingar-te?...Sonha!"

Raúl Brandão, 1894

cristina ribeiro disse...

Já tinha lido algumas coisas sobre João Camossa, mas nunca com este entusiasmo. Ao ler-se este texto fica-se com pena de o não ter conhecido.

Nuno Castelo-Branco disse...

Lá estarei na terça-feira.

adsensum disse...

De uma beleza irrepreensível, este texto pleno de um sentimento de excelsa admiração - acompanhado pelo Clair de Lune - é uma autêntica ode.

João Melo disse...

lindissimo texto como texto.abraço

joshua disse...

Insubmissão no campo dos princípios e convicões e afectividade absoluta quando perante e com as Pessoas, eis tudo. Um testemunho a perdurar.

Aquele Abraço, Miguel!
joshua

idademadura disse...

Busquei na memória e não encontrei aqui,quem fizesse política à maneira antiga, o que não entendi pois já estão reinando por uns 30 anos...
Outra coisa que também difere do Sr.Camossa, é que todos andam muito bem vestidos (terno e gravata)e os sapatos então, puro cromo alemão...

JP disse...

Faltou mencionares aquele famoso discurso do último comício da AD, no Pavilhão dos Desportos, em Dez. de 82. João Camossa discursou em nome do PPM (e enchíamos a parte da frente, com o "lençol"), com os sapatos atados por guitas e provocando sorrisos amarelos nos líderes do PSD e do CDS que estavam no palco com o candidato Nuno Abecassis. As críticas a este, bem notadas por todos, mas que, no final eram assacadas ao candidato do PS, foram um fartote de riso.

Erros? Ui, tantos! Mas era outra altura. Ao ver a situação actual (e reporto-me só aos "muros" monárquicos), pergunto o que diriam os nossos "velhotes" das segundas-feiras na Soc. de Geografia.

Gde abraço, JP

José Fonseca disse...

Muito interessante obrigado por
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