18 janeiro 2010

Na hora da morte

O julgamento dos líderes do Angkar, aliás Partido Comunista do Camboja - vulgo Khméres Vermelhos - continua a concitar a atenção de muitos. Infelizmente, a abertura do longo processo, em 2003, foi dificultado por poderosas forças ainda influentes no Camboja e por repetidas tentativas de branqueamento da ideologia que possibilitou tal tragédia. Lembro que, quando nos anos 90 foi publicado o Livro Negro do Comunismo, ex-comunistas de véspera, bem como os costumeiros "intelectuais" para-todo-o-serviço desencadearam uma campanha pouco menos que vergonhosa, apodando o autor da obra de "anti-comunista primário", "demagogo", "manipulador da História" e outros rodriguinhos que outrora faziam parte do jargão do Kremlin e seus serventuários no Ocidente.

O julgamento começou tarde, sem o principal protagonista, Salot Sar (aliás, Pol Pot, Irmão Número 1, Hai 870, Camarada Secretário), entretanto placidamente falecido numa cama e copiosamente fotografado pelos seus cúmplices. No banco dos réus, para além da arraia-miúda dos pequenos torcionários que invocam o sempiterno "cumprimento de ordens", quatro grandes responsáveis, agora exibindo alquebrantada saúde, invocando doença e velhice.


O Camarada Kang Kek Iew, aliás Duch, que foi director do Centro Especial de Tortura e Confissão S-21, um homem metódico, professor de matemática, afável e sem qualquer vestígio de arrependimento, desenvolveu a defesa com o estulto argumento do medo que as ordens da cúpula lhe infundiam.
O Camarada Kim Trang, aliás Ieng Sary ou Camarada Vann, ex-professor de História e Geografia, ministro dos Estrangeiros do regime de Pol Pot, estribando-se na protecção que depois da invasão vietnamita a China, os EUA, a Alemanha e a Grã-Bretanha continuaram a facultar aos comunistas.
Long Rith, aliás Nuon Chea, Tio Nuon ou Irmão Nuon, ex-Primeiro-Ministro do Kampuchea Democrático e executor do programa do regime.
Khieu Samphan, aliás camarada Hem, Ta-Hong ou Ta Chun, doutorado em Economia Política, cérebro que congeminou o abandono das cidades e, depois, Presidente do Presidium do PCC.

O que nos espanta nesta plêiade é a ascendência social. Todos, sem excepção, são homens de formação superior, oriundos de famílias abastadas e muito beneficiadas, quer durante o protectorado francês, quer durante a monarquia. Não se trata de canalha desclassificada e embrutecida, de analfabetos e gente que sofreu fome e marginalização. Olhando para eles, podemos sem dificuldade afirmar tratar-se de senhores. O pormenor que se vai agigantando na análise do percurso de todos e cada um passa pela Universidade. Pol Pot foi bolseiro em Paris, Khieu Samphan também o foi, Nuon Chea foi bolseiro na prestigiada Universidade Thammassat em Banguecoque e Duch recebeu das mãos do rei Sihanouk o diploma de formatura.

Estes homens mataram em nome de uma ideia (a revolução) e de uma ideologia (o comunismo), cevaram a vida a dois milhões de compatriotas, vandalizaram e quase levaram à extição a cultura, decretaram o fim do ensino, declararam guerra à medicina, mataram 98% do clero budista e aniquilaram as minorias religiosas e as minorias étnicas. Fizeram-no deliberadamente, com método e entusiasmo e contuariam a executar o seu plano se, entretanto, não tivessem sido afastados da governação. Reuniram-se nas cercanias de Angkor, a glória do seu povo e decretaram a morte de tudo o que lembrasse o passado. Durante três anos e meio lançaram uma tela negra sobre os campos, chacinaram sem piedade e nunca exibiram a menor vacilação. Agora, rondando os 80 anos, o que fazer com eles ?


Kampuchea: os guerrilheiros

6 comentários:

Daniel Azevedo disse...

Lord of the Flies de William Golding.

Está tudo lá!
Quando o fino verniz da cultura/civilização se quebra, deixamos de ser homens ou sequer animais: vale tudo em nome do que quer que seja que acreditemos.

Nuno Castelo-Branco disse...

Que estranho... tudo isto me faz pensar nos camaradas Louçã, Rosas, Drago, etc. Porque será?

Isidro disse...

Como o Sr disse para além da arraia-miúda ainda estão presentes alguns responsáveis, caso de Kang Kek Iew o Director de Tuol Teng e a meu entender é o peixe mais grosso!!! Eu visitei a antiga prisão Tuol Seng(S-21) que agora é o Museu do Genocidio, e nunca mais esqueçerei esse dia, mas ele também só foi detido 20 anos após os factos, mas nestes casos mais vale tarde do que nunca, o horror dos crimes cometidos nesta prisão e no resto do Cambodja sob o regime de Pol Pot ficará para sempre como uma das maiores atrocidades da história.

Carlos disse...

Não foram também as elites nacionais quem esteve do lado de Castela e de Espanha em 1383-85 e em 1580? Quem eram os homens do partido republicano e a camarilha de monárquicos que os apoiava na sombra? Quem foram os primeiros "adesivos" em 1910?
Como sempre, são apenas os pobres e os poetas, que, por serem pobres, não têm nada a perder, quem se ergue para defender a honra, a diginidade e a pátria. Aos ricos e poderosos interessa-lhes sempre a manutenção ou o aumento das riquezes, poderes e privilégios.

No Name Saint disse...

Pelo que me foi dado ler, do pouco que tenho acompanhado este caso, o Duch terá sido o único a mostrar não só arrependimento, como a ter pedido perdão pelo que fez, influenciado pela sua recém-descoberta fé cristã.
Estou enganado?

Combustões disse...

Sim, mas pela leitura da sua declaração final julgo tratar-se de uma estratégia da defesa, pois Duch disse não poder parar a máquina que estava sob sua autoridade, mas que lamentava que como homem tivesse de cometer crimes por imposição de um regime que o obrigava a contrariar a sua consciência. Acredito que Duch não pudesse parar a actividade que fora destinada: a de responsável executor. Aceito até de barato que sofra com a enormidade dos crimes que perpetrou, mas o arrependimento a que aludo não foi expressivo. Duch, o que mais teme, afinal, é o karma que carrega às costas. É uma noção distinta e quase solitária de culpa aquela em que os budistas acreditam. Talvez a fuga para o cristianismo seja resultado desse tremendo medo. No cristianismo, o arrependimento possibilita o perdão divino; no budismo, não há perdão, pois o que foi feito não pode ser apagado.