01 janeiro 2010

Já não vou a Portugal há ano e meio...


... e confesso que só lá irei por saudades da família, dos poucos mas bons amigos e por razões de trabalho. Longe, posso ter o Portugal que quero, idealizado, heróico, fremente de acção e desafio, resistente e obstinado, espalhado por meio mundo nas pedras das fortalezas que desafiam os oceanos, nas solitárias igrejas caídas em ruínas, que nos lembram o que fomos e no que nos transformamos, nas pessoas que persistem em considerar-se portuguesas vivendo na Tailândia, na Malásia, em Singapura, em Flores e Timor, na Índia como no Ceilão, na China como na Birmânia. Aqui, tenho um Portugal feito à medida do meu desintresse pelo tempo-sem-tempo do presente, sem casos de polícia, sem escutas telefónicas, embates de quase guerra-civil, processos arquivados, impropérios, difamação, bílis e "retranca". Os portugueses não são felizes. Não é só o fado e a sina, é uma escolha. As criancinhas, mal a tabula rasa recebe os primeiros gatafunhos, aprendem euforicamente as artes da amargura, da inveja, da culpabilização, da denúncia, do riso escarninho, do comentário malsão e, claro, o magnífico estendal de palavrões e palavrotas que viceja na rica cultura dos lamaçais. Queria começar o ano novo e saber o que pensam os portugueses do futuro próximo, que energia e bons pensamentos os animam. Comecei pelo DN online e li Vasco Graça Moura. Da sua longa crónica retive, apenas:

Enxofrados, conspurcar, choldra, tranquibérnia, vilanagem, "higiene política", "baratas tontas", "ponta de um chavelho", "fossa nauseabunda", "estado a que isto chegou com uma comum palavra de cinco letras", "chafurdação excrementícia", "massajar das ventas", " pois agora lambuzem-se". Nos comentários que os seus leitores tiveram a gentileza de lavrar, retive: "tradutor de meia tijela", " raiva por ter perdido os "tachos" de que se alimentou (sem se besuntar, imagino) nos governos PSD", invade-me o olfato um odor nauseabundo, "vomita "bílis" por todo o lado: tome uma vacina contra a raiva", "sempre viveu à custa do orçamento", "é apenas um tradutor a martelo com a mania das grandezas: um pobre diabo, afinal".

É esse o Portugal que querem ? Pois, se assim é, não mais voltarei. Depois sossego. Da pena de um homem com o qual bem pouco ou nada partilho nas convicções, na visão do mundo e no entendimento do país, mas que sei ser homem íntegro, encontro o registo da elegância, do português escorreito, da exposição serena. Salva-me o início do ano o texto de um comunista. Aprende-se todos os dias.

4 comentários:

O Corvo disse...

Antes de mais, desejo-lhe Um Bom Ano 2010 e que nos possa continuar a brindar com os seus magníficos artigos - posts como agora também por aqui se diz - sempre de um português elevado.
Por outro lado mata-nos saudades do do Oriente, o imaginário que faz de cada português um Fernão Mendes Pinto.
Faz bem em continuar por aí.Milhares, senão milhões de portugueses também gostariam de aí estar, vendo o país de longe exactamente pelos mesmos motivos que o senhor.
Obrigado e continue a proporcionar-nos o prazer de o ler.
Eduardo Santos
Lisboa

Nuno Castelo-Branco disse...

No fundo, nada querem mudar, mesmo os "fadistas" do costume que contra tudo e todos reclamam. Se propomos uma mudança que seja visível e perceptível para as massas, escudam-se no preconceito social (no próprio, claro). Se apresentamos uma Instituição nova, apresentam como alternativa, novidades velhinhas de 30 anos de carreira. enfim...

joshua disse...

Quando estive no Brasil, também senti algo semelhante ao que sentes: um distanciamento depurador de um fel vicioso que se apossa da nossa psique insatisfeita, quando na Pátria Física e sob o ambiente diminutivo que se nos impregna, além de uma alargada Portugalidade mais fraterna, repleta de Afectos.

Buda ou Cristo podem curar-nos do azedume, das invectivas malsãs, se o quisermos. Quanto ao campo lexical que Graça Moura tem privilegiado ultimamente, basta ser inteligente para compreender o efeito de um sorriso e práxis escarninhos no cerne da Política Nacional.

Meu caríssimo Miguel, lia-te já quando ainda cá estavas e posso sublinhar o quanto estares aí te depurou para longe do que muito justamente lamentas.

Um Forte Abraço!
joshua

Manuel Brás disse...

Algumas pedras resistentes,
de fortalezas seculares,
revelam problemas latentes
destes anos irregulares.

Aprender com humildade
eleva a erudição,
ajudando a comunidade
a não entrar em ebulição.