25 janeiro 2010

Honoris causa

Jorge sampaio recebeu doutoramento honoris causa. Não se trata do agraciado, mas da fórmula. Os doutoramentos honoris causa são uma flagrante contradictio in terminis, pois os títulos académicos, como as patentes nas forças armadas, as funções eclesiásticas, os cargos na função pública e todas as ocupações profissionais, do jardineiro ao apicultor, exprimem saber-fazer e mérito inerente ao desempenho. Na nobilitação profissional pela outorga de um doutoramento estão implícitos a entrega, longa de décadas, ao estudo e à investigação e a consagração plena ao conhecimento. O doutoramento - agora até se criou a figura dos "pós-doutoramento" - foi, durante centenas de anos, a mais difícil prova do percurso académico.

Com a tão gabada democratização, a Universidade deixou que se abatesse o muro de especificidade que a protegia, confundiu-se com as modas sociais e aspirações [perfeitamente compreensíveis] dos indivíduos ao reconhecimento social. Não é de estranhar, pois, que os políticos - amiúde homens sem qualquer curiosidade intelectual - vissem na Universidade um veículo angariador de reputação, pelo que no decurso das últimas décadas se assistiu à invasão da Universidade pelos profissionais da política. Homens que nunca abriram um livro e que da Universidade nunca obtiveram algo mais que um diploma, passaram a reclamar funções docentes, mestrados e doutoramentos. A invasão da Universidade consumou-se com as "privadas", onde qualquer um pode, em regime de prestações, com a conivência das inspecções do Estado, fazer em seis anos aquilo que antes requeria vinte. Acresce que tais mestrados e doutoramentos não convidam ao aprimoramento. Se compulsassemos com rigor a obra produzida pelos centos de doutores e dezenas de milhares de mestres que por aí andam, se nos dedicássemos ao trabalho de inventariação de trabalhos académicos publicados em revistas científicas pelos docentes universitários portugueses, o espanto seria, decerto, a mais tímida reacção.

Agora, com a inflação dos honoris causa, algo mais grave se acastela. É sabido que as universidades, já invadidas pela ambição dos políticos, são muito vulneráveis ao ataque do dinheiro, aos subsídios e doações. Quem dá, exige retribuição. Ora, se nos Eua a atribuição de tal título honorífico a Bush levantou um mar de protestos, se Cambridge a recusou a Derrida por considerar incompatível com o rigor das normas estatuídas, se uma universidade escocesa quase assistiu a uma batalha campal quando Mugabe foi galardoado com tal distinção, em Portugal a Universidade tem medo do Estado, dos políticos, dos partidos, dos bancos e fundações; ou seja, a Universidade vive de cócoras, submissa e aterrada com a sanção retaliatória do corte orçamental.

Continuar tal prática, sem colocar em causa casos de reconhecimento pelo esforço e qualidades de alguns dos agraciados, envolve o perigo derradeiro de mutilar, banalizando-o, o corpo de princípios que mantém a universidade. O Dalai Lama, que já colecciona umas dezenas de honoris, não deixou de exprimir o enfado por essa bagatela ritualista. Numa das encenações que lhe prepararam, bocejou longamente e, depois, adormeceu.

3 comentários:

AMCD disse...

Muito bem!

A Universidade já não é o que era (assim como muitas outras instituições nestes nossos tempos demóticos).

Na década de 80 do século XX, o professor Alan Bloom bem nos alertou para esse facto na sua "Cultura Inculta".

AMCD disse...

Corrijo o nome do professor: "Allan Bloom" e não "Alan Bloom". E o título original da sua obra é Closing of the American Mind (1987).

Nuno Castelo-Branco disse...

Um dos próximos será o Artur Santos Solva que esta manhã se fartou de vomitar cavalidades na Antena Aberta da RTPN.