04 janeiro 2010

Hitler também era uma pessoa encantadora

Maria Eugénia Cunhal concedeu importante entrevista ao DN. Ali, o registo político hagiográfico nada pesa, pois uma irmã fala do seu irmão com amor, sem ficção e artificialismo, destaca-lhe as qualidades de inteligência, a afectuosidade, a dedicação aos pais, a curiosidade intelectual, a criatividade e a coerência. Cunhal era, naturalmente, um homem com predicados que o superiorizavam e a sua vida privada e familiar, sem os demónios da obsessão ideológica, seria, estou mais que certo, o produto de uma boa educação e de um meio social que lhe proporcionara todas as condições para ser um senhor. Olhando para as fotos de família de Cunhal- o Cunhal descontraído, sorridente e quase infantil (todos somos crianças quando na companhia dos nossos) - ressalta esse outro Cunhal. No fundo, os líderes políticos encontram na vida íntima poderoso elemento de descompressão, procuram nas conversas inocentes sobre as doenças, o estado do tempo, a pintura que a casa pede e a encadernação do tal livro raro que pede preservação o contraponto à identidade pública que afivelam. Fulanos há que são notoriamente facínoras públicos e amantíssimos para aqueles que integram a esfera da sua vida caseira.
Hitler também o era: gostava de animais, com eles perdia horas em brincadeiras, era gentilíssimo para as senhoras, cujas mãos beijava, adorava crianças, era artista ou procurava sê-lo, interessava-se por temas que hoje dele fariam um ecologista entusiasta ou um ambientalista sem mácula, interessava-se pelo estado de espírito das suas dactilógrafas, era um casamenteiro quase feminino, sempre à procura da mulher certa para os membros do seu séquito e até foi visto passeando desprecupadamente no seu quartel-general no Leste amparado no braço de um simples cabo das SS em quem vira sintomas de depressão e solidão, reconfortando-o e perorando sobre os problemas da vida.

Há que saber separar os homens nas diferentes esferas em que se movimentam. Preferia mil vezes ter Hitler ou Cunhal por companheiros de uma longa viagem de avião, com eles poder discutir matérias de interesse, livros, história e arte que ter de suportar o vazio absoluto de humanidade na companhia de um desses homens insignificantes que enchem as parangonas dos jornais de negócios. Os homens que reclamam o poder absoluto sobre a vida dos demais são, naturalmente, mais encantadores, possuem magnetismo, sedução e prendas que os colocam numa dimensão diferente. Contudo, estes homens separam de forma tal a vida privada da vida pública que os podemos considerar casos de desdobramento de personalidade; logo, casos patológicos. Leni Riefenstahl disse de Hitler que durante anos nele só viu a dimensão solar, até se aperceber que a outra dimensão - aquela que tantos milhões de mortes causou - era a que interessava, pois fora aquela que a levaram à presença do tirano. Na biografia que Chandler escreveu sobre Salot Sar, ou seja, Pol Pot, o mesmo fenómeno. Pol Pot era um homem absolutamente fascinante para os amigos e familiares: sorridente, delicado e manso, sempre insatisfeito e indagando sobre os mais pequenos acidentes da vida de cada um. O mesmo direi de Cunhal. Tivessemos caído nas malhas da sua visão do mundo e o pasmo e incredulidade ante o depoimento de Maria Eugénia Cunhal não mais seriam que uma provocação de mau gosto.


Adolf Hitlers Lieblingsblume

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Bem podes ir dizendo o que quiseres. Um dia destes, teremos uma estátua - abstracta, certamente - do homem numa praça qualquer, inaugurada por um governo PSD.

NanBanJin disse...

Magistral artigo. Mais um.

Um muito obrigado Miguel. Mais um.
Que num blogue feito de escrita deste calibre, todos ganhamos e todos temos a agradecer.

Do coração,
NBJ, Japão

José Ricardo Costa disse...

Excelente post! Como diria Kant na FMC, certas qualidades como a inteligência, a coragem, o sangue-frio, etc, por si só, não têm qualquer valor. A inteligência num psicopata é muito pior do que a estupidez. Tais qualidades só terão valor moral se virmos os outros como fins e não como meios. Infelizmente, no caso dos homens que refere, a segunda hipótese é preponderante.
JR