17 janeiro 2010

Do bom culto da autoridade

A Tailândia deve ser dos poucos países no mundo que comemora com grande pompa o Dia do Professor. Como aqui se disse, ninguém se atreve levantar a voz perante um professor, ninguém discute, ameaça ou agride um professor. Hoje assisti a um longo documentário sobre o Wan Krú (o dia do professor) e fiquei profundamente tocado pela autenticidade do culto civil que é tributado aos docentes. O Primeiro-Ministro anula todos os compromissos de Estado e dirige-se à Casa do Professor - instituição que acolhe velhos mestres que mantiveram celibato e não têm família - e ajoelha-se demoradamente perante as suas velhas professoras, oferecendo-lhes flores e recebendo um afago na cabeça, como se regressasse aos sete anos de idade. Nas escolas e liceus, formam-se fileiras e, um a um, os alunos genuflectem perante os seus professores e agradecem tudo quanto estes lhes deram.

Eu sei que vivo entre um povo de excepção, felizmente jamais colonizado e onde ainda vigoram velhos códigos de honra que no restante mundo dito "desenvolvido", "progressivo" e "civilizado" há muito caíram em desuso. Aqui, a caridade ainda não foi destronada pelas "políticas sociais" - em cada tailandês está inculcado o dever de fazer "mérito", fazer bem ao próximo - como aqui ainda não foi trespassada a ideia da unidade entre o Estado e o Budismo, como também ainda se vê no Chefe de Estado um pai. Que a Tailândia assim fique, por muitos e bons anos, pois ficar no "passado" é, também, uma virtude.


Contudo, se alguns pensam que este povo fez das suas instituições maiores - a Religião, a Monarquia e a Escola - um colete de forças, engana-se redondamente. A autoridade é, sempre, elemento de integração, paz civil e uma escola de exemplo. Esta gente nunca matou, torturou ou fez guerra em nome da religião. Nesta terra, a monarquia nunca deixou de premiar, elevar e aplaudir os bons funcionários e os bons cidadãos, apontando-os como exemplo. Neste país, a Escola não foi reduzida a um percurso obrigatório, massa curricular preenchida por horários, mas é nela que se reforçam o amor pelos pais, pelo país e pela religião do Estado. Os thais são livres e nunca, senão nos anos do fascismo de Phibun Songkram - que macaqueou o exemplo europeu e nipónico - lhes impuseram ideologias, estribilhos e propaganda.

Passei uma vista pela moldura penal atribuída a crimes vários e ri-me, satisfeito, com a protecção que esta gente garante às pessoas mais agredidas no Ocidente.


Agressão física a um agente da autoridade: 5 a 10 anos de prisão maior;

Insulto a um funcionário público no desempenho de funções: 10 anos de cadeia;

Agressão física ou moral a um professor: expulsão e envio para casa de correcção em função da gravidade da ofensa;

Agressão física a um profissional da saúde (médico, enfermeira ou socorrista): 5 anos de prisão;

Acto de vandalismo contra a propriedade comum: 5 anos de prisão;

Acto de vandalismo contra templos e imagens votivas: 10 a 20 anos de cadeia;

Insultos, por palavras e gestos, bem como vandalização de imagens do Chefe de Estado: 20 anos de cadeia;

Eu sei que no Ocidente muitos gostariam de poder abolir tudo isto e ver o poder na rua, mas para que isso se realize, como aqui também disse há um ano, será necessário matar a alma deste povo. Com o acentuado declínio do Ocidente, a Ásia que sobreviveu ao colonialismo será poupada.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Tal e qual como cá...

Manuel Brás disse...

A actividade professoral
é um alicerce formativo
para o nosso bem-estar moral
e crescimento intelectivo.

Com a autoridade reduzida
a minudências esfarrapadas,
a educação é conduzida
por soberanias decepadas.

Marcia Faria disse...

Este é verdadeiramente um povo livre...