10 janeiro 2010

Coisas da Ásia: Bose e os "lutadores pela liberdade" goesa

Bose recebido por Hitler

"Dear Passengers, please fasten your seatbelts, we are about to land at Netaji Subhash Chandra Bose International Airport". Esta informação é anunciada a todos os passageiros do voo Bangkok-Kolkata (Calcutá) e, traduzida para português daria um surpreendente "senhores passageiros, apertem os cintos de segurança, pois dentro de minutos aterraremos no aeroporto internacional Führer Subhash Chandra Bose".

Himmler e Chandra Bose (1943)

Subbas Chandra Bose foi o mais amado dos líderes independentistas indianos. Ao contrário de Gandhi, muito querido pelos ocidentais, que o inscrevem na sagrada família dos santos laicos, juntamente com Erasmo, Luther King e Mandela, mas figura controversa entre os indianos, Bose é, por antonomásia, "o chefe". Líder do Partido do Congresso, não pregou a não-violência, mas o derrube do Raj britânico pelas armas e um dos seus aforismos mais glosados era "dêem-me sangue e dar-vos-ei a Liberdade". Fugiu da Índia no início da guerra e chegou a Berlim após ter sido hóspede de Estaline. No longo périplo pelas capitais da aliança continental totalitária (Moscovo, Berlim, Roma), Bose foi aclamado como paladino da luta dos indianos pela independência e recebeu honras de chefe de Estado. Quando Singapura se rendeu aos japoneses, Bose recebeu pleno apoio de Tóquio para lançar o INA - Exército Nacional Indiano - que combateu na Birmânia e participou na última ofensiva nipónica de 1944. Regressado à Ásia a bordo de um submarino alemão, foi investido presidente de um governo provisório da Índia Livre, de imediato reconhecido pelos países do Eixo e pela União Soviética. Morreu 1945, em circunstâncias misteriosas quando o seu avião se despenhou algures no trajecto entre Singapura e Tóquio, dias após o anúncio da capitulação japonesa. Em sua memória foram editadas emissões numismáticas e filatélicas, antologias de escritos e discursos e recentemente um filme que concitou grande interesse entre o público indiano: Bose, the fotgotten hero.

Um dos seus irmãos, Sarat Chandra Bose, sobreviveu à guerra e foi líder do Partido Republicano Socialista - uma versão aggiornata do proscrito partido fascista de Subbas - tendo sobraçado pasta ministerial no primeiro governo de Nehru. Adepto de soluções expeditas para a anexação de Pondicherry, Goa, Damão e Diu, foi protector dos chamados "lutadores pela liberdade" que precipitaram a invasão dos territórios do Estado Português da Índia em 1961. Entre os seus amigos contava-se Tristão de Bragança e Cunha, engenheiro formado em França, de eclética formação ideológica fascista-leninista e que desde finais dos anos 30 era o representante de Bose em Goa.
Eis um secretíssimo e políticamente incorrecto pormenor da história dos últimos anos da Índia Portuguesa: a invasão foi inspirada pelo princípio fascista boseano da "guerra justa" para a construção de uma "nação indiana" - leia-se hindú - onde todas as minorias (muçulmana, católica, sikh) seriam toleradas, mas consideradas estranhas à tradição indiana.

5 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Uma história convenientemente apagada dos manuais. O imperialismo de Nehru nunca esteve em dúvida. Aliás, costumava dizer que ... tirarei os portugueses de Goa, mesmo que os goeses os queiram lá".

Samegy disse...

passa-se, por estes lados, uma coisa parecida.

Profª Sandra Bose disse...

So mesmo os bengaleses que gostavam dele. Gandhi e o restante da India sempre o tiveram como um guerrilheiro. Nao ha nada de secreto sobre ele, sua historia eh bem conhecida aqui na India, talvez seja secreto e desconhecida ai para voces ocidentais.

Combustões disse...

Professora Sandra Bose:
A referência ao "segredo" não tem a ver com o Netaji, mas com os seus seguidores goeses.
Cumprimentos,
Miguel

Sergio disse...

E os goeses foram os unicos sacrificados por estas ideias... porque o que está acontecer agora em Goa é um genocidio cultural efectuado pela India