21 janeiro 2010

António Maria Carilho também é "reaccionário" ?

Manuel Maria Carrilho é, indiscutivelmente, uma das poucas pessoas do regime que pensa [atrevidamente], não cumpre a cartilha esfarrapada e delida das sacrossantas banalidades, possui mundo e não se satisfaz com o ritualismo dos mantra do politicamente correcto. Com estes predicados - para mais elitista e anti-igualitário no sentido mais profundo - não é de espantar que a sua popularidade seja diminuta, que os esbracejadores e os compradores de votos dos congressos o apupem, o considerem um provocador e que não façam lóbi para que volte a ser ministro. Carrilho publica hoje no DN um texto que ninguém compreenderá. Trata-se, sem tirar, de um libelo aos mitos do "crescimento", do "desenvolvimento", do "progresso" e do "bem-estar" que têm sido exportados ao longo dos últimos 50 anos como o último grito do Ocidente. Por outras palavras, Carrilho exprime-se, sem o dizer, como um feroz inimigo da globalização e da plutocracia, que estão a empurrar o planeta para o colapso.


Tudo indica que Carrilho se comece a inclinar para a ideia [reaccionária] de um modelo económico que recuse o mito da abundância alimentada pelo crédito ilimitado ao consumo e se satisfaça com os limiares de dignidade que assegurem o funcionamento das democracias. Por outras palavras, Carrilho defende o princípio de que cada sociedade (e indivíduo) viva com aquilo que tem, sem hipoteca do futuro, sem devastação de recursos naturais e sem exposição aos tentáculos das multinacionais da usura. Ora, o que Carrilho diz, há aqui quem o defenda de armas na mão. Se estivesse na Tailândia, Carrilho estaria com a Aliança Popular para a Democracia ou no seu nóvel Partido das Novas Políticas, que plasmam as ideias do Rei sobre auto-suficiência, recusa da globalização, primazia do trabalho e da empresa produtiva sobre a especulação e o jogo bolsista, reforço do comunitarismo e do cooperativismo, prioridade para o consumo interno e para os produtos nacionais, evitação do investimento estrangeiro de risco, substituição da demagogia partidocrática e caciquista por uma representação social e regional que dê voz a quem tem sido refém das máquinas de condicionamento dos partidos-bancas-de-emprego para desclassificados. É claro que tais propostas são combatidas da forma mais desonesta pelos defensores do status quo, ao ponto de lhes chamarem "neo-fascistas". Incapazes de alinhavar duas ideias, recorrem os seus inimigos a fórmulas expeditas de danação, tudo fazendo para evitar o debate num patamar de clareza.
Não se trata, obviamente, nem de "neo-fascismo" nem de "reaccionarismo", mas de uma nova compreensão da vida política e da cidadania, durante anos confiscada e amordaçada por vendedores de sonhos irrealizáveis. Trata-se do aprofundamento da consciência e das responsabilidades da cidadania. Trata-se, pois, do aprofundamento da democracia. Carrilho vai no caminho certo.

4 comentários:

NanBanJin disse...

Na mouche. E subscrevo.
Confesso que não esperava um texto deste calibre vindo de M. M. Carrilho.
Obrigado, pela referência, Caro Miguel, não fossem estas COMBUSTÕES, provalvelmente o artigo do DN passava-me ao largo.

A pequenina, mínima amostra que eu colhi da R.P. da China há escassos seis meses, 'in loco', é um pesadelo de tal modo monstruoso que vai muito além daquilo que as palavras permitem descrever.
E aquilo de que Carrilho fala com absoluta pertinência acerca da China tem de ser somado ao que se poderá dizer acerca da Índia e demais economias ditas "emergentes".
Eu, da minha parte, sou profundamente pessimista e quer-me parecer que já não há grande volta a dar ao que se está a passar à escala global.
Deus queira eu esteja errado...

Em qualquer recurso há que continuar a dar o alerta...

Abraço do Japão,
NBJ

Manuel Brás disse...

Pergunta escaldante...

Com tanta carne no grelhador
já estando bem aquecida,
sente-se a pairar o odor
da certeza enegrecida.

Fricções civilizacionais
em permanente ebulição
por atitudes irracionais
de miserável erudição.

Com o crédito ilimitado
para mil e uma fantasias
o povo fica acorrentado
a corrosivas hipocrisias.

A plutocracia reinante
compelindo este turbilhão
lança um olhar fulminante
paralisando o mexilhão.

Nuno Castelo-Branco disse...

Esperemos é que não seja tarde demais

O Corcunda disse...

Tremenda bondade do Miguel. Mas MMC apesar de questionar os padrões de progresso não parece seguir na direcção que o Miguel indica, mas apenas na estafada receita socialista da resolução conjunta e global dos problemas da distribuição de riqueza, através de acordos climáticos e outros negócios escuros.

Um abraço