30 dezembro 2010

O meu 2010: um ano para não esquecer

Irlanda, 15 de Setembro de 1916 - 30 de Dezembro de 2010
Não sou nem pessimista nem fatalista e não cultivo amarguras. As maiores provações e sacrificios, quando não matam, fortalecem. Nisto, sou muito pouco meridional ou, se quiserem, pouco semita. A vida está aí para se viver, para fazer coisas e seguir sempre, sem abatimento e sem rendições, no caminho para que as nossas ficções-dirigentes nos empurram. Este ano, agora a exalar os últimos ais, foi dos mais intensos e marcantes da minha obscura existência. Acompanhei de perto uma revolução que o não foi, assisti ao levantamento e resistência de um povo à escalada totalitária comunista-plutocrática e percorri meia Banguecoque a ou no dorso de uma motocicleta a recolher notas e fotos dos combates. Em Outubro, dei por terminado o meu primeiro livro sobre o Tratado Luso-Siamês de 1820, já o no prelo, e tenho passado estes últimos dias em casa - preso por operação cirúrgica - a preparar o meio milhar de páginas da tese de doutoramento sobre as relações entre Portugal e a Tailândia, que penso poder concluir pela primavera.

Hoje, tomou o telefone. O meu pai, informando que a nossa avó Irlanda falecera. Não tenho palavras nem consigo qualquer exercício de estilo. É um pouco de mim que morre com esta extraordinária fonte de alegrias para toda a família, a nossa Avó. Curioso. Ao terminar a chamada, senti um arranhar na porta da entrada e abri. Entrou um gato grande e gordo que saltou para cima do sofá e ocupou a casa.

29 dezembro 2010

Grand éclat

Clara, a primeira siamesa diplomata


Chamava-se Clara Xavier, ou antes, menina de Phipat Kosa, filha de Celestino Maria Xavier, aliás Phraya Phipat Kosa, secretário de Estado sob Rama V, fundador e administrador da empresa que instalou os eléctricos em Banguecoque no início do século XX e, depois, embaixador do Sião em Roma e representante do reino do Elefante Branco na Sociedade das Nações. Clara partiu de Banguecoque para Londres, onde cursou enfermagem no South London Hospital for Women. Ao receber o diploma, foi requisitada pelo seu pai e foi secretária da legação siamesa em Genebra. Tantos feitos numa só rapariga vinda do outro canto do planeta. Siamesa católica, falando fluentemente português, esta nossa Clara foi modelo para o tímido movimento que no Sião reclamava a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Há tanto por contar a respeito dos portugueses !

26 dezembro 2010

O Presépio sem plutocracia e a revolução maneta

Uma operação obrigou-me a ficar em casa na noite da consoada. Na tarde de quinta-feira, fui-me despedir dos meus pais e ali estive por duas horas até seguir para o hospital. Na sala de visitas, um presépio como deve ser: a Sagrada Família, mais os Reis Magos e uns quantos animais em adoração ao Rei dos homens. Nem vestígios desse velho indecente e plutocrático que dá pelo nome de Pai Natal. Deveriam chamar-lhe o grande parasita, o tentador das crianças, o grande mentiroso ou, tão só, a colossal mentira. São bonecos em madeira do século XVIII que a minha mãe restaurou, restituindo-lhes o ouro e a prata.

Lá fora, no centro do lago dos peixes vermelhos - já são mais de uma centena, fazendo jus ao mais retinto malthusianismo - uma estatueta soviética dos anos 20, exaltação da tal revolução que precipitou a velha Rússia no caos e abriu portas a uma besta de duas pernas que cometeu a proeza de multiplicar por seis ou por sete os sofrimentos que Hitler conseguiu realizar contra o seu próprio povo, mais os outros povos, sem discriminação étnica, religiosa e geográfica. Três mundos distintos: o comunismo, a sua prima, a Plutocracia e a religião. O Natal lembra tudo isso. Observei com maior atenção essa alegoria aos amanhãs cantantes e reparei que à ditosa exterminadora falta o braço que empunha o martelo. A revolução maneta, o melhor que se pode oferecer aos povos sobre os quais pode cair tal flagelo. Neste mundo tudo é simbólico. Antes assim !

23 dezembro 2010

Grandioso e mandarínico


Hoje cruzei-me por duas vezes com este vulto. Conheci-lhe um familiar, sobrinho heptaneto que me falou da paixão com que se dedica à localização das cartas e percursos deste homem de excepção que conheceu meio mundo. Depois, pelo jantar, ouvi um amigo discorrer sobre Xie Vulu, aliás Zeng Dezhao - nada mais que um português nascido em Nisa chamado Álvaro Semedo. Uma lição magistral que fez companhia de luxo à sopa Tom Yam Kung.
À venda na Sotheby's de Nova Iorque o retrato do jesuíta que por duas vezes foi Vice-Provincial da Missão da China, testemunha ocular da Restauração em Lisboa e, depois, da queda da dinastia Ming no Império do Meio. Pintura de Mazimo Stazione. Preço: 80.000-120.000 USD. Quem quer comprar ?

18 dezembro 2010

Bella Italia


Ali há debate político a sério e sem inibições tecnocráticas. O ministro La Russa enfrenta na tv um daqueles contestatários profissionais que o modelo social europeu produziu em escala fordiana. Um festim, uma orgia de palavras que só beneficia a saúde da democracia e devia ser aplicada como receita para os debates sensaborões da nossa televisão.

17 dezembro 2010

Tiriricação ou a morte da democracia



O Pedro Quartin confere hoje justíssima relevância à entrada de Tiririca na arena parlamentar. Trata-se, sem dúvida, de uma imensa blague para quantos defendem - por vezes contra a evidência, como é o meu caso - as excelências do regime representativo. Ora, parece haver aqui algo que colide com as minhas convicções políticas e até antropológicas. Tiririca não foi para o parlamento pela democracia. Chegou lá para a matar, no caso vertende, a ferir mortalmente com o ridículo que é a pior das armas.
A democracia, quando se transforma no circo populista, deixa de ser o sistema fundado na soberania popular, mas no seu inverso: uma mera maioria niveladora, canalha e odiosa acicatando a mais concessões, a mais "império do homem da rua", a mais demagogia. Para o "homem da rua", democracia quer dizer "dêem-me mais dinheiro", "quero comer melhor", "os impostos são um roubo", "deviam ver o que é viver cá em baixo". No fundo, essa visão, mais a de quantos pedem esse "poder popular" implica, num ápice, a morte do jogo político, a morte do discurso e do contra-discurso. O "homem da rua", vota por votar ou vota por intuições - a intuição na fraqueza de quem tudo vai dar, como o fez com Guterres, campeão do impoder - ou ainda correndo atrás do primeiro alvissareiro que lhe prometa mais comida, mais dinheiro, mais tudo. Que eu saiba, nunca político algum populista prometeu mais bibliotecas, mais televisão de qualidade, mais rigor no ensino. O "homem da rua" quer tudo, mas não sabe o que é a cidadania, odeia o Estado, detesta os tribunais, nunca foi à escola e do Bem-Comum só conhece os remédios de graça, as pensões e reformas, o rendimento mínimo obrigatório, o direito ao protesto...

Cada vez compreendo melhor o velho Voltaire, que era um verdadeiro modelo de benfeitor. Em torno do seu Chatêau em Ferney deu emprego a mais 800 operários, vestiu-os, alimentou-os e com eles manteve uma relação de igual para igual. Contudo, quando lhe perguntavam se era defensor do governo popular ria-se, ria-se a bandeiras despregadas. Por que seria ?

Bem, dou uma trégua à intransigência. Vendo bem, temos Tiriricas às dúzias nesta fase lusco-fusco do regime. Há Tiriricas como presidentes dos governos regionais, Tiriricas nas câmaras, Tiriricas no Parlamento Europeu, Tiriritas na presidência e administração de bancos e até, quem sabe, em ministérios sobraçando pastas. A Tiricarização do regime é galopante, com a agravante de não conquistar risos. Logo que aparecem na pantalha, televisão desligada !
Há uma diferença entre povo e "homem da rua", vulgo ralé. O povo é um conceito abstrato e remete para uma unidade de consciência de colectividade, partilha de cultura e ideias consideradas únicas por aqueles que nela participam. Povo não é um grupo ou uma classe de rendimento, pelo que, em sentido moderno quer dizer Nação. Povo somos todos.

15 dezembro 2010

Novíssimas do Sião: a siamesa da Évora quinhentista

Graças a uma conversa absolutamente fortuita com um amigo investigador, estamos a milímetros de destruir um lugar-comum que se trombeteava pelas holandas desde há séculos. Em 1608, um galeão holandês comandado por Corneluis Matelief trouxe à Europa uma embaixada siamesa enviada pelo rei Ekathotsarot. Recebidos por Maurício de Nassau, os diplomatas permaneceram na Haia rodeados por viva curiosidade. Muito se tem escrito sobre esses "primeiros siameses na Europa de Seiscentos" e há dois anos, em Banguecoque, foram esses fastos lembrados em exposições e conferências por altura das celebrações milionárias dos quatro séculos de relações entre a Tailândia e a Holanda.

Um pequeno senão. Os holandeses receberam siameses, sim senhor, mas quase trinta anos depois de uma rapariga thai ter saído dos porões de uma das naus da carreira da Índia para aqui passar o resto das sua vida como escrava "Índia de nação sioa" ao serviço de uma casa nobre. Foi baptizada, recebeu nome cristão e viveu em Évora. Mais uma pequena pedra para o sempre incompleto como fascinante edifício da história das relações entre os dois países.

11 dezembro 2010

Goa, terra portuguesa

Do diário de Joaquim Magalhães de Castro, escrito a bordo da Sagres, deixo a seguinte passagem. Aqui está, sem tirar, aquilo por que nos temos batido, a demonstração sem rodriguinhos literários da permanência de Portugal em terras do Oriente, bem fundo, dentro dos corações. Que os nossos governantes acordem e sacudam décadas de preconceitos. Que vão a Goa, a Malaca e Flores, falem com os católicos de Bangkok, ouçam os timorenses e se espantem. Quem não foi a Goa não viu coisa boa ! Nós ali estivemos séculos. A bandeira desceu, mas Portugal ficou. Vá, vão e espantem-se, sacudam o miserabilismo e abram o coração à torrente de portuguesismo que por ali ainda impera.


"16 de Novembro, nove da manhã, uma hora antes da largada da Sagres do porto de Mormugão, Sul de Goa. Dezenas de embarcações de pesca engalanadas com balões, grinaldas de flores e bandeiras portuguesas, repletas de centenas de homens, mulheres e crianças, muitas delas envergando camisolas da selecção nacional, aproximaram-se dessa barca construída num estaleiro de Hamburgo em 1937 mas que a Cruz de Cristo faz nossa, e largaram a música, os panchões e a alegria que traziam com sentidos vivas a Portugal.

Essa manifestação espontânea apanhou de surpresa a tripulação que fazia os preparativos para a largada, concentrada na recolha das lonas de cobertura da ponte e do convés. Num repente, os marujos correram à amurada e corresponderam com acenos e fotografias a tão carinhosa manifestação de afecto.

Na companhia do comandante Pedro Proença Mendes, o recém-chegado cônsul de Portugal em Goa, António Sabido da Costa, também se mostrou atónito com a inesperada despedida dos homens do mar. "É impressionante!", exclamou. "E vê-se que é um sentimento genuíno." Concordei com o seu comentário, mas estava preparado para aquilo. Sabia que muitos goeses, impedidos de visitar a Sagres nos dois derradeiros dias da sua estada em Mormugão, sistematicamente barrados pelas forças policiais, tinham decidido agir por conta própria e fazer a ansiada visita, não por terra mas directamente por mar, numa pacífica abordagem a bombordo, primeiro, e depois a estibordo também.

E lá estava, à proa de uma das maiores traineiras, de garrafa de cerveja na mão e uma camisola vermelha com a palavra Portugal, Simon Pereira, presidente da Associação dos Pescadores de Mormugão, responsável pela colorida iniciativa. Atrás dele, uma banda a preceito interpretava marchas populares, enquanto a aparelhagem de uma embarcação ali próxima atirava cá para fora, em altos decibéis, versões goesas de conhecidos temas populares da nacional canção.

Esta manifestação traduzia bem o sentir dos goeses, que nunca deixaram de ser portugueses. Numa das faixas exibidas bem alto podia ler-se "Viva Portugal. Nós amamos o Portugal. Boa viagem Sagres". Noutra: "Adeus Sagres. Viva Portugal. Goans love you."

10 dezembro 2010

Insultar reis

A tela que maior entusiasmo concitou este ano na National Galery de Londres foi Charles I Insulted by Cromwell's Soldiers, pintada por Delaroche em 1836 ou 1837. Havia sido dada por perdida durante o Blitz de 1940-41, mas foi redescoberta algures na Escócia em 2008, voltando triunfalmente à casa de origem. O quadro mostra Carlos I, Rei de Inglaterra, sentado e absorto na leitura de uma qualquer obra edificante. À direita do soberano, já deposto e no cativeiro que lhe foi imposto no fim da chamada Segunda Guerra Civil, um soldado do Parlamento sopra-lhe no rosto o espesso fumo de cachimbo. À esquerda, um outro soldado, visivelmente embriagado, parece zombetear da desgraça do Rei, erguendo-lhe a taça das libações. Atrás dos dois foliões, dois militares puritanos assistem à ignóbil brincadeira sem intervirem.

No fundo, mais que a desdita de um homem humilhado por dois canalhas cheios de ódio, retrata o drama cósmico da inversão das polaridades, do triunfo do mal sobre o bem, do eclipse das virtudes da magnanimidade, da serenidade e da caridade. Aquilo que vulgarmente vejo nas exibições de ódio contra a monarquia e os monárquicos não passa disso: ódio a tudo o que não se compreende, ódio àquilo que não se pode ter nem pelo dinheiro, nem pelo atrevimento, excitação incontrolável dos sentidos na destruição de pedestais. É o ódio do plutucrata, príncipe do Reino de Mamona, dos condes da banca e marqueses dos supermercados, mais os seus caudatários, jograis-intelectuais em busca do dobrão de ouro atirado por esmola no fim das actuações. Tudo se resume a isso: despeito, eterna adolescência moral e uma quase certa revolta contra o berço onde se naceu. Não deixa de ter piada que é o povo chão quem melhor compreende os reis. O povo chão ama os reis. O mesmo não acontece com a burguesia, sobretudo a alta, que subiu a choques de punhal, bem como a novíssima, despenteada mental, a das Kátias e das Vanessas, dos futebóis, das gestões e das férias nas repúblicas dominicanas.

08 dezembro 2010

Os passaportes de SAR

Com a sincera advertência de ser um dos meus predilectos, não posso concordar, perdoe-me o confrade Laranja, com o seu desabafo sobre o Senhor Dom Duarte. Julgo que Bic Laranja, boa pluma e homem culto, quis dizer algo diferente, mas há dias em que não nos conseguimos exprimir com felicidade.

O Chefe da Casa Real solicitou ou vai solicitar as nacionalidades timorense e brasileira. Ora, se em tal pedido parece haver algo de incorrecto é a modéstia com que o faz e a inibição em terminar o raciocínio. Se eu fosse SAR, requeria também as cidadanias cabo-verdiana, são-tomense, angolana e moçambicana. Sei que os portugueses cairam na falácia de se pensarem "europeus" e muito "patriota" por aí se ufana de conhecer melhor as narrativas heróicas de galos, teutões e italiotas que a coisa portuguesa. Sei que, sentindo-se europeus, gostariam de um Portugal no braço de ferro com as Burgúndias, as Morávias, as Alsácias e Lorenas, mais as Silésias e os Wurtembergs. Portugal é mais que isso: mais que a soma de todos os bantustões que fizeram rolar tantas cabeças e pelos quais a Europa se esvaiu em sangue ao longo de séculos. Eu não sou europeu, pois nasci em África e sou portador, naturalmente, dos dieitos jus sanguinis e jus solis a ser maçambicano. Só não tenho a dupla-cidadania porque a minha terra foi declarada independente sem plebiscito, sem referendo, sem negociações e eu, com toda a família - pais, avós, bisavós - metidos num avião e despejados em Lisboa, que é a capital da nossa nação, mas não é a minha pátria.

Depois, incomoda-me que a nossa direita tivesse feito à esquerda o favor de se tornar racista, quando a história da liberdade e independencia portuguesas só se explica no Brasil, na Ásia e em África. A direita portuguesa - a mais incongruente, estúpida e iletrada da Europa - anda há 200 anos a fazer favores a todos quantos diz detestar; logo, perdeu todos os combates e ofereceu em terrina o manjar das "boas causas" à sinistra. Não me incomodou o texto de Bic Laranja, mas os comentários, que de tão roncantes e baixos só deslustram aquele que é um dos mais nobres, elegantes e simpáticos blogues portugueses.

O meu sonho é o passaporte da Confederação de Estados Lusófonos. Que tremendo coice naqueles que me privaram da minha condição natural de português africano !

07 dezembro 2010

Nepotismo e fisiologismo

A tendência para oferecer a familiares cargos públicos pode ser interpretada de duas maneiras: ou como um abuso de favor, violando o princípio da separação entre a esfera do privado e o do público; ou uma defesa para quem ocupa cargos e requer apoio e lealdade só garantidos pela comunhão do sangue. Não devemos ser excessivamente impiedosos para quantos, indicando um irmão, um primo ou um cunhado para um cargo de assessoria, se justificam com o argumento da segurança e inviolabilidade do segredo inerente ao exercício de funções políticas. O nepotismo é natural, isto é, faz parte intrínseca da natureza social do homem. Tenho para mim que, se um irmão, um primo ou um cunhado possuírem assinaláveis qualidades de mérito e inteligência, a sua nomeação facilita ab initio o bom sucesso do posto de quem o nomeia.

Contudo, persiste uma lamentável confusão entre nepotismo e fisiologismo, comumente chamado compadrio. Trata-se de coisas absolutamente diferentes, pois se o nepotismo moderado pode ser benéfico, o compadrio só se justifica na apropriação de cargos públicos para favorecimento de amigos sem benefício para terceiros. O fisiologismo é um abuso, pois sabendo que fulano, cicrana ou beltrana são imbecis, incompetentes, falhos de escrúpulos, madraços, inúteis, persistir na sua nomeação é ferir mortalmente os lugares que lhes foram oferecidos. O fisiologismo confunde tudo, até a finalidade e o múnus da função. No fisiologismo, todas as medidas tomadas - e até os cargos criados - se realizam sem outro fito que o de prover um lugar, meios e riqueza a uma pessoa, passando por cima do interesse público e fazendo das instituições empresas de lucro para grupos informais parasitando o Estado. Há mil e um exemplos de fisiologismo conhecido nesta terceira república. Pessoas há que nomearam a mulher, filhos, sobrinhos e amigos para lugares, impondo a sua eleição para cargos oficiais sem outra justificação, sem a simples exibição de um curriculo. Como o Estado morreu, tudo se centuria como um troféu de conquista; como o serviço público não passa de uma grossa mentira, as instituições servem, apenas, para prover lugares e as políticas para favorecer amigos.

05 dezembro 2010

Os grandes dias da monarquia tailandesa



Hoje comemora-se o 83º aniversário do Rei da Tailândia. Pai da Pátria, Avatar de Vishnu, Senhor Cujos Pés Repousam sobre as Nossas Cabeças, Espada Vitoriosa, Protector de Todas as Religiões ou, simplesmente Nosso Senhor ou Nosso Pai para o povo tailândes, é o mais antigo chefe de Estado em exercício e um dos mais importantes estadistas vivos. De novo, uma verdadeira muralha de corações juntou-se para prestar tributo de admiração e agradecimento ao primeiro trabalhador da nação por sessenta e quatro anos de entrega ao bem comum. As imagens falam por si e dispensam palavras. A Vontade Geral voltou a exprimir-se em apoio ao seu Rei.

À quatre pattes: miséria da blogosfera

Tudo se limita a Sócrates. Atacar, desfazer hierarquias com palavrões e sem argumentos, cobrir ministros de impropérios, dar importância a coisas ínfimas e a flatus vocis. O país precisa, sim, daquela receita um dia proposta por Papini: não ouvir rádio, não ler jornais, não frequeentar cafés. Eu acrescentaria: não ler blogues. Isto tudo se transformou num despejadouro para ódios doentios e irrupções de pus. Estreita, agressiva, vingativa, miserável, a dita blogosfera já nem se disfarça com os atavios das literatices de algibeira que em tempos ainda fazia concessões a saloniers. Quanto às antigas salonieres de outrora, desapareceram enrubescidas, pois o vernáculo foi trepando e as tertúlias, com os seus confrades em emulação de graça e espirituosidade, deram lugar a tabernas de vinho ordinário e carvão que a tudo se cola. Convenço-me que as pessoas a mais não querem aspirar. Tudo tem uma explicação. A chamada "democratização", o maior flagelo e inimigo da liberdade e do espírito, dá voz a quem nunca a teve. Já não se trata - coisa insignificante - dos erros ortográficos, da ausência de referências elementares que noutros tempos constituiam cartão de visita obrigatório para qualquer homem civilizado. Tudo isso é nada, neste preiamar das massas armadas de computadores e blogues.
A blogosfera portuguesa já quase só tem Sócrates, futebol ou sexo; enfim, a cada sociedade aquilo que merece. Valerá a pena perseverar ?

01 dezembro 2010

1º de Dezembro: a Liberdade e a censura

Telejornais da uma da tarde: futebol, nevões, banco alimentar, mais futebol, trânsito e a crise da Irlanda, ainda transida pela factura que terá de pagar à plutocracia rapinadora. Sobre o 1º de Dezembro, nada. Pois, 1º de Dezembro quer dizer "estamos fartos do jugo", "queremos ser livres", "nós somos independentes". Para quem trabalha para o jugo, a opressão e a dependência, este dia não convém ser lembrado aos portugueses.

29 novembro 2010

Última esperança vermelha morre na Tailândia

Os derrotados da crise de Março-Maio deste ano na Tailândia, mais os seus instrutores estrangeiros, viram hoje escapar-lhes a última possibilidade de assistir em directo pela televisão à queda da Abhisit Vejajiva, o primeiro-ministro monárquico que derrotou o assalto vermelho ao poder e se transformou no alvo a abater pelas forças totalitárias.

O Partido Democrático de Abhisit fora acusado de uns pecadilhos perfeitamente inocentes na utilização, numa campanha eleitoral passada, de fundos recebidos mas então não revelados. Na Tailândia, tal infracção é punida com interdição de direitos políticos por cinco anos e consequente dissolução dos partidos políticos que contrariem tal disposição. Ora, o Partido Democrático é o mais antigo do país e faz parte indissociável da memória do regime constitucional e representativo, sendo o único, como os acontecimentos recentes provaram, com cultura democrática e liderança com provas dadas de maturidade, segurança e coragem para impedir derivas cesaristas e populistas. O Partido Democrático é o garante do desenvolvimento das reformas em curso e o agente de apaziguamento que garanirá o aperfeiçoamento dos mecanismos democráticos de fiscalização da acção do governo. Com Thaksin e os vermelhos no poder, a Tailândia seguiria o caminho inverso, mas se tal acontecesse, as madalenas lacrimejantes de hoje não emitiriam um simples ai.

A sentença do tribunal, esperada com grande aperto e comoção foi ... "não há réus, não há caso judicial, não há matéria de relevo e mesmo que a houvesse, essa há muito prescreveu, pois Abhisit e a actual direcção nada têm a ver com irregularidades cometidas antes da sua chegada à liderança do partido". Calculo o bruá que irá nas sedes da conspiração - bancos, multinacionais, embaixadas - que garantiram a pés juntos que Abhisit não iria resistir "à lei". Mas de que lei falam pessoas que intrigam, manobram, manipulam, difundem rumores, enviam relatórios falsos para as suas chefias na Europa e América do Norte, mandam recados de apoio a terroristas vermelhos detidos, utilizam as sempiternas ONG's como arietes e demolidoras do bom nome da Tailândia ? São, sem tirar, os mesmos que fizeram o trabalho sujo no Nepal com o belíssimo resultado hoje conhecido.

27 novembro 2010

Il Portogallo è grande, ou quem nos corta o caminho do futuro ?

A Revista Italiana de Geopolítica é uma instituição cultural com pergaminhos. Tendo surgido em finais da décadas de 30 do século passado, pouco antes do deflagrar da guerra e da entrada da Itália na contenda, foi inicialmente pólo de recepção das ideias de Haushofer, para depois se constituir em agente de reflexão académica sobre os problemas da Geopolítica, aliando uma vertente didáctica - criadora de grandes públicos - sem contudo abdicar de uma qualidade científica indiscutível. Ora, o número agora saído é uma pedrada no charco - de derrotismo, miserabilismo e jeremíadas - em que vive a sociedade portuguesa. Um número temático inteiramente dedicado a Portugal, que deve ser lido por todos e recomenda-se vivamente que se dessa leitura se tirem conclusões, necessariamente impiedosas para quem tem feito crer aos portugueses que não há outro caminho que não seja o do empobrecimento inapelável, a submissão e diluição no magma da Espanha.

Lidos os textos, assinados por uma plêiade de especialistas de reconhecidos méritos, retiramos as seguintes conclusões:

- Portugal é um país central no complexo euro-atlântico e não pode submeter-se a orla periférica do Mitteleuropa;

- A comunidade cultural, linguística e afectiva dos países herdeiros da expansão portuguesa não é um adereço retórico; detém hegemonia económica, demográfica e política sobre a América do Sul e encontra em Angola o mais poderoso Estado da África negra após a África do Sul, posto que a Nigéria perdeu a sua grande oportunidade;

- Portugal está virado para os grandes espaços. Mais que uma inclinação, há uma verdadeira pulsão existencial que o impele a viver fora da Europa;

- Portugal não está condenado a desaparecer: há um grande potencial nos futurivéis, conquanto nos libertemos do Euro, que nos empobreceu;

- O Estado Social e as suas quimeras nórdicas levou o país à miséria, pelo que a ideia de Estado Social se deve adaptar aos recursos do país;

- A CPLP pode ser o pan in herbis de algo realmente grande e a ideia peregrina de juntar todos os países resultantes das fases imperiais de Portugal é, mais que uma nostalgia, uma ideia moderna e actualíssima na era da globalização;

- A Lusosfera não é um mito. Haverá dirigentes à altura para a alavancar ?


Uma nota muito especial para o nosso embaixador em Roma, pelo seu admirável italiano, pela segurança que inspira e pela acção que vai desenvolvendo em defesa do bom nome da nossa pátria.Um exemplo a ser apontado ao nosso corpo diplomático.

25 novembro 2010

Nepal: restauração monárquica à vista

Por uma nova monarquia, contra a desordem, o caos social e económico e a escalada totalitária pró-chinesa de comunistas e maoístas (os dois mais fortes partidos do país !), eis a mensagem do partido monárquico recentemente formado naquela que foi, até há dois anos, a última monarquia hindú. A violência atingiu proporções de alarme, os raptos sucedem-se, os contribuintes deixaram de pagar impostos, as greves e ocupações tomaram conta da vida empresarial, há desinvestimento estrangeiro e fuga de capitais. Neste cenário, muitos voltam-se de novo para a casa real e pedem a intervenção das casernas.

A queda da monarquia foi, como todos sabem, um golpe minuciosamente preparado pela China, em estreita colaboração com diplomatas da União Europeia, com tamanha similitude com a crise dos "Camisas Vermelhas" na Tailândia que dir-se-ia ter sido o complot tailandês de Abril-Maio últimos a reedição do bem sucedido golpe de Estado no Nepal. O golpe plutocrático-comunista na Tailândia falhou, porque a monarquia está mais sólida e profundamente entranhada no ser e nos modos do povo. Mas tudo tem o seu tempo. Aos nepaleses, bastaram dois anos de república para poderem comparar. Nós somos mais masoquistas: assistimos ao longo de um século ao deslizamento da liberdade, do orgulho e do elementar direito a escolher, até chegarmos a este nadir humilhante de pelintrice esfarrapada. Os nepaleses são, pois, mais lestos. Que concluam o trabalho o mais rápido possivel, é tudo quanto desejamos.

Le Chardon Ardent

Um blogue não recomendável, em absoluto, aos dependentes do politicamente correcto. Passa directamente para a lista dos preferidos.

24 novembro 2010

GREVE

HOJE NÃO ME APETECE ESCREVER. ESTE BLOGUE ESTÁ EM GREVE.

21 novembro 2010

Portugal e os outros

Dizia-me anteontem uma fulana que estava a preparar um livro sobre a recepção dada por Paulo VI aos líderes dos "movimentos de libertação". Disse-o com um brilhozinho nos olhos, como quem evoca uma vitória. Fiquei triste, pois se Portugal serviu desinteressadamente a algo neste mundo foi a Roma. Lembrei-lhe que a paga não foi conforme o gesto estudado: Samora e Neto pagaram ao Vaticano com perseguições, confisco e destruição das missões. Retorquiu: "e depois"? Pois, a mesmíssima resposta que daria um desses peralvilhos das Missions Étrangères que a Propaganda enviou para o Oriente para destruirem tudo o que por lá haviam feito os portugueses e depois, sem deixarem obra, só serviram para abrir as portas da Indochina ao imperialismo jacobino. Passaram 40 anos sobre a tal audiência. Não, corrijo, passaram 40 sobre essa traição ignóbil e mais de 300 sobre coisa análoga feita no Oriente. Nunca aprendemos nada !

Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me, consumime, enterrai-me:

Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e vos lembro uma coisa: que "se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar": Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó, que destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga e em todas as outras colónias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias. Padre António Vieira, Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda, 1640.


A cimeira como o meu pai a viu


"Regalei-me e ri bem à vontade com as fotos e legendas que puseste no teu blog a propósito da Nato muito desnatada que nos custou os olhos da cara e não sei se a Portugal serve para qualquer coisa!
Enfim, o que é preciso é aguentar os "cavais" para fazer perdurar esta burguesia - desculpa, queria dizer "infra-burguesia" - que nos assalta, espreme, devora e sacaneia noite e dia.
Vi algumas das imagens pela TV e devo confessar que fiquei preso a uma boa meia-dúzia: 1, a famosa capa de seda (?) listada de verde e cinza do mirífico Karzai que tão bem vai com o bivaque cinzento que parece ser de astracã, um desrespeito por um país que vive sob metralha e morre de fome, de angústia e de terror; 2, os deliciosos e apepineirados casibeques - não sei se o termo existe e está dicionarizado mas o facto é que traz ressonâncias camilianas - de todas as cores e com os mesmos botões que são a marca da distinta "afuheraida" que dá pelo cândido nome de Angela Merckel e que quer alcançar para a Alemanha o que falhou ao pintor de tabuletas do III Reich; e quer fazê-lo sem guerras destruidoras do húmus humano mas com a corrente caudalosa dos marcos alemães que ela conduz como euros demolidores; raios a partam; tenho dito!; 3, o ar de agoniado de quem sofre do estômago e tem úlceras duodenais: o senhor Cavaco, aliás, de par com o riso acontentado do senhor de Sousa, o que sempre é bem melhor do que lhe chamarem aquela outra cousa de ressonância filosófica, disciplina que ele nunca terá estudado; 4, a turbamulta de repórteres e fotógrafos a correrem de um lado para o outro (!) como quem anda à procura do caminho de Santiago, o do cinema espanhol que não o do santuário galego; 5, umas meninas e umas senhoras, de farda muito parecida, que andavam, também, de um lado para outro a conduzir não se sabe quem nem para quê, já que se tratava de gente que ninguém sabe quem seja nem se, em Verdade, existe; 6, uns locutores e jornalistas e convidados que falavam e falavam até deixar os telespectadores a arfar como cães cansados depois de uma corrida à beira-mar; 7: a chegada do delicioso e sofisticado Berlusconi que se fez esperar pois deve ter estado ocupado com algo mais importante do que esta lisboetice que nos arrancou mais uns cabelos; parabéns senhor Berlusconi e a sua desbundice; 8: o famoso, o português mais famoso por aqui e pelo mundo inteiro: o Bo do saltitante em forma Obama que sobe e desce escadas como quem se atira às laranjas e aos figos…
Tenho dito.
Abçs do Pai"

20 novembro 2010

Cronofobia: a persistência do tempo desce a Avenida

A cruzada das mulheres

Há que ler as obras completas de Chernenko

Cadete de Kronstadt

Diálogo inter-confessional


Aparição da República junto da estátua da Grande Guerra

Presunção e água benta ...

A delegação enviada por Enid Blyton. Os Cinco cresceram e estão presos.

O trend outono-inverno de 1937

A segurança que se apoia

Nargorno-Karababakh desce a avenida

Energias alternativas

Um dos mais simpáticos e cativantes rostos da Boa Nova

Jerónimo de Sousa conta a estória do lobo mau às crianças-jornalistas. Há que rezar missa todos os dias

Micrómegas


Há qualquer coisa de revoltante na forma como alguns portugueses cultivam o miserabilismo. O partido anti-português de Portugal, amiúde recrutado entre os auto-proclamados intelectuais, tem como bandeiras o amesquinhamento de tudo quanto aqui se faz, o sorrisinho trocista, a trágica confusão entre o plano interno - com os seus ódios caseiros e partidários - e a representação da imagem externa, chegando a atingir proporções de deliberada traição, não fosse o insignificante de quem a produz. É uma tara, um comportamento compulsivo, este prazer em reduzir, apoucar, maldizer. Dei-me ao trabalho de visitar meia dúzia de blogues de "direita" e de "esquerda" ditos de referência e cheguei à triste conclusão que pouco os separa no azedume, auto-flagelação e boçalidade roncante sempre que Lisboa serve de palco para eventos de primeira plana e enche as manchetes internacionais. Sim, eles só toleram que de Portugal se fale nas voltas do esférico ou na iminência da bancarrota. Preferiam que fosse Madrid, Budapeste ou Tirana a receber o Tratado da União, que o presidente chinês fosse a Dublin, que Obama e o Ocidente se reunissem em Las Palmas, que fosse a Finlândia ou a Bélgica o obter o tal lugar no Conselho de Segurança. No fundo, os maiores inimigos do país são estas criaturas açuladas por um ódio doentio a tudo que prestigie, eleve e promova a ideia da centralidade de Portugal no quadro geopolítico mundial. A fatalidade do "intelectual" provinciano, de súbito confrontado com o contraditório do país pequeno, periférico, pobre e entregue a quizílias pouco menores que o buraco de uma agulha é esta. A função do "intelectual" português é a de dizer mal, se possível o pior, de tudo aquilo que deste a maldita geração de 70 lhes enche o cardápio de desculpas. Querem o país isolado, invisível, insignificante, pois a diferença de escala amedronta. Em Lisboa, quando tudo se reduz ao vazio preenchido pelo nada e pelos Ómegas caseiros, sentem-se como a bactéria na caixa de Petri: livres, desenvoltos e tirânicos. Contudo, mal aterra um avião com alguém que meça mais de um metro e trinta acordam dos fumos e desorientam-se, competindo cada barata pelo lugar no pódio da melhor contorção agónica.

16 novembro 2010

Não acreditar nos papões nem em teratologias políticas


Foi, todos o sabiam - e todos o elogiaram por isso - um nacional-bolchevista de retinta extirpe e um egomaníaco tão exigente nos rapapés como Mao, Tito, Kim il Sung e Estaline. O homem foi incensado como modelo de lucidez e destemor. Foi recebido e recebeu Nixon e Carter, de Gaulle, Pompidou e d'Estaing, Sadat, Juan Carlos, Isabel II, Paulo VI e Margarida II da Dinamarca, dele se cantaram loas, a ele se encomendaram panegíricos, numa tal competição desenfreada que os dicionários se esgotaram e os ribombantes ecos dessa versalhada barroca-comunista ainda nos enchem de espanto: Leão dos Cárpatos, Danúbio do Socialismo, Pai dos Romenos. Pois, Nicolau foi Grande Cavaleiro da Ordem do Banho, integrando o friso das maiores notabilidades do mundo dos imortais [mortos e vivos ] e para ele todos se viraram em assombro de admiração quando apoiou a "Primavera de Praga", se opôs à invasão do Afeganistão, reconheceu Israel e com ele manteve relações diplomáticas, reatou relações com o Vaticano e deu preferência aos negócios com o Ocidente.


No Estoril Film Festival, que terminou no passado fim de semana, foi a concurso uma espantosa "Autobiografia de Nicolai Ceausescu", assinada por Andrei Ujica. Ao ver o longo documentário, fiquei com a impressão que Ceausescu foi, à escala do seu país e do seu gabarito de sapateiro esfomeado e iletrado fugido à terra e arribado a Bucareste como pequeno gangster a soldo do Partido Comunista da Roménia, um homem em tudo diferente da lenda negra que por aí se mantém. Era um biltre, o lídimo representante da "classe operária no poder", mas tinha rasgo, sabia manipular os poderes que dominam o mundo e deu à Roménia a "epoca de aur" para a qual hoje muitos romenos olham com indisfarçável nostalgia. Cometeu três erros capitais: pagou a dívida externa até ao último lei, disse não ao gorbachismo da nomenclatura que queria salvar a pele a todo o custo para engrenar na transição do socialismo para o capitalismo com as alforjas cheias de ouro pilhado e, por último, acreditou no mito que outros haviam construído em seu redor. Ora, o golpe de 1989, começou por um levantamento popular anti-comunista, mas depressa se transformou num golpe de Estado liderado pela Securitate e pelo PCR. Aquela história ainda está toda por contar e só um desmiolado pode acreditar na grotesca encenação daquele julgamento ignóbil em que Ceausescu foi atado como um cordeiro sacrificial, encostado a uma parede e silenciado pelos seus cúmplices de véspera. Ceausescu, vendo bem, era um gigante quando comparado com os restantes líderes comunistas da Europa comunista, mas também gigante quando comparado com a generalidade dos governantes ocidentais que o elevaram às culminâncias e depois o deixaram nos arranjos do fim da guerra fria. Teimo que a razão capital acima aduzida - ter pago a dívida externa - foi decisiva para o desinteresse dos credores. Assim, ouçam-me governantes, nunca paguem a dívida. A plutocracia quer juros e quando a dívida é saldada, correis perigo de morte.


Partidul, Ceausescu, Romania

15 novembro 2010

A culpa a seu dono

Os empresários portugueses não podem fazer melhor. No conjunto das economias recessivas das "democraias do sul", Portugal cresceu percentualmente no período homólogo de Outubro de 2009 a Outubro 2010 sete vezes mais que a Espanha e três vezes mais que a Itália, distanciando-se da Grécia, em plena débâcle regressiva, com 4.5% negativos. As exportações subiram, o volume de encomendas em agenda prevê que a tendência do saldo comercial externo continue a progredir favoravelmente, empurrando a projecção do crescimento de 2011 para 1.3%. Em suma, se não tivessemos um Estado despesista, se acabassem com a via láctea de institutos, fundações, empresas fornecedoras de serviços ao Estado, se os 300 concelhos fossem 100, se as 3000 juntas de feguesia fossem 1000, se o parlamento não tivesse 230 deputados, mas 100, se o governo decretasse o fim das escandalosas reformas de 7000 e 8000 Euros distribuídos por amigos do regime, se fossem denunciados contratos verdadeiramente pornográficos atribuídos a apparatchik nos bancos, nas EDP's e TAP's, se não tivessemos 200 almirantes e 200 generais para umas forças armadas privadas de tudo o que faz um exército e uma marinha dignas desse nome. A culpa não é nem dos portugueses, nem dos empresários. Não é, também, da tão falada "crise que veio de fora", como há dias o sempre ligeiro Mário Soares quis fazer crer. A crise coincide com a dimenão do devorismo, da inconsciência criminosa de tantos funcionários políticos que nunca produziram o que quer que fosse, nunca tiveram emprego certo que e nunca teriam a mínima oportunidade num mercado de trabalho competitivo.

Como não somos derrotistas, ainda acreditamos que a recente descoberta da Ásia pelo nosso Primeiro-Ministro lhe permita abrir os olhos e aplicar, com mão dura, as soluções do futuro.

13 novembro 2010

Em defesa da governação solitária

A consabida tipologia das democracias, de Sartori, foi liminarmente recusada como expressão de preconceito e pessimismo. A verdade é que o tempo se encarregou de dar plena justificação ao conceito de "democracia latina", sinónimo de incompetência, corrupção, nepotismo e demagogia. Em sociedades com forte gradiente autoritário, hierarquizadas e orgânicas, cadeia de comando e um instintivo respeito pela autoridade, a vaga democrática dos anos setenta do século passado trouxe a desagregação do Estado, a pulverização da justiça e uma total desobediência face às leis, resultando nisso a apropriação do Estado por grupos de amigos e redes clientelares, o descontrolo e o despesismo, o gigantismo do funcionalismo público, a inimputabilidade das chefias e o fim da separação dos poderes. O parlamentarismo não funcionou na Grécia, como se mostrou suficentemente inepto em Espanha e Portugal, pelo que para salvar a democracia e as liberdades civis, importa recorrer quanto antes à concentração do poder e à sua personalização. Sendo adepto da monarquia, não posso deixar de ver com bons olhos a possibilidade do presidencialismo e de um governo que emane do critério meritocrático de selecção de governantes. Estamos na 25ª hora. Agora, já resvalando para o precipício,importa perguntar aos portugueses se querem uma ditadura, resposta natural à bagunça, ou um regime presidencialista que restaure a confiança na vontade nacional. Já não há muito tempo.

11 novembro 2010

Ângela Castelo Branco desvela Barreto fotógrafo

A minha irmã Ângela apresentou hoje em casa cheia a obra fotográfica de António Barreto, agora disponível num belo álbum com retrospectiva de meio século de actividade. O homem tem sete ofícios e a de fotógrafo, quiçá das mais interessantes da sua plurifacetada e rica personalidade, é uma daquelas paixões juvenis que jamais cedeu passo ao desencanto. Barreto é um homem interessante e com interesses vários. Não é um apparatchick nem um carreirista. Por mais distante que se encontre dos meus pontos de vista, o respeito pela sua independência coloca-o num nível de distinção em tudo distante dos "homens públicos" que não produzem. Quando cair a cortina do julgamento da história e as figuras ganharem escala, Barreto será lembrado - como Sottomayor Cardia ou Henrique Medina Carreira - pelo culto da liberdade e pelo destemor com que soube sempre, estando dentro do regime, fazer o seu caminho com trabalho, criatividade entrega às suas paixões e disponibilidade para pensar [e fotografar] a realidade do Portugal do nosso tempo sem o reducionismo da ideologia. A Ângela está de parabéns; o António Barreto ofereceu hoje aos olhos e sentidos dos portugueses a sua visão plástica dos homens, das cidades e paisagens que inundam o nosso quotidiano.

07 novembro 2010

Portugal na CCTV

Dinheiro chinês é igual a qualquer outro


Hoje assisti à procissão de motorizadas e limousines que atravessava a cidade em direcção ao Palácio da Ajuda. Coisa oriental, como muito bem fica a quem recebe o homem que ocupa o lugar do Filho do Céu, no umbigo do mundo, ou seja, o sucessor dos imperadores da China. Eu tenho para mim que se o inferno nos estender a mão, devemos fazer um pacto com o diabo sem lhe vender a alma. Deixemo-nos de esquisitices e pruridos: as relações entre Estados fazem-se por interesse e não por princípios. A China ocupa o Tibete, a Manchúria e o Turquestão ? Pois, isso que fique para as justas causas e as nobres cruzadas, conquanto Portugal se envolva o menos possível. Que eu saiba, os consabidos "homens de causas" nunca terçaram armas pelo Havaí, por Guam, pelas reservas indias nem pelo pelo Novo México.Obama virá e também deve ser bem recebido, aplaudido, mimado e levado aos ombros se nos trouxer algo.

Ao invés, esses insuportáveis "comissários europeus", aqui aportam semana sim, semana não, para nos dar ordens, diktats amiúde carregados de ameaças, como quem coloca um caldo em frente de um faminto e lhe diz: "hoje comes, amanhã só tens o caldo se fizeres o que te mandarmos fazer". Essa tem sido a Europa. A China está longe, muito longe, não nos manda comissários, não nos ameaça com a privação do caldo, não nos impõe regulamentos nem a expulsão de clube algum em que ocupamos o lugar extremo. A China, ao contrário da Europa, exibe sempre elegantes atitudes, nos gestos como nas palavras.

Tenho falado muito sobre este tema com o meu irmão, que acertou em cheio e faria corar de ciúmes a multidão de opinativos, assessores e "espertos" que invadem certos ministérios. Infelizmente, a nossa sina é a de dizer aquilo que os outros não querem ver.

05 novembro 2010

Cercados de graças e podres no centro


Uma história trágica, misteriosa, sinistra por vezes na impiedade com que as elites que nos governam parecem tudo fazer para afundar o direito à felicidade daqueles que aqui ficaram nas praias à espera do barco para o exílio, para a emigração ou para o império. Houve sempre, na 25ª hora, quando todas as portas pareciam fechadas e o triunfo da morte se anunciava, um recobro de energia ou um milagre. O milagre pode estar aí, a minutos da costa, em inexauríveis lençóis de ouro negro que as companhias de prospecção dão como certos. O milagre pode chegar amanhã sob a forma de um mandarim de óculos fundo-de-garrafa. Pena tenho que tudo isso, a acontecer, venha caucionar a madracice de um povo que desaprendeu a arte de ser grande, lançou para um canto a sua vocação marítima e imperial e mantenha no poder uma geração de governantes amadores, semi-letrados e irrelevantes que não mereciam o poder nem o conquistaram.

Já estou suficientemente experimentado para saber como seriam aplicadas as receitas do ouro negro, como sei que a compra da dívida pelos chineses terminaria com mais empréstimos, mais endividamento e mais despesismo. Dizia ontem Pacheco Pereira que o BE e o PC querem uma revolução. Talvez tenham razão, pois basta andar pela rua para nos apercebermos que é isso precisamente o que querem os portugueses: uma revolução. Eu não pediria uma revolução de rua, nem da base para o topo, nem do topo para a base, mas uma revolução na cultura democrática, na transparência, no serviço público, no amor da pátria, do seu passado como da sua destinação; em suma, pediria pouco menos que o impossível. Mas tenho fé, pois a razão há muito me contou o final da história. Que venha o milagre !

03 novembro 2010

Regressem aos clássicos meus caros


As pessoas perderam o domínio da língua. Pensam, erradamente, que o código escrito é análogo à língua falada. Ora, quem não sabe escrever não pode pensar correctamente, pois o desconhecimento das regras formais impede o ordenamento do discurso. Foi o que deu a porreirização do ensino que encontra nos últimos desenvolvimento do tecnocratês e do portinglês o nadir da expressão escrita. Deixem-se de fantasias, ponham de lado o lixo sub-literário dos autores de escaparate e dos prémios literários, voltem a Vieira e Camilo - pois Eça, insuportável poseur, era um fotógrafo-escritor - e esqueçam Pessoa a um canto da estante, pois a poesia, por muito bonita que seja, sempre foi perigosa tentação para quem não sabe escrever.

Conheci em tempos, nos tempos do mestrado, uma fulana que se ufanava de "só ler Filosofia". Era Hegel para aqui, Marx para ali, Kant para acoli, Aristóteles para acolá. Contudo, naquele deserto mental cheio de citações, faltava-lhe leitura. Nunca abrira um livro por simples impulso recreativo. A leitura era, para ela, uma obrigação para a "carreira", como o manual de carpintaria para o fazedor de cadeiras, uma pobreza de cultura dita geral - quem não a sabe, nada sabe - e um quase ódio a tudo quanto catalogava liminarmente de "erudição". Essa senhora é hoje "doutora em Filosofia", mas diz "hadém em vez de hão-de", "póssamos em vez de possamos", "quaisqueres em vez de quaisquer"; em suma, uma analfabeta a dar aulas a iletrados. O resultado ? A universidade que temos, os advogados, os políticos, os gestores e os jornalistas que por aí vão destruindo todos os dias o pouco que se salvou dos clássicos. Sim, Camilo vale dinheiro e é de curso mais confiável que as pontes desse Euro malfadado e da ditadura da febre do dinheiro e do sucesso que nos trouxe a este estado de não retorno.

30 outubro 2010

Monstrozinhos saídos da proveta do regime


Uma chuva diluviana. Local: a paragem de autocarros. Chegou uma mulher molhada até aos ossos transportando ao colo uma criança recém-nascida envolta num pequeno cobertor axadrezado que pingava. No banco, sentadas e conversando aos berros, com palavrões à mistura com os "baris" e os "tás a ver?", três miudoscas com atavios de "boas marcas" - possivelmente vivendo nas torres das Amoreiras - recebendo consecutivas chamadas do Luís, do Afonso, do "Dênis". Olhando com absoluta indiferença para aquela mulher transida de frio, ali se mantiveram na converseta carregada de pulsões hormonais discorrendo sobre os Luíses, os Afonsos e os "Dênis". Não me contive e perguntei se não tinham reparado que ali estava alguém com uma criança de um mês ou dois. Uma das fedúncias, a muito custo, levantou o enorme traseiro willendorfiano e disse "então, sente-se se quiser". A paragem estava cheia e ninguém ousou proferir a mais pequena migalha de reprimenda.

De facto, estas meninas são o produto de trinta e tal anos de deseducação, desprezo pelas convenções mais elementares de um sistema de ensino que forma criaturas semi-letradas, gananciosas, egoístas e maus cidadãos. Os outros, os adultos a quem cabia dar-lhes a lição de civismo, transformaram-se em cobardes amargurados. São trinta e tal anos de regime. Regressei ao neolítico.

Es gibt keine Frau die nicht lügt

28 outubro 2010

Não, a minha pátria NÃO é a língua portuguesa


Repete-se até à exaustão uma banalidade de Pessoa, que por ser Pessoa não pode ser discutida. É uma banalidade perigosa que se transformou em certeza, em mandamento intemporal e se impôs ao comportamento do Estado como uma obrigação. Não, a minha pátria não é a língua portuguesa. Por essa quimera estamos há trinta e tal anos a esbanjar meios no ensino da língua portuguesa onde esta já é língua oficial - Guiné, S. Tomé, Moçambique - e noutras paragens onde os leitorados de português deviam ser investimento do Brasil e não de Portugal: Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai. Por essa quimera, que parece só servir para dar empregos a professoras do ensino secundário, não se tem passado - na Ásia, em África e na Europa - dos umbrais do minimum minimorum destinado a formar guias turísticos, empregados de mesa e telefonistas de embaixadas. Não é responsabilidade do Estado português ensinar português a quem quer que seja. Quanto muito, cumpriria ao Instituto Camões estabelecer parcerias com universidades estrangeiras, facultar-lhes meios iniciais programáticos, metodológicos e de professores até que se criassem raízes. Os melhores centros de ensino de língua portuguesa na Ásia não dependem de Portugal: são autónomos, animados e dirigidos por professores locais e batem largamente em condições técnicas, tecnológicas e visibilidade académica os nossos leitorados. O Japão e a Coreia do Sul têm departamentos de língua portuguesa cheios de vitalidade e não pedem a Portugal o favor de uma bula de confirmação.


Se, em vez de insistir na gramática e nas primeiras letras, se desse prioridade à conquista das universidades, preparando-se cursos de cultura portuguesa destinados a servir as necessidades da investigação local, facultando conceitos, informação precisa sobre história portuguesa, traduzindo e publicando os imensos e quase inacessíveis fundos documentais portugueses, a língua, instrumento de comunicação, surgiria como manifestação do entusiasmo gerado pela curiosidade intelectual dos novos lusófilos. Ao contrário, não dá ! Até ao presente, não deu e só se tem insistido nesse erro porque há interesses em campo: ordenados, linhas de amiguismo, certificações, cargos. É um lóbi, e um lóbi inútil que desperdiça os recursos públicos e impede o inevitável, ou seja, a co-responsabilização luso-brasileira numa política global de difusão dos nossos comuns interesses geo-linguísticos. O Instituto Camões não devia ser coisa portuguesa. Devia ser instrumento de parceria luso-brasileira, irrigado por fundos dos dois países e servir para formar competências, certificá-las e favorecer a instalação de quadros médios nas empresas que lidam com o espaço lusófono ou, ainda, favorecer a instalação de companhias portuguesas (sobretudo brasileiras) num tempo marcado pela emergência do Brasil como potência económica mundial. O inútil cruzadismo pela língua não resultou. Ou o Brasil se interessa pelo investimento a fundo perdido ou não se deve prosseguir num caminho que se revelou, senão inútil, quase insignificante nos resultados.


Felizmente, a língua portuguesa não é coisa em vias de desaparição, como o são a francesa e a italiana. Há duzentos milhões de pessoas que a utilizam diariamente, há estados que a ela recorreram para não desaparecerem, pelo que em Angola, Moçambique e Cabo-Verde o Camões devia mudar de rumo e deixar a responsabilidade do ensino da língua aos ministérios da educação dos respectivos países. Outro erro, coisa tremenda, tão em voga para a linguística como os estudos do "género" para tudo o mais - há género em tudo - tem sido a chamada "crioulística". Não interessa a Portugal partir, quebrar a unidade da língua, fazer concessões ao exótico e a corruções, mas é o que se tem feito em nome de um complexo de ex-colonizador. Quem quer aprender o português exige que lhe ensinem a língua viva. Essa de querer retirar do sepulcro variantes do português já quase extintas, supondo que os descendentes de portugueses as irão ressuscitar, com elas reforçando a "identidade" (outro palavrão em voga) é um rematado disparate. Vão dizer aqueles que não gostam de pensar: "lá está ele a exagerar". Não, meus amigos, não é exagero, é o que é. Nisso, como noutras coisas, sou muito carré: o que deu esse ensino do português ? quantos escritores, quantos trabalhos académicos publicados, quantos amigos conseguiu Portugal em trinta anos de dinheiro investido nesse terreno infecundo ?
Uma última observação que poderá ter o curso de provocação. Um só padre português nas paróquias de Banguecoque, Singapura, Malaca e Flores teria impacto maior que vinte "leitores" de português. Sabem porquê ? Bem, porque os católicos tailandeses, de Singapura, da Indonésia e da Malásia são "portugueses" mas não estão interessados na língua portuguesa. Amam Portugal porque a nossa religião é a "religião dos portugueses", ou seja, a sua, deles. Infelizmente, a Igreja portuguesa já não quer saber da missionação para nada. Está gorda e bem encostada ao pequeno quotidiano do viver sem desafio.
Não, não se trata de assunto de pessoas. Aqui, como sabem, não há ataques pessoais nem se cultiva o estilo ad hominem. Trata-se de um problema de conceitos. O Instituto Camões já teve - e tem - a dirigi-lo servidores do Estado que às suas tarefas se entregam com a maior dedicação e entusiasmo. Trata-se de um problema em não pode nem deve ter "culpados". Nos termos e opções em que vive, dar ao Camões relevância é tão improvável como conceber um navio feito em granito. Qualquer que seja o gabarito do timoneiro, o destino à vista é um afundamento.

24 outubro 2010

É o mar meus senhores


Abriria mão dessas brilhantes tradições recentes do futebol, da gravatinha pequeno-burguesa e das gestões se o mar voltasse a ser o destino nacional. Sem o mar, nunca teríamos sido; sem o mar, a Europa dos bantustões e das microgeografias, das guerras por 2x5 km2 e dos campanários sem horizonte ter-nos-ia atraído para o destino dos povos insignificantes e não teríamos sido mais que austurianos, leoneses ou galegos. Foi o liberalismo caseiro, com a tentação da lojeca, da caixa segura e da vida quieta -a ambição da burguesia - que nos encheu de pavor pelo mar. Antes, havia portugueses por todos os mares, servindo sob todas as bandeiras, arando e ultrapassando oceanos. Depois, desapareceu o mar, acabaram os pescadores, os marinheiros, as redes e os batéis e Portugal passou a ser império sem marinha, antes de ser ponta rochosa de um continente fechado à aventura, ao risco e ao trágico. Submarinos ? Só dois ? Devíamos ter 10. Com a quase certeza do retorno do mar - logo que a Europa se finar e o Brasil nos estender a mão - há que explicar aos portugueses que Portugal (isto é, Madeira, Açores, Cabo Verde, S. Tomé, o Brasil e Timor) só poderá ser se for 8 partes de água, uma de sofrimento e outra de aventura.

22 outubro 2010

Servo penitente humilhado


Os jesuítas terminavam as suas missivas com expressões de chocante humildade. Para quem, burgueses como nós, sempre em busca da "personalidade", cultivamos até ao ridículo o individualismo e o único, o distinto e o irrepetível existente em cada ser humano, o florilégio de frases de despojamento dos jesuítas surge como insulto. Eu já me deixei dessas fantasias românticas. As pessoas são quase todas iguais; ou antes, dispõem-se por categorias: há-as muito más, absolutamente irrecuperáveis; há-as más mas dominadas e auto-dominadas por medos ideológicos, teológicos como profanos; há-as medíocres, incapazes de discernir e sobretudo incapazes de agir e há, também, criaturas boas e bem intencionadas. Pois bem, sugiro que, em vez do vazio "atentamente"e do tolo "com os melhores cumprimentos", terminem as vossas cartas com uns deliciosos "mínimo, servo e súbdito", "mínimo e obsequioso servo" ou "servo penitente humilhado". Ora, se o destinatário for um ministro, um secretário de Estado ou um alto quadro administrativo dirigente vai ficar aterrado e sentir-se-á, mais que lisonjeado, tremendamente aflito e disponível para aceitar todo e qualquer pedido que V. lhe faça. Tente e verá.

16 outubro 2010

Quando os cantores líricos vão à guerra: Takita Kikue e Huziwara Yoshie


Na luta e na adversidade, a música é a arma mais forte.

15 outubro 2010

Coisas terríveis que acontecem no país dos brandos costumes


Encontrando-me em Lisboa a redigir o trabalho que há três anos me propus fazer (as relações entre Portugal e o Sião no período Banguecoque), tenho percorrido os arquivos e bibliotecas da nossa capital para completar investigação em áreas para as quais não possuía ainda massa documental expressiva. Ora, numa das minhas deambulações, passei ali pela Calçada da Tapada, à Ajuda, onde se encontra a antiga Escola Preparatória Francisco de Arruda. Ai estudei no terrível ano de 1974-75. Acabara de chegar de África sem eira e vivia opulentamente com os meus pais e irmãos numa roulloute desse luxuoso resort que dá pelo nome de Parque de Campismo de Monsanto. Era o tempo do ódio à solta, dos "inimigos de classe", das "lutas" e das "punições exemplares", da "justiça popular" [executada por burgueses], de pinchagens, palavras de ordem, comícios, reuniões gerais, "saneamentos com justa causa". Foi um ano alucinante de humilhações e desprezo por nós, "exploradores de africanos"e inimigos do povo. Lembro-me do frio terrível desse inverno, da humidade que doía até aos ossos, da falta de roupa e comida. Sim, importa lembrar tudo isso, pois foi tudo isso que me fez duvidar pela primeira vez da bondade dos homens, dos tonitruantes princípios, dos romantismos revolucionários e demais mentiras de que todas as revoluções dizem representar.

Ao chegar àquela escola, apercebi-me que destoava das outras. Era grande, bem mobilada, confortável até, com as suas salas de aula com aquecimento, laboratórios, oficinas, ginásios, bibliotecas, antiteatros e cantinas verdadeiramente modelares no panorama português. Fora, durante quase duas décadas, um laboratório de metodologia e pedagogia inovadoras e o seu criador, Manuel Calvet de Magalhães, implantara no meio de um bairro popular e operário uma nesga da Suécia. Ali fizera milagres, formando e incutindo nos miúdos de 10 e 11 anos o amor pelas artes, pelo teatro e pelo cinema. A escola possuía uma sala de cinema e tinha um vasto catálogo de filmes formativos e documentários sobre o mundo animal, o meio ambiente, física e química, matemáticas, ciências sociais e história. Uma vez por semana, os alunos eram encaminhados pelos professores para essa sala e assistiam a dois ou três documentários, posto que pedia-se-lhes fizessem redacções sobre aquilo a que haviam assistido. Era uma das preocupações de Calvet de Magalhães: dar voz às crianças, obrigá-las a tomar posição crítica em relação ao mundo, despertar-lhes a curiosidade intelectual. Depois, era também uma escola que tinha aulas de xadrez, música, modelagem e até trabalhos oficinais que facultavam os rudimentos práticos de tudo quanto um homem deve saber fazer: consertar uma tomada, reparar um rádio, coser um botão, encadernar um livro. À entrada da escola, esculpida na pedra eterna, uma citação de Salazar: "a violência é o argumento do incompetente".

Calvet de Magalhães era salazarista, pois claro, mas um desses salazaristas muito próximos de uma certa social-democracia, como lembrou Renzo De Felice. Acreditava na desigualdade pelo mérito, no aprimoramento pelo trabalho, pela inteligência e pelo estudo, conciliava a ordem com o progresso e estava absolutamente convencido que os indivíduos devem ser guiados à luz. Foi o maior erro do pedagogo, pois os comunistas, então em frenesim de destruição de tudo quanto se lhes pudesse opor resistência, buscavam inimigos inteligentes e não idiotas ultra-conservadores. Calvet não era um desses cinzentões insignificantes que faziam as delícias do imaginário das caricaturas de Abel Manta. Era culto, dono de vontade indomável, um mouro de trabalho, dotado de grande capacidade de realização e liderança. Era, em suma, o pior inimigo do totalitarismo comunista. Pior ainda, era de um patriotismo exaltante e por toda a escola se cruzavam alusões ao passado (aos cientistas e escritores) e se afirmava um optimismo contagiante em relação ao futuro.

Em 1974, uma turbamulta de miseráveis - alguns dos quais haviam sido alimentados à mão pelo pedagogo - instaurou a revolução na Francisco Arruda. Os abaixo-assinados, as reuniões de crítica, a denúncia de colegas, a limpeza das bibliotecas de tudo quanto lembrasse "literatura reaccionária", as pressões, os jornais de parede precederam o terror. Dizia-se que Calvet era da União Nacional, que fora "denunciante da PIDE", que era monárquico, "anti-comunista primário". É claro que o homem nunca fizera política, não tinha lóbi nem funcionava em rede. Era, apenas, um grande profissional da educação e tudo isso deixara de ter valor no Portugal que resvalava para a tirania da rua e do mais desavergonhado trepadorismo, pois nos processos revolucionários surgem sempre os mais impulsivos tarados em busca de sucesso que nunca alcançariam em períodos de normalidade. Havia que matar o inimigo e a partir de Maio de 74, a célula PC iniciou a diabolização do desgraçado. Impediram-no de entrar no seu gabinete da direcção, devassaram-lhe os documentos, cortaram-lhe o telefone, impediram-no de percorrer os corredores da escola que criara, enviaram-lhe centos de cartas anónimas com as mais soezes insinuações e ameaças.Isolado, sob pressão do terror psicológico e da violência física, o mundo de Calvet desagregou-se. Fechou-se na casa de banho, deitou-se na banheira e matou-se. É este o mais acabado testemunho da mentira dessa tal "revolução sem derramemento de sangue".

12 outubro 2010

Um caso com 150 anos

"Exposição do deplorável estado da administração da Casa Pia, no antigo Mosteiro de Belém, sob a gerência do Provedor-Adjunto Jacinto Luís do Amaral Frazão, homem notoriamente maníaco, de intoleráveis excentricidades. Apelo a SM para que, conhecidos os factos, emende e extinga os desvarios e abusos que ali se praticam".
BA, Documentos Avulsos, 54-X-33, nº90, fl. 1-3, 1857
Só quem nunca fez investigação histórica aceita as novidades. Há quem acredite que o passado foi de Ouro. Ora, não foi nem pior nem melhor, talvez com a atenuante de então ainda existir uma tremenda força capaz de evitar coisas piores: o medo.

10 outubro 2010

Sagres recebe Banguecoque a bordo

A Sagres está em Banguecoque e merece a atenção dos tailandeses. Com bandas, presença das autoridades governamentais e dos nossos embaixadores, a iniciativa inscreve-se no quadro das celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião. No cais, aguardava o navio escola um rancho de crianças luso-descendentes oriundas dos bairros católicos da capital. É um grupo que está a criar furor entre as crianças de Thonburi. Os miúdos gostam dos fatos portugueses, gostam das danças e já pedem aos pais que os levam semanalmente às aulas de dança. É trabalho que deixa em Banguecoque a embaixatriz Maria da Piedade e que deve ser continuado. A comissão criada para receber a Sagres é inteiramente constituída por "Protukét" de Banguecoque e dirigida por um oficial da marinha de guerra tailandesa, católico que há anos enviou o filho a Portugal para ali estudar a nossa língua.
É a primeira vez que um vaso da marinha portuguesa visita a capital tailandesa desde 1893. Infelizmente, as relações entre os dois países, tão antigas como a presença portuguesa na Ásia, têm sido caracterizadas por gritante como injustificada falta de pontos de aplicação, não só no que às relações comerciais respeita, mas em todas as áreas onde seria possível desenvolver parcerias de interesse mútuo. Aqui, onde o nosso nome evoca grandes e decisivos momentos em que esteve em jogo a independência dos thais, há que construir pontes e abrir caminhos de cooperação. A Tailândia é uma velha aliada, é a única democracia de facto na região, o seu alinhamento com o Ocidente é irrepreensível, possui infraestruturas para a fixação de empresas portuguesas no Sudeste-Asiático e mercado com massa crítica capaz de absorver importantes segmentos da nossa produção industrial, agrícola e serviços. Dizia ontem a um amigo tailandês que ocupa relevante posto no MNE que 2011 pode ser o recomeço ou o fim das nossas relações. O argumento da crise económica e da penúria orçamental nada pode justificar, pois que ao Estado português cumpre tão só incentivar, divulgar e facultar apoio a todas as iniciativas do sociedade civil e todo esse apoio não envolve verbas, mas a aplicação dos meios existentes. Quanto à Tailândia, tem feito tudo quanto pode para, sem agressividade, exibir vontade genuína em aprofundar as relações, esperando retribuição portuguesa.

07 outubro 2010

A voz nunca morre


Imagina o leitor se morressem de uma assentada todos os actores, todos os cantores populares e líricos, os instrumentistas, jornalistas, locutores e escritores, pintores e arquitectos, tradutores, cineastas, mais os estilistas, os empresários das artes e do espectáculo ? Pois, foi isso que aconteceu no Camboja de Pol Pot. Em Phnom Penh, ouve-se aqui e ali, nos cafés e restaurantes, nas tendas dos mercados uma voz masculina cantando velhas cançonetas românticas do tempo do nosso yé-yé. Perguntei a um khmer de quem era essa voz. Respondeu-me, visivelmente emocionado e com uma ponta de indignação pela minha ignorância: "é o nosso Sinn Sisamouth". Pensei que estivesse vivo e insisti: "deve ser um homem idoso". O meu interlocutor disse que não, que Sin era sempre jovem. Ao chegar ao hotel, consultei a internet. Sin foi morto, como todos os artistas, pelo governo genocida de Pol Pot e do Partido Comunista do Kampuchea, o tal que a França e a Suécia reconheceram como o legítimo representante do socialismo e da liberdade. O khmer que teve a paciência de me explicar quem era Sin tinha razão. A música nunca morre. Pol Pot está morto, Sin Sisamouth não morreu, pois continua presente em todas as casas.


06 outubro 2010

A soma da paródia: 500, 500, 50, 50, 50 = 1150


Hoje, na Praça do Município estavam 500 comensais do regime, 500 actores empregados pelo regime, 50 passeantes domingueiros, 50 celebrantes da República das Bananas e 50 Darth vader's. Foi uma paródia, acentuada pela gravitas dos hierarcas, pelo sono incontrolável de Maria Barroso e pela fila a perder de vista de ex-presidentes e candidatos a presidente. A polícia esteve nervosa, incomodando o inofensivo protesto dos Darth vader's no meio da mascarada que foram estas celebrações milionárias, sem gosto e a puxar ao "cerebral", como o são, aliás, todas as encenações dos muitos ministérios da propaganda que por aí se entrechocam para ver quem pode sorver mais verbas para coisas sem préstimo, destinadas aos Públicos, aos DN's e às SIC's. Foi, perdoe-se-me o plebeísmo, uma pepineira, com os pós de pirlimpimpim que as senhoras e senhorinhos do "partido cultural" do regime conseguiram, em extremos, arrancar. Falta solenidade, falta perspectiva, falta, até - coisa que a mais refinada e malsã máquina de dourar mentiras que é a república francesa - faz às maravilhas: dar um toque de grandeza. É o regime que está velho, que perdeu a graça e se fecha no seu pequeno mundo pelintra e micro-burguês coberto com a película do dinheiro novo do funconalismo e parasitismo dos "aparelhos". No fundo, já ninguém acredita naquilo e missa sem um toque de pompa e incenso não é missa: é uma paródio. Foi isso que aconteceu hoje na Praça do Município.

O mesmo não aconteceu em Guimarães. Ali não houve verbas do Estado, empregados das geringonças e outros que vivem no aquário, propaganda e palmas compradas. Seriam 1000, talvez um pouco menos, mas ali foram sabendo ao que iam e sem promessa do tal lugar atrás da secretária no ministério, na secretaria de Estado, na Fundação ou na junta. A diferença é esta. A república e a mesnada de senhores que alimentam o mito e por ele são amesendados conseguiu a proeza de, em 100 anos, não conseguir explicar aos portugueses o que isso é. Quanto à monarquia, 100 anos depois, todos a sabem definir.