25 dezembro 2009

A história desconhecida de Portugal na Ásia: o arquitecto misterioso

As fontes documentais escritas constituem, naturalmente, o suporte por excelência da investigação histórica. Contudo, por vezes, à conta de tanto as citarmos, acabamos por nos tornar escravos involuntários e bem intencionados de um erro. Muitas são as referências ao Consulado Português em Banguecoque, a mais antiga representação diplomática estrangeira na Tailândia, mas excassas são as descrições do edifício onde se instalou desde a década de 1820, quando o primeiro cônsul titular - Carlos Manuel da Silveira - dela fez residência. Há uma vaga descrição, datada dos anos 40 do século XIX, em Frederick Arthur Neale (Narrative of a residence at the capital of the Kingdom of Siam, with description of the manners, customs and laws (...), v. pp. 276 e 279), bem como nas memórias deixadas por missionários norte-americanos que ali perto viveram durante os primeiros anos da sua actividade de pregação bíblica. Nestas últimas, que privilegiam o aspecto humano, o acolhimento caloroso que lhes foi dispensado, as conversas de fim de tarde à sombra da frondosa figueira centenar que ali ainda existe, não há propriamente a descrição da casa, mas traços impressionistas da aguarela da memória. Há, finalmente, executada em Março de 1844 por Luís Pereira de Campos, uma planta topográfica da Feitoria Portuguesa no Sião.

Sabemos que o edifício sofreu grandes obras nas décadas de 1860 e 1870 e que as gravuras publicadas nas páginas da Revista Ocidente (1883 e 1897) apresentam-no com a traça hoje existente. Dizia Neale que o Consulado era uma construção em bambú e varas, coberto de estuque caiado, que o cônsul Marcelino da Rosa pretendera substituir o frágil edifício por outro em pedra e alvenaria, pedindo a Goa que lhe enviassem os materiais para a erecção de uma representação digna do nome de Portugal. Reza Neale que a embarcação naufragou e que se perderam os precisos materiais. Ora, olhando para a planta topográfica de Luís Pereira de Campos (1844), consultada a legenda descritiva, avultam algumas referências que contradizem a fragilidade cantada por Neale: um caminho calcetado em tijolo, que ligava o embarcadouro ao edifício principal, vasto de onze compartimentos e que havia um muro em alvenaria protegendo a feitoria. Talvez as palavras de menos apreço de Neale se referissem ao edifício da Feitoria e não à residência do cônsul, contígua mas separada. Na planta de 1844, o edifício consular apresenta os contornos da actual residência do Embaixador, provando que o mesmo já existia e que terá sido posteriormente objecto de trabalhos de melhoramento estético.

Tudo isto não passaria de um simples [e até delirante] exercício de possibilidades se , entretanto, não tivesse sido confrontado com a imagem de uma réplica exacta do actual edifício principal da nossa embaixada. A UNESCO promove anualmente desde 2000 um concurso internacional para atribuição do galardão Asia-Pacific Heritage, destinado a premiar iniciativas que visem promover e distinguir as melhores obras de preservação da herança cultural arquitectónica no espaço Ásia-Pacífico. Em 2008, a Suffolk House, casa do governador de Penang, recebeu o prémio. Foi erigida em 1805 e sofreu alterações de vulto entre 1810 e 1812, funcionando como centro administrativo - leia-se "feitoria" - e residência do representante da Companhia Britânica das Índias Orientais. Ao percorrer a exposição alusiva ao prémio, agora patente em Banguecoque, olhei para a gravura da Suffolk House e disse para comigo: "conheço este edifício de algum lado". Depois, socorrendo-me da memória visual da nossa Embaixada, acrescentei-lhe caixa em madeira e frontão dórico, retirei as colunatas da varanda do primeiro piso e enxertei na fachada largas janelas. Olhando para o piso térreo, nada tirei nem acrescentei: é, tal e qual a nossa Embaixada. Mas surgiu um pequeno problema. Na Suffolk House, projectada no primeiro piso, uma varanda parece desafiar a minha especulação. Depois, lembrei-me que na residência dos nossos embaixadores, a sala de visitas é projectada e possui todos os traços de uma outrora varanda, entretanto fechada e anexada ao espaço da casa.

Se o actual edifício da nossa Embaixada é, tal como o vemos, produto de trabalhos executados na década de 1860, por que razão mimetiza um outro edifício construído 60 anos antes ? O edifício dito "georgiano" britânico integra elementos formais de uma gramática arquitectónica que era, na década de 1860, obsoleta. Que motivo levaria os portugueses a copiar um edificio com funcionalidades tidas por ultrapassadas ? O piso térreo de ambos os edifícios integra aquilo que comunmente se designa "estilo sino-português", uma adaptação do muito glosado "estilo chão português" do século XVII, exportado para os trópicos e muito praticado no Brasil colonial e em Macau dos séculos XVIII e XIX. O "estilo georgiano" exportado pelos britânicos para o Oriente não oferece qualquer similitude com a casa apalaçada de Penang. Concluo que os dois edifícios foram construídos por um engenheiro muito impregnado pelas soluções portuguesas e que, quiçá, foram riscados pela mesma mão, um em 1805-1812, o outro no início da década de 1820. O edifício de Penang ficou tal como fora projectado; o edifício português de Banguecoque sofreu alterações de monta na segunda metade do século XIX. Pinang foi povoada por muitos católicos luso-descendetes oriundos de Malaca, Quedá (Kedha) e Sião e teve importante paróquia dirigida por padres portugueses. Ora, os padres eram, como o sabemos, arquitectos improvisados. Não será a Suffolk House um edifício concebido por um português ? E não será o edificio da nossa embaixada o verdadeiro e primitivo edifício, subsequentemente alterado ? Aqui fica o desafio para os entendidos.

Comício republicano em Banguecoque


Foi hoje pela tardinha que o PRT - Partido Republicano da Tailândia - reuniu hostes. Nas fotos, respectivamente o Presidente e o Secretário Geral. Tudo correu sem incidentes, com confetins e apitos em língua de papel. A manifestação reuniu os únicos dois militantes da organização que tem como meta implantar a república em 2800.

24 dezembro 2009

Jantar com os irmãos cismáticos


Este ano não fui à catedral da Assunção. Recebi convite de amigos britânicos para com eles partilhar o jantar de véspera do Natal e não podia recusar. No fundo, esta gente da Igreja Anglicana é, em tudo, muito parecida com os católicos. Com uma excepção: o sacerdote que celebrou era uma mulher ... e casada !
A conversa não podia deixar de tocar as coisas de Roma, do Portugal do Oriente e da velha aliança luso-britânica. Os mais rasgados elogios ao Santo Papa, uma grande e quase invejosa admiração pelos feitos portugueses de antanho - nada que se compare com as negociatas da Companhia Britânica das Índias - e pelo nosso "sempre amigo e fiel aliado, Portugal". Não gostei do "fiel", mas é assim que eles vêem a relação. Aliás, um dos presentes, professor aqui numa univesidade, disse-me que na Europa, eles, britânicos, só confiam nos dinamarqueses e nos portugueses, pois nunca os "traíram". Simpatia e polimento bem britânicos, boa atmosfera social, o habitual e inteligente non-sense e os trocadilhos.

Na rua desta gigantesca capital budista, muitas iluminações de Natal, algumas muito belas em armação de vime forrado em papel. Ali estão há dias, em plena rua, coisa impossível na Europa, onde a mão de um qualquer vândalo as destruiria em minutos. Mas isto é um país tolerante e civilizado. A civilidade não está na riqueza que enche os bolsos, mas na educação e na atitude. Feliz Natal para todos.


23 dezembro 2009

Bonnie & Clyde Ceausescu, assassinados no dia de Natal*

Muito se escreveu nestes dias sobre Nicolai e Elena. Tiveram uma terrível e maravilhosa vida. Ele, um pobre sapateiro rural de origem cigana, ela uma costureira quase iletrada. Ele comandou, foi incensado como o Danúbio do Socialismo, o Leão dos Cárpatos, Herói da Pátria; ela fez-se Cientista de Renome Internacional, Física Prodigiosa, Mãe dos Romenos. Adulados a extremos, acreditaram no conto de fadas em que viveram, um mundo mágico de palácios forrados em teca, espelhos e candelabros de Morano, pavimentos em mármore de Carrara, maçanetas em ouro. Duas criaturas insignificantes. Ele gago, mal sabendo compor uma frase, com discursos corrigidos pelos mestres da propaganda, sem jamais ter lido um livro, foi agraciado pelas academias do Leste e do Ocidente, recebido em todas as capitais, partilhou banquetes com reis, recebeu deputações de todos os azimutes. Ela, laureada com honoris causa em mil e uma universidades, nunca compreendeu exactamente o que era uma tabela e não obstante ter recebido lições para melhor ludibriar a inconsistente fraude, era uma obsoluta nulidade. Diziam os seus professores que adormecia, que se levantava e abandonava sem palavra as aulas, que copiava sem pudor. Madame CO2, como era referida pelos romenos, lembra uma daquelas vilãs da história antiga, uma aventureira que atingiu a púrpura imperial. O casal Ceausescu não tira nem nada acrescenta aos tiranos comunistas que se alçaram ao poder de vida e morte sobre milhões. São, ambos, produto de um tempo e a cabal demonstração que a "classe operária" no poder é a maior inimiga da classe operária e dos pobres.

Como Bonnie and Clyde, assinaram um pacto de sangue que os levou aos píncaros e depois os precipitou no abismo. Mas tiveram um fim heróico e não se amedrontaram perante aquela farsa de tribunal improvisado por traidores, cúmplices de véspera - os que mataram, torturaram e levaram o povo romeno à fome - e que, mudados os tempos, queriam embarcar no novo amanhã cantante da democracia e da Europa. Talvez, a grande nota de grandeza que os dois deixaram foi o derradeiro pedido aos algozes: "nós temos o direito de morrer juntos". É evidente que o golpe não foi a revolução que por aí se diz. Foi um típico golpe mafioso que partiu de dentro do Partido Comunista para salvar a nomenclatura. Provas ? Uma só: ninguém se lembra de matar no dia do Natal. Só os comunistas.
A Roménia, pelo que se diz, mudou muito pouco desde 1989. Continua nas mãos dos ex-PCR's e dos ex-Securitate. No tempo de Bonnie and Clyde, a Roménia figurava no mapa das relações internacionais. Hoje, figura nas listas dos observatórios contra o crime mafioso, o tráfico de drogas e de carne branca. Nem tudo é negro, nem tudo é branco. Nicolai e Elena morreram, literalmente, sobre a sua fortuna e sobre a sua desgraça e o seu infame fim só deslustra a Roménia.


Partidul, Ceausescu, Romania

* A Roménia, maioritariamente ortodoxa, não se rege pelo calendário gregoriano, mas conta com certa de 5% de católicos e 5% de protestantes.

Ten'O, BANZAI !


Com vénia à lembrança que um português no Japão depositou na caixa de mensagens, no 77º aniversário do Imperador do Japão. A segunda economia mundial, o país cujo nome se confunde com 0,08% de iletrados, a maior percentagem mundial de licenciados, mestres e doutores, a maior esperança de vida do planeta, o primeiro no registo de patentes científicas, o terceiro em inovação, o terceiro maior dador internacional, o último em mortes violentas. Em 1945, era um quase certo candidato ao comunismo. Depois, foi o milagre. É uma monarquia, pois claro.


Kimigayo

22 dezembro 2009

Monarquia nova


Por mais que os seus detractores insistam, ancorados em complexos e preconceitos malsãos e numa certa subcultura de burguesia de dinheiro novo inseguro, a evidência é que a solução monárquica se coloca hoje como futurível e muitos portugueses, de esquerda como de direita, aceitam agora discutir a Restauração como tópico relevante da agenda política. De tema marginal, a possibilidade da Restauração ganhou paulatinamente adeptos. Já não é um dado de memória, partilhado e transmitido por herança familiar; é uma corrente de opinião que vai ganhando espaço, que concita simpatia e adesões em todos os escalões sociais e profissionais. A república habituara-se a monarquices extravagantes de dedos brasonados e bizantinas exibições genealógicas; hoje debate-se com uma verdadeira insurreição cultural que lhe mina os fundamentos, a legitimidade e desafia a sua mitologia. De facto, a república nunca teve republicanos e os que teve confundiram-se sempre com o Partido Democrático, essa coisa tentacular, carregada de baias e dominada por pulsões liberticidas. Os republicanos, hoje, são poucos, inconsistentes e invertebrados. Pedem a mudança na república, mas tudo o que defendem já foi experimentado e falhou: falhou no republicanismo parlamentar primo-republicano, com uma chefia de Estado simbólica, falhou com o cesarismo plebiscitário de Sidónio, falhou com a presidência submetida ao "presidencialismo do Presidente do Conselho", falhou com o semi-presidencialismo de voto directo universal que ainda temos. No fundo, a república é o passado e desse passado não se consegue libertar. Está, arrasta-se, finge consenso. Não sendo detestada é, no mínimo, desprezada. Viraram-lhe as costas, por ela não se interessam, não mobiliza corações nem inteligências. Refém das lutas partidárias, a chefia de Estado republicana passou a ser encarada como pré-aposentamento para os locatários de Belém. Vai-se descendo em intervenção, subindo na hierarquia do Estado. O Presidente é, hoje, um Roi fainéant, um falso rei constitucional, sem o prestígio de um monarca hereditário, sem a influência fáctica de que gozam os reis e com a tremenda e irreparável suspeita de continuar, por mais que o negue, a depender do(s) partido(s) que o colocaram na chefia do Estado.

Por seu turno, a possibilidade de uma monarquia nova parece identificar-se com a grande política e com a destinação de Portugal. Hoje, defender a monarquia pressupõe a defesa de uma certa ideia de Portugal, da lusofonia, da preservação do mínimo da soberania do Estado, das liberdades regionais, da separação de poderes, da fiscalização dos abusos cometidos pela partidocracia, de colocar no seu lugar os plutocratas mais as negociatas e os favores. Defender uma monarquia nova é sinónimo de reposição da respeitabilidade do Estado, da solidariedade social e da realização dos grandes objectivos colectivos.

Acabei de ler uma excelente antologia comentada de textos de Lord Salisbury, quiçá um dos maiores pensadores de acção conservadores do século XIX, infelizmente pouco conhecido pela generalidade dos conservadores portugueses. Salisbury era defensor da paz e do equilíbrio, teoria que aplicava aos negócios estrangeiros como aos assuntos internos. Para a sua realização, advertia para o perigo do imobilismo conservador e do aventureirismo trabalhista. Uma política serena, de unidade no essencial, com partilha de responsabilidades era, em suma, a sua solução. Portugal precisa, mais que no passado, desta concórdia e deste embainhar de espadas. Portugal precisa de recobrar a segurança e o ânimo, voltar a gostar de si, pensar as aventuras do futuro. A república atira-o para o passado, para a guerra civil, para a disputa miniatural, para o fulanismo. É por isso que sempre que olho para os nossos príncipes vejo essa possibilidade de recobro do direito que temos ao futuro.Andámos 100 anos a perder tempo ! Nós, os austríacos, os hungaros e todos os poquenos povos que só foram grandes e unidos sob monarquia.

Realismo lírico: amor proletário

Seis da tarde, Banguecoque. Dois trabalhadores da construção civil. Ele cabeceando de sono, um sono semi-acordado martirizado pelos solavancos do carro, pelo barulho do tráfego e pelo calor inclemente do sol. Ela, sem sapatos e com meias de criança, lenço sobre o rosto, dormindo e confiada na mão protectora que a ampara.

21 dezembro 2009

No país onde não há um sorriso

Uma brincadeira inteligente, provocatória e um desafio à fibra de muitos bloguers percorreu este fim de semana a internet. O Mário do Mail de um Louco passou de imediato para a minha coluna de preferidos, pois deu sobejas provas de atrevimento, chegando a aguçada farpa ao reduto dos inconfessáveis medos do "género" que cada um guarda cercado de arame farpado, parapeitos e casamatas. A brincadeira era a seguinte: escrever um mail ao dono de um blogue, pedindo-lhe a cedência do mesmo para conquistar o coração de uma bela Sílvia "de corpo fantástico". O peticionário requeria que uma foto sua figurasse no blogue emprestado e que fossem retirados textos de timbre excessivamente feminino. O que foi o Mário fazer ! Lendo a relação de respostas, ressalta o mais reservado e sombrio diagnóstico:

- Na generalidade, os portugueses não têm sentido de humor e respondem com pedras na mão, julgando que a vulnerabilidade e os fantasmas se defendem melhor com a agressividade.

- Os homens sentem verdadeiro pavor pela feminilidade, mesmo quando esta os poderia favorecer em dotes de sensibilidade e graça. Estranho medo, quando verificamos ser o único país do mundo em que os homens não perdem a oportunidade, uma vez por ano por alturas do Carnaval, para se mascararem de ... mulheres.

- As pessoas com blogues sentem-se importantes, uma ilusão que há muito descortinei nos escritos de quem quer "ser lido", "fazer carreira" e condicionar a agenda. Os blogues são uma brincadeira e disso não passam. Quem os lê ? 200, 300, 1000, 2000 pessoas por dia. O que é isso ? Nada, ou pouco mais que nada.
Ao receber o tal pedido, li-o a uma colega de escola. Riu-se até às lágrimas, mostrando que os asiáticos, ao contrário do que reza a lenda, têm sentido de humor e desinibição que vencem a nossa proverbial desconfiança, ranger de dentes e agastamento ante o desconhecido e o imprevisto. Bom mergulho às "profundidades" da alma portuguesa.

Monteiros e Albergarias em terras do Camboja


Entre outra curiosa documentação que tive oportunidade de localizar nos Arquivos Nacionais do Camboja, encontrei processos completos de funcionários da Coroa e de servidores do Residente Superior francês. Exaustivas folhas de serviço, com apontamentos e notas marginais, correspondência, pedidos de informação, promoções e punições, gratificações e multas, são elucidativa mostra da instalação da modena burocracia e da transição do Estado dinástico patrimonial asiático para o império de Leviatã. Os cambojanos são, desde o século VI, uma sociedade bem ancorada na escrita, atestando a complexidade das suas instituições políticas. Entre algumas dezenas de processos consultados, destacavam-se os de servidores luso-khméres que residiam no país desde o século XVI e ali se mantiveram influentes até à chegada de Pol Pot ao poder. São gerações de Monteiros, Cantos e Albergarias ocupando lugares de relevo na administração palatina e nas sedes provinciais, uns escrivães, outros tradutores, outros ainda secretários, militares, tesoureiros, diplomatas e ministros. Eram homens bem relacionados, como o atestam as cartas de referência, com acesso directo ao Rei e ao Residente Francês, à alta hierarquia católica e, até, com sólidas amizades em Macau, em Singapura e em França, uma minoria que nada mais sabia fazer que servir o Estado.

Ao ler com maior atenção o relatório que Sir John Bowring - governador britânico de Hong Kong e Ministro Plenipotenciário para a negociação de um tratado com o Sião (1855) - publicou em 1857 com o título The Kingdom and People of Siam, encontrei, como outra coisa não seria de esperar, referências a Protuguet que trabalhavam, tal como os seus irmãos luso-khméres, para a corte. Entre eles, o incontornável Pascoal Ribeiro de Albergaria, citado por todas as missões diplomáticas que desde a década de 1820 haviam tocado o Sião. O homem, oficial general de artilharia, teve longa e próspera carreira e, tudo o indica, era também mestre de cerimónias da corte. Encontra-se sepultado num cemitério católico de Banguecoque, sintomaticamente localizado no chamado Ban Khmer (aldeia khmér). Perguntei a um dos seus descendentes, hoje quadro superior do MNE tailandês o que sabia do seu ilustre antepassado, mas não obtive resposta satisfatória.

Ao fim da tarde de ontem, ao chegar a casa, tive um pressentimento, uma daquelas intuições que violam as leis da racionalidade. Se Albergaria estava nas proximidades do ban khmér - poderia ter alguma relação com os khméres portugueses vindos para Banguecoque numa das três vagas de fugitivos cambojanos aqui chegados entre finais do século XVIII e meados do século XIX. Ora, por mero acaso, nos escritos de um diplomata britânico que veio a Banguecoque na década de 1820 encontrei a ligação: Albergaria era luso-cambojano e a sua família estabelecera-se em Oudong - e depois em Phnom Penh - para, em inícios do século XIX, transitar para Sião. Era bisneto de pai português e de mãe anglo-malaia "half caste" de nome Lister, convertida pelo casamento à fé católica. Os britânicos, sempre intratáveis nas desdenhosas apreciações racistas, tiveram por ele respeito imediato. Diziam ser um homem elegante, extremamente inteligente e comunicativo, muito apreciado pelo Rei siamês e altos hierarcas do Estado. Falava siamês, khmér, inglês, português e latim, ou seja, dominava as línguas que lhe proporcionavam um lugar indispensável em contactos com comerciantes, diplomatas e eclesiásticos europeus que passavam pelo reino. No próximo encontro com a família Albergaria de Banguecoque levo-lhes as boas novas. Agora, para além da pedatura siamesa e portuguesa, saberão que lhes corre nas veias sangue inglês e khmér.Estes não eram lançados nem aventureiros, desses "portugueses à solta" e "gente de bandel", semi-analfabetos e rudes que se confundem com a presença portuguesa fora dos territórios administrados pelo Estado da Índia. Eram letrados e, pelos apelidos, pertenceriam a uma pequena nobreza portuguesa que se lançou por mares em busca de nova vida.

20 dezembro 2009

Domingo de um pessimista: da praga humana


A festa acabou em Copenhaga e não deu e nada, como se esperava. Porquê ? Porque o ser humano é, para todos os efeitos, análogo a uma praga: não tem inimigos naturais, mata todas as espécies [vegetais e animais] em processo acelerado de surplus killing e surplus consommation, vive cada vez mais tempo e multiplica-se a um ritmo superior à capacidade que o meio tem em se regenerar. Há quem fale da extinção da espécie, como aquelas pragas de caranguejos e gafanhotos que triunfam sobre todas as restantes e acabam por morrer à míngua de alimento.

Domingo de um pessimista: do verbo contrair

Hoje, falando com um amigo de longa data que teve a gentileza de passar por Banguecoque e almoçar comigo, descobrimos que o verbo contrair só se aplica em três situações: contrair dívidas, contrair uma doença e contrair casamento. Estranho !