18 dezembro 2009

O Príncipe anti-maquiavélico


Não procura o poder, nem a notoriedade, não faz lóbi, não serve plutocratas, tem ideias, é culto e invoca permanentemente a matriz cultural que fez do Reino Unido a grande excepção europeia, pois ali nunca a malfadada revolução - a mãe de todos os totalitarismos - pôs os pés. Isto é o bastante para ser empecilho às aritméticas contabilísticas de quem se vai apossando da liberdade, condicionando e teledirigindo uma opinião pública que age com reflexos condicionados e abre mão das liberdades que fizeram da Inglaterra a Terra Prometida da Liberdade. Trata-se, claro, do Príncipe Carlos, uma das mais vilipendiadas figuras europeias. Pois claro, reclama o ethos inglês, não pactua com o betão, com as deslocalizações, as bolhas bolsistas, as falsas globalizações e "alter-globalizações", é defensor do património natural e do património arquitectónico, diz que a terra é para ser trabalhada, que o mar é para ser lavrado pelos pescadores, que a pequena propriedade, a pequena empresa familiar e o comércio de proximidade devem ser protegidos contra a ganância dos fazedores de proletários - os grandes especuladores, tão nocivos para o mercado e para o capitalismo como os eucaliptos, que desertificam e matam a terra - e um céptico das engenharias eurocráticas.

O DN publica hoje ecos da nova arremetida do dinheiro anónimo contra o Príncipe anti-maquiavélico. Um artigo pouco inteligente, diga-se, atestando a intoxicação e a tirania do opiniarismo que vai matando o jornalismo um pouco por todo o lado.

Ao contrário da falsa ideia instalada, segundo a qual os reis e famílias reais estão reféns de um mero cerimonialismo, os repetidos ataques a Carlos vêm demonstrar o contrário: enquanto houver monarquias, o bem-comum e as fontes que irrigam a Sociedade Civil estão protegidos. Habituados à governação de bufarinheiros, os europeus continentais espantam-se com a ousada liberdade do Príncipe de Gales. Foi para isso que as monarquias ocidentais foram, uma a uma, executadas: para dar rédea solta a habilidosos e desclassificados.Na ilha da Liberdade e das liberdades, a jacobinagem não entrou, como não entraram nem o marxismo nem o nazismo. É isso que os dana !


Vera Lynn: Rose of England

17 dezembro 2009

O puzzle da História Desconhecida dos Portugueses na Ásia


Já tinha visto a bandeira reproduzida em velhas gravuras britânicas do século XIX, mas confesso não me ter despertado curiosidade, pensando não passar de mera liberdade criativa dos ilustradores. Há dias, porém, encontrei numas memórias da última campanha militar inglesa no norte da Birmânia (1885) a fotografia de estandartes capturados nos dias que precederam a queda de Mandalay, última morada da dinastia Konbaung. Lá esta ela, a enigmática bandeira, no chão juncado com outros troféus: uma cruz negra sobre campo vermelho.


Aquela não era, certamente, a bandeira dos reis da dinastia, mas um estandarte militar. Só podia ter a ver com a existência de cristãos nas hostes reais de Mindon e Thibaw. Hoje, ao consultar o melhor sítio web dedicado a vexilologia lá a encontrei, com a seguinte nota de rodapé: "the flag shown here is the standard of the royal artillery who were mainly Christian Portuguese descendants". Depois, bastou compará-la com a bandeira da Ordem Franciscana e lá estava, sem confusão, o símbolo. Como foram os Franciscanos portugueses os primeiros a fixar-se na Birmânia (1660), aquela bandeira era, só podia ser, empunhada por católicos portugueses.

Os artilheiros e sapadores portugueses-birmaneses tiveram longa e respeitada carreira nos exércitos das dinastias Taungoo e Konbaung, resistiram ao passar dos séculos e combateram siameses, malaios, franceses e holandeses, até serem destroçados pelos exércitos britânicos. Nos derradeiros dias de Mandalay, foram a última defesa militar moderna contra os expedicionários do general Prendergast.

O puzzle vai-se fazendo, peça a peça. É fascinante assistir à progressiva definição do nome de Portugal emergindo do quebra-cabeças da investigação. Tudo tem a ver com tudo. Não há registo siamês que não compagine com uma nota, um adereço, uma foto ou um simples pormenor iconográfico cambojano, birmanês ou malaio. Portugal era, ainda no século XIX a bater à porta do século XX, a grande referência inspiradora nesta vasta região entre a Índia e o Império do Meio. Pena que ninguém disso queira saber na definição da nossa política externa e que sigamos, sempre, infileirados no comboio do europês sem memória e sem experiência do mundo.

16 dezembro 2009

Ninguém brinca com a Estrela de David ou com as barbas do profeta

Fosse o profeta ou a estrela da David e Tróia arderia. Mas não. A Igreja Católica não mata, não manda matar, não degola nem lança fatwa exigindo a cabeça dos seus inimigos, daqueles que a insultam e ofendem, dos que a ridicularizam ou, simplesmente, daqueles que se comprazem com pequenas e grandes iconoclastias ditas provocatórias. Provocação a quê, quando se sabe não haver resposta ? Vivemos, decididamente, num mundo hemiplégico. Não há artista, escritor, historiador, politólogo, jurista ou estudioso das religiões que se atreva tocar nas coisas sagradas de judeus e muçulmanos. Há, até, um quase entusiasmo pelo "outro", mesmo que tal implique justificar o injustificável, fechar os olhos à evidência e transigir com práticas sangrentas que ofendem a sensibilidade hodierna de qualquer homem. Há dias recebi, de mão amiga, a imagem que aqui reproduzo: uma Virgem - neste caso Nossa Senhora da Conceição - transmutada em gata e tendo a seus pés três putti instrumentistas. O objecto parece ser a atracção do Hotel Gat, propriedade de espanhóis e situado na Rua Jardim do Regedor, nº 27, ao Rossio. Até já corre pela internet um pedido de reposição da imagem primitiva. A arte é, por natureza, livre e coloca-se fora da tutela do religioso, pois a sacralidade que a ilumina não a obriga a ser anteparo de qualquer sistema de crenças. Contudo, a arte não deve ser um vulgar instrumento de provocação. Quando exposta a públicos que a não procuram e de alguma forma viola direitos consagrados na lei, deve ser retirada para fruição de públicos que a procurem em locais apropriados. É por isso que para a exibição de algumas obras de arte - vide Jeff Koons, vide filmes eróticos - é aplicada legislação preventiva.


Se a Constituição assegura o direito à "criação intelectual, artística e científica", asseverando que "todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações", também assegura que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual". No caso vertente, a colocação da imagem no espaço público viola o Artigo 13º dos Direitos e deveres fundamentais dos Direitos Fundamentais plasmados na lei magna.

Dolorosas novas


Encontrei ontem doloroso testemunho da tragédia portuguesa de 1908. Datada de 15 de Fevereiro - uma semana após o regicídio - assinada por D. Manuel II, a carta anunciava ao Rei Chulalongkorn do Sião o passamento do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Mais que uma breve e protocolar nota informativa, presente-se a dor do novo e jovem monarca ao dar a triste notícia a um chefe de Estado que vivia no outro lado do mundo, mas que tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente em 1897, quando Chulalongkorn por Lisboa passou em digressão oficial. Os arquivos tailandeses estão, como verifico, carregados de testemunhos portugueses, aqui encontrado valiosos documentos que em Lisboa, na voragem de insensibilidade, criminosa incúria e facciosismo se perderam para sempre. Que vergonha ter de vir à Tailândia para encontrar documentação portuguesa, escrita em português e emitida pelo Estado Português.


(...) "As mortes do meu muito amado e prezado pai e do meu muito querido irmão, vítimas de abominável assassinato deixaram-me entregue, bem assim à totalidade da Nação Portuguesa, na mais profunda aflição. (...) O interesse que VM sempre mostrou por toda a minha família é consoladora esperança de que Vossa Majestade tomará uma viva parte na acerba mágoa que me causaram tão cruéis golpes. Chamado n'estas tristes circunstâncias, pela ordem da sucessão e na continuidade das leis do Reino de Portugal, ao trono de meus antepassados, rogo a Vossa Majestade haja dispensar-me os mesmos sentimentos de afecto que dedicava ao Augusto Monarca falecido e de ficar certo do vivo desejo que tenho de estreitar cada vez mais as relações de boa inteligência que felizmente subsistem entre os nossos países(...)".

Dois anos depois, a república era imposta a tiros de canhão e as relações luso-siamesas eclipsaram-se, passando a representação consular para mãos de italianos pelas décadas de 20 e 30, até à chegada de um português nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Portugal perdeu, então, a última oportunidade de manter no Sião o estatuto de potência aliada, a mais antiga e respeitada, que os siameses sempre lhe haviam tributado. O estado de coisas foi tão confrangedor que um dia, por volta de 1911, a polícia siamesa entrou pelo nosso consulado adentro para questionar os residentes a razão "daquela bandeira que ali puseram no jardim". Referiam-se, claro, à verde-rubra que ninguém conhecia e que Lisboa não tivera sequer a sensatez de anunciar aos países com os quais mantinha relações diplomáticas. Coisas do amadorismo de uma república que se vai celebrar !

15 dezembro 2009

Quando morre uma biblioteca

Evitei por lá passar após a comoção do dia do incêndio. Adiei, encontrei todas as desculpas e justificações, entretive-me com outros trabalhos. Hoje tinha de ser. Dois livros requisitados cujo prazo expirara obrigaram-me a ver o que não queria ver. Fui à Siam Society e saí doente. Quase um mês após a tragédia, o edifício fervilha de actividade. Os funcionários, agora sentados em cadeiras de plástico tentam contrariar a fatalidade que sobre a cultura tailandesa se abateu. Uns limpam encadernações, outros vão abrindo as páginas enxarcadas, secando-as uma a uma. Outros, ainda, tentam dar ordem a cem anos de arquivo que o fogo caprichosamente lambeu mas não consumiu. À saída, um prospecto pedindo apoio e solicitando a amigos e sócios estrangeiros da instituição que façam chegar aos seus países de origem o pedido de socorro.
Não sei o que posso fazer. Não tenho amigos influentes, não tenho acesso aos gabinetes ministeriais e não tenho senão a reconfortante e inútil capacidade de dar na proporção dos meus modestos meios. Aqui fica o apelo para quem com esta estimável e lutadora gente queira salvar dezenas de milhares de obras daquela que foi, até 20 de Novembro, uma das mais importantes bibliotecas especializadas sobre o Sudeste Asiático. Ali está, também, o rasto que Portugal deixou por estas paragens ao longo de meio milénio. Se todas as bibliotecas e livros do mundo ardessem, voltaríamos decerto às trevas. Salvar um livro é salvar aquilo que impede a queda da humanidade na animalidade.


Wagner: Idílio de Siegfried. London Philharmonic Orchestra (1938)

Poder Popular a 101,15 Euro o almoço para dois


Otelo é um morto-vivo. Desapareceu há décadas e aflora de quando em vez como assombração. Promete um livro de memórias, é incensado por El Pais e senta-se na mesa onde há o vinho-fuel-da-auto-excitação e da mitomania que o perderam. Tudo por uma centena de Euro o almoço, com sponsor exigindo discriminação dos acepipes em pé-de-página. O Poder Popular tem as costas largas, um bom caderno de amigos influentes, excelentes mecenas e, sobretudo, bom gosto gastronómico. Assim vale a pena falar das misérias do mundo. Em torno de uma boa caranguejada, claro. O que é preciso é avisar a malta.


José Mário Branco: Alerta

14 dezembro 2009

A morte do 5 Dias

Li e reli, não fosse a rotunda sonoridade das palavras ocultar uma elegante parábola. Mas não, pois ali estava tudo quanto de mais desprezível encerra a violência gratuita, aquela que mata o combate político e a guerra das ideias, que faz do ódio uma bandeira, apela aos mais primitivos instintos e justifica o assassínio como modalidade da acção política. O 5 Dias, que sempre li com o maior interesse, não obstante se encontrar nos antípodas da minha sensibilidade estética, era um exercício de contraditório, um colocar-me do outro lado, mas agora tudo isso se dissipa perante a apologia do [anti] poder nu. É o velho fantasma da acção directa, da "propaganda pelo facto", do revolverismo e do dinamitismo - usando expressões consabidas, património das esquerdas ditas libertárias, que sempre acabaram no liberticídio - que assoma na pinchagem de Renato Teixeira. Podia ser uma blague, mas não é, pois provocação - se a fosse - exigia um exercício de retórica. Ali está, sem tirar, a arte da comunicação totalitária, palavras barrando a inteligência comunicativa. Ali está, apenas, oratória, a arte por excelência de todas as tiranias, o analfabetismo dos sentimentos, a proibição do pensamento. Jamais encontrei melhor no género e bate aos pontos o mais sórdido ódio ao humano que em tempos invadiu uma certa blogosfera racista e miserável que o curso do tempo em boa hora, à míngua de argumentos, acareou e levou à extinção. Que diferença, pois, entre o nazismo e este comunismo que se dissimula no à la page das ideias ditas progressistas ?
O 5 Dias morreu hoje.


A Bandeira do Partido (marcha titista)

Os carnicões: o neo-calvinismo McDonnalds ou a América espalhando os seus males


A paranóia moraleirona da ralé micro-burguesa que nestes tempos conseguiu totalitariamente o poder que vale - o da informação à venda -, intromete-se sempre naquela área que nas democracias devia ser intangível: a intimidade, a esfera pessoal. De facto, a coscuvilhice mais sórdida, a porcaria atirada em forma de rotativa betoneira sobre todos os "prevaricadores", consagra um longo caminho que terá as suas origens nos famigerados Pilgrim Fathers do Mayflower. Gente ridícula, sombria, bisonha, má, tacanha e profundamente imbecilizada por crendices sem pés nem cabeça, fundaram os caboucos de uma sociedade que aspira a uma globalização planetáriade de lares submetidos aos ditados de Salt Lakes, reverendos Jones ou de Davides Koreshes mais ou menos exportáveis.