12 dezembro 2009

Anna Leonowens era portuguesa, Drácula também


De Susan Morgan, Bombay Anna é, indiscutivelmente, o desvelar de um mistério que a biografada e sua descendência quiseram sepultar. Bristowe,o maior conhecedor da vida de Leonowens já o dissera há muitos anos: essa Anna não era, não podia ter sido britânica de nascimento. Anna Leonowens, a famosa governanta do Rei do Sião que inspirou o clássico musical de Hollywood The King and I, com Deborah Kerr e Yul Brynner, era, afinal, uma pobre rapariguinha meia-casta nascida em Bombaim. O avô de Anna seria um desses deserdados de poucas letras nascido num qualquer deprimido pequeno mundo rural inglês de inícios da Revolução Industrial que Chegara à Índia sem eira e alistara-se como praça no exército da British East India Company. Ali conheceu na "Cidade Negra" (ou Cidade Nativa) uma rapariga Topass (1) - isto é, euro-asiática católica de ascendência portuguesa - com quem contraiu matrimónio. Desse casamento que teve desfecho na prematura morte do soldado, nasceu Mary Anne, mãe de Anna "Leonowens". Esta, casou aos treze anos com um sargento sapador, mas logo enviuvou. Desse casamento vieram ao mundo duas raparigas, tendo Anna [Harriett Edwards] nascido semanas após a morte do progenitor.


Leonowens construiu várias identidades ao longo da vida. Nas memórias que deixou, afirmou ter nascido em Gales no seio de uma família com cabedais e que o seu pai - "oficial do exército" - a mandara vir logo que concluída esmerada educação. Se Leonowens recebeu alguma educação foi nas escolas regimentais. Viva, curiosa e extremamente inteligente - falava fluentemente quatro línguas e chegou a ser reconhecida como autoridade em sanscritologia - era uma força da natureza. Compreende-se que, ao chegar a hora do triunfo e do reconhecimento - foi sucessivamente preceptora dos filhos de Rama IV do Sião, jornalista-viajante e conferencista, militante da causa abolicionista e no fim da vida uma líder sufragista - tentasse ocultar as suas raízes.
Casou Anna com um homem obscuro, oriundo da classe média irlandesa protestante dizimada pelas fomes de 1840. Este Leon Owens morreu prematuramente. Fora funcionáro público em Bombaim mas quis mudar de vida e candidatou-se a gerente de um modestíssimo hotel em Pinangue (Penang). Ao falecer naquela que era conhecida como a "tumba do homem branco", deixou mulher e dois filhos na maisextrema penúria. Eis uma revelação que Susan Morgan não desenvolve. Pinangue é uma ilha situada no estreito de Malaca. Pertencendo ao sultão de Kedah, foi comprada pela Honorable Company em 1786, passando a integrar as possessões dos Straits Settlements. Ali, o Capitão Francis Light, oficial da EIC lançou os caboucos de uma cidade (George Town). Pinangue era despovoada, pelo que Light trouxe da península malaia muitos "portugueses" de Kedah e Malaca. Casou com uma luso-descendente e Pinangue passou a ser mais um bandel católico das lusotopias asiáticas que floresceram nesta parte do mundo entre os séculos XVI e XIX. Parece que Anna quis apagar esse registo e essa ligação. Nascera em Bombaim no seio do enclave meia-casta católico, mudou-se para Pinangue, uma ilha de luso-descendentes antes de desembarcar em Singapura, a nova pérola da Coroa. Ora, Singapura era, também, uma cidade feita por portugueses. Quando Raffles aí se instalou e içou a Union Jack, convidou muitos luso-descendentes de Pukhet e Malaca, mas também de Pinangue. Parece que tudo bate certo, mas Anna não queria ser tida por católica, muito menos por euro-asiática.


Não se sabe exactamente como se insinuou junto do cônsul do Sião em Singapura, mas se o fez terá invocado o seu nascimento britânico, pois o lugar de professora de inglês dos filhos do Rei requeria uma dama, não uma pobre meia-casta. Compreendo, agora, as amargas, injustas e depreciativas palavras que Anna escreveu a respeito dos luso-siameses de Banguecoque. Queria varrer da memória as suas origens, não se queria com eles identificar. Era um medo profundo esse de poder ser descoberta por aqueles cujo contacto evitava; ou seja, aqueles que lhe lembravam a parte oculta da sua identidade e a sua origem mestiça.


Depois de alguns anos no Sião, mudou de ares e tornou-se uma celebridade dos salões e academias da América do Norte e Europa. Era já Madame Leonowens, rica, culta, influente, pelo que destruiu toda a documentação e inventou uma vida. Um seu sobrinho neto chegou aos píncaros da popularidade. William Henry Pratt passou à história com o nome artístico de Boris Karloff e ainda é, por antonomásia, o Drácula das fitas do cinema a preto e branco. Boris Karloff, sobrinho neto de uma pobre rapariga luso-indiana de Bombaim.
MORGAN, Susan. Bombay Anna: The Real Story and Remarkable Adventures of the King and I Governess. Los Angeles: University of California Press, 2008.


(1) Discute-se a origem do termo Topasse. Alguns, dizem derivar de tupasi, que em Tâmil refere pessoa de duas línguas. Aceitando a palavra dos filólogos, não podemos deixar de encontrar flagrante analogia entre Topasses e "Tropas", cuja corruptela daria "Topass"^(lê-se tó-pás), com plural Topasses. Os ingleses possuiam no século XVIII um entreposto comercial em Bencoolen, na ilha de Samatra. Os soldados mercenários que aí prestavam serviço eram católicos de ascendência portuguesa e eram conhecidos, também, por Topasses. Que relação poderá haver entre um termo tâmil e a Insulíndia ?

11 dezembro 2009

Um grande bluff ou a "ciência" do nada: os estudos do género

A moda pegou nos anos 80 e 90, galgou alto, invadiu universidades e não há quem a consiga impugnar. É uma nova ciência e dá pelo nome de "estudos do género": umas pitadas de sociologice, mais uns grãos de antropologia, salpicos de teologia, borrifos de história da literatura, mais uns grãos de estudos jurídicos e temos um enorme continente. São corredores de biblioteca com obras a trepar até ao tecto, um imperialismo que se vai aboletando nas tradicionais áreas do saber, estilhaçando-lhes a funcionalidade orgânica, misturando tudo e subvertendo a segurança que é arrimo para a cultura.


Hoje passei pela biblioteca da universidade e percorri, abismado, a expansão da nova peste bubónica. Tanto inclinei para a esquerda e para a direita o pescoço, lendo lombadas e puxando sem critério obras que quase fiquei com um torcicolo: A Cultural History of the Fart, Gender and Aging in Mesopotamia, Ancient Maya Women: Gender and Archaeology, Moon, Sun, and Witches: Gender Ideologies and Class in Inca and Colonial Peru, The Essential Body: Mesopotamian Conceptions of the Gendered Body, Poetic Promiscuity in Mesopotamian Ritual, The African Wife of Moses, Mapping Feminist Biblical Criticism, The Book of Ruth and the Possibility of a Feminist Canonical Hermeneutic, A Feminist Approach to the Book of Job, Jesus and Divorce, The Hidden Heroes of the Gospels: Female Counterparts of Jesus, Christ's Birth of a Virgin who Became a Wife, Power Through Bedouin Women, Menstruation and the Power of Yurok Women, The Undeclared War Against American Women, Cooking, Cuisine, and Class, Women's Utopias in British and American Fiction, Where no Man has Gone Before: Women and Science Fiction, Menopause and Culture, The Prison as Gendered Organization.


Depois, atentei nas secções, que subentendi corresponderem às grandes áreas dessa admirável ciência nova: Women's Studies, Lesbian, Bisexual and Transgender Studies, Man’s Studies. Em cada "área de conhecimento", as subdivisões convidaram-me para o mundo espantoso de tudo quanto desconhecia. Nas trinta prateleiras encabeçadas por um orgulhoso "Feminist Studies", identifiquei: Feminist Theory, Gender Relations, Gender and International Law, African Women's Studies, Jewish Women's Studies, Women's Spirituality, Feminist Theology, Feminist Aesthetics, Caribbean feminisms, Women, Development and Administration, Post-colonial feminisms, Critical sexualities, Ecofeminism, Feminist Theory of the State.


Era a ponta do iceberg, pois para cada ramo de "saber" havia reverdescências de fazer espantar um tolo como eu: Reproductive rights, Sexual and domestic violence against women, Holocaust studies on gender, Feminism and film, The Renaissance body, Sexuality and creative writing, Gender, power and politics in Europe, Gender, culture and identity, Gender in the workplace, Gender and education, Gender and reproductive rights, Gender and social anthropology.


A coisa dá milhões. Contam-se pelas centenas os doutoramentos, mestrados, licenciaturas, pós-graduações e cursos de especialização da coisa. Funciona, rende e tem o apoio de grandes e nobres instituições e fundações que vergam servilmente a cerviz perante o novo ídolo. Regressei a casa e percorri, por curiosidade, alguns sítios web destes cursilhos da parvalhização. Parece que a América se quer vingar do Ocidente, onde ocupa um lugar menoríssimo, marginal e quase risível. As excepções, aplaudo-as até me sangrarem as mãos.

Num desses sítios web, definia-se sem ocultações o propósito desta "ciência": "Our mission is to place women at the centre of inter-disciplinary teaching and research about power relations, and to foster knowledge to transform these relations to the benefit of women". Ou seja, não é nem se considera a coisa que um movimento [político], fundado numa ideologia ranhosa que teve a sua piada como marginália para-literária com Simone de Beauvoir e depois, como a folha, caíu murcha e irreprodutível. É uma declaração de guerra à Universidade, uma caricatura de saber e um perigo que, a expandir-se, vai permitir atirar para o fogo tudo o que não compaginar com esse monstro cego. Sem dúvida, uma das maiores trapaças da história da cultura.Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon cœur d'une langueur monotone.Estamos a assistir à morte de tudo o que respeitavamos.



Charles Trenet: Verlaine

10 dezembro 2009

A minha Pai Natal preferida

Já a vi por duas ou três vezes promovendo produtos de beleza no centro comercial aqui da esquina. É a antítese do malfadado, plutocrático e rotundo Santa Claus, a negação da sacralidade do Natal, usado pela Coca Cola e fantoche das urban legends da parvalhização consumista. Esta, sim, é uma verdadeira Pai Natal. As tailandesas são, de facto, bem talhadas para mitos.

Portugueses com canhões de Waterloo fazendo guerra no Laos


Encontrei hoje relevante documentação tailandesa sobre a participação do Corpo de Artilheiros e Engenheiros Portugueses na cataclísmica guerra que os siameses moveram contra o Principado de Lan Chang (actual Laos) entre 1827 e 1828. Já tinha localizado algumas referências nas Lettres de Bangkok, do Padre Bruguière das Missions Étrangères, publicadas nos Annalles de l'Association de la Propagation de la Foi, mas documentos de arquivo do Palácio Real atestando a importância militar dos "soldados cristãos" permitem-nos dar um passo em frente na avaliação da importância que os luso-siameses tiveram nos exércitos siameses até ao terceiro quartel do século XIX. É outra página sobre a História Desconhecida dos portugueses na Ásia que se abre.

Ora, esses portugueses vivendo perto da Igreja da Conceição eram nada mais que o corpo de elite do exército. Não era, pois, nem gente sem preparação - para se ser artilheiro ou engenheiro militar é necessário saber-se matemática e balística - nem simples peões. Viviam separados da restante população, detinham foros e liberdades que os isentavam de trabalho braçal nas corveias reais e sabiam línguas (latim, português e inglês). Quando aqui vieram as primeiras missões diplomáticas britânicas, respectivamente nos reinados de Rama II e Rama III, a Grã-Bretanha dispôs-se modernizar os exércitos de Banguecoque mercê do fornecimento de armas ligeiras de fogo e, depois, peças de artilharia. O Sião foi, nas palavras do Phra Khlang (Ministro para os contactos externos) "inundado de armas pelos britânicos". Os siameses, contudo, delas não sabiam fazer uso adequado, pelo que os conselheiros britânicos investiram fortemente na formação tecnológica da minoria católica luso-siamesa. Com canhões que haviam servido Wellington em Waterloo, estes artilheiros aplicaram pela primeira vez no Sudeste Asiático a tecnologia de fogos concentrados, devastadores sobre exércitos que de tais armas não tinham, sequer, conhecimento. A guerra foi brutal. O Príncipe de Vientiane, Chao Anou, um homem de grande carisma, pensara poder unir os principados Laos e denunciar a vassalidade que o obrigava a enviar tributo anual a Banguecoque. Confiante, deixou de enviar o bunga mas aos siameses, sondou os britânicos para lhes solicitar protecção e iniciou a rebelião, invadindo território siamês, chegando às cercanias de Banguecoque. No momento derradeiro, o Corpo de Artilheiros Portugueses fulminou a investida. A retaliação siamesa foi brutal. Lan Chang foi riscada do mapa, a sua capital destruída até às fundações e a população, por inteiro, transferida para aquilo que é hoje o Issan, no leste da Tailândia.

Nessa primeira guerra moderna, coube aos portugueses a parte de leão. Integrados no Primeiro Exército Siamês no teatro de operações, forte de 85.000 homens e comandado pelo Segundo Rei, tinham por camaradas de armas outra minoria étnica cristã com sobejas provas de habilidade castrense: os japoneses católicos que haviam sobrevivido à tomada e saque de Ayuthia pelos birmaneses em 1767. Deixaram um rasto de destruição tal que, em 1880, os franceses ainda recolhiam memórias da "grande guerra" entre os anciãos laocianos. No fim, Chao Anou foi trazido cativo para Banguecoque, torturado e morto.

O importante disto reside no facto de não se tratar de acontecimentos do século XVI ou XVII. Trata-se de história contemporânea. Infelizmente, em Portugal, só se estuda a Ásia que os portugueses conheceram no tempo de Mendes Pinto e Camões. Uma pena, pois mal sabemos avaliar a importância que nestas paragens tivemos até há bem pouco tempo. A receita, então, é: investigar, investigar, investigar.

Bibliografia disponível:NGAOSYVATH, Mayoury; NGAOSYVATH, Pheuiphanh. Paths to Conflagration: fifty years of diplomacy and warefare in Laos, Thailand, and Vietnam, 1778-1828. New York: Cornell University Press, 1998

09 dezembro 2009

Desabafo anti-mafioso


Hoje celebra-se o Dia Internacional contra a Corrupção. Indignado fico até ao limite quando confrontado com a falta de respeito, o abuso de autoridade e ganância que as camarilhas - todas as camarilhas acolitadas nos partidos, mais lóbis e teias de influência, da direita como da esquerda - exibem perante as leis e regulamentos que estabelecem a indiferenciação dos cidadãos perante o Estado. A abstração e a universalidade da lei, a selecção pelo mérito, os direitos fundamentais e o acatamento das leis promulgadas deixam de valer o que quer seja quando nas mãos de gente que entende a coisa pública como propriedada sua. Para os amigos, o favor, para os outros, a lei. Paguei sempre caro não fazer lóbi, não ter cartão de partido, não carregar a mala do protector. Por isso, bati com a porta e saí. Um dia, talvez, a justiça se erguerá triunfante sobre um povo caído na escravidão. Sebastianista, pois claro, ainda acredito que na 25ª hora um sobressalto de liberdade moverá os corações e inteligências adormecidos e restituirá aos portugueses a cidadania confiscada, abusada e ridicularizada por todos os pequenos e grandes lóbis que nos reduziram a caricaturas.

08 dezembro 2009

Ir ao cinema com Vítor Alves e com a Condição Feminina





Sabe o Eduardo Pitta, que muito estimo e leio todos os dias, que não sou a favor nem contra o governo. No que à política partidária respeita, tenho o direito, após 35 anos, de duvidar de tudo e todos. Contudo, há coisas que ainda me deixam perplexo. O Eduardo anuncia hoje a nomeação de MJS para a direcção da Cinemateca. A MJS é, indiscutivelmente, uma mulher inteligente e culta, muito simpática, conversadora de talento e merecedora de convites desta natureza. Tomara que a maioria dos empregados políticos chegassem aos calcanhares da MJS.Mas eu esperava informação relevante sobre uma cinéfila. Mas não, só vejo um estendal de cargos políticos. É a outra fita que evito ver. Enquanto o regime confundir todos os planos e se mantiver no aquário autista, nada feito. Começo a compreender as terríveis advertências de Rui Ramos sobre a sorte que espreita esta III República. LA CINEMATOGRAFIA È L'ARMA PIU FORTE !


Mamma bisogna vincere (1942)

07 dezembro 2009

Eu ainda vivi na Pré-história: a criadagem


Nota prévia: ao contrário das sociologi[ces] e das "mitodologias", muito assépticas, muito bata-branca e luvas de poliuretano, a vida parece contradizer as racionalizações, acertos e julgamentos à posteriori, não passando aquelas, as mais das vezes, de simples anacronismos. Estas notas não são, pois, manifesto de qualquer visão do mundo, mas simples apontamentos do que vi. É importante o aviso, pois nos tempo que correm há sempre um censor à espreita.


Não havia família que se prezasse que não tivesse criados. Havia-os conforme o nível dos patrões. Em África, criada branca era um luxo, mas o luxo pagava-se caro. Era uma segunda patroa, a comandante dos criados, que por sua vez se estratificavam em moleques, mainatos e cozinheiros, estes últimos verdadeiros sobas que exerciam poder sobre os demais da sua raça. Os criados africanos tinham pedigree diferente. Uns eram uns verdadeiros príncipes, netos ou sobrinhos de reinetes e não se misturavam com os outros. O tribalismo separava-os em níveis distintos de respeitabilidade. Ninguém aceitava ter um M' Chope em casa, pois a casta especializara-se na arte de varrer as ruas das cidades. Trabalho só arranjavam nos serviços camarários. Um criado angoni ou vátua valia uma fortuna. Eram uma espécie de alemães de Moçambique: consideravam-se superiores aos outros, nunca recebiam ordens que não dos patrões e só aceitavam farda diferente.


Fardas, havia-as conforme o nível do criado: calção e camisa castanha alaranjada ou azul para os criados menores, calça comprida e camisa para criados superiores. No fim da era colonial, com o desafogo que se respirava, os criados superiores passaram a recusar farda e vestiam-se com o que de mais caro podiam comprar nos bazares. Tinha um criado que só vestia calças com boca de sino, sapatos de quatro andares e camisas de seda brilhante, isto para o trabalho. Quando saía para passear, levava óculos escuros - de noite como de dia - e transportava às costas um daqueles rádios de dez quilos e som poderoso que apareceram no princípio dos anos 70. A maquineta despejava em altos decibéis marrabentas e música sul-africana pop que se ouviam no quarteirão seguinte.


Depois, os criados tratavam de forma diferente as visitas da casa, conforme a posição que o seu juízo atribuía aos estranhos. Se eram "brancos de segunda" - vendedores, cobradores, "cravadores", como lhes chamavamos - entravam pela cozinha. Porta da frente, só para "senhores e senhoras". Quando o convívio interracial se tornou prática comum, os mistos tiveram problemas. Os negros odiavam os mestiços e não aceitavam que fossem "senhores e senhoras" como os "outros". Se fosse indiano, a cara fechava-se. Nunca vi tanto ódio negro acumulado e tanto ressentimento como aquele que era destinado aos indianos. Se a visita fosse negra, era um problema, um problema muito grave. Lembro-me que um dia o grande pintor Malangatana, amigo dos meus pais, lá foi a casa almoçar. O criado que servia chamou a minha mãe e impôs-lhe condições pouco menores que um ultimato: "se a Senhora me obrigar a servir este preto, vou-me embora". A razão era simples: Malangatana Valente era oriundo de um grupo étnico que o Augusto - Augusto Matavela, de seu nome - considerava inferior à sua pedatura, pelo que obrigá-lo a servir um inferior o sujaria.


O criado de primeira tinha um sonho: fazer a escola primária e ir trabalhar para uma companhia. No dia em que terminou a 4ª classe, o Augusto colocou uma mão dentro da camisa, outra atrás das costas e disse: "agora já sou Napoleão". Era um excelente homem e considerava-se um bom português. Discutia longamente com um vizinho, também criado, as lutas entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa, sabia de cor os reis e dinastias e cantava o tema de Lara com uma letra bem portuguesa: "Je-êe-sus Cristooooo, nasceeeuu'o em Belém". Um dia apareceu fardado. Tinha sido chamado para o Exército e foi cabo.


Dos píncaros da criadagem já falámos. Agora, havia outros, os qua iam para casa dos patrões e aí aprendiam o português. Tivemos um matulão de quase dois metros chamado Eugénio Lombé, mas insistia que lhe chamassem Eugéninho. Tinha a força de um tractor e de um Caterpillar juntos, nunca foi grande na arte das limpezas, nem dos cozinhados, mas era uma boa alma e de fidelidade quase inumana. Era um inocente, com um sorriso de orelha a orelha e a especialidade era levar os meninos à escola. Levava-nos - a mim, ao meu irmão Nuno e à minha irmã Ângela - todos juntos, um às cavalitas, os outros dois em cada braço. Força desta já não há.


O Eugéninho aprendeu o português por frases feitas. Ao princípio, soava a campaínha, ia à porta abrir e perguntava de chofre à visita, antes que esta tivesse tempo de perguntar fosse o que fosse: "boa dia senhor/a, não as deseja pão com doce muito gostosinho ?". Quando veio o 25, o Eugénio ouviu demais o que se propagava pelos bairros da periferia. A minha mãe perguntou-lhe: "Eugénio, se um dia pessoas más quiserem matar a senhora e os meninos, o Eugénio fazia mal à senhora e aos meninos ?". Resposta: "minha senhora, se eu matasse a senhora e os meninos, matava depressa para não fazer mal".

06 dezembro 2009

Muralha de aço e convicções protegendo o trono: 929 manifestações em simultâneo



As celebrações de ontem estenderam-se por todo o país e um pouco por todo o mundo onde existem comunidades tailandesas. Pela primeira vez, todas as confissões religiosas estiveram representadas ao mais alto nível no palco onde se concentrava o governo, os deputados, chefias militares e reitores de todas as universidades; ou seja, todas as potências do espírito e do serviço da comunidade ante a plutocracia da usura e da extorsão. Ainda hoje pairava sobre Banguecoque a monumental solenidade do acto de afirmação patriótica.