28 novembro 2009

Caiu outra praça forte da parvalhização

Sabia há muito que Las Vegas era a capital do dinheiro novo e da idiotia multimilionária. Ali servem-se hamburger's acompanhados de french fries, regados com Bordeaux, a 6000 dólares; ali há hotéis onde a pernoita chega aos 40.000 e o pequeno-almoço de corn flakes se sorve com champanhe. Ali vão tolos de todo o mundo beber o Ménage a Trois, cocktail que orça os 3.000 dólares por copo, passear-se nas limousines de oito rodas a 2.000 dólares por hora, comer o caviar Beluga a 5.000 dólares o frasco ou aspergir-se com o Kona Nigari, água retirada das profundezas do oceano. É um verdadeiro mostruário, exaustivo e grandioso, das infinitas possibilidades que o ser humano atinge após porfiado esforço para se rebaixar. Las Vegas foi o ícone - como está no moda o palavrão - da "cultura popular", do hórrido, do sem-gosto, do reles que não consegue atingir os calcanhares do Kitsch.

Há cerca de uma dúzia de anos, o Dubai começou a ser falado com um fascínio digno de suspeita, pois os seus entusiastas eram, sem tirar, a gentuça que povoa os programas da CNBC, do Bloomberg e da CNN, com a sua gritante alarvidade, cupidez pelo negócio e desbaratamento da inteligência. Em 1900, eram 10.000 pessoas vivendo em tendas esburacadas, alimentando-se de tâmaras e uns peixes que davam à costa. Em 2005, eram mais de um milhão entregando-se a prodigiosas actividades ciclópicas de construção, a especulação bolsista, indústria de entretenimento e ao ocioso malbaratamento dos recursos petrolíferos. Ali chegavam milhões de turistas, não para a aventura do deserto e das praias, mas para os mais caros restaurantes, as mais caras lojas, os mais sofisticados hotéis do mundo. Ali tudo atingiu o gigantismo de que o mentecaptismo se serve para compensar a criatividade: o Palm Jumeirah, o Wadi Waterpark, uma Disneylândia arabizada, o Burj Dubai, a mais alta torre do mundo, o Hydropolis, o primeiro hotel subaquático do mundo, The World, uma constelação de ilhas artificiais cujo conjunto realiza a orbe terrestre, o Snow Park, o maior complexo mundial de pistas de ski em gelo. Uma fantasia sem graça, o símbolo maior da parvalhização e do sonho de uma aldeia global povoada de ricos patetas e patetas ricos.

Era, até ontem, a "cidade global". Tudo se desmoronou numa noite. Outras seguir-lhe-ão as pisadas. Estou para ver como reagirão os business first à derrocada de outras Mecas e Jerusaléns da religião do dinheiro. E quando Singapura, o mais civilizado reduto da parvalhização, seguir o exemplo do Dubai ?


Al Jolson - Toot Toot Tootsie Goodbye

DR. JIN GUO PING, CADASTRO DA VIRTUDE

Está a tipificar-se na sociedade portuguesa publicar torpezas por dinheiro, vender denegrimento de personalidades admiravelmente nobres, pela necrose moral do dinheiro ao serviço dos interesses de quem o maneja. Ter cadastro, na China controleira, policialesca, persecutória, em demasiados casos é o mesmo que tê-lo tido no velho império comunista de leste, onde se prendiam e eliminavam activistas por actividades "subversivas" contra o Povo e o Estado, se subverter for lutar pela liberdade, detrair a opressão. Deveria haver decoro e capacidade de resistir, como Aristides de Sousa Mendes. Como Jin Guo Ping! Cumpre-nos resistir à sordidez plutocrático-regimental instalada em Portugal porque resistir é um direito e um imperativo patrióticos. No Palavrossavrvs Rex.

27 novembro 2009

Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa para Jin Guo Ping


É tempo de atribuir a Jin Guo Ping aquela que é a mais importante distinção honorífica que testemunha a continuidade histórica de Portugal. Aqui fica o meu apelo a SAR, o Senhor Dom Duarte de Bragança.


BEETHOVEN: Sinfonia No. 3 in E-flat Maior, Op. 55 "Eroica".
New York Philharmonic. Bruno Walter

Vitória total sobre a rataria da nova inquisição


Fonte muito próxima da residência oficial do Chefe de Estado informa-me que o Professor Cavaco Silva recusou liminarmente a possibilidade de reverter a atribuição da Ordem do Infante a Jin Guo Ping. Desde ontem, o agraciado tem recebido inúmeros protestos de admiração e solidariedade por mais esta arremetida da polícia política da China comunista e seus estipendiados. Outra fonte seguríssima assevera que a campanha foi congeminada a partir de Macau por gente sem qualquer crédito académico, as mesmas que têm recebido fundos da RPC para realizar a anti-História de Macau e satisfazer as mirabolantes teses do mais estreito nacionalismo chinês, agora cavalo de batalha legitimador de um regime caduco e medularmente corrupto. O inimigo foi desbaratado. Vamos, agora, passar à ofensiva. Aguardem ! Chega de contemplações com os bandidos.

26 novembro 2009

Jin Guo Ping


A ralé plutocrática a soldo de Pequim: o ataque ao Dr. Jin Guo Ping. Só no Estado Sentido.

A nossa imprensa do copy-paste gosta de viajar, de convites e de cocktails. Pouco se lhe dá se os métodos persuasivos de Pequim obedeçam à velha e conhecida cartilha do dr. Goebbels e que tão pressurosamente foi copiada pelos sátrapas do Kremlin. Quem fez o servicinho ao PCC, decerto terá um envelope à espera. Com um bilhete de avião, reserva marcada em hotel de luxo, com p... à disposição. Entre uma visita à Grande Muralha e outra ao Palácio de Inverno, umas comprinhas no centro comercial. Que sacanas!

E ainda, no AVENTAR:

Nem passaram vinte e quatro horas desde a condecoração do Dr. Jin Guo Ping e já se erguem as mesmas vozes dos "jornais de referência", fazendo um favor à diplomacia de Pequim. O mundo das negociatas e o franzir de sobrolhos dos mandarins que trocaram os maoístas pijamas verdes pelos globalizantes fatos cinzentos "Arremani" ou "Vézatche", podem, porque pagam.
Como patriota, orgulhar-me-ia imensamente, se o dr. Ping recebesse a única Ordem portuguesa, que a par da Ordem da Liberdade, não consiste numa condecoração mutilada: o Rei bem podia atribuir-lhe no próximo 1º de Dezembro, a Ordem de Vila Viçosa! A Portugal fazem falta muitos intelectuais e amigos deste gabarito.
Que vergonha, esta humilhação pública de quem tem sido ao longo de décadas, um estrénuo defensor da portugalidade, fazendo ruir as fantasiosas construções anglo-saxónicas que os ventos de loucura midesca de Pequim bafejam benevolentemente!

O comunismo continua a uivar


Ontem aqui noticiei a justíssima atribuição da Ordem do Infante ao Doutor Jin Guo Ping. Hoje, o Público transcreve notícia da TSF aludindo ao envolvimento do académico numa suposta rede de imigração clandestina destinada aos EUA, cujo julgamento em 1994 terminou com a condenação de Jin Guo Ping a quinze meses de prisão. A pena foi suspensa.Leio nos jornais e blogues - nos da direita que investem irracionais como o touro ao pano vermelho, nos de esquerda, sopeiros de tudo o que cheire a pestilência comunista - os julgamentos mais severos a Jin Guo Ping, sem nunca se questionarem sobre a súbita divulgação de um velho caso judicial irrelevante.

Eu sabia que algo se preparava. Explico. Na cerimónia de atribuição da ordem a Jin Guo Ping, foi notória a ausência de qualquer funcionário da representação diplomática chinesa em Lisboa. Porquê ? Pois, Jin Guo Ping não é comunista e ofereceu testemunhos de grande coragem quando, em 1989, o regime de Pequim esmagou em Tiananmen o movimento democrático de libertação. Há mais. Jin Guo Ping, ao contrário de alguns académicos portugueses indignos do nome, nunca trabalhou para a secreta chinesa, nunca escreveu por encomenda para a fabulosa e falsa pseudo-historiografia chinesa, nunca atacou Portugal. Sabemos de fonte segura que alguns "sinólogos" portugueses receberam durante anos subvenções do governo de Pequim e, para o conseguirem, submeteram-se às mais vis indignidades. Uma destas académicas mediocridades chegou a extremos de traição, indo repetidamente a sessões pagas pelo Estado chinês para atacar, difamar e ridicularizar Portugal.

Portugal é, notoriamente, um país mal frequentado. A velha tradição do esbirro, do informador, do boateiro e do difamador continua a fazer escola numa terra que foi um dia da Inquisição, para logo de imediato se transformar num jardim pinamaniqueiro.

Eu não conheço pessoalmente o Doutor Jin Guo Ping, mas todos os que com ele trabalharam são assertivos no que à sua integridade e dignidade respeita. Jin Guo Ping, ao contrário de tanto tratante, tem obra e é essa uma das razões para tanto ódio. Há não muito tempo, a URSS e sua criadagem recorriam aos mesmos sórdidos expedientes para desacreditar dissidentes do Paraíso de arame farpado e castração mental que era o auto-proclamado mundo socialista. Hoje, cabe à China do regime de negócios sórdidos e trabalho escravo - que tantos apoiantes conta entre os plutocratas - recorrer aos mesmos processos. Há sempre um desesperado indigno de exibir o bilhete de identidade português à espreita da oportunidade para oferecer os favores a uma embaixada que paga regiamente a todos os desgraçados que a ela vão vender o preço da traição a Portugal. É o velho lixo quimicamente puro, as fezes das fezes que não merecem outro sentimento que o da piedade. Ao que as pessoas que não prestam se prestam !

Vá, camarigueiros, continuem a trabalhar para o inimigo.

Era o que faltava o Estado legislar sobre a vida, o amor e a felicidade


No seguimento de um texto que aqui assinámos sobre a direita, o nosso Corcunda publicou na sua tribuna réplica, lida com a maior atenção. Ora, um outro confrade da blogosfera, igualmente merecedor do melhor crédito, respondeu-me (v. comments) e enumerou questõs que estimo relevantes e oportunas, como outra coisa não seria de esperar do Afonso Miguel. Da minha tréplica, aqui fica transcrição integral.

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"O caro Afonso Miguel - que leio sempre com o maior proveito e interesse - infelizmente não vive numa monarquia. Ora, eu vivo e sei que da simples existência da coroa decorre uma cascata de comportamentos que são por ela inspirados. José Maria Pemán escreveu que no dia seguinte à implantação da república em Espanha, foi ao jardim do palácio real e encontrou dezenas de fulanas vendendo-se no peripatos. Se ao invés de nos deliciarmos com justificações de natureza transcendente, nos abeirarmos da sociologia das instituições e da psicologia política, talvez sejamos capazes de explicar a necessidade de uma restauração portuguesa, que tem de ser monárquica. O Afonso Miguel sabe, também, que nacionalismo e monarquia foram, em boa verdade, coisas diferentes; diria que na sua génese foram opostas, posto que o nacionalismo se fundava numa idealização da nação (Schmidt, para não citar autores cosmopolitas)e logo requereu a existência de um Estado que reproduzisse (por inculcação e integração) uma certa ideia de nação. Em boa verdade, esse nacionalismo foi uma escola literária. Ora, a monarquia não é uma ideologia política e é, em todo o lado onde subsiste, forte elemento moderador e agente promotor de consenso. Por consenso entendo a preservação do mínimo político que torna possível a existência de uma comunidade política organizada em Estado. O Afonso Miguel terá de me explicar o que é Portugal, pois tenho para mim que muito do que se diz em nome do nacionalismo contraria, afinal, a ideia que eu tenho de Portugal. Talvez me engane, mas o "nacionalismo português" é ou tem sido, desde finais do século XIX, um dos principais agentes de descaracterização nacional, sempre a reboque das últimas novidades de Paris, Berlim ou Roma. A última deriva deu no que deu e disso não quero falar.Se o caro Afonso Miguel ler o que escrevi (faça-o sem reflexo condicionado) deduzirá o seguinte: a direita, amiúde incapaz de pensar, atira-se a todas as causas menores como touro a pano vermelho. Ou não pensa o Afonso Miguel que tanto frenesi sobre assuntos que não podem ser referendados nem atirados à massa como aprisco esconde, afinal, a inteligente capacidade do regime em entreter, divertir e esgotar o calendário, evitando que questões bem mais relevantes sejam colocadas ?Se o sim-sim, não-não a que alude for arrimo da existência individual, estou plenamente de acordo. Contudo, a luta política não se reduz à soma dos indivíduos que nela participam. Diria mesmo que é quase estranha aos indivíduos e que possuiu força de inércia e coerência à qual um homem não pode fazer frente. Quando tal acontece, lavra o testemunho da sua exclusão. Foi o que eu quis dizer, talvez de forma atabalhoada. Participar na vida política implica, pois, fazer cedências, saber o que se passa e que questões são relevantes, escolhendo aquelas onde reside o interesse de Portugal. O interesse de Portugal está, à cabeça, no entendimento que devemos ter da sua história e da sua singularidade."

Miguel Castelo Branco

25 novembro 2009

Um grande português: Jin Guo Ping

Em cerimónia que teve lugar no Palácio da Independência e contou com a presença de Mota Amaral, foi ontem agraciado com a Ordem do Infante o Doutor Jin Guo Ping, reputado historiador das relações luso-chinesas e luso-nipónicas, sendo-lhe também reconhecida autoridade nos domínio da cartografia e da história marítima e ultramarina chinesas.
Graças a Jin Guo Ping, a historiografia sobre Macau sofreu importantes avanços, deixando de ser um dado lateral e singular. Graças a JGP, a sinologia em Portugal, durante tanto tempo entregue a curiosos, ganhou relevância académica. Jin Guo Ping tem sido também, nos últimos anos, um irredutível censor das mistificações de Menzies. Trabalhando sobre fontes documentais primárias chinesas, conhecedor profundo dos arquivos portugueses e senhor de vasta erudição, Jin Guo Ping tem-se destacado como tradutor de textos literários e historiográficos portugueses. Pelo muito que tem feito pela divulgação da cultura portuguesa na China e pelo entusiasmo demonstrado por tudo o que toca às relações seculares entre o nosso país e o Extremo Oriente, este galardão mais que merecido é a confirmação da cidadania portuguesa e de um profundo amor a Portugal. Jin Guo Ping é, assim, um bom, leal e dedicado português.

23 novembro 2009

A direita ibérica


Uma certa direita ibérica especializou-se na defesa de todas as causas menores que julga indiscutíveis; logo, auto-excluiu-se do debate político, perdeu direito de cidadania e remeteu-se para o orgulhoso, mudo e casmurro pequeno mundo onde se repetem à exaustão os mesmos argumentos sem nunca lhes aquilatar o eco, recepção ou mesmo a pertinência. O debate político requer flexibilidade, capacidade para compreender o que os outros querem e nós não queremos, exige risco sem aventura, temeridade sem quixotismo, pelo que quem nele não participa está condenado a assistir ao cortejo dos acontecimentos sem neles poder intervir. Alguma direita ibérica tem sido, desde 1820, a maior inimiga dos "valores de conservação", pois opondo-se a tudo, nada pode corrigir, atenuar ou estacar. Foi contrária a qualquer arremedo de texto constitucional, mesmo que em forma de Carta; foi contrária à separação, mesmo que essa separação fosse selada por um compromisso concordatário que libertasse a Igreja de funções bem pouco religiosas e lhe destinasse um lugar destacado enquanto vector da educação e com plena liberdade de acção na missionação ultramarina; foi contrária à monarquia liberal, abrindo as portas à república; foi absolutamente intransigente na abertura dos regimes autoritários num momento em que era possível uma transição que ela [a direita ibérica] poderia controloar; foi totalmente insensível ao problema da anulação civil do matrimónio, como o foi ao tema das autonomias regionais, da adesão à CEE e do serviço militar obrigatório. Ultimamente, já privada de qualquer arrimo, deixou-se enredar nas polémicas moralonas sobre a interrupção da gravidez, da liberalização das drogas e das uniões de facto, questões sem cor política e merecedoras de uma longa e sempre útil discussão em sedes outras que não a tribuna jornalística, os comícios e os referendos, onde o ruído da rua, irracional e sempre exaltado, acaba por vencer.

Fosse esta direita ibérica e ainda se discutiriam os benefícios da escravatura, da pena de morte e da tortura, dos autos-de-fé e da censura, a Inquisição, o celibato das enfermeiras e das professoras primárias, o morgadio, a bastardia de jure e outros temas que hoje estão remetidos para os arquivos históricos. A direita ibérica vive fora de tudo e impressiona-se pelo acessório, pelo que o fundamental passa-lhe ao largo. Ainda não compreenderam que é preferível a monarquia - qualquer monarquia - à mais elaborada república, que é preferível ensinar-se o latim nas escolas que vez de combater o comunismo, que não deve diabolizar causas enterradas como a descolonização e a "independência do Brasil", mas sim aderir a uma ideia de fraternidade lusíada fundada em soluções factíveis, que pode aperfeiçoar o sistema representativo, enxertando-lhe outras formas de representação especializada - chamem-lhe corporativas ou medievais - sem contudo se opor à democracia, que a defesa da vida é um combate generoso por aqueles que não têm voz para se opor à cultura da morte, que se deve lutar pelo direito à felicidade e ao amor sem encontrar cabeças de turco. E assim me estenderia por páginas. Mas não, a direita ibérica só se inflama com sexo e nestas questões cumpre à justa o que os adversários lhe pedem: que seja moralona à perliquiteques, que diga aquilo que aos mais educados e inteligente surja como acabadas e rematadas patetices; em suma, que seja o boneco perfeito da estupidez, muitas vezes maldosa, o advogado do diabo e a caricatura da coerência. Sendo contra tudo, acaba por perder em todas as batalhas, recontros e escaramuças. A direita ibérica é como a caricatura de Lola Montéz: carrega às costas, vitoriosas, as ideias que diz combater.