21 novembro 2009

A fragilidade dos livros


Ontem estive todo o dia deprimido. Pela televisão recebi a tremenda notícia: o edifício da Siam Society fora tragado por um incêndio devastador. Ao longo dos últimos dois anos, a Siam Society foi uma segunda casa. Ali passei milhares de horas naquela que é uma das melhores bibliotecas especializadas em bibliografia e documentação sobre o Sudeste-Asiático e recebi sempre dos funcionários e dirigentes um caloroso acolhimento e apoio. Para minha casa trazia todas as semanas uma ou duas obras requisitadas, livros raros, comprados um pouco por todo o mundo - em espanhol, francês, inglês, italiano, alemão e até português - por esse grupo de animadores e entusiastas do património histórico e cultural siamês que tem mantido a Siam Society desde 1905. A história cultural contemporânea do país cruza-se com a instituição. Ali passaram ao longo de um século os mais autorizados investigadores estrangeiros, ali se reuniram, realizaram palestras e escreveram obra os mais influentes homens de cultura da Tailândia. De repente, num ápice, um fogo propagou-se e ameaçou de morte tanto labor e dedicação.


Recomposto, liguei a uma das dirigentes e ofereci os meus modestos préstimos. Como sou bibliotecário, talvez precisassem do meu contributo. Disseram-me que por lá passasse hoje após o almoço. Fui encontrar o belo edifício ainda fumegante, telhados contorcidos, paredes desfeitas e o jardim transformado num lodaçal pelas mangueiras dos bombeiros. Perante o desastre, revelou-se-me, uma vez mais, a nobreza dos thais. Os funcionários da Siam Society transformaram um alpendre em escritório e ali estavam registando telefonemas, recebendo obras requisitadas, informando os sócios e listando donativos. Esta gente tem um grande coração e uma enorme capacidade para fazer frente a desafios como este. Julgo que é em momentos de adversidade que as pessoas se revelam. Não vi pieguices nem lágrimas. Rostos compenetrados e sérios, palavras mansas mas decididas, projectos por realizar, ideias para o futuro, foi tudo quanto vi e ouvi nesta visita fúnebre aos despojos da Siam Society. Perdeu-se a livraria, os escritórios e toda a documentação ardeu, mais computadores, impressoras, mobiliário, bases de dados, a revista que aguardava lançamento, pinturas e esculturas.


Felizmente, a grande biblioteca, mais a mapoteca, os manuscritos e a hemeroteca sofreram danos leves. O fogo, irracional e caprichoso, escolheu coisas menores. Um frio de regelar, húmido e pestífero das cinzas flutuantes, invade a biblioteca. Sobre milhares de obras caiu um pó negro como um crepe sobre um cadáver. Aquilo que demorou cem anos a fazer quase morreu em vinte minutos. Lembro os dias felizes que ali passei, no conforto da bela sala de leitura, lembro a brilhante conferência que o Professor Vasconcelos de Saldanha ali proferiu em Março passado, o calor dos aplausos e o entusiasmo por ali ressoar o nome da velha aliança que une desde 1511 Portugal ao Sião.
Portugal poderia, na medida das suas possibilidades, oferecer-se para engrossar o número de países e instituições que já exibiram consternação pelo trágico evento. Por mim, estou disposto a trabalhar graciosamente em qualquer projecto.

20 novembro 2009

1979-2009: trinta anos sobre o fim da Rodésia



Um exército composto por 80% de efectivos negros, comandado por negros. Administração pública integrando 90% de quadros superiores negros. Universidade e escolas politécnicas maioritariamente negras. A maior renda per capita do continente, o maior índice de desenvolvimento humano, a maior taxa de literacia, o maior número de estações de rádio e jornais de África. O maior número de pequenas empresas e explorações agrícolas do hemisfério sul. A menor taxa de mortalidade infantil. O maior exportador de cereais da África Austral. Essa foi a Rodésia. Hoje é o Zimbabwe e tem por presidente quem sabemos. Passaram trinta anos; ou antes, regrediram 500 anos. É necessário dizer a verdade, doa a quem doer.

19 novembro 2009

Coisa assim não se via desde os gloriosos dias do Japão imperial

Na Tailândia continua a vaga de grandes actos de afirmação nacional. Para ilustração - porque há sempre quem não queira acreditar - aqui ficam dois apontamentos, respectivamente de Samut Songkram (Porto de Guerra), no Golfo do Sião e Ranong, no extremo-sul.




18 novembro 2009

Da cultura e do cosmopolitismo

Richard Zimmler diz que encontrou um Portugal quase medieval, fechado e bisonho, quando no Porto desembarcou em 1980. Passaram vinte e nove anos e confessa ainda não escrever em português, nem tão pouco se interessar pela literatura portuguesa. Estranha contradição a deste nosso concidadão - possui nacionalidade portuguesa - que lamenta não receber convites do Ministério da Cultura, pois considera-se, ele também, um escritor português. Lembro que as duas obras de Zimmler versam temas que são, por si, a assunção da sua auto-exclusão: o Cabalista de Lisboa e, recentemente, Os Anagramas de Varsóvia. No fundo, as críticas que faz aos judeus e à sua absoluta incapacidade para compreenderem as lições da história, aplicam-se, sem tirar, ao nosso Zimmler.

Ora, eu estou num país estrangeiro, cuja nacionalidade não quero nem pedirei, mas faço o sacrifício diário de falar a língua deste país. É esta a diferença entre o português e a generalidade dos estrangeiros, sobretudos aqueles que entendem o inglês como um Esperanto. Ficam sempre de fora, incapazes de comunicar com o povo entre o qual vivem, condenados à leitura dos jornais locais em língua inglesa - que só dizem aquilo que o estrangeiro auto-segregado quer ler - e reduzidos a locais onde se falam o inglês. É o fado do gueto: viver numa sociedade sem a compreender e ter como interlocutores meia dúzia de pessoas que mentem sistematicamente por delicadeza. Aprendi-o com os alemães: dizem em inglês aquilo que julgam compaginar com uma certa ideia de bom-senso e dizem em alemão aquilo que pensam. O cosmopolita não é cidadão de pátria alguma. Finge que está integrado, mas ao chegar ao supermercado não sabe pedir à empregada da frutaria um simples alperce.

17 novembro 2009

Revolução de Veludo, revolução europeia

O colapso do comunismo na Europa foi mais relevante que a Revolução de Outubro. Foi-o, porque partiu da imensa maioria do povo e não de uma minoria armada. Foi-o, porque desenvolveu-se num momento em que alguns ingénuos, ainda presos do fascínio e intocabilidade do comunismo - o grande mito, a grande mentira - pensavam ser possível uma via "socialista para a democracia", "um comunismo de rosto humano " e um "regime socialista de mercado", os mesmos que advogavam o direito da RDA a Estado diferenciado da RFA, que consideravam sacrilégio chamar S. Petersburgo a Leninegrado, que persistiam em dourar Estaline e negar a evidência da absoluta coincidência entre a natureza da distopia comunista e do nacional-socialismo, argutamente explanado por Alain de Benoist em Comunismo e Nazismo.

A revolução europeia de 1989, que muitos ainda negam como facto histórico da maior relevância, quiçá dos mais importantes da história, não atingiu plenamente os seus objectivos - o julgamento do comunismo como doutrina iníqua, o julgamento dos responsáveis pela morte metódica e industrial de mais de 3o milhões de pessoas na Europa - nem reconheceu o seu maior artífice, o Papa João Paulo II, sem o qual nada teria acontecido.


Em Frente para Encontrar o Sol