14 novembro 2009

Dores de dentes da parvalhização


A primeira parvalhização anunciou-se no Great Gatsby (1922), terminou em 1929 com banqueiros atirando-se dos arranha-céus da Wall Street, deixou rasto de medos e monstros em King Kong (1933) e persistiu como pesadelo até finais dos anos 60 em Os Cavalos Também se Abatem. Terminou com Hitler como chanceler e com a deriva socialista de Roosevelt nos EUA, à mistura com muito Al Capone, John Edgar Hoover e Himmler. Epílogo: o triunfo militar da URSS e o embelezamento do comunismo, o ópio do século XX.

A segunda parvalhização anunciou-se no Código Da Vinci (2003), explodiu em 2008 com a pirâmide de Madoff e deixa o patético 2012. Dizem os peritos que a crise está lá e que os seus efeitos se prolongarão por muito tempo. Cansados de guerras inúteis, os ocidentais vingam-se agora em todas as questões relacionadas com o sexo. É o regresso do falso moralismo e do beber até cair para o lado que faz as delícias dos Savonarolas de algibeira. Terminará tudo isto com a chegada de um novo tipo de homens providenciais ? Aguardemos a chegada de Tempos Interessantes, segunda parte.

13 novembro 2009

Fervente patriotismo: grandes comícios monárquicos. Dedicado a todos os cépticos da fórmula monárquica.


"Wella sip pét narikáa" (quando tocam as seis da tarde) a Tailândia pára durante três minutos. De norte a sul, multidões a perder de vista, empunhando bandeirinhas de papel, reunem-se na praça principal de cada capital de província para cantarem o hino nacional, precedido por uma velha marcha patriótica dos anos 40. É gente de todas as condições e etnias unidas em torno do Rei. O governador de cada província, secundado pelas chefias militares e policiais, pelas organizações profissionais, estudantes, funcionários públicos, dignitários religiosos, camponeses, operários, escuteiros e ONG's suspendem por minutos as suas actividades e dedicam o momento em que o sol se põe ao homem que na paz e na guerra, desde 1946, é o mais acabado exemplo do serviço à nação. É impressionante, mas é verdade. As províncias disputam o prémio do maior comício patriótico. Apenas são proibidos símbolos partidários, pois a nação ultrapassa todas essas ninharias. Nada do que vêem é postiço, arregimentado, obrigado. Aqui não houve comunismo nem haverá plutocracia. Convido os meus leitores a percorrerem a dezena de vídeos que ofereço à V. consideração para que avaliem da fibra desta gente. Um bom exemplo. Tivessemos gente assim e Portugal seria outro.


Payaw, do Laos tailandês ou antigo Reino de Lanna.


Pangnha, no Mar de Andaman, província com forte presença muçulmana.


Pré, no extremo-norte, maioritariamente habitado por "Povos da Montanha".


Yalá, província muçulmana. Comício ameaçado com atentado bombista pelos terroristas islamitas.Ninguém faltou à chamada. De notar, entre a assistência, a presença de elementos "negritos" pertencentes à minoria australóide Sakhay, população primitiva da região.


Róy Ét, que foi nos anos 60 um dos santuários do comunismo. Aqui foram travados os grandes combates entre as milícias reais e os guerrilheiros vindos do Camboja e Vietname.


Ratchaburi ("Cidade do Rei"), no extremo-norte da península malaia, com forte minoria muçulmana.


Nakhon Sawan, província do oeste.


Nakhon Pathom, uma das mais ricas províncias do país, uma província bem "amarela".


Buriram, província da Tailândia profunda e rural, perto do Camboja. Sem dúvida, uma das mais belas regiões do velho Sião.


Phuket, a velha Janselão, com o maior índice de desenvolvimento humano da Tailândia.


Rayong, no Golfo do Sião, um dos bastiões da Igreja Católica na Tailândia.

12 novembro 2009

Camboja e Tailândia, Thaksin e Hun Sen


Perguntava-me anteontem o meu pai através do telefone se eram fundamentadas as notícias alarmantes [e alarmistas] sobre a disputa entre a Tailândia e o Camboja poderem degenerar numa escalada conducente a um confronto militar entre os dois estados. Como aqui um dia dissemos, um conflito armado de grande intensidade está fora de causa, tamanha é a desproporção de meios e força entre os dois países. A ocorrer, o Camboja não poderia oferecer senão uma resistência simbólica, pois as Forças Armadas - terrestres, aéreas e navais - tailandesas são consideradas por todos os analistas as mais bem preparadas e apetrechadas da região, posto que os dispositivos militares do Vietname, Camboja e Laos ainda assentarem em tecnologia soviética e chinesa dos anos 60, estimada obsoleta.
A tensão entre a Tailândia e o Camboja expressa-se em níveis diferentes, com raízes profundas que remetem para a história do Sudeste-Asiático dos últimos três séculos, às quais se deve associar a delicada situação política interna cambojana contemporânea.


O Camboja e o Laos tal como hoje os entendemos nasceram de um artifício da política colonial francesa. Desde o início do século XIX o Camboja era um Estado vassalo do Sião, os seus príncipes eram educados em Banguecoque e, depois, ascendendo ao trono, eram confirmados pelo rei siamês. Tinham, coadjuvando-os, ministros nomeados pelo rei do Sião, não possuiam diplomacia autónoma nem podiam desenvolver iniciativas militares sem prévio assentimento de Banguecoque. Os reis Cambojanos sentiam-se integrados na politéia siamesa e eram reconhecidos pelos seus como reis. O poder regional que se opunha ao Sião era o actual Vietname. Aproveitando-se do colapso de Ayutthaya (1767), os vietnamitas iniciaram em finais do século XVIII um movimento expansionista para Sul que se saldou pela incorporação definitiva da Cochinchina e do Champá no seu império. Este movimento foi interrompido pela revolta dos irmãos Tay Són, que convulsionou o Vietname até 1802. Com a chamada restauração Nguyen, acentuou-se a expansão. O Champá, hoje no Vietname, fazia parte da esfera de influência cambojana e foi anexado à Cochinchina, província meridional do Vietname. Depois, nos anos 20 do século XIX, o Vietname invadiu o Camboja e quis transformá-lo numa província, impondo-lhe o modelo de governação, a língua e até o confucionismo como doutrina de Estado. Uma revolta khmér anti-vietnamita levou à intervenção siamesa. A guerra prolongou-se por quase trinta anos (1820-1850) e saldou-se pela reposição do status quo ante bellum, ou seja, ao retorno do "Camboja" à esfera siamesa.

A divergência entre o Vietname e o Camboja é profunda. O Vietname faz parte do Sudeste-Asiático sinizado - isto é, decalcado do modelo chinês - e o Camboja integra o conjunto de sociedades indianizadas, juntamente com o actual Laos, a Tailândia e a Birmânia. As relações entre o Camboja e a Tailândia são, pois, marcadas pela mesma mundivisão [antropológica, religiosa, institucional e política], pelo que a separá-los há muito pouco. O Vietname é tido como inimigo histórico irreconcilável, dada a distinta matriz e o desprezo que sempre exibiu perante o "bárbaro khmér".

Em 1863, os franceses exigiram ao rei Norodom I do Camboja a submissão ao plano de uma Indochina Francesa. O Rei mudou-se de Oudong para Phenom Phen e aí ficou às ordens de um Residente Superior francês. Os seus sucessores, Sisowath e Monivong, ficaram de tal forma manietados no exercício das suas funções que a sua autoridade se limitava à meia dúzia de acres do palácio real que os franceses lhes erigiram na nova capital.Lendo a correspondência secreta enviada por Norodom I aos reis Rama IV e Rama V do Sião, transparece uma profunda amargura, quase vergonha, pela situação em que os franceses o haviam colocado. Norodom I nunca se sentiu verdadeiramente um rei, pois não possuia nem a Regalia dos reis cambojanos, oferecida no acto da coroação pelo rei do Sião, nem recebera autorização para govenar no quadro da doutrina do poder régio das monarquias budistas da região.

Compreendemos agora por que razão Pol Pot e o seu Angkar cortaram relações com o Vietname e os motivos que ditaram alinhamentos distintos do Vietname comunista e do Camboja de Pol Pot no conflito ideológico que opunha Pequim e Moscovo durante os anos setenta e oitenta. O Vietname comunista alinhou com a URSS, enquanto o Kampuchea Democrático foi apoiado pela República Popular da China. Pol Pot argumentava, com alguma razão, que no quadro de revisão profunda a que se assistia em toda a região no ocaso da longa guerra entre os Vietnames [do Norte e do Sul], importaria estabelecer uma nova fronteira que confirmasse os direitos históricos do Camboja sobre algumas parcelas do território do extinto Vietname do Sul. Seguiu-se uma dura luta fronteiriça. Em 1979, o Vietname invadiu o Camboja e aí colocou um governo colaboracionista dirigido por dois dissidentes Khméres Vermelhos: Heng Samrin e Hun Sen. Por seu turno, a Tailândia e a China apoiaram a guerrilha que se opôs ao governo instituído por Hanói. A guerrilha era, como todos o sabem, dirigida por Pol Pot, agora "pró-ocidental" e pelo Príncipe Sihanouk, que residia em Pequim.


Com o fim da Guerra Fria, foi conseguido acordo sob a égide da Nações Unidas que viabilizou um governo de reconciliação nacional. Foi lavrada nova constituição, a monarquia foi restaurada e foi permitido a todos os contendores a conversão em partidos políticos. Nas eleições que se seguiram, o partido monárquico dirigido pelo Príncipe Norodom Ranariddh ganhou a maioria dos assentos. Os vietnamitas não viram com bons olhos a perda de influência sobre o Camboja e em 1997 instigaram um brutal golpe de Estado que culminou com um banho de sangue e a tomada do poder por Hun Sen, actual primeiro-ministro. Um ano volvido, Hun Sen decretou a realização de eleições consideradas fraudulentas pela generalidade dos observadores internacionais, declarando-se vencedor. Desde então, graças aos meios de condicionamento que lhe proporciona a posse do Estado, Hun Sen tem sido, como aqui o foi Thaksin na Tailândia, uma espécie de déspota benevolente. A capital encheu-se de palacetes, as fronteiras com a Tailândia converteram-se em zonas de jogo e o Camboja transformou-se no Eldorado das relocalizações da região. O Camboja, pese a crescente influência do Rei Sihamoni, sem poder mas senhor de grande popularidade, é uma selva para todos os plutocratas àvidos de lucro fácil. Hun Sen, ex-khmér vermelho, enriquece escandalosamente, manipula a bel prazer resultados eleitorais, exerce pressão sobre a oposição, cala jornais e televisões; em suma, um Pol Pot inteligente.

Samak visto por um artista tailandês

A questão entre a Tailândia e o Camboja prende-se com a soberania sobre uma pequeníssima nesga territorial onde se localiza um velho templo khmér. A Corte de Justiça de Haia deu razão ao Camboja quando, em 1962, foi pedido parecer sobre a disputa. Contudo, importa lembrar que as duas províncias em que se localizam Preah Vihear e Angkor foram, até 1907, território siamês-tailandês e que a entrega de tais territórios à França pelo Sião foi conseguida mediante ameaça militar francesa; ou seja, o Sião nunca aceitou um processo conduzido ao arrepio dos princípios que regem a diplomacia, com a agravante do então "Camboja" não possuir autenticidade, dado encontrar-se diminuído e ser um protectorado francês. O assunto resolver-se-ia se entretanto não se tivesse imiscuído uma personagem que tem sido desde há dez anos o principal agente da intriga política tailandesa. Thaksin, ex-primeiro ministro tailandês, com processos pendentes e inculpação em crimes de toda a sorte, conseguiu fugir da Tailândia há pouco mais de um ano, graças a autorição do governo thaksinista de Samak Sundaravej. Samak era o testa de ferro de Thaksin e o seu governo caiu estrepitosamente. Ao assumir as funções de governação, o actual primeiro-ministro, o anti-thaksinista Abhisit Vejjajiva deu mostras de querer regular a disputa com o Camboja. Contudo, dizia-se há muito que por detrás da agressividade cambojana havia a mão de Thaksin. Os seus seguidores disseram que não, que Thaksin era um patriota e nunca fomentaria o agudizar da tensão entre os dois países. Pois, para clarificar os mais reticentes, Thaksin acaba de ser nomeado conselheiro económico de Hun Sen e, eventualmente, candidato a portador de passaporte cambojano. É bom que as coisas se clarifiquem. Se os portugueses fossem confrontados com a nomeação de um seu ex-primeiro-ministro como conselheiro do governo espanhol, decerto se indignariam. Se esse ex-primeiro-ministro fosse procurado pela polícia portuguesa por fraude, enriquecimento ilegítimo e favorecimento de familiares em negócios que lesaram o país em milhões de milhões, decerto que lhe chamariam tudo. Thaksin é hoje, apenas, um traidor.


Os acontecimentos da política têm sempre, para os mais avisados, uma espessura que remete para o tempo longo. Thaksin não está a servir o governo cambojano; está a jogar pelo Vietname, o maior adversário regional da Tailândia. Ora, para mais, o Vietname é um país comunista. Já eu dizia há tempos, para espanto e sorriso trocista de alguns, que Thaksin estava a fazer o tirocínio para se transformar num líder comunista. Comunista e muito rico. Eu bem os ouvi, aos "Vermelhos" de Thaksin, perorarem sobre o "feudalismo", o "reaccionarismo", a "mudança dos tempos", o poder para o "povo". Decifrando, tal queria dizer fim da monarquia, fim da "democracia burguesa" e aceitação de uma "democracia popular". A evidência de hoje parece confirmar os mais negros presságios. Quando há um ano enverguei a camisola amarela em homenagem ao Rei, fi-lo pelo respeito que a sua figura me inspira, mas também para rememorar os anos terríveis em que nós, portugueses, estivemos quase a cair sob essa tirania que em 1989 derrocou por toda a Europa de Leste mas persiste em retirar o direito à dignidade a centenas de milhões de asiáticos.

11 novembro 2009

A mãe de todas as guerras


Passa hoje mais um aniversário sobre o armistício de 1918. Uma guerra que começou com um aborto diplomático e se prolongou como um absurdo militar, terminou com um tratado que abriu portas ao comunismo e criou todas as condições para o ascenso do nazismo. A Europa deixou-se seduzir pelo infantilismo de Wilson, destruindo o grande aplacador do tribalismo nacionalista (a Áustria-Hungria), o Califado Otomano e o Império Alemão, coração e cérebro do equilíbrio continental. Os europeus têm, pois, razões suficientes para nesta data reflectirem sobre a sua desgraça e o fim do Euromundo.


Le Chant de la 2e DB

10 novembro 2009

Monges High-Tech

Banguecoque, livraria ebooks. Novembro de 2009.

O bramanismo regressa ao Camboja



Voltou em força o cerimonial de corte. Há quatro dias, realizou-se a Cerimónia da Água na sala do trono do Palácio Real de Phnom Penh, tendo como principal protagonista SM o Rei Sihamoni. Três mil anos de tradição restaurados após trinta e nove anos de interrupção. Os oficiantes, sacerdotes bramânicos, com as suas togas brancas, expressam-se em sânscrito e preparam a carta astrológica que regerá a actividade do Chefe de Estado durante o próximo ano. Para o efeito, interpretam as figuras desenhadas pela cera líquida que jorra dos círios incandescentes e procedem à leitura das conjunções planetárias, indicando os dias propiciatórios e os dias azíagos.

09 novembro 2009

Doze vezes a Gestapo



Der Volkspolizist= o Polícia Popular

Ich stehe am Fahrdamm, da braust der Verkehr,
Ich trau mich nicht rüber, nicht hin und nicht her!
Der Volkspolizist, der es gut mit uns meint,
Der führt mich hinüber, er ist unser Freund!

Da tuten die Autos, da klingelt die Bahn!
Spring nicht auf den Wagen und häng dich nicht dran!
Der Volkspolizist, der es gut mit uns meint,
Er zeigt uns den Weg, denn er ist unser Freund!

Ich hab mich verlaufen, die Stadt ist so groß,
Die Mutti wird warten, wie find ich sie bloß?
Der Volkspolizist, der es gut mit uns meint,
Der bringt mich nach Hause, er ist unser Freund!

Und wenn ich mal groß bin, damit Ihr es wißt,
Dann werde ich auch so ein Volkspolizist.
Wir helfen den Menschen, ich bin mit dabei,
Beschützen die Heimat als Volkspolizei!

A década perdida

César das Neves afirma que Portugal perdeu dez anos a alimentar quimeras, a investir onde não devia e a desculpar-se pelos efeitos da globalização e da entrada em cena do Euro. Eu adianto: Portugal não perdeu uma década, mas duas ou três, investindo oito anos no modelo socialista que em 1975 era já caso estudado de clamoroso fracasso, mais quinze anos de subsídio-dependência e protectorização económica face à Europa, mais dez de políticas paliativas e populistas. Portugal é um país pobre e como tal deve viver. Portugal não se pode dar ao luxo de alimentar 100.000 funcionários políticos parasitários, que nada produzem e são factor de imobilização, mais 750.000 funcionários públicos que em 1974 eram 170.000. Sem resolver o problema dos comensais cativos à mesa do orçamento e sem dispensar metade do funcionalismo, nada feito.