06 novembro 2009

"Quem tem americanos como aliados não precisa de inimigos"


A expressão foi atribuída a Madame Ngo Dinh Nhu, cunhada do presidente Diem da República do Vietname [do Sul]. Diem, católico, descendente de uma velha família de mandarins convertida ao catolicismo por padres portugueses, era um homem culto e senhor de grande autoridade e carisma, exigindo dos aliados norte-americanos subordinação às políticas do seu governo. A absoluta convicção que o comunismo só seria derrotado se o Sul se agregasse em torno de uma sólida doutrina, criou crescente inquietação entre os decisores do Pentágono, que queriam um Vietname submisso e dirigido por conselheiros formados nas universidades norte-americanas, seguindo o modelo já aplicado na Coreia do Sul. Ora, como todos os esforços para reduzir o governo de Diem à condição de mero protectorado falharam, iniciou-se persistente campanha de difamação contra a parentela do presidente, acusando-a de nepotismo, favorecimento da Igreja Católica e enriquecimento ilegítimo. Tudo parece não ter passado de uma mentira, pois o perfil de Diem e o tipo de vida austero que levava impugnavam a ideia, bem americana, que o poder pertence por direito aos ricos. O trágico destino da família de Diem parece estar a repetir-se no Afeganistão. As parangonas dos jornais americanos encheram-se de sensacionais revelações sobre o envolvimento de um dos irmãos de Diem no tráfico de ópio, preparando o clima psicológico que desculparia um golpe militar induzido pelos conselheiros militares que Kennedy para o Vietname do Sul enviara. Hoje, o mesmo repete-se contra Karzai.

Em 1963, uma junta militar depunha Diem. No decurso do golpe, o presidente e o seu irmão Ngo Dinh Nhu foram assassinados. Ao saber do golpe, Ho Chi Minh terá dito que não pensara serem os americanos tão desmiolados ao ponto de destruírem o único líder anti-comunista com capacidade de derrotar o Viecong. A vingar a presente campanha contra Karzai, a guerra do Afeganistão repete o desastre do Vietname.

04 novembro 2009

O melhor partido republicano do mundo...

SM o Rei Sihamoni, com o trevo distintivo dos reis khméres

...existe no Camboja e diz expressamente no seu programa que, mau grado o nome, recusa a ideia da implantação da república. Os cambojanos, que se deliciaram com Lon Nol e Pol Pot, lá terão as suas razões.

A minha geração, a que não deu em nada


Usando uma expressão cara ao João, também sou tremedista, irreparavelmente lúcido; logo, incurável pessimista. Vi de tudo ao longo da vida, engoli seco os maiores insultos, assisti às mais reles manifestações de que a mediocridade despeitada se serve, tive de obedecer aos mais refinados poltrões e fingir que me enganava ao tomar essas árvores pela floresta. Essa foi a sina da minha geração, apanhada entre uma geração que tudo quis destruir para enriquecer e outra que, privada de todas as referências, pratica inocentemente crimes e se vangloria por coisas que não merecem um palito.

Lembro-me do tempo em havia futuro e se pensava que à noite se seguia o dia, que uma inteligência oculta e justiceira se encarregaria de dar sentido ao tempo, premiar o valor e condenar e maldade. Tudo isso desapareceu. Ficámos, eu e a minha geração, agarrados a teorias sem ponto de aplicação, à ideia de um Portugal com glória e luz de que todos, afinal, se riem, a um comedimento inibidor - chamar-lhe-ia uma discreta elegância - que a geração que nos precedeu tomou por cobardia e que a geração que nos sucedeu interpreta como quixotismo.

Assusta-me a possibilidade que tanta devastação e tanto trepadorismo alvar tenham mudado o meu país ao ponto do não regresso, que estamos condenados, eu e a minha geração, a imaginar um Portugal que já não existe e viver cercados por gente que já não fala a nossa língua. A minha geração não produziu ninguém que se impusesse. Os da nossa idade [mas não os da nossa geração] que ganharam as palmas não passam de factotums e habilidosos dispostos a todas as curvaturas de espinha, a toda a sorte de cumplicidades e golpes. É ver-lhes a insegurança nos olhos, o falar postiço, as frases vazias, a chuva de valores num deserto de convicções. É sentir-lhes inautenticidade na importância com que falam de carreiras sem currículo, de prosápia que não sabe compor e assinar por baixo um texto. É vê-los, de faca em riste, barricados nas suas sinecuras que todos pagamos, aterrorizados com a ideia que alguém um dia os venha desalojar.


...e mais isto !

A nossa geração embriagou-se a fazer malha e despertou tarde de mais – se é que despertou – da sua suma irrelevância, insignificância, errância, improdutividade, descaracterização? Se o fez é porque não saiu das baias que lhe foram indicadas pelas gerações precedentes, que julgaram entrever uma promessazinha de Sol se se fizesse o frete colectivo de se abandonar o Ultramar e de se genuflectir diante da cornucópia virtual da Europa, fossem quais fossem as consequências ou as facturas para os que viessem a seguir. Nessas estreitas baias relinchamos e escoiceamos desde então, e dedicamos alguns sentimentos nobres à vanglória do palito, a única que nos resta, e mesmo essa desproporcionada, que o país deixou de valer um palito.



Monica, composta por SM Rei Sihanouk

03 novembro 2009

Parvalhização ou o fim da dignidade popular

O fenómeno é global. Onde o dedo de Midas toca, os homens perdem o talante, esbate-se a hierarquia natural, anula-se a sede do sobrenatural, do sublime e do indizível e impõe-se, soberana, cheia de direitos, reivindicações e caprichos, a massa dos estômagos sobre duas pernas [e quatro rodas] em busca de conforto e abundância. O mundo transforma-se lentamente num bazar de peraltas engalanados e ajaezados, mesmerizados pelo dinheiro, pelos negócios e pelo lucro. Há quem diga que é o triunfo do Ocidente. Não, é o triunfo da civilização do pior capitalismo e da burguesia desmiolada e manienta. Onde antes havia camponeses e artífices, o povo chão com raízes profundas entrelaçadas na terra, hoje há canalha suburbana e iletrada com poder, sentada atrás de computadores, esbracejando nas bolsas, promovendo e vendendo necessidades artificiais. Onde antes havia elites históricas, hoje há uns cavalheiros e umas cavalheiras absolutamente privados do sentido do sacrifício, macaqueando as boas e velhas aristocracia de serviço e a burguesia do risco e da iniciativa. O fenómeno da dissolução das ordens sociais e das classes é hoje assunto encerrado. Já não há qualquer diferença entre o arrumador de cinema e o ministro, pois qualquer ministro é hoje, sem tirar, igual a qualquer arrumador de cinema. A horizontalização provocou, sem mais, a morte das letras e das artes, o crepúsculo do pensamento e o embotamento da inteligência.


Não sendo propriamente um reaccionário, não posso deixar de reconhecer que no transcurso da minha vida assisti ao irrefreável fenómeno da parvalhização e ao enterro das virtudes populares. Lembro-me, ainda, do tempo em que havia povo, cultura popular, valores populares e até uma etiqueta própria dessa gente sofrida e humilde, de coragem digna de respeito. Tudo isso desapareceu. Permaneci durante anos no Baixo Alentejo, servindo num regimento de infantaria. Como comandante de pelotão, palmilhei centenas de quilómetros de bornal e mochila às costas em longas marchas pelas planícies alentejanas. Lembro-me, como se fosse hoje, do encanto dessa gente serena e franca que nos recebia como se de familiares se tratasse, connosco dividiam o seu pão, o seu queijo e leite. Era um povo de porte nobre, com uma proverbial capacidade para fazer cultura sem o artifício do cânone coroado pelas academias. Temo que esse povo desapareceu, tragado no ambiente dos arrabaldes de Lisboa, futebolizado, telenovelizado, carrefourizado, city-banquizado, mecanizado e endividado na voragem da tentação de ter. Lembro-me do tempo em que os portugueses eram, quase todos(as), gente seca de carnações, de postura direita e natural e portadores de especial dom para a expansão de afectos e ideias através de construções frásicas e vocabulário cheio de graça. Era um encanto ouvir um rude trabalhador rural discretear sobre o sentido da vida e da morte. A parvalhização acabou com isso. Hoje quase só vejo gente violenta, respondona, invejosa e recalcada, gorda como sacos, apostrofando, difamando ou opinando sobre coisas que o natural defeso da inteligência e da humildade outrora reservava àqueles que se haviam consagrado ao silencioso mundo dos livros.


Parece que tudo começou nos anos sessenta. Depois, foi uma cavalgada sem freio. Os dez anos de Cavaco foram uma verdadeira hecatombe, um etnocídio que destruiu o que de melhor havia no nosso povo. Lembram-se do desprezo votado aos trabalhos braçais, da galopante marcha dos empreendedoristas, dos novos tudo-e-mais-alguma-coisa, do fim dos pescadores e dos ofícios, do encerramento do comércio que dava dignidade e percepção de responsabilidade política aos pequenos proprietários, da substituição dos operários, dos cantoneiros e pedreiros, dos electricistas e canalizadores por uma chusma de patetas metidos em fatecos a brincar aos programadores, aos promotores de vendas e aos bancários ?


Pois, se assim foi em Portugal, assisto ao mesmo fenómeno nesta bela Tailândia. Estive alguns dias no Camboja e tenho, com alguma frequência saído da grande cidade e visitado as vilas, cidadezinhas e aldeias de província. Em Banguecoque, o sorriso que conhecera nos anos 90 anteriores a Thaksin está em risco de desaparecer. As pessoas mostram semblante carregado, evitam o olhar, estão imersas em problemas que a miragem do "desenvolvimento", do "progresso" e do "crescimento" - como detesto tudo isso - lhes trouxeram. Os tailandeses urbanos, como os singapurianos, os taiwaneses, os japoneses e os sul-coreanos, estão em risco de se transformarem em patetas iguais aos norte-americanos. Lendo Lafcadio Hearn ou o nosso Venceslau, compreendo finalmente a revolta que levou Mishima ao suicídio. O Japão de outrora teria sido - digo-o sem mácula de orientalismo - uma nação de artistas. Hoje, são milhões de formigas pagando com stress, depressão e angústia o preço da especialização no "mundo moderno". Compreendo, finalmente, a justeza daqueles que aqui na Tailândia, tentam travar a deriva mortal para o tipo de sociedade que no Ocidente nos transformou naquilo que somos. Compreendo, finalmente, o que o anti-ocidentalismo quer dizer nesta terra.

02 novembro 2009

Adeus Phnom Penh

O Camboja regressa lentamente à normalidade. Os comunistas lançaram o país no caos: colectivizaram, aboliram o mercado, erradicaram a educação, desagregaram a família - como dizia Engels na Sagrada Família, uma das três inimigas do Socialismo, juntamente com a propriedade e o Estado - vandalizaram a cultura e mataram a religião, tidas por alicerces superestruturas do "feudalismo" e da monarquia. A alma deste povo foi mutilada, mas não irreparavelmente. As correntes profundas que alimentam a árvore da vida resistiram, silenciosas, à imposição de uma monstruosidade. O que não sobreviveu ao camartelo, aos explosivos, às fogueiras purificadoras - os instrumentos musicais, os livros, os documentos de arquivo, o mobiliário - permaneceu na memória.

O corpo de dança do palácio real voltou a animar as cerimónias de Estado, as orquestras reconstituiram-se, os paramentos e estatuária votiva voltaram aos templos abandonados ou convertidos em armazéns, os museus reabriram, as festas do calendário budista recobraram a vitalidade de outros tempos. Neste último dia, inteiramente dedicado ao lazer, uma visita obrigatória ao Museu Nacional e ao Palácio Real. No Wat Phraa Kéew de Phnom Penh, centenas de pessoas em oração. No Palácio Real, muitos jovens estudantes, de caderno de apontamentos na mão, seguindo as lições dadas por cicerones. No Museu Nacional, coisa que deve ser visitada por qualquer pessoa culta, um admirável percurso pelas belas-artes cambojanas, do período pré-angkoriano à presente dinastia, onde até não faltam as peças de artilharia fundidas pelos engenheiros luso-cambojanos.


Uma mole de monges vindos dos templos contíguos ao Palácio por ali exercita o seu inglês, interpelando os turistas e explicando o significado das peças em exibição. Um deles, loquaz e já senhor das subtilezas da língua inglesa, desenvolve em poucos minutos a sua interpretação teológica dos padecimentos do seu povo, afirmando que a purificação da alma exige testemunhos de dor e que a grandes provações se segue abundante colheita de vocações. Para ilustrar a sua lição, socorre-se do exemplo da grande rei leproso Jayavarman VII, que no século XII reergueu o Estado e o converteu definitivamente ao Budismo.

Os museus são, para a generalidade dos orientais, algo mais que uma colecção de objectos, pelo que ao longo do percurso museológico encontramos, absortos, visitantes que ali acorrem para fazer as preces ao Iluminado. A arte não pode viver, decididamente, fora da esfera do sagrado. Um pequeno círculo de oração manteve-se durante uma hora em frente de um friso de imagens do Buda. Aproximei-me e ouvi falar japonês.


No complexo de edifícios que formam o Palácio e Templos, os músicos da Escola de Belas-Artes executam peças do reportório clássico cambojano. As partituras foram destruídas, pelo que foram necessários anos de reconstituição e investigação musicológica apoiada em registos sonoros existentes na Europa para que se pudesse de novo ouvir a música khmér, extinta por decreto de Pol Pot em 1976.

Assinalando o virar de página sobre o passado tenebroso, uma sala dedicada ao novo monarca, Norodom Sihamoni, ele também artista de mérito e tido por especialista em dança clássica khmér. Enquanto príncipe, viveu na China e na Checoslováquia, onde cursou as melhores escolas de dança. Ao regressar, o seu pai, Rei Sihanouk, demasiado envolvido na trama dos acontecimentos que levaram à intervenção norte-americana e à tomada do poder por Pol Pot, abdicou e outorgou todos os direitos de sucessão a Shiamoni. O novo Rei tem conquistado a consideração e estima dos cambojanos, procurando não envolver-se na luta política e comportando-se de acordo com as regras que exigem de um monarca constitucional absoluta imparcialidade perante os actores políticos. A monarquia vai, lentamente, afirmando a sua superioridade num país onde o governo é detido por um ex-Khmér Vermelho passado para o campo dos vietnamitas, que em 1979 invadiram o país e depuseram Pol Pot.

A viagem de trabalho que agora concluo foi proveitosa para recolha de documentação que estimo relevante para o estudo que desenvolvo sobre as relações de Portugal com o Sião, mas foi gratificante no reconhecimento da grande capacidade de regeneração que as sociedades encerram para arrostar os mais brutais desafios. Como para confirmar o regresso da normalidade, ao regressar ao hotel fui surpreendido com uma estranha celebração oficiada por monges budistas. Teminadas as obras do seu hotel, os proprietários pediram ao abade do templo mais próximo que fossem exconjurados espíritos e forças malignas através de um rito purificador. Os proprietários sentam-se no chão e são lavados com a água benta trazida do poço do templo. O Camboja é, de novo, khmér.




Phnom Penh (composto por SM o Rei Sihanouk)

Monica: música composta por SM o Rei Sihanouk(clicar), dedicada ao saudoso Je Maintiendrai

01 novembro 2009

O triunfo da habitualidade

Duas gerações tragadas pela violência, dois milhões de mortos e outro milhão de refugiados, mais meio milhão estropiado por minas anti-pessoais. O Camboja pagou o duro preço que os interesses globais reclamaram no acerto de esferas de influência desenhadas em Ialta. O Sudeste-asiático, com o seu crisól de conflitos localizados, foi a mais penosa evidência do desmoronar dos sonhos de que se alimentou a vaga independentista no imediato pós-guerra. Aqui motou-se em nome do Mundo Livre e do Socialismo, aqui morreu, sem apelo, a possibilidade de retorno ao status quo ante-colonial.

Ontem, feriado nacional, festa natalícia do Príncipe Shianouk, percorri a avenida ribeirinha de Phenom Penh. Milhares de famílias passeando-se ao longo das margens do Mécongue, crianças rindo-se estridentemente, umas comendo gelados, outras jogando com brinquedos made-in-China. Se a vida é difícil, as preocupações são mais prosaicas. Já não se ouvem as sirenes anunciando a aproximação dos B-52, eclipsou-se o medo infundido pela aproximação dos guerrilheiros comunistas.

As pessoas raramente se cruzam com "barangue" (estrangeiros). Olham-me com curiosidade e de imediato rasgam um sorriso de orelha a orelha. Alguns pedem-me que tire uma foto com os filhos. As crianças são pequenos bonecos; dir-se-ia tiradas de biscuit de porcelana. Sinto-me, como na Tailândia, absolutamente em casa.

Para acentuar a sensação de estar perto de tudo aquilo que me trouxe a esta parte do mundo, orgulhosa e drapejando ao vento, uma grande bandeira portuguesa lembra-me que a nossa casa é onde nos sentimos bem. Saloth Sar (Pol Pot) morreu. O futuro vai nascendo, segundo a segundo, diante dos meus olhos. Aqui não venceram nem as abstracções do capitalismo, nem as letais Utopias. Aqui venceram as pessoas.

Os nomes do regime

Aflora na imprensa portuguesa em-linha um nome: José Chocolate Contradanças. De facto, estou muito longe de Portugal e já nem conheço as figuras de proa do regime.