31 outubro 2009

Copyright ? O que é isso ?

Se quer encher a sua biblioteca com as últimas novidades, venha ao Camboja. Desde que aqui cheguei, comprei uma boa dúzia de títulos que já tinha cobiçado na Amazon. Três, quatro dólares e é tudo. Instrua-se. Ao miúdo que me veio oferecer de bandeja um catálogo de memorialismo de viagens, arquelogia do Sudeste-Asiático e biografias, comprei um Henry Mouhot, um Victor Groslier e um Brother Number One, a political biography of pol Pot, de David Chandler.

A sesta cambojana

Os cambojanos trabalham das oito às onze. Depois, durante três horas, o país adormece. As pessoas voltam a suas casas, almoçam e dormem duas horas. Por volta das 15 horas, retomam o trabalho. Assim é nas ruas, nas repartições públicas e serviços, nas escolas e no comércio. Os que não podem regressar a casa, deitam-se sobre as motocicletas e ali ficam, vegetativos e quietos.
Estes latinos do Oriente ainda não se deixaram contagiar pelo stress.

29 outubro 2009

S-21: o verdadeiro rosto do comunismo

Foi difícil adormecer após a visita à Escola S-21, em Phnom Penh. Em Abril de 1975 - nefastíssimo para nós, portugueses, terrível queda no abismo para os cambojanos - os Khméres Vermelhos entravam na capital após cinco anos de luta. Uma vergonha para o Ocidente: abandonar aliados à imolação, trair a palavra dada, inventar desculpas para não ajudar aqueles que em nós haviam confiado.


Ainda a cidade não havia caído e já a França, a amiga de todas as tiranias, de Saddam e Khomeiny a Mao, reconhecera o governo do Kampuchea Democrático. Um padre francês, François Ponchaud, testemunha presencial da tragédia, lavrou então extenso relatório que ninguém quis aceitar como fonte credível e imparcial. A obra, que guardo entre outras dezenas que fui comprando e anotando ao longo dos anos, tinha por título Camboja: Ano Zero e foi editada em finais de 1976, entre o desprezo dos liberais, a fúria dos intelectuais e o silêncio cúmplice da Igreja. Ora, relendo a obra, está lá tudo o que acontecera, o que podia acontecer e o que de facto veio a acontecer sob o regime genocida de Pol Pot. Noam Chomsky afirmou então que o testemunho do Padre Ponchaud não passava de cabala contra o socialismo.

Só não acreditou quem se deixara cegar por décadas de propaganda comunista. Se Trostky aplicara o "comunismo de guerra", se a Espanha se enchera de valas comuns, se sobre todo o Leste europeu se abatera a mais sinistra forma de governação pelo medo de que havia memória, se Mao trucidara milhões, por que razão Pol Pot não faria o mesmo ? Hoje coloquei-me fisicamente no cenário real dessa sinistra experiência involucionista.

Aqui foram humilhadas, seviciadas, afogadas, electrocutadas, enforcadas ou simplesmente eliminadas com uma barra de ferro milhares de pessoas. Aqui, os comunistas puderam finalmente, sem freio e sem medo de qualquer repercussão revelar sem fingimento a extensão do seu ódio ao humano. Tudo foi fotografado, ordenado, anotado. Primeiro mataram os monges, os antigos ministros, os generais, os aristocratas, os juízes, deputados e presidentes dos municípios. Depois, chegaram os professores, os médicos e farmacêuticos, os engenheiros, os artistas e jornalistas, mais actores e homens de negócios, os grandes e os pequenos, respectivas famílias, seus empregados domésticos, assim como pessoas - quaisquer pessoas - que tivessem algum dia trabalhado com "parasitas e exploradores", "estrangeiros imperialistas" ou outros "agentes de intoxicação ocidental".

Quando se esgotou o sortimento, chegaram os sargentos, os ex-soldados condecorados, os polícias, os amanuenses, pequenos comerciantes, os cauteleiros, vendedores de jornais, taxistas e demais já tocados pelo vírus do lucro, da propriedade e do individualismo. Com estes vieram também chineses, cham muçulmanos, vietnamitas, indianos, paquistaneses, thais, católicos luso-descendentes, Kuy, Mon, mestiços e tudo quanto ofendesse a pureza da cepa original khmér. Por último, qualquer pessoa que se atravessasse no caminho do Angkar (Partido Comunista).


As pessoas chegavam famintas e febris, aterrorizadas e perdidas e eram atiradas para celas. Interrogadas, arrancavam-lhes confissões sobre delirantes conjuras, sabotagens e conluio com o inimigo. Passavam os dias esvaindo-se em sangue, unhas arrancadas com alicates, o corpo perfurado por fios condutores, ossos das mãos partidas, olhos vazados no ímpeto dos interrogatórios. O movimento das celas às salas era feito à coronhada, pontapés, puxões de cabelo, murros nos genitais. As paredes das escadas ainda exibem marcas do pintalgado do sangue desses desgraçados. Uma imensa galeria de retratos de inimigos da revolução e do socialismo, alguns com etiquetas pendendo de alfinetes enterrados no peito, no pescoço ou nos trapézios, evoca os três anos de ininterrupta actividade deste centro. Das mais de vinte mil que aqui sofreram calvário, só catorze sobreviveram.
Aqui não houve piedade para ninguém. Olho para os rostos mecerados, o olhar apagado e distante que exibiram na última fase das suas vidas. Dolorosamente, o universo desta gente tinha-se tragado sob os seus pés e mal compreendiam o que lhes estava a acontecer. O comunismo foi assim, da Rússia dos Sovietes à Etiópia, Moçambique e China. Aqui no S-21 escreveu-se um dos últimos capítulos dessa sangrenta ideologia e das mentiras em que se especializou. Depois ddisto, só pode permanecer comunista quem perdeu aquela elementar dignidade que nos separa da animalidade.

27 outubro 2009

Phnom Penh: os milagres também acontecem

Como aqui informei há dias, encontro-me na capital do Camboja a proceder a levantamento de recursos documentais portugueses aqui existentes. Difícil tarefa, pois o Camboja teve três capitais ao longo dos últimos quatro séculos - Lovek, Oudong e Phnom Penh - e sobre cada uma delas caíu, implacável, o demónio da destruição. Lovek foi saqueda e queimada até às fundações pelos thais, Oudong foi uma mera cidade real, cercada por paliçada, objecto de frequentes lutas intestinas, Phnom Pehn foi queimada pelos siameses na década de 30 de Oitocentos e, recentemente, mataram-lhe o que de mais importante tem uma cidade: os seus habitantes.

Este é um povo sofrido. Foi obreiro de grande e florescente império que mudou definitivamente o Sudeste-Asiático. A Birmânia, a Tailândia e o Laos são tributários dessa esplendorosa civilização de Angkor que, vivia a Europa no tempo das trevas, possuia bibliotecas, hospitais, observatórios astronómicos, armazéns, escolas, saneamento, ruas pavimentadas. Quando há meia dúzia de anos percorri Angkor ao longo de quatro dias, quase me deixei cativar pela teoria da morte súbita dos povos. Angkor não morreu. Foi morrendo, ou antes, sofreu tantas suaves e quase imperceptíveis quebras de vitalidade que acabou por deixar de representar o modelo que fora a chave da sua grandeza. Ao contrário dos teórios dos cataclismos, as civilizações raramente desaparecem violentamente. Vão-se esgotando por processo de consumpção, esquecendo-se de si, alienando-se. Os cambojanos só recentemente se deram conta da enormidade daquilo que os seus antepassados foram e fizeram. Contudo, no processo de construção da identidade nacional forjada por inspiração francesa durante as décadas do Protectorado (1863-1954), juntaram-se explosivamente diversos ingredientes que tornaram o século XX cambojano num inferno. A mistura do nacionalismo com o milenarismo budista, do revolucionarismo marxista com a ideia indo-budista de renovação integral dos homens, do Estado-nação e cidadania com uma etnia, permitiram que se fossem criando condições para o desastre de 1975.


Pol Pot não nasceu do nada, não é uma aberração, pois aconteceu e tudo o que acontece na vida colectiva nasce de uma possibilidade que encontra a sua oportunidade. Os cambojanos vivem a nostalgia de uma grande potência, mas foram perdendo, partida após partida, o lugar que lhes coubera no palco da história. Disputados entre thais e vietnamitas desde o século XV, invadidos ou obrigados à vassalagem, acidentalmente empurrados para guerras que não eram suas, viram-se subitamente em 1975 entregues a si. Ora, se a tomada do poder por Pol Pot foi precipitada pela demente política americana na região, os cambojanos carregavam há muito a semente daquilo que aqui aconteceu. Foi o triunfo da floresta sobre a cidade, dos homens dos arrozais sobre a sociedade e cultura da corte, da visão do mundo do aldeão sobre as complexas abstrações de letrados.


Ao entrar na Biblioteca Nacional de Phnom Penh fui informado que os livros que aqui um dia povoaram e deslumbraram milhares de jovens urbanos - também eles desaparecidos do número dos vivos - foram queimados e alimentaram os fogões da cantina dos conselheiros chineses. O que era um livro para um conselheiro vindo da China maoísta, se tudo o que de importante havia estava contido no pequeno livro vemelho ? Ao entrar nos arquivos nacionais, disseram-me que o piso térreo fora transformado em pocilga e que a documentação, rica e variada, fora atirada para um grande monte de papel, urinada e comida pelos suínos. Mas nos grandes desastres há sempre uma réstea de possibilidade para que milagres aconteçam. Não quiseram os suínos aproveitar tamanha oportunidade e parte importante dos arquivos conseguiu sobreviver. Nestes dias de trabalho, das oito às cinco, lá descobri uma boa dúzia de documentos que falam de portugueses que aqui, em tempos não distantes, foram oficiais da corte, ministros e diplomatas. Essa gente morreu há muito. Das suas casas e igrejas já nada existe. Foram queimadas pelos comunistas. Mas hoje voltei a ler-lhes as cartas que escreveram aos reis que serviram, aos residentes franceses, a altos funcionários civis e eclesiásticos. Encontrei, até, listagens com os seus nomes, fotografias, processos inteiros de servidores públicos chamados Monteiros, Pintos, Pereiras. Voltei a dar vida a esses nossos portugueses. Isso enche-me de alegria.




Depois, olho para as mesas e vejo jovens das universidades em busca de livros, folheando-os com prazer, discutindo ou lendo para o colega do lado uma passagem mais divertida. É o milagre da sobrevivência da inteligência sobre a brutalidade, da curiosidade intelectual sobre o fanatismo ideológico, das letras sobre o sangue. Afinal, o espírito tudo sobreleva e a tudo desafia. Olho para a parede: imagens do Buda e do Rei Sihamoni pendem na parede. Novo triunfo da verdade: a sobrevivência da memória e da História sobre o tempo sem tempo da Utopia, a sobrevivência da verdade e da luz sobre a loucura. Saí daquelas salas com a alegria de quem foi testemunha da sobrevivência da humanidade.