24 outubro 2009

Novo Sakdina

Mestre de tatuagem: à espera de pacientes
A Horda Dourada


A tatuagem confunde-se com a história dos thais. Esta gente foi companheira de marcha nas razias dos khan mongóis e durante séculos não soube fazer outra coisa que combater. Foi sob a espada dos thais que Angkor caiu, foi saqueada e se afundou no esquecimento até à chegada, no século XVI, de Frei António da Madalena, que a descreveu com espantoso detalhe. Os thais foram, pois, um povo nómada ou semi-nómada, violento e militarizado. A sua sociedade foi, até às reformas do século XIX, uma sociedade hierarquicamente decalcada da organização militar. Todos os homens, dos quinze aos sessenta anos, integravam o exército, convocado ou licenciado pelos reis e dirigido por uma nobreza provincial que detinha poder de vida e morte sobre os seus. Tatuados, os thais revelam os inconfundíveis traços fisionómicos da sua pedatura ética. Ao vê-los assim metamorfoseados, só nos ocorre a expressão que durante séculos gelou de medo os europeus medievais: "o perigo mongol".


A escassez demográfica ditou a criação do registo obrigatório dos homens válidos para o serviço do Rei. Para além dos censos populacionais, exigia-se a marcação mediante tatuagem de todos os homens do Mandala. Esta tatuagem fornecia informação sobre o nome do Nai do tatuado (Nai= chefe), a província e a localidade de que era originário, evitando deserções e fuga para a vida monástica, que foi durante séculos o único veículo de ascensão social para os filhos dos camponeses.


Ontem passei pela feira da tatuagem de Banguecoque, uma coisa a perder de vista, com centenas de profissionais entregues ao seu sangrento mester. Deitados, recostados, entregues ao espigão cortante ou às modernas pistolas, centenas de pacientes refastelavam-se de gozo e dor em demoradas operações. A tatuagem mudou. Deixou de ser uma obrigação e perdeu o seu significado. Com abolição do Sakdina - "feudalismo"- no último quartel de Oitocentos, a arte da tatuagem quase desapareceu, considerada uma lembrança de sujeição. Ficou confinada a monges místicos dos "templos da floresta" e a talismã contra as forças malignas, mas entre a população urbana foi quase banida e tida por marca infamante.


Seguindo as modas globalizadoras, regressou em força e hoje poucos são os jovens que não queiram uma marca impressa nas pernas, nos braços, no peito ou nas costas. O gosto é duvidoso, pois decalcado de coisas pequenas e insignificantes que enchem o universo da miudagem. Estou certo que daqui a alguns anos, os mesmos afanosos pacientes se quererão libertar de um impulso que os levou a ter uma borboleta, um dragão, um tigre ou um raio. A cirurgia plástica fará, então, o seu trabalho.

O conselheiro ocidental: um Rollin Jacquemins da tatuagem

O aguilhão da dor

O quase desmaio

O torturado entusiasta

23 outubro 2009

Combustões no Camboja


Os próximos dez dias serão passados no Camboja, onde estou a fazer trabalho relacionado com a presença portuguesa, pelo que aproveitarei a oportunidade para enviar aos leitores breves apontamentos. Parece, afinal, que Pol Pot, um feroz nacionalista, deu instruções precisas aos seus esbirros para que o património arquivístico khmer não fosse tocado na sanha purificadora do Ano Zero. O mesmo não aconteceu com a Biblioteca Nacional cambojana, que foi transformada em cozinha para os conselheiros chineses, que utilizaram as colecções para alimentar os fogões.
Estando presentemente a reunir documentação produzida durante os reinados de Norodom (1859-1904), Sisowhat (1904-1927) e Monivong (1927-1941), ou seja, durante o protectorado francês, espero poder demonstrar a influência da minoria luso-khmer, fruto da missionação dos séculos XVI e XVII e da chegada de refugiados portugueses após a queda de Macassar (Celebes).

22 outubro 2009

A chuva, os mortos e o gato

Wat Prayurawongsawat Worawiharn, nas proximidades da Igreja de Santa Cruz, em Thonburi, o primeiro templo da era Rattanakosin (= Banguecoque) construído no estilo lanka. Teve como patrono Somdet Chao Phraya Prayurawongsawat, do todo poderoso clã Bunnag, que foi, enquanto Ministro do Sul e Ministro do Tesouro e do Comércio, grande protector dos Protuguet. Hoje passei por lá, caía uma chuva diluviana e abriguei-me numa das muitas Saalaa (= sala). O cemitério, que recolhe as urnas das cinzas de gerações de filhos da aristocracia siamesa e dos ricos armadores chineses do junk trade que fez a fortuna do Sião antes de 1855 merece ser visitado. É um mundo miniatural, com montanhas de artifício, riachos, uma gruta com o Buda Reclinado (Phraa Nóon), árvores de frutos anãs, canteiros floridos, casas para mortos, chedi e altares familiares. O sincretismo religioso e estilístico sino-thai em toda a exuberância.

A cerca que isola a cidade dos mortos, hoje em tijolo recoberto, é o desfiar da história da elite siamesa desde 1820: nobres, generais e almirantes, diplomatas, ministros, banqueiros, escritores, governadores provinciais ali foram depositados após cremação. Depois do passamento, mantêm, desafiantes e orgulhosas, as glórias do poder que detiveram. É um livro aberto de linhagens. Ali estão os Chao Phraya, os Phraya, os Luang e os Khun - os títulos de nobreza siameses, abolidos em 1932 - mais os Mom Luang (parentes da família real), suas mulheres, filhos, netos e bisnetos.




A limpeza e aprumo do cemitério denotam a permanência das grandes famílias na vida tailandesa. Jardineiros varrem, podam, adubam, limpam vasos e polem as grandes vidraças das casas familiares, onde bustos dourados dispostos em níveis hierárquicos assinalam os postos de relevo conquistados, geração após geração, por cada uma das famílias ali representadas.


Um gato recolhia-se da chuva e parecia imerso na mais profunda meditação. Dizem os thais que os cães e gatos são protectores dos mortos e lhes proporcionam companhia. O D. Gato que hoje encontrei parecia fazer jus à crença. Parecia um deus egípcio, com incenso a seus pés, indiferente à minha presença. Banguecoque é uma grande e infindável montra de surpresas.

Miguel Castelo Branco

América antes do fim

Leptis Magna, um Monomotapa na Líbia

"Você também é latino ? Mas você tem pele branca. Não tem avós afro-americanos ou índios ? (...) Esses latinos que fizeram Roma mostram a capacidade do homem negro para erigir civilizações. Depois, saíram de Espanha e Portugal e foram colonizar o Brasil e o México. (...) A propósito, os portugueses ainda falam africano ?".

Garanto que tudo isto me foi ontem dito por um americano, auto-intitulado professor universitário "especialista" em "Afro-latino gender studies". Tinha na mão uma delirante invencionice sobre Septímio Severo, nascido em Leptis Magna, na actual Líbia, o "primeiro africano" a chegar à liderança de um império mundial; ou seja, um Obama do século II. É a América, o fim da universidade, a barbarização triunfante, o enterro do Ocidente. O que podemos fazer ?

20 outubro 2009

Luminoso

"Eu sou um ateu medu­lar. Mas tenho a graça de viver numa civ­i­liza­ção em que a Igreja não inco­moda salvo algu­mas questões – sim, a luta con­tinua… Porque havia de morder a mão histórica que me ofer­e­ceu tamanha e inusi­tada liber­dade? Não faria eu mel­hor defendê-la dos seus inimi­gos? Não seria acto de gen­erosi­dade aju­dar out­ros povos desse grande mundo a alcançá-la?"

Deixai falar o pobre Saramago

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.

Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.

Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.

Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.

Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

19 outubro 2009

Reconciliar-me com a França


À noite, em casa, com Un pèlerin d'Angkor de Pierre Loti nas mãos e a voz de Dalida para amolecer o coração. A França possui, sem dúvida, a mais bela das línguas, lídima herdeira do latim clássico. Perguntava-me um amigo há momentos por que razão zurzia nos bons padres da Société des Missions Étrangères de Paris que aqui tanto fizeram e continuam a fazer pelos pobres, pelos doentes e deserdados. Corrigi. Não, esses padres foram do melhor que a Igreja teve, para além, claro, dos nossos Jesuítas. Entregaram as suas vidas a uma missão, deixaram a Europa, instalaram-se nos confins do mundo e acreditavam profundamente na sua vocação ao ponto de se deixarem matar. A França cometeu erros tremendos nesta parte do mundo, mas os padres, esses, foram vítimas da cegueira, da sobranceria e do umbiguismo dos homens que fazem a grande política, de Luís XIV a Jules Ferry.

Nada tenho contra a França. Pelo contrário, foi a França que me concedeu a bolsa de estudo que me facultou o mestrado, foram amigos franceses que vieram ver-me quando estive doente e, digo-o sem qualquer hesitação, aqui no distante Oriente, sempre que precisei da boa companhia de europeus, encontrei-a nos franceses. Só nos zangamos com aqueles de quem gostamos. Não me passa pela cabeça partilhar ideias e sentimentos com gente das Holandas, das Dinamarcas e das Suécias, tão parecidos connosco como os zulús ou os apaches.

18 outubro 2009

Protuguet ou Portuguet ?


Pergunta-me um leitor, também interessado nas coisas do Sião, se os tailandeses se referem aos portugueses como "portuguet" ou "protuguet". Em boa verdade, a forma correcta de conversão fonética seria protukét: โปร = pro + ตุ= tu + เกส = két. Na escrita thai, as vogais giram em torno das consoantes, encontrando-se no topo, por baixo, em frente ou precedendo-as. Na palavra "Protukét", as consoantes ปร (pó plá + ró rêa) formam o som "pr", que precedido pela vogal "ô" se lê "prô". Quanto à terceira sílaba, "quét", esta é formada por um K, precedido por uma vogal (é) e seguida por uma consoante da famíla dos sons em "S". Contudo, os thais terminam habitualmente as suas palavras com os sons "N" ou "T", pelo que se lê Pro-tu-két, em vez de Pro-tu-kés. É por isso que escrevem, por exemplo, ฟุตบอล = futebol, mas lêem "fut-bón". Há quem se ria da pronúncia que os tailandeses exibem ao falar inglês. Contudo, se dizem "sa-pai-cy" em vez de sp+ai+cy, tal se deve ao facto de não ser vulgar associar duas consoantes sem introduzir uma "vogal invisível", neste caso um A.
Esclarecido ?
Miguel Castelo Branco