
Vejo-o duas ou três vezes por semana na biblioteca. O Liu é professor universitário de história chinesa em Banguecoque, um conversador de talento, qualidades intelectuais assinaláveis, ávida curiosidade e grande abertura. Se alguém me tem ensinado o tailandês do dia-a-dia é o Liu. Insiste em ensinar-me e nunca se dá por vencido quando resvalo para o inglês. Hoje estava diferente. Os olhos cintilavam, o queixo erguido, a voz espaçada, uma bandeira vermelha na lapela. Perguntou-me: "não viste o meu país? Não viste como nos levantámos, que grandes somos ?"
Sim, vi a enorme parada, as maravilhas da nova tecnologia chinesa, o aprumo das falanges apeadas, as intermináveis colunas de blindados, as baterias de foguetões, os céus de Pequim coalhados de helicópteros e bombardeiros. A China acordou e impõe a nova multipolaridade do século XXI.
Confesso que admiro a China: um grande povo, patriotas até aos ossos, um sentido de comunidade que se sobrepõe às mais brutais adversidades, uma consciência nacional separada do mundo. Gosto da China Amarela da Grande Muralha e não gosto da China Azul, ultramarina e negociante das Singapuras, dos Hong Kongs e das Chinatowns. Gosto da China fardada; detesto a China de fato e gravata. É um povo absolutamente xenófobo, intrínsecamente "holístico", inapelavelmente inclinado para se fechar em si. São 5000 anos, quase tantos como o Egipto desaparecido. É a última civilização da Antiguidade. E está bem viva. Depois do que hoje me foi dado ver, a China está cheia de si e quer limpar os últimos 150 anos.
Gosto dos chineses. É um povo terra-a-terra, sem complexidade e sem subtileza: duros e frios quando se sentem inferiorizados, amáveis como crianças quando respeitados, de uma fingida implacabilidade traída por um coração lamechas. O chinês tem sempre quinze anos e quem disser o contrário que o prove: é vaidoso, narcisista, comilão, romântico, acredita nos talismãs e nas estrelas, para não perder a face é capaz de se imolar, é ciumento e dado a amuos, teimoso, galhofeiro e coscuvilheiro. O chinês é, para toda a vida, um estudante em véspera de exames. Trabalha quinze, dezoito horas por dia, cala o cansaço e pensa na abundância, no respeito que os outros por ele têm, no amor eterno. Ao contrário do que os outros pensam, o chinês é incuravelmente desorganizado e trapalhão, pelo que se escuda na disciplina, na repetição e nos regimes autoritários. A China democrática é uma quimera. A sê-lo, seria a China dos gangster's, das sociedades secretas e das intermináveis querelas. Em suma, sou absolutamente sinófilo.
Miguel Castelo Branco