07 Outubro 2009

O camponês muçulmano


Huadéng Puté วาเด็ง ปูเต๊ะ é um camponês nonagenário oriundo do extremo sul da Tailândia muçulmana. De origem modestíssima e uma vida que se confunde com a enxada, o lodo dos arrozais, mãos rudes e calejadas e frágil figura esgotada pelo trabalho, começou a aprender a escrever aos sessenta e cinco anos de idade. Esta semana veio a Banguecoque visitar um amigo especial aqui hospitalizado. Esse amigo é um avatar de Vishnu, um deus entre os homens, como dizem os thais. Esse amigo é o Rei da Tailândia. Conheceram-se há quarenta anos. Entre os dois despontou uma grande amizade, que o Rei todos os anos lembra por ocasião do fim do Ramadão, enviando-lhe lembranças, perguntando pelas colheitas, pelos netos e bisnetos do ancião. Sempre que se encontram falam de sementes, pragas e pesticidas, secas e inundações; em suma, coisas que as pessoas da cidade, lavadinhas e afectadas, estimam pouco relevantes.


Esta semana Huadéng sentou-se em frente do quarto do Rei, estendeu o tapete de orações e ali esteve durante horas entregue à meditação e às preces. É diferente o mundo dos reis. Luís XVI era carpinteiro, Robespierre um advogado. D. Carlos foi sempre um camponês, Afonso Costa um homem de escritório. São mundos distintos. Diria: são níveis ontológicos distintos.

Miguel Castelo Branco


06 Outubro 2009

Pelo Senhor da Vida, evocando o Corpo de Voluntários Portugueses

Depois de um dia de trabalho na biblioteca do Palácio Real, apanhei o ferry no embarcadouro fluvial de Tá Chang (Porto do Elefante), que outrora foi o cais de Banguecoque e local onde aportavam sampanas do Junk Trade de Cantão carregadas com os produtos da China. O cais revestia-se então de grande importância para a economia do Sião e era defendido por guarnição militar inteiramente composta por membros da comunidade católica luso-siamesa. O Corpo de Voluntários Portugueses, dotado de artilharia, manteve-se até à reforma do exército e foi muito acarinhado pelos primeiros reis da ctual dinastia Chakry.

O destino da pequena travessia era, obviamente, o hospital onde se encontra internado há quase duas semanas o Rei da Tailândia. O Chao Chivit - Senhor da Vida - debate-se com doença pulmonar e tem sido visitado por centenas de milhares de súbditos de todas as idades, etnias, religiões e condições. Chovia torrencialmente e tive de esperar quase meia hora para assinar o livro. Deixei, apenas, o meu nome e nacionalidade.


Desde que o monarca deu entrada na unidade hospitalar, todos os dias, às seis da tarde, as pessoas aglomeram-se, agitam bandeiras, cantam o hino nacional e pedem as melhoras do seu Rei. Não são cem nem mil. São ajuntamentos a perder de vista, milhares de homens, mulheres e crianças repetindo o Som Phra Charoen, saudação destinada à família real. É comovente, é grandioso e impressionante, pois nada é orquestrado. É patriotismo sem mácula. E andamos nós a perder tempo com a república, essa senhora que não se dá ao respeito !

Miguel Castelo Branco

Segurar a vaca para que outros a ordenhem


Os poucos republicanos que por aí se movimentam - os que o são porque aspiram secretamente ao sólio presidencial; os que o são por mal de inveja; os que o são por complexo social; os que o são por simples estupidez - agitam-se com as últimas movimentações monárquicas. O 5 de Outubro foi monárquico, esteve na rua, fez os noticiários. O presidente emparedou-se no palácio rosa, a guarda passeou-se sem espectadores, a cerimónia da Praça do Município não teve lugar. Nada disto é novo, pois a república não se escora em corações nem inteligências. Existe, arrasta-se, está no papel e no trapo. Mais grave ainda: a república tem sido a mão que agarra a vaca que toda a sorte de camarilhas tem ordenhado ao longo de um século que foi, para todos os efeitos, o pior da história portuguesa.

Parece que o Vital lá de Coimbra, que agora faz as vezes de pretor - durante anos o cargo foi de Jorge Miranda até se afastar, nauseado, de todas as tropelias que se fazem em nome da constituição - afirmou peremporiamente que a questão da monarquia não se coloca. Espanta-me que homem tão versátil e conhecedor nas artes do transformismo se mostre tão indisponível. Não importa. Nada disso é relevante, pois o tempo virá. Não há pressas. É tão matemático como prever a chegada de um cometa. Vamos ter referendo, queira ou não o Vital.
Miguel Castelo Branco

05 Outubro 2009

99 anos de cerração


Quando nos libertaremos do interregno sem glória e sem luz ?

03 Outubro 2009

Que floresçam mil flores


O Estado Sentido faz dois anos. Por razões de natureza pessoal, aquele blogue é-me familiar. Tudo o que ali se diz subscrevo de olhos fechados. Tudo o que ali se sente e aspira, sinto-o como se tivesse saído da minha lavra. Antes, o Combustões tinha 300 leitores diários; hoje, temos 700, o meu e o nosso Estado Sentido. Para quem insiste na injusta depreciação dos monárquicos, estimando-os áridos, ritualistas e insuficientes, aqui temos a prova da impugnação. Que floresçam mil flores !

01 Outubro 2009

Está bem acordada

Vejo-o duas ou três vezes por semana na biblioteca. O Liu é professor universitário de história chinesa em Banguecoque, um conversador de talento, qualidades intelectuais assinaláveis, ávida curiosidade e grande abertura. Se alguém me tem ensinado o tailandês do dia-a-dia é o Liu. Insiste em ensinar-me e nunca se dá por vencido quando resvalo para o inglês. Hoje estava diferente. Os olhos cintilavam, o queixo erguido, a voz espaçada, uma bandeira vermelha na lapela. Perguntou-me: "não viste o meu país? Não viste como nos levantámos, que grandes somos ?"
Sim, vi a enorme parada, as maravilhas da nova tecnologia chinesa, o aprumo das falanges apeadas, as intermináveis colunas de blindados, as baterias de foguetões, os céus de Pequim coalhados de helicópteros e bombardeiros. A China acordou e impõe a nova multipolaridade do século XXI.
Confesso que admiro a China: um grande povo, patriotas até aos ossos, um sentido de comunidade que se sobrepõe às mais brutais adversidades, uma consciência nacional separada do mundo. Gosto da China Amarela da Grande Muralha e não gosto da China Azul, ultramarina e negociante das Singapuras, dos Hong Kongs e das Chinatowns. Gosto da China fardada; detesto a China de fato e gravata. É um povo absolutamente xenófobo, intrínsecamente "holístico", inapelavelmente inclinado para se fechar em si. São 5000 anos, quase tantos como o Egipto desaparecido. É a última civilização da Antiguidade. E está bem viva. Depois do que hoje me foi dado ver, a China está cheia de si e quer limpar os últimos 150 anos.
Gosto dos chineses. É um povo terra-a-terra, sem complexidade e sem subtileza: duros e frios quando se sentem inferiorizados, amáveis como crianças quando respeitados, de uma fingida implacabilidade traída por um coração lamechas. O chinês tem sempre quinze anos e quem disser o contrário que o prove: é vaidoso, narcisista, comilão, romântico, acredita nos talismãs e nas estrelas, para não perder a face é capaz de se imolar, é ciumento e dado a amuos, teimoso, galhofeiro e coscuvilheiro. O chinês é, para toda a vida, um estudante em véspera de exames. Trabalha quinze, dezoito horas por dia, cala o cansaço e pensa na abundância, no respeito que os outros por ele têm, no amor eterno. Ao contrário do que os outros pensam, o chinês é incuravelmente desorganizado e trapalhão, pelo que se escuda na disciplina, na repetição e nos regimes autoritários. A China democrática é uma quimera. A sê-lo, seria a China dos gangster's, das sociedades secretas e das intermináveis querelas. Em suma, sou absolutamente sinófilo.
Miguel Castelo Branco