03 outubro 2009

Que floresçam mil flores


O Estado Sentido faz dois anos. Por razões de natureza pessoal, aquele blogue é-me familiar. Tudo o que ali se diz subscrevo de olhos fechados. Tudo o que ali se sente e aspira, sinto-o como se tivesse saído da minha lavra. Antes, o Combustões tinha 300 leitores diários; hoje, temos 700, o meu e o nosso Estado Sentido. Para quem insiste na injusta depreciação dos monárquicos, estimando-os áridos, ritualistas e insuficientes, aqui temos a prova da impugnação. Que floresçam mil flores !

01 outubro 2009

Está bem acordada

Vejo-o duas ou três vezes por semana na biblioteca. O Liu é professor universitário de história chinesa em Banguecoque, um conversador de talento, qualidades intelectuais assinaláveis, ávida curiosidade e grande abertura. Se alguém me tem ensinado o tailandês do dia-a-dia é o Liu. Insiste em ensinar-me e nunca se dá por vencido quando resvalo para o inglês. Hoje estava diferente. Os olhos cintilavam, o queixo erguido, a voz espaçada, uma bandeira vermelha na lapela. Perguntou-me: "não viste o meu país? Não viste como nos levantámos, que grandes somos ?"
Sim, vi a enorme parada, as maravilhas da nova tecnologia chinesa, o aprumo das falanges apeadas, as intermináveis colunas de blindados, as baterias de foguetões, os céus de Pequim coalhados de helicópteros e bombardeiros. A China acordou e impõe a nova multipolaridade do século XXI.
Confesso que admiro a China: um grande povo, patriotas até aos ossos, um sentido de comunidade que se sobrepõe às mais brutais adversidades, uma consciência nacional separada do mundo. Gosto da China Amarela da Grande Muralha e não gosto da China Azul, ultramarina e negociante das Singapuras, dos Hong Kongs e das Chinatowns. Gosto da China fardada; detesto a China de fato e gravata. É um povo absolutamente xenófobo, intrínsecamente "holístico", inapelavelmente inclinado para se fechar em si. São 5000 anos, quase tantos como o Egipto desaparecido. É a última civilização da Antiguidade. E está bem viva. Depois do que hoje me foi dado ver, a China está cheia de si e quer limpar os últimos 150 anos.
Gosto dos chineses. É um povo terra-a-terra, sem complexidade e sem subtileza: duros e frios quando se sentem inferiorizados, amáveis como crianças quando respeitados, de uma fingida implacabilidade traída por um coração lamechas. O chinês tem sempre quinze anos e quem disser o contrário que o prove: é vaidoso, narcisista, comilão, romântico, acredita nos talismãs e nas estrelas, para não perder a face é capaz de se imolar, é ciumento e dado a amuos, teimoso, galhofeiro e coscuvilheiro. O chinês é, para toda a vida, um estudante em véspera de exames. Trabalha quinze, dezoito horas por dia, cala o cansaço e pensa na abundância, no respeito que os outros por ele têm, no amor eterno. Ao contrário do que os outros pensam, o chinês é incuravelmente desorganizado e trapalhão, pelo que se escuda na disciplina, na repetição e nos regimes autoritários. A China democrática é uma quimera. A sê-lo, seria a China dos gangster's, das sociedades secretas e das intermináveis querelas. Em suma, sou absolutamente sinófilo.
Miguel Castelo Branco



30 setembro 2009

A história desconhecida de Portugal na Ásia


Há cerca de um ano, de passagem pela nossa embaixada em Banguecoque, uma das funcionárias teve a amabilidade de me oferecer uma pequena brochura intitulada A Portuguese in Singapore ... Dr Jose D'Almeida, 1825-1850. Desconhecia, então, que o nome de José de Almeida se cruzaria com o trabalho de investigação que aqui vou fazendo desde finais de 2007, como não fazia a mínima ideia da importância que os portugueses ainda mantinham em todo o Sudeste-Asiático nas décadas de 20, 30 e 40 do século XIX, antes da abertura da China ao mercado mundial por força da chamada Primeira Guerra do Ópio. Habituados a só estudar a Ásia tocada por Portugal, limitando cronologicamente a aventura asiática portuguesa aos séculos XVI e XVII ou a circunscrever o que dessa gesta remanesceu aos exíguos territórios de Goa, Macau e Timor, deixamos de fora, afinal, o mais importante. Num trabalho de paciência, as peças vão-se articulando. Depois de consultados centenas de anuários comerciais e mapas estatísticos, livros de viagens, insignificantes notas marginais, fotografias e gravuras até, vai engrossando o interminável filão de notícias oriundas dos bandéis católicos do Gujarat a Kerala, do Ceilão a Orissa, de Chittatong à foz do Irrawadi, de Penang a Malaca, Singapura, Batávia, Banguecoque, Oudong (Camboja) e Tonquin. Então, portugueses ainda estavam em todo o tabulado, eram influentes, ouvidos e pretendidos, ora trabalhando para armadores de Macau, ora servindo os britânicos da East India Company, os holandeses da NHM (Nederlandse Handel Maatschappij, sucessora da VOC), os sultões do Achém e Riau, os potentados malaios, os reis do Sião, os reis cambojanos ou os imperadores Nguyen do Vietname.

Estes luso-asiáticos mantinham entre si laços estreitos, relações familiares até, trocavam vitais informações de natureza comercial, diplomática e política, abriam mercados e inibiam a acção de estranhos, intrigavam e faziam lóbi. Quando as embaixadas britânicas, norte-americanas ou francesas chegavam a determinado local para negociar tratados com as potências regionais, tudo o que traziam para discussão era há muito conhecido pelos seus interlocutores locais. Quando Roberts chegou ao Sião em 1833, ficou estupefacto quando o Phra Khlang (responsável pelos contactos com os estrangeiros) retirou triunfante de uma pasta um volumoso lote de recortes de jornais norte-americanos e lhes disse: "sabíamos há muito que viriam". E acrescentou: "sabemos quantos são, as propostas que trazem e onde estiveram antes de aqui chegarem". Atrás do Phra Khlang, um siamês de ascendência portuguesa ria silenciosamente. Ou seja, algures em Nova Iorque, um correspondente das firmas macaenses coleccionava metodicamente tudo o que nos jornais ia sendo publicado, enviava os recortes para Singapura ou Batávia e ali, outro correspondente fazia-os chegar a Banguecoque, Rangoon ou Hué.


Não deixa, pois, de constituir supresa que outros europeus tecessem uma lenda negra a respeito deste "portuguese half-caste" que se lhes atravessam pelo caminho e os impediam de ludibriar os incautos asiáticos. Os padres franceses das Missions Étrangères de Paris, furiosos inimigos de Portugal, travaram com estas comunidades luso-asiáticas uma luta de séculos. Um dos seus mais gabados próceres, o bispo Pallegoix, escreveu uma missiva secreta na qual afirmava textualmente ser prioridade da acção da Igreja Católica no Sião a destruição dos portugueses. A comunidade católica, que recusava obediência às ordens de Roma e pedia insistentemente "padres portugueses de Goa", foi excomungada em massa e tratada como "comunidade cismática". Na Birmânia, essa luta entre o povo cristão e os franceses das Missions, ali ajudados pelos Barnabitas de Milão, atingiu foros de violência física. Ora, franceses e italianos, não conseguindo conversões, culpavam os portugueses - sinónimo de católico na Ásia - de impedirem o trabalho de apostulado. Nada disto é velho. Ainda nos anos 60 e 70, os chamados Padres Brancos faziam subversão anti-portuguesa em Moçambique, fornecendo abrigo à FRELIMO, estabelecendo pontes diplomáticas entre os movimentos guerrilheiros e a Santa Sé e chegaram ao extremo de enganar o Papa Paulo VI, precipitando a célebre audiência que não foi audiência entre os líderes do PAIGC-MPLA-FRELIMO e o Sumo Pontífice. Lendo a Histoire de la Mission de Siam 1662-1811, do historiador oficial das Missions, Adrien Launay, pasmamos ao não encontrar uma só alusão aos portugueses ao longo das quase trezentas páginas dedicadas à génese e expansão do catolicismo no Sião.


Se os britânicos são mais comedidos, pois o seu império nunca se pretendeu do Espírito Santo mas de Pluto, não deixam, eles também, de menosprezar o papel fundamental dos portugueses num século XIX que consideram o "século britânico". Esquecem-se que o tráfico de ópio de Malwa para a China foi disputado grama a grama por embarcações portuguesas de Macau, que o número de embarcações de pavilhão português que demandavam os portos do sub-continente indiano (Bombaim e Calcutá), do estreito de Malaca (Penang e Singapura), de Batávia na Insulídia e Kâmpóg Saôm (Camboja) eram em tonelagem e número superiores à soma de holandeses, americanos, franceses, espanhóis e dinamarqueses. Esquecem-se, sintomaticamente, que o co-fundador de Singapura, o maior entreposto asiático do século XIX e XX, foi um português, não um fura-vidas semi-letrado, mas um médico que ali viveu e morreu cumulado de honrarias, o Dr. José d'Almeida.


Muito há que escrever e publicar sobre este e outros temas relacionados com os portugueses na Ásia. Muitos convenceram-se que o tema se esgotou, que basta ler o saudoso Padre Teixeira para compendiar a história recente do nome de Portugal nestas paragens. Infelizmente, não frequentando bibliotecas e arquivos, desconhecendo as fontes não portuguesas - britânicas, francesas e holandesas, para não referir as siamesas, cambojanas, malaias e birmanesas - muitos persistem em fechar a porta a este fascinante universo escondido. Ainda há dias lia um artigozinho, da autoria de adido cultural português algures na Ásia. Li meia dúzia de páginas sem uma nota, sem uma referência bibliográfica ou arquivística, repetindo, trepetindo à exaustão as mesmas coisas lidas e relidas. Um mar de lugares-comuns sem arrimo, sem contextualização, sem interpretação. De facto, a maior inimiga de Portugal é a irmã preguiça.


Miguel Castelo Branco