19 setembro 2009

O esfarelamento de um mito


Foi hoje a enterrar, sem pompa nem circunstância, o mito Thaksin. O homem que quis todo o poder e sujou a democracia a tal ponto que foi necessário um golpe de Estado para impedir danos maiores à Tailândia, não conseguiu reunir mais de 20 mil pessoas numa patética sessão espírita em que a ideia chinesa de um ditador providencial se associou a outras evocações, igualmente sinistras, que os thais há muito repudiaram. Estavam previstas duzentas mil pessoas, segundo os arautos da "comunicação social" ocidental, sempre ansiosa, sempre comprometida com todas as "causas" que cheirem a amanhãs ridentes. As camionetas chegaram pela madrugada, regorgitantes de pobres camponeses trazidos dos feudos onde um voto vale um saco de comida, uma T-shirt ou um cupão de 20 litros para o gasóleo. Para os caciques, antes havia motorizadas, televisores a cores ou jipes. O dinheiro, dizem os entendidos, está a acabar, pois Thaksin terá perdido mil milhões de dólares ao longo de um negro ano financeiro e já não tem o poder que tinha para manipular, pagar, obrigar e até ameaçar os reticentes. O dia foi de absoluta normalidade. Os tailandeses preferiram um dia de compras ou lazer e viraram, definitivamente, as costas ao plutocrata. Os que compareceram à manifestação, os indefectíveis, mostraram a que ponto a mutação que se operou no campo "vermelho" é espelho do desnorte. Agora, os "vermelhos" de Thaksin são verdadeiramente vermelhos: são comunistas. Ora, o comunismo foi aqui derrotado militarmente em finais da década de 1970 e é uma doutrina que os thais instintivamente abominam e repelem, porquanto coloca em causa os fundamentos desta politéia: o budismo e a monarquia.

As coisas acabam sempre bem, dizia um jornalista na tv. O que Thaksin melhor podia fazer era regressar, ser ordenado monge e passar uns bons anos na reclusão espiritual de um mosteiro entregue à meditação e à leitura do Tripitaca. O "PREC" acabou há muito e não há UDP ou POUS locais que contrariem o irreversível curso da reposição da normalidade.


Faz hoje três anos que as Forças Armadas recorreram ao veto nacional contra um governo cleptocrático e ilegitimado pelos actos. Ou não são as Forças Armadas, em todas as constituições, o garante da unidade do país e da defesa do Estado ?
Miguel Castelo Branco

18 setembro 2009

As sombras de Deus

Sultans, Shamans & Saints: Islam and Muslims in Southeast Asia, de Howard M. Federspiel


Resistiram à passagem dos séculos. Viram chegar e partir portugueses, holandeses e britânicos, foram suseranos e vassalos, travaram entre si lutas intermináveis ou submeteram-se aos bugis, aos sultões do Achém ou aos reis do Sião. São as "Sombras de Deus", título que pediram de empréstimo ao califado Abássida, mas exprimem a continuidade de uma tradição pré-islâmica "indianizada" que vê nos rajás e sultões homens dotados de poderes sobre-humanos. Cercam-se da regália dos antigos reis javaneses, ostentam coroa, ceptro, espada cerimonial e são acompanhados pelo guarda-sol dourado próprio dos reis budistas da Tailândia e Camboja. São os sultões de Pahang, Terengganu, Perlis, Kedah, Perak, Kelatan, Johor, Selangor e Negri, que integram a Federação da Malásia. Os ocidentais menos avisados não compreendem o milagre desta longevidade, neles identificando um arcaísmo condenado ao desaparecimento. Contudo, no Sudeste-Asiático, um rei não é tido como uma mera instituição política, mas como agente angariador da benevolência divina. Estão no lugar que ocupam pois, sem eles, toda a comunidade política se desmoronaria. Aceitaram o protectorado britânico, como antes haviam enviado anualmente a Banguecoque o tributo de bunga mas. Depois, quando chegaram os japoneses - o maior flagelo da história cotemporânea asiática - foram despojados de tudo e quase assassinados, até que o ocupante se deu conta da importância destas figuras reinantes. Quando, no imediato pós-guerra, o comunismo se espalhou pela região graças ao apoio das comunidades chinesas migrantes, coube-lhes insuflar o espírito de resistência e apelar à guerra santa contra os mandatários de Pequim. Hoje são o maior dique à propagação do fundamentalismo islâmico.
Miguel Castelo Branco




Apsaras

Em pleno jardim da Universidade de Chulalongkorn. Rosamunde, de Schubert. Figuras esguias em plena luz volteando. Depois, o envergonhado riso de uma das Apsara.
Miguel Castelo Branco

Rosamunde (Schubert)

16 setembro 2009

Um pouco de autarcia não faz mal a ninguém


น้ำผึ้งสวนจิตลัดดา = Nam Pheun Suan Chithlada quer dizer em português mel do pomar do palácio real de Chithlada. Durante séculos, a apicultura foi uma das mais nobres actividades profissionais do Sião. Os apicultores eram tão respeitados que lhes era dispensada a prestação de quaisquer corveias. Porém, em finais do século XIX, com a invasão de produtos estrangeiros - que também desbarataram as produções locais de sedas e tecidos, ourivesaria, cerâmica e utensílios - o mel desapareceu dos mercados. A Índia britânica, as Índias Orientais Holandesas e a Indochina Francesa encontraram no Sião um frágil concorrente, levando os ofícios à falência. O mel, que fora um dos principais condimentos gastronómicos da cozinha thai, passou a ser produto raro e inacessível.
Nos anos quarenta, o actual Rei criou nos terrenos adjacentes ao palácio de Chithlada uma exploração agrícola-piloto e aí desenvolveu ao longo de décadas - em estrito espírito cooperativo - a sua teoria económica da auto-suficiência, hoje gabada por todos, porquanto não estribada no proteccionismo. A experiência foi bem sucedida e aplicada um pouco por todo o país.
Hoje, para quem quiser o mel barato e sem outra "marca" que as armas reais - símbolo de qualidade - vai ao bazar e compra uma bisnaga de Suan Chithlada (0,60 Euro).
É assim que se protege o povo, se dá trabalho aos produtores e se garante a liberdade económica de um país. Se nos lembrarmos de Portugal, fazia falta um Pomar Chithlada em Lisboa. Só de pensar que as prateleiras dos mercados portugueses estão cheias de lixo espanhol, francês e holandês dá-me uma dor de coração. Por cada prateleira de produtos estrangeiros, há uma exploração portuguesa em risco.
Miguel Castelo Branco

Coisas que aprendi com a vida


O mundo pertence aos tolos, pelo que nunca devemos revelar metade daquilo que sabemos.

O mundo está cheio de grandes homens que nunca demonstraram aquilo que valem, pelo que demos subentender que tais propaladas qualidades se limitam à capacidade de vergarem a espinha e de servirem a um senhor que os fez importantes.

O mundo está cheio de projectos e ideias que raramente se aplicam; quanto mais se invocam os valores e a coerência das ideias, mais atropelos se cometem contra aqueles que não têm nem projectos nem ideias.

Pior que os medíocres são os puros; em nome das suas monomanias são capazes de matar, torturar e flagelar as suas vítimas enquanto exibem profunda consternação pela teimosia com que estas lhes resistem.

Por detrás de qualquer ideia peregrina há, escondido, um chão propósito. A mentira e a dissimulação colam-se como um luva aos mais altos propósitos. Mentir por princípio e enriquecer como fim são leis invioláveis da vida social.

As pessoas gostam de pequenas coisas, lugares-comuns, meias-tintas e ramerrão que não anda nem deixa andar. Nunca faças nada que coloque em risco a mediocridade santificada. Se o fizeres, és um um desmancha-prazeres, um provocador ou um marginal.

Quanto mais vulgar e maldosa uma ideia, mais aguerridos seguidores se congregam em torno da sua bandeira. Que eu saiba, as ideias mais populares são aquelas que pedem vingança, morte, anulação da diferença e não as que exigem aprimoramento, superação e emulação.
Miguel Castelo Branco