12 setembro 2009

Em meia dúzia de linhas (1): colonizadores e exploradores


As potências que detiveram impérios coloniais dividem-se em dois grupos: aquelas que povoaram, desbravaram selvas, trabalharam a terra, casaram com os colonizados e com eles partilharam sacrifícios e aquelas que sorveram até ao tutano o trabalho e a riqueza dos territórios. Que traços humanos e materiais relevantes sobrevivem hoje dos impérios holandês, belga, francês, alemão e italiano ?

11 de Setembro visto de outra maneira ou uma mentira chamada Allende


Farías rescató del olvido la tesis con la que se tituló de médico Salvador Allende en 1933, tesis que lleva el título de ? Higiene mental y delincuencia?. En ella, el joven médico propone la esterilización de los enfermos mentales, fustiga a los homosexuales y se refiere así a los judíos: "Los hebreos se caracterizan por determinadas formas de delito: estafa, falsedad, calumnia y, sobre todo, la usura." Más tarde, como ministro de Salud en el gobierno de Unidad Popular del presidente Aguirre-Cerda (1939-1941), Allende promovió una Ley de Esterilización para aplicarse a enfermos mentales, específicamente a quienes tuviesen taras mentales, esquizofrenia, psicosis maníaco-depresiva, alcoholismo crónico? Afortunadamente la iniciativa del feroz antisemita, que era Allende entonces, fue rechazada aún antes de llegar a discutirse en el Congreso.





Primero fue una voz,
Luego fue un rumor,
que en la alborada del 11 crecio.
Despues sono el clarin,
el alma estremecio,
y en nuestros pechos nacio una oracion:
y fuimos libres,
lo somos,
Libres por siempre
No al invasor,
que las conciencias libres son.
Despues sono el clarin,
el alma estremecio.
Y en nuestros pechos nacio una oracion
Y fuimos libres, lo somos
libres, Septiembre
Primero fue una voz,
luego un clamor de Libertad !

09 setembro 2009

Fantasias sexuais (e outras) sobre o Oriente, ou um escrito cheio de aspas

Somos ainda herdeiros de muitos clichés oitocentistas, victorianos e puritanos, positivistas e progressistas, materiais com os quais a Europa de meados do século XIX fabricou a sua visão do mundo. Muito do que ainda vamos lendo carrega essa marca da comparação. No topo, um certo Ocidente - leia-se, a Europa e os EUA do protestantismo armado de indústria, ciências exactas e aplicadas, laboratórios e tecnologia, organização administrativa e militar capazes de realizar em grande escala - com responsabilidade moral sobre a orbe. É o "fardo do homem branco" de Kipling, mais a Mission Civilisatrice de Jules Ferry, uma corrupção à francesa de uma certa ideia medieval de expansão do mundo cristão, mas agora adaptada ao mais estreito nacionalismo, filho do jacobinismo.

Num patamar intermédio, os semi-civilizados, com escrita, Estado e leis, mas teimosamente agarrados à "tradição" e incapazes de "evoluirem". Portugal, o Sul italiano, a Espanha dos "ciganos" e dos "mouriscos", mas também os otomanos, os persas, os nababos indianos, os birmaneses, os siameses e os malaios, mais os chineses, cobriam um vasto mostruário de "sociedades estacionárias" submetidas ao "despotismo" político, ao "fanatismo" religioso, à crueldade institucionalizada - leia-se as touradas, os "suplícios" - bem como ainda a formas "arcaicas" de organização social. Para estas politéias pedia-se que a benevolente mão do Ocidente protestante [ou jacobino] as retirasse da imobilidade, as conduzisse pelos caminhos do "progresso" e do "desenvolvimento", construísse "cidadania", "Estado de Direito", "separação de poderes". O direito de intervenção das nações civilizadas estava implícito. Foi esse o mote justificador de tantos atropelos, diktats e ultimatos a que o tal Ocidente [protestante ou jacobino] recorreu para garantir a "marcha do progresso" - a tal Légende des Siècles de Hugo - e expandir as luzes num mundo submetido às trevas da "superstição".

Ora, um dos temas recorrentes a que os literatos de Oitocentos mais atenção deram tinha a ver com o proibido, ou antes, com a sexualidade e violência imaginadas dos "bárbaros" e dos "semi-civilizados". Foi o tempo pródigo dos "eunucos", da "prostituição sagrada", do "infanticídio chinês", das "suti" indianas, do "canibalismo", dos "comedores de fígados" e "caçadores de cabeças", dos "rituais de passagem", dos "serralhos" e "haréns", da "poligamia" e das "comunidades matriarcais", mais as lendas do "predador negro", do berbére submetido ao "aguilhão genésico", ao português "half caste" que se misturava com os "selvagens" ou do "crime do Padre Amaro" e da "sexualidade no seminário", temas caros ao panfletarismo republicano. Olhando de perto estas instituições, verificamos que tudo o que delas se escreveu torrencialmente não passava, afinal, de projecção das fantasias, medos ou simplesmente simplificações claro-escuro destinadas a conquistar o crescente público de leitores com poucas letras.

O filão dos haréns dava para uma monumental antologia de vários volumes. Aqui no Sião, os missionários protestantes norte-americanos dedicaram seis inglórias décadas a atacar a poligamia e a "cidade interior" onde os reis possuíam a sua vasta família. Pensava-se que ali se praticavam as mais "abomináveis" "perversões". Os reis passariam ali grande parte da sua vida entregues ao "prazer", "amolecendo o espírito" e gerando filhos sobre filhos. Afinal, a Cidade Interior era a caução de que a monarquia precisava para sobreviver, num tempo em que metade dos nascituros não sobrevivia ao quinto ano de vida. O harém servia, também, para fortalecer a clientela do poder, estreitar laços de aliança com as famílias importantes e poderosas, educar as crianças na aprendizagem do mando. A provar [o carácter não reprodutivo do harém], o facto dos reis não terem tantos filhos como as setenta ou oitenta mulheres que o serviam como concubinas e, sobretudo, relevante e terminante, o facto dos haréns sobreviverem a décadas ininterruptas de poder feminino, como foi o caso do Achém (Ache) no norte da Sumatra, onde durante oitenta anos o sultanato foi detido por mulheres.


Muito do que hoje se lê nos jornais e na predicação política carrega esse tremendo estendal de erros sobre o Oriente. Dos peregrinos da "democracia a todo o custo", do "mercado" e da "abertura", às ficções dos "estudos do género" - quanta pulsão perpassa por essas pérolas - mais as ficções jurídicas dos exaltados da causa das "constituições", dos Estados de Direito, mais "um homem, um voto", mais "participação livre dos cidadãos", um mar imenso de desprezo por tudo o que não é Ocidental [protestante e jacobino], um analfabetismo impante e sentenciador que nos impede de construir uma verdadeira comunidade dos povos. O resultado, obviamente, é o inverso daquilo que aspiramos. Quanto mais intolerantes, mais eurocêntricos, mais inegociáveis, maior é a reacção àquilo que pretendemos. Querem meia dúzia de exemplos ? Aqui estão. Se o Ocidente tivesse reposto a monarquia no Afeganistão, os Talibã há muito que teriam cessado hostilidades; se o Xá estivesse no Irão com a sua Revolução Branca, o radicalismo islâmico teria sido afogado à nascença; se os EUA não tivessem afastado Sihanouk, Pol Pot nunca teria acontecido; se a descolonização se tivesse realizado com entrega do poder às lideranças tradicionais ou "sub monarquias africanas e asiáticas", o resultado teria sido bem mais aceitável à luz do conceito de independência dos povos; se Baodai do Vietname tivesse sido devidamente apoiado, Ho Chí Minh teria sido detido. São estes e outros erros que ficam e não se reparam.
Miguel Castelo Branco

08 setembro 2009

Não há ordem política sem transcendência


Há uns tempos, preparando mais um trabalho com saída garantida para as calendas gregas, andei a investigar as constituições europeias e a forma como estas se revestiam de diversos simbolismos religiosos. No meio de constituições fervorosamente laicas (de que a França é exemplo mais acabado), existem outras perigosamente religiosas (onde o político e o religioso são coincidentes ou a religioso é mero pretexto) e outras que nominalmente encontram um caminho aceitável para uma Justiça que transcende o político-jurídico.


Este belo texto lembra-me o esforço milenar, dos reis sumérios a Hegel, de vincular a ordem política à transcendência. Vögelin passou décadas a reflectir sobre o problema - que já tinha sido apaixonadamente colocado por Donoso Cortés - e chegou à conclusão que nada está por inventar e que o perigo das ideologias contemporâneas reside precisamente no facto de se edificarem sobre a necessidade do transcendente, negando-o, ocultando-o ou, até, pretenderem substituir-se ao que sempre foi, é e será. Tudo o que existe é "religioso": uma teoria económica, uma ideia de homem, de sociedade, de Estado e das leis carrega, sempre, escondida, inconsciente ou deliberada, uma arquitectura invisível que prende, fixa e justifica, do transcendete ao imanente, a ordem das coisas. O vazio a que alguns chamam de "sociedade aberta" é, assim, uma contradição, ou antes, um mero expediente para reduzir a ordem política a serva da sucessão [ininteligível se lhe faltar uma concepção de tempo e História] dos acontecimentos; ou seja, o absurdo do sem-sentido. Se a ideia de um contrato permanente fosse aceitável, as sociedades organizadas em Estado dissolver-se-iam perante qualquer oferta mais apetecível ao estômago.


Muitos europeus pensaram que a tal Constituição Europeia - que nunca teve coragem de dizer o seu nome - iria, por toque de mágica, dissolver as raízes profundas e os manancias substerrâneos que alimentaram durante séculos as nações. Afinal, essa pseudo-constituição parece ter nascido com um propósito absolutamente negativo, que se revelou com a discussão dos grandes pilares identificadores da ideia de Europa. Não se lembram da campanha de Giscard d'Estaing para contornar a incontornável associação entre o Ocidente e o Cristianismo ? Quem diz Cristianismo - que é, queiramos ou não, o grande vínculo e não o "Fogo Grego" ou o "Direito Romano" - poderá dizer monarquia. A Europa sempre foi monárquica, antes e depois do advento do Cristianismo, pelo que reduzi-la a um mero puzzle de repúblicas contraria a Respublica Christiana que é o Ocidente medieval, ou seja o Ocidente Cristão. Aqui está a cobra a comer a sua cauda !

Durante muito tempo acreditei na possibilidade da ordem política sem arrimo. Vivendo num Estado budista - libérrimo, respeitador das liberdades em todo o sentido da palavra - não mais posso aceitar viver sob um regime sem telhado e sem fundações. É o que dá viver na Ásia que jamais foi tocada pelas engenharias jurídicas europeias.