05 Setembro 2009

"Já fomos um país"


Manuela Ferreira Leite afirmou há dias em Évora que "já fomos um país". É certo que o disse, mas este mistério semântico parece não mais ter que trinta e tal anos. Não concordo com o desabafo de Ferreira Leite, pois exige uma correcção. A expressão "este país" é filha do PREC e dos tristíssimos anos de penúria que se lhe seguiram. Antes, na Monarquia como na república e no Estado Novo, Portugal era nação, era pátria, era império. Justiça seja feita a essa sucessão de regimes que mantiveram o culto da pátria, da sua grandeza e feitos, mas nunca reduziram esta nação a um obscuro canto da Europa. Justificarão os "esclarecidos" que tudo isso era nacionalismo romântico, que tudo isso teve um tempo e é coisa datada.


Quando a rua tomou conta de tudo, quando os violeiros baladeiros praticaram a terra queimada, lobotomizaram os portugueses, lhes ensinaram Amílcar Cabral e Agostinho Neto em vez de Camões e Pessoa, quando destruíram a Universidade, arrasaram as Forças Armadas, fizeram esquecer às crianças o respeito ao hino e à bandeira, retiraram dos compêndios as dinastias e os reios que nos fizeram, retiraram das escolas os mapas de Portugal e os substituíram pela Carochinha do "meio natural", das "problemáticas sociais" e da "educação para a cidadania", tudo se desmoronou.


Tudo o que hoje indigna e deixa paralisados os portugueses - furiosos com tudo, mas incapazes de olhar o futuro para além da renda e da prestação do fim do mês - é prenda envenenada que nos deixou essa detestável geração de 60 que teima em não abandonar o leme. Em trinta e tal anos que levamos deste sonambulismo, nunca governante algum se lembrou que os factores emocionais são, afinal, aqueles que mantêm as pátrias e as sociedades. Quiseram substituir o patriotismo pelo futebol, pelo "empreendedorismo", pelas gestões, pela segunda casa e terceiro carro, quiseram truncar o ser e destino de Portugal exaltando os Oceanos, a "porta aberta ao mundo", o "diálogo das civilizações" e diabo a quatro. Tudo isso se esboroou, pois o que é falso não é sentido e quem mente jamais conquista o coração de quem o ouve.


Durante anos, foi possível mistificar, mentir, inventar miríficas glórias e pretender um novo país de gravatinhas a brincar à bolsa e aos negócios. Havia muito dinheiro e esse dinheiro foi terrível, pois foi parar às piores mãos. O problema não é do PS. Lembro-me bem da geração Cavaco, dos seus patetas impantes, do desprezo por tudo o que cheirasse a livros, a passado, a obras de arte, a património. Foram dez anos de potlach e quando a crise chegou, em vez de remediarem o mal, trouxeram Guterres. Um país não se "reinventa". Não há um Novo Portugal. Há um Portugal, com as suas grandezas e misérias, com a sua trágica mas emocionante ascensão e queda. Esta pátria não precisava que lhe lembrassem a sua memória. Hoje, no nada, é urgente que a exaltemos, a bendigamos e a amemos. É tempo de reaprender Portugal. Só voltrei a votar quando vir, inscrita no topo dos programas eleiçoeiros, a solene promessa: "voltaremos a ensinar aos portugueses o amor da Pátria". Até lá, dedico-me à minha horta.



Mahler: Sinfonia No. 2 in C menor Ressurreição / Allegro maestoso

04 Setembro 2009

E se a História tivesse sido outra ?


A História abordada nas possibilidades de futuríveis que jamais se realizaram constitui vasto e sedutor horizonte especulativo que não ofende nem o rigor nem a ética dos historiadores. Não se tratando de gratuito empréstimo da ficção, possibilita incorporar no labor historiográfico a metodologia das chamadas "ciências militares" - geo-política, geo-estratégia - que trabalham com cenários, colocando aqueles que a exercitam perante a imprevisibilidade dos factores subjectivos implícitos nos acontecimentos, sobretudo aqueles factores ditos "intangíveis" e "psicológicos" que são inerentes a qualquer acção humana.


O What If ?, que conheceu um primeiro volume em 2001 e, logo depois uma segunda série de ensaios de grande interesse em 2004, apresenta um vasto elenco de acontecimentos submetidos a inversão. Se os Confederados tivessem vencido, se Lutero tivesse sido julgado e sentenciado, se Roosevelt não tivesse chegado à Casa Branca, se Churchill tivesse sido preterido por Halifax, se Wallace tivesse conseguido a eleição, se os chineses tivessem perseverado na expansão marítima no século XV ...
Seria curioso reunir alguns historiadores caseiros e desafiá-los para trabalho análogo sobre os acontecimentos axiais da história portuguesa. Se D. João I não se tivese decidido pela tomada de Ceuta, se os portuguseses em 1640-50 não se tivessem interessado pelo Brasil e dessem uma guerra de longa duração aos holandeses na Ásia, se Pombal não tivesse ascendido ao poder, se D. Miguel tivesse vencido a guerra civil, se João Franco tivesse ficado com a presidência do ministério após o regicídio, se o 25 de Abril se tivesse gorado ...


Pacific Boils Over

03 Setembro 2009

A loucura, outra vez


Parece que a campanha eleitoral se inicia por terras de Portugal. Digo parece sem afectação simulada porque não sei, já não me interessa nem a política, nem os partidos nem as caras que continuam envolvidas, as que entretanto chegaram e as que partiram. Contristado, reparo que os ânimos blogosféricos - com as suas fixações, cheias de injustiça e quase fanatismo - aprestam os sacos de pedras para mais uma infeliz jornada de insultos, lavagem de roupa suja e tudo o que rebaixa, avilta e degrada a democracia de furores latinos e demagogia que teima em não se corrigir. Os portugueses, uma vez mais, agitarão bandeiras, as oposições prometerão que "é agora", que "Portugal vai mudar", que "assim não podemos continuar", que o "país presisa de uma nova política". Isto vai durar duas semanas. Depois, o novo governo - qualquer que seja - vai revelar a gravidade da situação, pedir sacrifícios, culpabilizar os anteriores governantes. Tem sido assim desde 1976. É o Almanaque Perpétuo desta partidocracia sem emenda. Sou, para todos os efeitos, rigorosamente apolítico. Não quero, não gosto, não me interessa.


Yes, Sir (Zarah Leander)

02 Setembro 2009

A Águia e o Elefante ou a visão americana do mundo


No Thipakorawong Phraracha phonggsawadan krung ratanakosin rachakan thi sam, ou mais prosaicamente, na Crónica do Terceiro Reinado da Era Banguecoque (1824-1851), conta-se a história de um enviado do presidente Zachary Taylor que a Banguecoque chegou em 1851 com o propósito de negociar um tratado de comércio entre os EUA e o Sião. O homem chamava-se Joseph Balestier e era cônsul dos EUA em Singapura. Tinha-se dedicado ao negócio do açúcar, mas a empresa abrira falência. Homem rude, daqueles fura-vidas que infelizmente inundaram a Ásia desses tempos, era contudo o que de melhor a América possuia nestas paragens.

Deliciemo-nos com o bom pedaço da crónica:

"Não encontrando o Phra Klang (equivalente a ministro dos estrangeiros siamês) em Banguecoque, Balestier dirigiu-se com um intérprete ao palácio do Phraya Sripipat exigindo-lhe a marcação de uma audiência com o rei Rama III".

Ora, as coisas não se passavam assim na cultura diplomática siamesa. O Rei recebia enviados estrangeiros em reuniões de mera cortesia só após prolongadas negociações com o seu ministro dos estrangeiros. As delegações tinham de mostrar as credenciais, enviar exaustiva relação de prendas para o Rei, o Segundo Rei, os príncipes títulares de cargos ministeriais, apresentar os motivos da sua vinda e discuti-los com as autoridades locais. Depois, no dia da apresentação do texto final discutido e redigido pelas duas partes, o Rei condescendia receber as delegações, perguntar-lhes pela viagem que haviam feito, pela saúde dos chefes de Estado que representavam e oferecer-lhes prendas de acordo com a categoria dos emissários. O dito Balestier desconhecia tudo isso.


"Phraya Sripipat respondeu que no passado os enviados estrangeiros encabeçavam uma numerosa delegação. Joseph Balestier vinha só, com um guarda-chuva em baixo do braço e na companhia de um certo Mister Smith, um rapaz siamês que o Reverendo John T. Jones (missionário americano vivendo no Sião) tirara das ruas e adoptara. Acresce que o motivo da visita era desconhecido, pelo que não seria possível deferir o pedido de audiência real. Joseph Balestier replicou que o protocolo havia mudado e que agora era prática corrente enviar um emissário só. Insistiu o americano que trazia uma carta para o Rei. O diplomata siamês retrucou que a carta seria recebida, mas não haveria audiência, pois a Missão não estava de acordo com a etiqueta da corte".

A criatura desandou furiosa de Banguecoque, insultando os siameses, chamando-os de bárbaros, incivilizados e grosseiros. Habituados a negociar com régulos, reinetes e datus de aldeia, reagiam com assomos de ferocidade perante o elaborado cerimonial de estados cuja etiqueta descendia dos tempos de Angkor.

Anos volvidos, em 1856, chegava novo emissário do Presidente americano. O mundo tinha mudado. O Reino Unido havia vergado a Birmânia e começava a edificar a Malaia Britânica, Singapura - a maior concentração de bordéis, carregadores portuários e casas de ópio do planeta - transformara-se no maior pólo comercial do Sudeste-Asiático e em Banguecoque temia-se que estes farangues não perderiam qualquer oportunidade para converter o Sião em protectorado ou mesmo colónia, caso surgisse algum conflito. Era o tempo em que uma canhoneira bem artilhada se postava em frente de uma capital, apontava os canhões e exigia as mais mirabolantes cedências territoriais, tarifárias e até reparações pecuniárias que exauriam o Tesouro dos potentados expostos a essa diplomacia-pirata.

O emissário norte-americano era um certo Mr. Towsend Harris, que fora designado Cônsul-Geral dos EUA no Japão, recentemente aberto pela ameaça das armas ao "livre comércio". Harris nascera paupérrimo, não estudara para além das primeiras letras e dedicara-se ao negócio de louças de baixa qualidade. O negócio falhara, pelo que trespassou a loja e arrendou um velho navio mercante que o levou sucessivamente à China, às Filipinas e ao Estreito de Malaca. Depois, novamente falido, fez-se diplomata. Conseguiu que o fizessem representante dos Presidente para a negociação de um tratado com o Sião. Com a carta de nomeação recebida em Washington, deslocou-se a Paris. Na Cidade Luz, foi a um alfaiate e mandou cortar um "uniforme oficial" saído do seu gosto: um chapéu com um penacho e uma rutilante águia, casaco jaquetado de cor azul com bordados em fio de ouro na lapela e punhos, calças brancas com passadeiras douradas e uma "espada cerimonial"; em suma, tudo do melhor gosto. Chegou a Banguecoque, fez o tratado e reclamou vitória.

Depois de tudo isto, abro um livrinho americano, daqueles que a Secretaria de Estado manda publicar para distrubuir aos milhares entre "best friends", "friends" e "allies" e leio o seguinte: "o Sião só muito tarde enviou um embaixador residente para o representar nos EUA. À grande distância que separava os dois países, o Sião carecia de pessoas com qualidade requerida para representar o país no estrangeiro" (1)

Eu bem vejo a qualidade dos norte-americanos que se passeiam pela Ásia, caixeiros-viajantes quase analfabetos, desconhecedores de tudo, com aquele sorriso pateta discreteando sobre o atraso económico, o sub-desenvolvimento, os arcaísmos locais. É por isso que a China caíu nas mãos de Mao, que a Coreia do Norte não foi derrotada, que o Vietname os venceu, que o Laos e o Camboja se transformaram em coutadas do mais arrepiante concentracionarismo. A América é um portento. Há tempos, para provocar, disse num encontro que considerava a América um dos mais atrasados países do planeta. Ficaram chocados. Pois, mas é o que penso. Atrasados, ricos e bem armados, conjunção escaldante.
(1) REYNOLDS, Bruce (ed). The Eagle and the Elefant: thai-american relations since 1833. Bangkok: United Production, 1982, p. 60.

Miguel Castelo Branco


Deanna Durbin - It's Foolish, But It's Fun (1940)

Glosa do disparate atrevido:



01 Setembro 2009

Viver entre gente honesta


Hoje choveu como nunca. Aqui não há chuviscos: o céu desaba, literalmente, sobre as cabeças, as ruas transformam-se em rios caudalosos, as pessoas retiram os sapatos e andam de calças arregaçadas até aos joelhos. Passei o dia na biblioteca de uma universidade. À entrada do edifício, centos de chapéus de chuva abertos repousavam no chão do vestíbulo. Nem um guarda. Nem um desesperado a clamar pela sua propriedade, entretando rapinada por um confiscador de bens alheios. É assim a Tailândia, um país "pobre" com gente que envergonharia os mais ricos entre os ricos. Tudo começa com um simples guarda-chuva. Não, não tenho saudades da Europa, mais as suas filosofias, os seus princípios e a sua arrogância moralona que não resistem a um guarda-chuva a agurdar o regresso do seu legítimo proprietário.
Miguel Castelo Branco