27 agosto 2009

Patetices que se escrevem à rédea solta


Vai para cem anos, em 5 de Outubro de 1910, uma revolução em Portugal derrubou a velha e caduca monarquia para proclamar uma república que, entre acertos e erros, entre promessas e malogros, passando pelos sofrimentos e humilhações de quase cinquenta anos de ditadura fascista, sobreviveu até aos nossos dias. Durante os enfrentamentos, os mortos, militares e civis, foram 76, e os feridos 364. Nessa revolução de um pequeno país situado no extremo ocidental da Europa, sobre a qual já a poeira de um século assentou, sucedeu algo que a minha memória, memória de leituras antigas, guardou e que não resisto a evocar. Ferido de morte, um revolucionário civil agonizava na rua, junto a um prédio do Rossio, a praça principal de Lisboa. (...)

É este o quadro clínico - reservado e sem apelo - de uma certa conspiração da idiotia que teima em amarrar-nos ao subdesenvolvimento cultural. É evidente que a República morreu no dia 5 de Outubro de 1910. É transparente como a água que a República matou a esquerda decente que havia em Portugal, alienou-lhe o programa de reformas sociais trocando-o pelo patrioteirismo serôdio à Junqueiro e pela "mística" que nunca ninguém conseguiu dilucidar. É evidente que a direita portuguesa - a boa direita, com homens, programas e objectivos de governação - estiolou em resultado da República, passando doravante a alimentar-se de medo, ressentimento e revindicta. É evidente que a República, com a sua tosca falta de consideração pelas crenças que se confundiam com o ser e destinação de Portugal, foi o melhor aliado para quantos não haviam compreendido que a separação entre o Estado e a Igreja constituia,afinal, a libertação da esfera do religioso. É evidente que a República nos atirou para fora da Europa, nos provincializou e fechou portas às grandes correntes do pensamento ocidental. Compreende-se, pois, que só os inimigos da liberdade - à esquerda como à direita - a possam incensar, pois sem ela não medrariam. A República foi a lotaria para os messianismos desvairados e para o fim histórico de Portugal.
Miguel Castelo Branco

26 agosto 2009

Morte na terra dos sorrisos


Uma tragédia que fez manchetes nos jornais locais e internacionais assombrou a felicidade de uma família amiga. Ele, europeu, casado com uma tailandesa. Uma adorável filha de oito anos, que hoje brincava pela câmara ardente fora e teimava em dar largas à exibição de línguas que domina com espantosa proficiência: inglês, thai, alemão e francês. Num velório que se prolongou por quatro dias, centos de amigos e colegas, empresas, embaixadas e até uma representação da família real.
Tocou-me o drama pela simpatia que sempre tiveram para comigo. Gente da alta sociedade, vida confortável, ela oriunda de uma antiga família com vastas propriedades, ele um farang diferente. Amava esta terra e era um homem sólido, carácter afirmativo e muito dedicado à família que aqui fizera. De súbito, na passada sexta-feira, um telefonema que me alarmou: "o U. desapareceu esta manhã". A noite foi de insónia. Uma espera terrível, com presságios que se agigantaram com o passar das horas. Idas à policia, aos hospitais, mas nada. Por fim, já a manhã se fizera, o lacónico, quase brutal, telefonema da polícia: "o carro foi encontrado e um corpo aguarda identificação". Mais não digo, pois o jornalismo sem escrúpulos já criou uma rábula que vai crescendo dia-a-dia.


Interessou-me, sobretudo, a atitude da mulher e da criança. Lágrimas ouve, concerteza, mas lágrimas de resignação, com sorrisos evocativos daquele pai dedicado e daquele marido que tratava a mulher como se de uma namorada se tratasse. A felicidade tem sempre um fim - dizem os tailandeses - e nada há neste mundo que não seja passageiro. O U. partiu e já não volta, disse-me um amigo. "Acabei de lhe falar e está bem". Serve-se uma sopa aos participantes, chegam coroas e mais coroas de flores. Os monges desfiam um mantra, os assistentes levantam-se e um a um plantam numa jarra um pau de incenso que a filha, sorridente, vai acendendo.


A morte não é, como no Ocidente, essa coisa imunda e terrível. Aqui come-se, as pessoas sorriem, dão as mãos umas às outras fazendo comentários judiciosos sobre a libertação do espírito e até há fotógrafos de serviço cobrindo a cerimónia. Os participantes receberão a sua foto. Aqui também há albúns de fotografias sobre cerimónias fúnebres. A morte não é nem um começo nem um fim, é uma necessidade biológica e espiritual, dizia um médico meu amigo. "Quando partimos não sabemos se voltamos. Se voltamos, isso quer dizer que ainda não estamos preparados para a espiritualidade pura, ou seja, para o nada".

Há um ano, o João Azeredo, o nosso leitor de português, morreu aqui em Banguecoque. Lastimei-lhe a sorte. Enganei-me. A morte no Sião é coisa aconchegante, com acenos de mão em despedida enquanto a luminosa boca do forno crematório se abre para envolver o corpo. No fim, as pessoas abandonam e deixam à famíla um envelope com aquilo que cada um pode oferecer para pagar as exéquias. No fundo, uma última prenda ao amigo que partiu. Eu também gostaria de morrer no Sião.
Miguel Castelo Branco

25 agosto 2009

A ilógica das coisas


O desvio do avião da El Al para Entebe em 1976, resgatado temerariamente por um comando do Mossad, foi um acto terrorista; o desvio do Santa Maria, não !

As eleições no Irão foram fraudulentas, mas as eleições no Afeganistão foram, no parecer de Washington, "manipuladas mas tendencialmente justas".

A libertação do terrorista líbio pelas autoridades escocesas foi um acto de clemência induzido pela piedade que o doente terminal inspirou aos salomónicos juízes; o confinamento do canceroso octagenário Demjanjuk a uma cela é um acto de justiça ante um crime imprescritível.

A caricatura de João Paulo II com um preservativo enfiado no nariz foi entendido e aclamado como uma saudável provocação; uma caricatura de Maomé é tido como insulto aos muçulmanos e acicate para a xenofobia.
Portugal foi consecutivamente advertido e punido nas Nações Unidas por desenvolver operações militares em países circunvizinhos das suas possessões ultramarinas que davam abrigo a movimentos armados; os EUA nunca foram sancionados pelo bombardeamento indiscriminado do Camboja neutral.

O levantamento republicano de 1910, executado por um partido com 5% dos assentos parlamentares, é comemorado como um feito histórico; os monárquicos que colocam uma bandeira na CML são ameaçados com duras penas de prisão.
A reparação de Mellos e Champalimauds pelas vergonhas do PREC foi encarada como necessária ao restabelecimento da confiança dos cidadãos no Estado; a reparação dos portugueses ultramarinos é uma impossibilidade perante um facto histórico irreversível.
A intriga diplomática não se cansa de lembrar ao actual Primeiro Ministro tailandês que a sua chegada ao poder não surgiu de eleições, mas de um arranjo parlamentar destinado a marginalizar Thaksin, mas os mesmos diplomatas nunca fizeram o mais pequeno reparo a essas fantásticas democracias que são o Vietname o e o Laos.
Enquanto nos divertimos em jogos florentinos, vai-se perdendo, milímetro a milímetro, a respeitabilidade que nós, ocidentais, invocamos para dar lições de moral ao mundo.

24 agosto 2009

Um povo de artistas

Dizia Dante que a arte é neta de Deus, cabendo ao homem o papel de demiurgo ou, se quisermos, de segundo criador. O Jerachon Boonmak, escultor tailandês, é professor de escultura na Faculdade de Belas Artes. Diz-me que começou a esculpir aos doze anos e que agora, aos quarenta, "começa a fazer uns trabalhos". Espantou-me a humildade, pois detém invejável palmarés curricular.

Ontem, fui visitá-lo e estivemos uma hora em conversa despreocupada. Entretanto, chegou um cliente, um professor de arquitectura que insistiu numa encomenda: queria que o Jerachon lhe fizesse o busto em barro. O Jerachon pensou e lá acertaram no preço da obra. Quatro mil bath para o trabalho, mais dois mil para o forno, ou seja 120 Euro. Isto seria possível na Europa ?


Continuámos a conversa. O escultor prefere a escultura moderna, mas não se sente ofendido com o difícil trabalho de reprodução de um modelo vivo. Da massa de barro começou a surgir a cabeça, depois os olhos, os malares e a boca do retratado. Dizem que os artistas vivem na intermitência do seu mundo, mas o Jerachon manteve-se sempre neste e no seu mundo, ora esquecendo-se que eu ali estava - sério ou rindo-se de gozo pelo que fazia - ora falando-me da sopa que comera ao almoço. Tudo sem afectação e sem pose. Disse-lhe qualquer coisa e não respondeu. "Desculpe, estava na twilight zone."

A obra foi nascendo. O barro foi ganhando vida na mesma proporção das nódoas que se iam espalhando pelas mãos, pela camisola e até pelo rosto do escultor. Após uma hora, visivelmente cansado, chamou-me e disse: "aqui está, agora vai para o fogão".

Os últimos retoques. "Se o cliente quiser o busto em bronze, isso é mais caro, cerca de 50.000 bath, mas os netos e bisnetos falarão de um antepassado muito importante". Riu-se escancaradamente e deu por terminado o trabalho.

No fim, perguntou-me se eu queria o "meu bronze". Isso é para mais tarde, talvez daqui a uns meses. Entretanto, se quiser oferecer algo diferente aos amigos ou à família, já sei quem procurar para me fazer a raridade.

Chá com Américo Tomás

Um encontro inesperado. Numa sala de exposições de Banguecoque, uma foto alusiva à visita de Estado que o Rei da Tailândia realizou a Portugal no verão de 1960. Américo Tomás e Bhumipol ostentam a farda das marinhas dos dois países e uns óculos escuros muito ao gosto dos anos 60.


Ich hab' dich einmal geküsst (Johannes Maxilimian)

23 agosto 2009

Sede do Grupo Desportivo Os Lusíadas (Alcântara, Lisboa)

Expande-se como um mar. A Liberdade anda à solta por Lisboa. As celebrações da D.ª República vão dar que falar. O silêncio do sepulcro terminou. É tempo de voltar a falar de Portugal !


Os santarrões


Há anos, décadas, que oficiam semanalmente nas capelas e capelinhas da imprensa escrita, falada e vista. Parece que em Portugal não mais há que essa dúzia e meia de opinadores de dedo em riste dando lições sobre tudo e coisa alguma. Dos futebóis à economia, das artes e artimanhas da partidite à política internacional, da literatura às fitas, das viagens à crónica dos escândalos e escandaletes, aí estão eles, 24 sobre 24 horas educando as massas ignaras. No fundo, são os empregados qualificados da política e da politiquice, estão e estiveram nos governos e fora deles, estão nos partidos e fingem imparcialidade, mascaram-se da cultura que parece-bem mas fazem parte, como todos os outros - os empregados desclassificados - de um país político que vive num aquário, que não conhece o desemprego, que não conhece os concursos públicos nem a eles concorre, que se desdobra no pluriemprego. Os santarrões da "cultura" dão pelo nome de Pulido Valente, António Barreto, Pacheco Pereira, Sousa Tavares, Marcelo Rebelo de Sousa, Filomena Mónica, Mega Ferreira e Graça Moura. Quando um dia se expremer tudo isso, ficará decerto O poder e o povo, de VPV, Os silêncios do regime, de AB, a belíssima tradução de A Divina Comédia, por VGM, a biografia de Álvaro Cunhal (quem se lembrará dele dentro de trinta anos ?) de JPP, Equador, de MST e pouco mais. Custa-me ver tanta inteligência malbaratada, sobretudo quando se trata de gente que poderia deixar mais, muito mais, se à vã política não dedicasse o preciso tempo.


Mas compreendo. Em Portugal, quem não faz política não existe, quem não se mete num grupo, numa curibeca, quem não acamarada ou não agita uma bandeira está perdido. Vive na margem, é um Zé Ninguém. É por essa e por outras que ninguém liga patavina aos homens de ciência, aos investigadores silenciosos, a todos quantos não têm estômago para acamaradar, engrupar e curibecar. Só não sei se as luminárias se terão dado conta que a influência que julgam deter não passa, afinal, de serviço prestado aos cérebros vazios, aos ufanos patetas e aos ómegas - os políticos desclassificados - que realmente dominam o destino da República. O resto são... adereços !
Imagine-se o que teriam deixado Pessoa, Almada e Camilo se tivessem passado a vida no torvelinho das "coisas importantes" que não deixam rasto.