21 agosto 2009

Grandeza de cortar a respiração: a cerimónia Prommas do Ramakien

O drama clássico thai inspira-se em passagens do Ramakien e dá pelo nome de Khon. É um espectáculo total envolvendo orquestra piphat, dança, linguagem gestual e coro. Assisti há cerca de um ano na Sala Chalermkrung a impressionante representação de quadros do Ramakien - a versão thai do Ramayana - mas deparei com dificuldades resultantes da minha impreparação e desconhecimento dessa obra literária de inspiração indiana, cuja recepção aqui se fez no século XV, quando Angkor foi devastada pelos thais. Entretanto, adquiri uma breve obra introdutória e familiarizei-me com a estrutura de um género que exige informação de base e contextualização, sem as quais o espectador ocidental se sentirá tão perdido como um chinês que pela primeira vez assista a uma representação de Gluck, Mozart ou Offenbach.
Com o patrocínio da Fundação Rainha Sirikit, foi anteontem inaugurada uma exposição sobre um dos mais afamados quadros do Ramakien, o episódio de Prommas. O primeiro acto decorre na sala do trono da mítica cidade de Lanka, mas o décor remete para o fasto de Ayuthia, antiga capital do Sião.


Ao lado do Rei, que aqui recebia as delegações estrangeiras, a regalia inerente do um "monarca universal", intermediário entre os homens e os deuses, Senhor da Vida, mantenedor da paz e espada de Shiva. Uma exposição é um livro aberto, pelo que ao observar estes objectos dei comigo a rememorar o clássico Siamese State Ceremonies, de Quaritch Wales.
Aqui estão o Grande Guarda-Sol branco - com sete ou nove níveis, o maior símbolo da realeza nas Mandala budistas do Sudeste-Asiático - a Grande Espada da Vitória, o Leque, associado à ideia de frescura e conforto, a Cauda do Elefante, o Ceptro e o Chicote, os receptáculos para o Betél, a Água Sagrada e o Vaso para Libações.

Na sala seguinte, os ornamentos dos artistas, inteiramente feitos em ouro e prata com inscrustações em pedras preciosas e semi-preciosas: o cinturão, as braceletes, as argolas e o peitoral.

Depois, os adereços adamascados que completam o vestuário: as abas aladas, a cinta e os paramentos reais.

O episódio de Prommas refere a sagração das flechas dotadas de poderes especiais, pelo que o segundo acto decorre em plena floresta, à luz da lua. O tom predominante é o verde; ou antes, uma multiplicidade de cambiantes verde-turquesa, verde-azulado, carmin e lilás.

Durante as representações, um altar recoberto de máscaras presta tributo aos mestres artistas e inscreve as personagens do drama que se celebra.

Lembrando que as figuras em palco são metamorfoses de artistas, a mesa de maquilhação oferece as possibilidades que os cremes espessos, os lápis, as sombras e as tintas oferecem para a realização das figuras mitológicas em cena.

Tosakan, rei dos demónios, possui dez faces e vinte braços e é o mais feroz inimigo do Rei de Lanka.

Annuman, o deus macaco, encarnação de Shiva e o maior aliado do ei de Lanka. Podendo mudar de forma e tamanho, Annuman reúne qualidades heróicas e é um poderoso agente contra as forças maléficas. Porém, possui também características histriónicas que fazem rir a plateia.

Bandeira Monárquica hasteada na Cidadela de Cascais

A bandeira monárquica ondula desde ontem na Cidadela de Cascais.

20 agosto 2009

O Colosso de Banguecoque




Desvelou-se o segredo. Um imenso paquiderme tricéfalo branco com ligeiros pigmentos rosa - o elefante de Airavata /Erawan - símbolo da realeza siamesa dá a marca à não menos impressionante exposição de artes de palco que ontem aqui noticiámos.

19 agosto 2009

O Colosso de Banguecoque

O gigante encoberto. No hall do Bangkok Cultural Centre, o misterioso colosso aguarda a chegada da Rainha Sirikit, que hoje inaugura uma grande exposição sobre artes de espectáculo tradicionais.

Há um frémito no ar quando o corpo de dança de Silpakorn exibe com irrepreensível cronometria um número em homenagem à Rainha. Parecem as apsaras saídas dos baixos relevos de Angkor: todas da mesma altura, de grande beleza e de uma harmonia que tem algo de sobrenatural.

A multidão canta algumas passagens da história que as bailarinas executam. Estas raparigas passsaram anos de inaudito esforço para atingir pleno domínio da expressão dramática, a qual exige rigoroso código de gestos, expressões faciais, meneios de cabeça e uma sequência de noventa movimentos de pés e mãos, cada um com um significado preciso.


As sirenes anunciam a aproximação da caravana real. O trânsito é fechado. Um silêncio profundo apossa-se da mais movimentada zona da capital. As bailarinhas ajoelham-se e fazem o whay que os siameses tributam à família real.

Não se ouve um murmúrio, só o agitar de bandeiras em papel. Os olhos repousam no imenso Rolls Royce dourado que se aproxima. Parece uma peça de teatro.
A magia da cerimónia não inspira subjugação, contagia naturalmente e infunde respeito. Os estrangeiros participam espontaneamente, abrem a boca de espanto, arregalam os olhos e agitam as bandeiras. É uma liturgia colectiva.

Ao meu lado, um casal de vendedores de rua diz-me que aqui está desde as três da tarde para ver a Rainha. É a força da consabida aliança entre o Povo e o Rei, sem distinção de riqueza e pedatura, um elo que se tem mostrado indestrutível e me enche de certezas a respeito do futuro.

Depois, uma vibração que se prolonga por minutos, vozes que se erguem num coro de "Som Phra Charoen" - Viva o Rei/Rainha - até que a viatura se detém e dela sai Sirikit. O hino real em versão tradicional irrompe da tenda do corpo de música. A Rainha acena à multidão e troca algumas impressões com o Primeiro-Ministro. Dá-se início à inauguração da exposição, que amanhã percorreremos. O mistério do Colosso de Banguecoque fica, assim, para depois.

A noite começa a cair mas a multidão não arreda. Tenho um compromisso inadiável. Distante da multidão, o chauffeur da Rainha, um coronel do exército, não se sente incomodado quando lhe peço que o deixe fotografar.


ใกล้รุ่ง

18 agosto 2009

O mobbing está a dar


Este não é um blogue multitudinário. Aqui vêm diariamente duzentas ou trezentas visitas em busca de um Portugal que desapareceu, ou antes, de uma certa ideia de Portugal em eclipse. Lá fora, na blogosfera dita partidária, os ajuntamentos fazem-se todos os dias, com gritos, estribilhos, mensagens anónimas, insultos, remoques, enforcamentos, lapidações e fuzilamentos de carácter. Com uma ou duas excepções, raramente visito os blogues "políticos", pois a política não me interessa. Quando falo em política, refiro-me essa particular forma de reduzir a Cidade à sem-história das caretas e carantonhas que ensombram o quotidiano português e à conta-corrente de pequenas e grandes salafrarias com que Portugal se vai gratuitamente esgotando.
Lembrando Garrett, parece que o regime ainda não compreendeu que o tempo de que dispunha se esvai inapelavelmente e que os grãos que remanescem na ampulheta são os últimos de um longo período que todos nós - os de esquerda como os de direita - malbaratámos, primeiro numa revolução que tudo desfez por princípio e depois se contentou em centuriar lugares, enriquecer escandalosamente os mais vis, os mais imbecis e os menos escrupulosos. O período que atravessamos será, sem dúvida, dos mais apagados, dos mais medíocres e desencantados da nossa história. A inteligência - há-a tão boa nas esquerdas como nas direitas - se não virou as costas e abandonou o país, deixou-se contagiar pela fétida atmosfera com que a imbecilidade se entreteve em mutilar o que de melhor os portugueses possuem. Parece que o regime destes partidos - dos de esquerda, como os de direita - parece fadado para fazer dos portugueses as criaturas azedas e malsãs que enchem a crónica das imposturas deste Portugal Contemporâneo.
Tenho por princípio não fazer reparos de natureza pessoal nem tão pouco dar conselhos. Aqui nunca se desleixou a gramática nem se confundiu o Buarque de Holanda com o Novo Dicionário de Calão. Estou longe, auto-exilei-me porque estava farto do país e já mal podia respirar. O país magoava-me, a maldosa estupidez arrasava-me e condenava-me à reclusão doméstica, a chocarreirice de estrebaria feria-me as narinas e os ouvidos. Ao fim de 33 anos de Portugal, só pensava no aeroporto. Saí e fiz bem, porque cada vez que se avizinha a hora de voltar - mesmo que de férias - passo noites de vigília e tormento.
Desde ontem recebi mais de mil visitas de sarcófilos em busca de carniça podre. Tentando compreender a origem desta algazarra, cheguei à conclusão que tudo não passava de um mal-entendido. O João Gonçalves - voz que sempre respeitei, pois é dos poucos que em Portugal não pede o favor de existir e diz o que pensa, concorde-se ou não com tudo o que diz - fez em tempos uma simpática alusão a um escrito aqui publicado. Anos depois, o texto é desenterrado e exposto como prova forense de um processo de intenções contra o João Gonçalves. No descaminho, envolvem-se insultos ao gosto do Senhor Gil Vicente e cresce a espiral em cornucópia do palavrão que ninguém poupa. Infelizmente, os envolvidos nesta triste altercação blogosférica são, quase todos, gente que considero. Entristece-me que o regime, que nada sabe fazer senão destruir, queira cegar as últimas inteligências que o poderiam salvar nesta 25ª hora.

16 agosto 2009

Nota dominical: festins sardanapalescos

Em Banguecoque ninguém morre à míngua de comer. A Tailândia nunca conheceu fomes, salvo durante os anos da guerra, quando os "aliados" japoneses se apoderaram da produção de arroz e a fizeram sair sem pagar dos portos siameses em direcção ao país do Sol Nascente. Aqui, o gosto de comer nunca se transformou em obessão, mas faz parte, naturalmente, da cultura local. Os thais comem sete ou oito vezes por dia - pequenas refeições - e até ao advento da comida-lixo norte-americana, a obesidade era constitutiva de alguns indivíduos com predisposição genética para engordar. Há quem não goste de comida tailandesa - a cada um o seu direito - pelo que aos estrangeiros é possível alterar todos os dias, degustando em mil e um restaurantes o que de melhor as gastronomias importadas oferecem. Para os que não pensaram ainda no que vão comer hoje pelo jantar, sugiro:


Sortido de carnes libanesas, acompanhadas de salada e pickles bem ácidos e molho de iogurte.

Um sukiaky japonês com vegetais cozidos, raviolis de camarão, cogumelos e soja.

Uns pastelinhos japoneses de carne condimentada com ervas, molho branco e cobertura de sésamo, acompanhados por uma sopa miso.

Um bibimbap coreano, com acompanhamento de kimchi bem ácido e pastelinhos de peixe frito.

Lagosta frita acompanhada de molho agridoce. Sendo um prato tailandês, disseram-me ter sido importado da cultura malaia, posto que deve ser acompanhado por arroz de colorau. Provei e é, a todos os títulos, uma surpresa.

Para os que fazem regime, uma salada de salmão com acompanhamento de uvas, passas, melancia e alface.

Para terminar, uma coisa assombrosa chamada kulfi: leite, amêndoas, pistacho e açúcar. Serve-se bem frio. Bom apetite. Para a semana há mais !