15 agosto 2009

100 anos depois, a ave levantou voo



Em finais do século XIX, pressionado por britânicos e franceses, o Sião teve de fazer prova de adesão à "civilização", ao tempo ideia redundante de Ocidente. Se o não fizesse, a intervenção da missão civilizadora fazer-se-ia sentir. O aluno esforçado já pusera de pé um Estado feito à medida do Leviatã europeu, já lançara o aço das linhas de caminho de ferro, edificava à europeia, vestia à europeia, falava o inglês e pusera de parte a mundivisão da "velha cultura". Nessa marcha forçada e sem pausas, dera-se prioridade aos atavios sem os quais seria, sempre, uma politéia "semi-civilizada". Faltava-lhe dar provas da "evolução" espiritual, sem a qual não poderia jamais receber o beneplácito dos todo poderosos Residentes europeus. No Ocidente, os estados competiam sem trégua pela exibição do progresso das ciências, da tecnologia e das artes nessas batalhas pelo prestígio internacional que deram pelo nome de Feiras Internacionais e Feiras Universais. Se Chicago, Filadélfia, Viena, Paris, Londres, Turim, Roma, Barcelona e Moscovo tinham triunfado, Banguecoque, a última capital independente do Sudeste-Asiático tinha de ter a sua feira. Rama V escolheu 1882 para a arriscada prova de fogo, fazendo-a coincidir com as comemorações do primeiro centenário de Banguecoque.

Os europeus chegaram aos centos. Diplomatas, jornalistas, correspondentes das academias de artes e ciências, de bloco e lápis em riste foram percorrendo como mestres de escola os pavilhões, avaliando a destreza dos siameses. O nosso cônsul em Banguecoque, Henrique Prostes, correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, apreciou os perfumes, os entalhados, os tecidos, a joalharia. Olhando para a maquinaria, toda importada das alemanhas e das inglaterras, terá calado fundo a semelhança com Portugal, também colonizado tecnologicamente e debatendo-se com análogo sentimento de inferioridade.

Ao entrar nos pavilhões das artes e ciências quedou-se pensativo . Pois, o Sião não tinha arte, mas artesanato, desconhecia Rodin, não sabia o que era a perspectiva, as telas e os óleos, nunca tivera um Leonardo, um Rembrandt e nem sabia para que servia um quadro. Os siameses também não sabiam o que era uma universidade, um termómetro, um teodolito, um tubo experimental.

"Parece - disse - que no que à pintura respeita, os siameses não chegaram ainda à primeira infância; estão num estádio aquém desta". Lamentou a pobreza dos objectos científicos, a mediocridade das fotografias, a miséria do movimento editorial. Em tom sombrio, terminou o seu relatório com uma sinistra advertência: "para um primeiro ensaio, demonstram entusiasmo, mas agora estão na linha divisória que separa a perdição da civilização".

Passaram quase 130 anos sobre esse dia. Hoje, por ser sábado, visitei uma exposição de belas-artes e três galerias de arte. O Sião aprendeu a lição e parece ter vencido os seus mestres.




Objectam os críticos, essa raça que não sabe pegar num lápis, usar um guache, fazer um poema, escrever um ensaio, investigar e correr o risco, que os tailandeses aprenderam bem o figurativo, mas falta-lhes capacidade de abstracção. Ora, para os calar, nada melhor que uma Muralha de Ovos, uma sala vazia e um vasto dormitório-instalação onde os visitantes fazem de figurantes.


14 agosto 2009

Ecos do Ramayana


Esta é, felizmente, uma "Sociedade Antiga" que vai resistindo como pode à chamada globalização, sinónimo de muito lixo que se transformou em ouro pelas bandas do Ocidente. Fiéis ao Ramakien - drama clássico da cultura da corte, versão thai do Ramayana compilada e reescrita pelo Rei Rama II - ao Lakhon, peças de enredo e gosto populares, onde a música, a dança e o riso se fundem, do Like (ópera popular inspirada nos contos e lendas) ao Nang Talung (marionetes e silhuetas), há centos de grupos profissionais e amadores que enchem recintos e teatros. Atraído pela estridência e pelo ritmo "indianizado" dos instrumentos, entrei no Estádio Nacional em frente de minha casa e por ali fiquei duas horas. Esta gente ama aquilo que faz, pois reparei que durante todo o espectáculo nunca deixaram de sorrir e até gargalhar, oferecendo-se à fotografia sem pose.
Ao terminar, falei com o músico do sino circular. Disse-me que todos os músicos frequentaram escolas superiores de música e que a companhia é inteiramente financiada pela Rainha Sirikit. Aqui está ! Se um dia vencesse o Pimba político, tudo isto desapareceria. As coisas estão todas ligadas.

Liliacacae de Banguecoque

Tulipas. Exposição. Emporium, Banguecoque.

13 agosto 2009

Ronaldomania


Banguecoque, Metro de Superfície.

12 agosto 2009

Os grandes dias da monarquia tailandesa









Cerimónias de ontem em Banguecoque.

Hoje é Dia da Mãe: homenagem a uma resistente / วันนี้เป็นวันของแม่พระราชินีในประเทศไทย



Há muitos patetas que continuam a insistir no argumento da inutilidade das monarquias. Trata-se, amiúde, de gente que carrega a ignorância na mesma proporção do despeito, mobilizando em doses equilibradas lugares-comuns da petite histoire, da coscuvilhice pequeno-burguesa ou do deslumbramento jet set, aos quais se junta uma boa safra de mitos igualitários. Ora, se as monarquias fossem isso, não haveria quem tanto as detestasse ao ponto de as querer destruir. O mais puro republicanismo vive prenhe de regicídio e, quase sempre, foi ou é escola de tiranos endinheirados e camarilhas que encontram no Trono obstáculo derradeiro à consumação do domínio do Estado e da sociedade ; logo, aqueles que se julgam fadados para o exercício do mando. Se as monarquias fossem o que delas dizem os seus inimigos - os patetas e as camarilhas - não teriam o apoio e simpatia que gozam entre o povo chão. Vamos hoje falar de uma mulher que contraria os lugares-comuns. Falamos, certamente, da rainha Sirikit da Tailândia, em cujas mãos repousa grande parte da história recente deste país.



Sirikit não foi apenas nos seus tempos de juventude uma das mais belas mulheres do mundo. Não há coisa que mais dane o sempiterno preconceito machista que uma mulher inteligente e temerária. Tratando-se de uma rainha, os inimigos da monarquia, que nunca atacam os reis mas comprazem-se em intrigar e sussurrar contra a mulher do Rei (vide D. Amélia, vide Maria Antonieta, vide Imperatriz Alexandra da Rússia) desenvolvem persistente actividade difamatória. Esta mulher mudou a história da Tailândia e continua a ser, sessenta anos após contrair matrimónio com o nono Rei da Dinastia Chakri, um dos mais sólidos pilares da ordem estabelecida.

Até ler o polémico The Revolutionary King: the true-life sequel to the King and I, de William Stevenson, sempre pensara que Sirikit não mais seria que uma bela e sofisticada aristocrata siamesa bafejada pela sorte e transformada em rainha pelas escolhas do coração do Rei. Mas não, Sirikit foi decisiva para o Rei. Quando o conheceu, este vivia em semi-exílio na Suiça, um Rei sem poder, longe da sua terra flagelada por uma das mais sinistras ditaduras "pró-ocidentais" do início da Guerra Fria. A Tailândia, então protegida pela Sala Oval como a peça do dominó que jamais poderia cair em mãos comunistas, estava entregue a Phibun Songkram, homem que fora de mão dos japoneses durante a Segunda Guerra e depois saíra da prisão pela benevolente mão da CIA para encabeçar um governo "anti-comunista". A criatura não conhecia limites: fez-se chamar O Maior dos Tailandeses, o Primeiro Guerreiro da Nação, o Cidadão Número Um. Em suma, coisas da escola francesa, pois Phibun fora educado em França e deixara-se embriagar pela beberagem que tão bons resultados teve sobre Ho Chi Mihn e Pol Pot. É quase certo que a camarilha de Phibun esteve implicada na morte do irmão mais velho do Rei, Rama VIII, que aqui chegou carregado de esperanças reformistas e foi encontrado morto na cama, com um tiro na nuca em circunstâncias absolutamente misteriosas. Phibun inculpou os "comunistas", num tempo em que qualquer esboço de contestação era publicitado como uma conspiração comunista. Em suma, as oligarquias plutocráticas e rapinadoras, as melhores fazedoras de comunistas.

Ao morrer o seu irmão, o príncipe Bumiphol sucedeu-lhe, foi coroado e despachado para a Suiça pelo ditador. Aí conheceu Sirikt num momento trágico da sua vida. O Rei tinha cegado, vivia precariamente e em permanente sobressalto, pois era voz corrente que o ditador dissera aos seus íntimos que "os reis também podem morrer". A Tailândia vivia imersa na repressão: milhares de mortos e desaparecidos, prisões regurgitantes, execuções públicas, corrupção irrefreável, tribunais dominados pela polícia. O comandante da polícia, Phao Sriyanond, era, nem mais, o maior traficante de ópio do país e dono da maioria dos bordéis da capital. Foi Sirikit que, sentada durante meses à beira do Rei, lhe leu sucessivas Histórias da Tailândia, as Crónicas Reais, lhe falou nos heróis e heroínas do passado, na teoria do Rei Justo, o introduziu na história literária do país. Ao debelar a cegueira, o Rei renasceu, voltou e, juntamente com Sirikit, travaram combate de uma década contra o ditador. Foi o início da nova era. O Rei nunca teve o poder das armas ou do dinheiro, mas fez suas as causas do povo, lutou pelo cooperativismo, pela economia auto-sustentada, semeou o país de instituições caritativas, exigiu mais escolas, mais hospitais e postos clínicos, erradicou o analfabetismo e demonstrou que havia alternativa ao comunismo. Foi essa tremenda força e paixão que desde então junta o Rei e o seu povo que permitiram vencer a guerrilha do Partido Comunista da Tailândia. Foi essa convicção na liberdde que permitiu ao Rei intervir sempre que os militares - estabelecidos no poder desde 1932- exorbitassem.

Em finais da década de 90, um novo Phibun, um ex-polícia como o fora Phao, quis usurpar o poder. Tal como Phibun, invocou a "legitimidade dos votos", mas essa legitimidade era comprada nas aldeias submetidas ao poder de bronze da cacicagem. Falamos, claro, de Thaksin, um candidato a ditador num tempo em que as ditaduras não se apresentam nuas, mas revestidas pelas farpelas da "democracia". Tal como acontecera no passado, durante a Guerra Fria, muitos jornais ocidentais incensaram o novo homem forte, atacaram o Rei e fizeram espalhar pelo mundo as mais soezes mentiras. Mas no fim, o Rei triunfou. Hoje, procurado pela polícia como uma vulgar criminoso, Thaksin é acusado dos maiores excessos de corrupção, apropriação de bens, favorecimento familiar e actividades contrárias à segurança nacional. Não sendo politicos, os Reis mantiveram-se longe, mas o povo compreendeu que aquilo que se opunha ao interesse nacional não era a democracia, mas essa forma de partidocracia populista que tudo quer terraplanar para no fim se impor, como acontecera em 1932.
Sirikit é uma resistente. Hoje é o seu aniversário natalício. Por toda a capital, retratos seus apresentam-na como a rainha. Creio que, mais que uma rainha que se celebra, é a condição da mulher tailandesa que se exalta. Esta tarde, ao sair de casa, vou depor uma flor aos pés do seu retrato. Sabedoria é saber viver com um sorriso. Esta mulher de excepção viveu décadas de sobressaltos, conheceu dramas e perigos que felizmente poupam a generalidade das pessoas. Não obstante, manteve a fortaleza com um sorriso. É a pedra mais sólida sobre a qual repousa o trono.


เพลงเทิดพระเกียรติ พระบาทสมเด็จพระเจ้าอยู่หัว

11 agosto 2009

Vexilologia sem bizantinices: breve subsídio para a Comissão de Bandeiras e Símbolos do Centro de Estudos Olissipográficos da CML


Afinal, o pano que estava na varanda da Câmara era o Königliche Flagg dos regimentos do Velho Frederico da Prússia. No parecer de Herr Professor Doktor Oskar Katzenblummehrwitz von Heinlein und Braggation, vexicólogo de renome - vide, Herman Alois von Bauschwein, Ehemalige Regimenter der Linie in Oberösterreich: kurze Bemerkungen über die Herkunft der Symbolik preußischen. Berlin: Brüder und Cousins Einbrecher, 1897, pp. 940-1293 - a bandeira dita da CML foi desenhada pelo Ingenieur Dresser Jorg von Kitta-Kittel.


Por seu lado, o académico castelhano José de las Lajas y Milfuentes de Navalmoral de la Mata - vide La importancia de los lanzamientos bajos de Cataluña y la Comunidad Valenciana en la creación de las banderas de los regimientos de segunda línea en 1703. Madrid: Editorial Conejos y Cágados, 1912, pp. 689-776 - lembra que tal bandeira é a dos leais súbditos da cidade de Ceuta "que se mantuvieran fieles al legítimo rey de España y no se sumaram a los traidores que hizieran el alzamiento de 1640 en Portugal" .

Entretanto, o Novoye Pokolenieye, grande diário de Almaty (Kazaquistão), desenvolve hoje extenso editorial assinado pelo seu director, Nurlan Utebovich Tasmagambetov, considerando o caso da bandeira da CML matéria para conflito diplomático com a República Portuguesa, pois aquele símbolo é pertença do clã Almutuluti (Espada Dourada) desde o século XIII.
Ao preclaro lente Doutor António de Metello Pestana de Sousa e Mello (Pardazelo), responsável pela Comissão de Bandeiras e Símbolos do CEOCML, este modesto contributo para a "Questão da Bandeira da Câmbra - perdão, Câmara - desta Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa.

Viva o 31 da Armada


O 31 da Armada está de parabéns. É o que se chama Propaganda pelo Facto, mas esta não se fez - como mandava a ética republicana, de revólver e de bombas - mas de azul e branco. A república é coisa para passar e para esquecer. Dêem-nos liberdade de expressão e não há censura, nem irreversibilidade constitucional, nem patetice alvar que nos impedirá de vencer o tal referendo que "eles" há 100 anos querem evitar.