05 Agosto 2009

Amoralidade, relações internacionais e Photoshop

As relações Estado-a-Estado não se devem subordinar a preconceitos de natureza política, ideológica ou religiosa. Nestas, deve prevalecer o interesse recíproco. É a velha Real Politik, a mesma que juntou Luís XIV e os Príncipes Protestantes, Napoleão e Alexandre I, Hitler e Molotov, Churchill e Estaline, Nixon e Mao, Willy Brandt e Ceausescu. Contudo, há limites que só a coerência pode aconselhar.

A visita de Clinton-marido a Kim Jong Il aparenta uma sensacional viragem de rumo da política dos EUA. O "Eixo de Mal", a cruzada pela democracia global e a intransigente como inegociável luta contra o totalitarismo acabou. Resta agora saber se os EUA, tão insondáveis como trapalhões no tratamento dispensado a aliados, não terão trocado o velho aliado sul-coreano - agora demasiado forte; logo, perigoso concorrente - pelo ubuesco regime de Pyongyang.

O que mais estranho em tudo isto é a transfiguração de Kim Jong Il. Há dias, era um cadáver ambulante marcado pela doença terminal. Diziam os arúspices de Washington que o regime estava nas vascas da agonia. Ontem, o tirano apareceu com menos 20 anos, cútis resplandecente, cara redonda como um Mooncake, sorriso de orelha a orelha. Afinal, resta saber se o miraculoso Photoshop foi aplicado antes ou depois da missão Clinton. A eterna fantasia adolescente em que vivem os americanos é coisa que mete medo. Uma super-potência com tal comportamento errático não dissuade os inimigos mas afasta, decididamente, os aliados. Ainda veremos Raul Castro em Washington. Disso estou tão certo que já nem faço profecia.


PDRK

04 Agosto 2009

Da Cabeça e dos pés siameses

O carrapito thai - หัวจุก/hua jùk ou "tampo da cabeça", tufo em forma de crista arredondada no cocuruto da cabeça - era o corte de cabelo que exibiam homens, mulheres e crianças no velho Sião. Quando os jovens entravam para o templo para receberem a ordenação, realizava-se a tonsura, símbolo do renascimento, mas também do despojamento.

A explicação que os thais encontram para tal corte de cabelo é matéria de discussão, pois se para uns servia para ornamentar a cabeça - amiúde o tufo era abraçado por uma argola em ouro, prata ou bronze - para outros serviria para assinalar e proteger a parte mais nobre do corpo, pois para os siameses o osso parietal é considerado região sagrada e intocável. Tocar na cabeça de uma pessoa é tão impensável como tocar-lhe nos pés - um absoluto don't - pois se a cabeça significa proximidade com o sagrado, os pés são a mais baixa, impura e infamante expressão da animalidade.
Indignados com o à-vontade com que os Farang (estrangeiros europeus) tocam os objectos com os pés, deles se servindo até para apontar, os thais chamam aos pés นิ้วฝรั่ง = Níu Farang, ou seja, "dedos/maõs de europeu", deliciosa expressão que, tivesse equivalente na Europa a respeito de outros povos, teria de imediato à solta uma puritana lei anti-xenofóbica.

Daí que a titulatura real - Prabat Somdet Prajáo Yú Hua, literalmente, "Excelsos pés que repousam sobre a minha cabeça" - não só exprima o lugar que o Rei ocupa na hierarquia dos homens, como também a única relação física que aos comuns é possível manter com a pessoa do Rei. Sendo o Rei um avatar de Vishnu, as petições que os súbditos enviavam ao Rei eram precedidas pelas significativas fórmulas introdutórias "eu, que não mais mereço que a poeira dos pés de V. Majestade", "eu, que sou indigno de tocar nos pés sagrados de Vossa Majestade".



O tempo passou, o hua jùk desapareceu como pragamática de identificação, mas como em tudo, as coisas mudam absolutamente para que tudo ficasse na mesma. As crianças e jovens em idade escolar - até aos 17 anos - continuam a exibir o cabelo rapado nas têmporas e occipital, vestígio do velho jùk e as crianças de tenra idade - até aos 5 anos de idade - são exuberante catálogo da arte e amor que os pais investem nas cabeças dos pequenos príncipes.



กรกฎาคม

Este blogue faz 4 anos


Podia ser melhor, se para ele dispusesse de mais tempo para uma escrita cuidada e revista. Podia ser muito pior, se tivesse resvalado para a fácil diatribe, para o insulto soez, para a politiquice de café, para a arremetida canalha.

Combustões começou com uma declaração de princípio: este não é um blogue "intelectual", isto é, não é escaparate para falso eruditismo. De facto, aqui não assomam à janela nem Platão nem Rawls, aqui não se faz anedota de academia, apostolado ideológico nem se emitem cheques carecas de enciclopedismo. A única constante é a defesa de uma certa ideia de Portugal que não cabe, decididamente, num certo "nacionalismo" anti-português, feito de colagem, tribalista e redutor, tão europeu que deixou de ser português.


Este foi, sempre, um blogue fora-de-portas: sem lóbi, sem partido, sem templo e sem loja. No fundo, as pessoas vivem alimentando-se de mitos, adormecem nas primeiras convicções adolescentes e daí não conseguem sair. A direita portuguesa, tão iletrada como arrogante, vive no seu nimbo, regozija-se e trava combates barrocos pela sua Torre de Marfim; ficou refém dessa tão incensada coerência que deixou de poder actuar, não vão os pés trair as sacrossantas escrituras que ninguém leu. Vai atrás de qualquer Manuelinho, recusa o mais insignificante gesto de reflexão. É inútil, não dá em nada.

Quanto à esquerda, tão envolvida no saque de sinecuras, já nem quer pensar; vive aboletada no amiguismo parece-bem, é comunizante sem ser comunista, marxizante sem citar Marx e revolucionária só e quando a alcatifa, o whisky ou a alta cilindrada não sejam questionados. Essa esquerda é sinónimo de "maldita geração de 70" ou zeca-afonsismo refastelado no melhor Divani & Divani. Acabará, com um novo regime, na lista de espera do lugar que sobrar no devorismo e na adesivagem, materiais com que se fazem todos os regimes em Portugal.

Este é um blogue monárquico, pois claro. Não há forma de pensar Portugal sem a monarquia. De fora, naturalmente, fica o culto dos senhores presidentes e das senhoras presidentes, venham estes da direita que não quer ser direita, da direita que só quer as escrituras polidas mas não as lê, das esquerdas caviar - dos anos 60, dos anos setenta, dos anos 80 e dos anos 90 - que se habituou aos "fundos" estruturais para realizar a proeza de afundar o país, roubar-lhe o futuro e matar-lhe o passado.

Este passou a ser, na sua segunda fase "tailandesa", um blogue asiático-português. Aqui no Oriente aprendi a desprezar a plutocracia, o parente pobre do capitalismo, o maior inimigo do trabalho e da propriedade, o maior engodo para os pobres. De câmara em riste acompanhei as peripécias de uma revolução que evitou o colapso deste país (1, 2, 3, 4, 5), assistimos às reviravoltas e golpes fracassados. Depois, uma reflexão necessariamente portuguesa desta jornada, a aproximação ao tempo passado que é tempo de hoje; em suma, o que mais nos interessa, Portugal.

Para os próximos quatro anos prometo melhor, se os meus leitores quiserem.


Liebe ist ein Geheimnis (Hilde Hildebrandt)

02 Agosto 2009

Ronaldocracia


Siam Discovery, Banguecoque.


Ich brech die Herzen der stolzesten Frauen (Heinz Ruhmann)

01 Agosto 2009

O Álvaro Cunhal romanesco


Cunhal era um homem de cultura e um artista; Cunhal ao longo da segunda metade do século XX foi tão importante para a vida colectiva portuguesa como o foi Salazar; Cunhal foi reconhecido internacionalmente como um grande vulto, etc, etc.

A velha história de sempre, repetida à exaustão como uma petição de princípio arredia a qualquer juízo crítico; logo, fundada numa falácia que trata de atribuir qualidades sem as avaliar. À petição de princípio soma-se a tautologia, que se refastela na longa enumeração de qualidades que não retiram nem acrescentam uma molécula à compreensão desse homem que, mesmo depois de morto, continua a receber as mais rasgadas louvaminheirices das esquerdas [e das direitas]: Cunhal era um homem persistente e tenaz; Cunhal foi coerente até ao fim; Cunhal sacrificou a vida às suas crenças, Cunhal e Salazar eram duas polaridades opostas marcadas por um forte sentido do dever (...).


José Saramago ofereceu ontem nas páginas do DN mais uma prova elucidativa dessa misteriosa demissão da inteligência que caracteriza a relação que os portugueses teimam em manter com Álvaro Cunhal. Se atentarmos nos argumentos reunidos sobre Cunhal - os impropérios como os elogios - verifica-se que se fundam nos mitos que admiradores e inimigos sobre ele foram tecendo; logo, os valores e anti-valores que Cunhal supostamente referenciava não passam de provas de afecto ou aversão que se encontram fora do sujeito, mas na estima ou repugnância que estes [valores] carregam para os indivíduos que sobre ele se pronunciam.


Cunhal foi um mito para a esquerda, como também o foi para a direita. Tudo o que a ele se refere é mero exercício de rememoração de acontecimentos: os anos de prisão, a defesa da tese de licenciatura debaixo de armas, a fuga de Peniche, o exílio no Bloco Comunista, o regresso a Portugal em Abril de 1974, o Verão Quente de 75. Tudo o que se disser sobre o homem esbarra, sempre, com acontecimentos e não com obra. A obra de Cunhal é pequena, insignificante ou nula: pequena como autor, insignificante como artista, nula como político, pois não resultou e dela pouco mais ficou que uma baça mancha. Neste particular, não há "valores", mas apenas uma prática induzida pelos acontecimentos. Cunhal foi, no máximo, um participante da história. O estranho em tudo isto é que se conseguiu fazer de Cunhal uma figura romanesca, senhor do seu destino e destinação, quando, de facto, foi sempre - e apenas - um mero fiscal de forças que não dominava: como comunista, foi perseguido pelo estado Novo; como comunista, serviu o Komintern e o Kominform. Atrelado aos acontecimentos fez o que sempre soube fazer: obedecer àqueles que o instruíam, contrariar aqueles que se lhe opunham. Quando em Novembro de 1975 se abriu, por momentos, a possibilidade de se revelar um homem de liderança, rendeu-se à evidência e acomodou-se a um tipo de regime que desprezava ainda mais que o regime que combatera. Os últimos anos de vida foram confrangedores. Um homem velho, ultrapassado, incapaz de compreender o que se passava à sua volta, escudado numa teimosia perfeitamente irracional.


Julgamos, sinceramente, que um dos maiores escolhos para a esquerda portuguesa (como para a direita) continua a ser ou santificação laica de Cunhal ou a sua demonização. Os "estudos sobre o comunismo" não lhe podem tributar a importância de ideólogo - pois nada acrescentou, inovou, modificou - no credo de Lenine. Os politólogos não mais podem fazer que a figura do pequeno burocrata de uma engrenagem que tinha sucursais um pouco por toda a geografia planetária. Neste particula, Berlinguer bate Cunhal aos pontos. Em suma, Cunhal mal existiu.


Dia da Vitória = Den Podeby (1973)