
Cunhal era um homem de cultura e um artista; Cunhal ao longo da segunda metade do século XX foi tão importante para a vida colectiva portuguesa como o foi Salazar; Cunhal foi reconhecido internacionalmente como um grande vulto, etc, etc.
A velha história de sempre, repetida à exaustão como uma petição de princípio arredia a qualquer juízo crítico; logo, fundada numa falácia que trata de atribuir qualidades sem as avaliar. À petição de princípio soma-se a tautologia, que se refastela na longa enumeração de qualidades que não retiram nem acrescentam uma molécula à compreensão desse homem que, mesmo depois de morto, continua a receber as mais rasgadas louvaminheirices das esquerdas [e das direitas]: Cunhal era um homem persistente e tenaz; Cunhal foi coerente até ao fim; Cunhal sacrificou a vida às suas crenças, Cunhal e Salazar eram duas polaridades opostas marcadas por um forte sentido do dever (...).
José Saramago ofereceu ontem nas páginas do DN mais uma prova elucidativa dessa misteriosa demissão da inteligência que caracteriza a relação que os portugueses teimam em manter com Álvaro Cunhal. Se atentarmos nos argumentos reunidos sobre Cunhal - os impropérios como os elogios - verifica-se que se fundam nos mitos que admiradores e inimigos sobre ele foram tecendo; logo, os valores e anti-valores que Cunhal supostamente referenciava não passam de provas de afecto ou aversão que se encontram fora do sujeito, mas na estima ou repugnância que estes [valores] carregam para os indivíduos que sobre ele se pronunciam.
Cunhal foi um mito para a esquerda, como também o foi para a direita. Tudo o que a ele se refere é mero exercício de rememoração de acontecimentos: os anos de prisão, a defesa da tese de licenciatura debaixo de armas, a fuga de Peniche, o exílio no Bloco Comunista, o regresso a Portugal em Abril de 1974, o Verão Quente de 75. Tudo o que se disser sobre o homem esbarra, sempre, com acontecimentos e não com obra. A obra de Cunhal é pequena, insignificante ou nula: pequena como autor, insignificante como artista, nula como político, pois não resultou e dela pouco mais ficou que uma baça mancha. Neste particular, não há "valores", mas apenas uma prática induzida pelos acontecimentos. Cunhal foi, no máximo, um participante da história. O estranho em tudo isto é que se conseguiu fazer de Cunhal uma figura romanesca, senhor do seu destino e destinação, quando, de facto, foi sempre - e apenas - um mero fiscal de forças que não dominava: como comunista, foi perseguido pelo estado Novo; como comunista, serviu o Komintern e o Kominform. Atrelado aos acontecimentos fez o que sempre soube fazer: obedecer àqueles que o instruíam, contrariar aqueles que se lhe opunham. Quando em Novembro de 1975 se abriu, por momentos, a possibilidade de se revelar um homem de liderança, rendeu-se à evidência e acomodou-se a um tipo de regime que desprezava ainda mais que o regime que combatera. Os últimos anos de vida foram confrangedores. Um homem velho, ultrapassado, incapaz de compreender o que se passava à sua volta, escudado numa teimosia perfeitamente irracional.
Julgamos, sinceramente, que um dos maiores escolhos para a esquerda portuguesa (como para a direita) continua a ser ou santificação laica de Cunhal ou a sua demonização. Os "estudos sobre o comunismo" não lhe podem tributar a importância de ideólogo - pois nada acrescentou, inovou, modificou - no credo de Lenine. Os politólogos não mais podem fazer que a figura do pequeno burocrata de uma engrenagem que tinha sucursais um pouco por toda a geografia planetária. Neste particula, Berlinguer bate Cunhal aos pontos. Em suma, Cunhal mal existiu.
Dia da Vitória = Den Podeby (1973)