17 julho 2009

20 milhões com os olhos em Portugal


Dizem as estatísticas que o noticiário sobre as actividades da família real tailandesa bate todos os recordes de audiência, conseguindo 30% de ranking diário, ou seja, seja de 20 milhões de telespectadores. Emitido à mesma hora pela totalidade dos canais de televisão, dá conta ao país das cerimónias de Estado, recepções, inaugurações, visitas ao estrangeiro e iniciativas caritativas em que o Chefe de Estado, a rainha e os príncipes reais tomam parte. Hoje, foi a vez da Princesa Chao Fa Chulabhorn Walailak, terceira na linha sucessória e reputada bioquímica envolvida na investigação e combate ao cancro. A visita de trabalho que actualmente desenvolve em Espanha e Portugal tem sido motivo de algum interesse por parte de amigos que vou encontrando. Aqui fica, pois, o curioso apontamento retirado em directo da pantalha.


Say Fan (música composta por SM o Rei da Tailândia)

15 julho 2009

Saber viver num país pobre ou temos de voltar aos anos 60




Cada vez que abro os jornais portugueses acessíveis em linha assalta-me a surpresa de não me reconhecer em nada do que se passa [ou não passa] no país onde vivi durante trinta e tal anos. Ria-se a oposição do faz-de-conta em que se dizia viver Portugal nos anos de Salazar: os concursos para a mais prendada costureira, a quermesse da Cruz Vermelha, a chegada da frota bacalhoeira da Terra Nova, a benção do novo Super Constellation da linha Lisboa-Luanda, a inauguração de uma exposição da SNBL, a visita de graduados da Mocidade Portuguesa ao Chefe de Estado, a inauguração do Pavilhão Francês na Feira Popular, a passagem por Lisboa de uma estrela da Cinecittà. Dir-se-ia que no fim dos anos 50 e inícios de 60 Portugal queria viver para si e que a presença na OTAN, na EFTA, nas Nações Unidas e suas organizações não passava de obrigação imposta pelo novo quadro das relações internacionais emergente no pós-guerra.


Depois, nos anos 60, o bucolismo virgiliano sofreu uma metamorfose: os noticiários encheram-se de referências ao desenvolvimento tecnológico, ao investimento estrangeiro em Portugal - importa lembrar a fixação da Mitsui, da Hoechst, da Mitsubishi, da Plessey, da Philips, da Central Data, da Texas, da Grunding, da Lever, da Colgate, da Solvay, da Secil e Siemens, da IBM e da Westinghouse (ou EFACEC) - às parcerias entre o capital português e grupos económicos e industriais europeus, à fúria das obras públicas - do Metro, dos portos e aeroportos - das barragens e planos de irrigação. A capacidade industrial chegou a crescer 20% ao ano e o rendimento nacional por habitante cresceu em média 10% entre 1963 e 1973. Portugal estava em guerra em três teatros de operações e em cinco frentes de combate, mas continuava a crescer economicamente. Lisboa foi, em inícios da década de 70, o destino obrigatório de grandes congressos e reuniões de trabalho de profissionais dos mais variados ramos de actividades. A classe média urbana crescia em riqueza e consumo, a banca transformou-se em actividade lucrativa, a terciarização bateu recordes de crescimento.


Depois, quisemos brincar ao socialismo. Nacionalizaram-se a banca e os seguros, inventou-se o papão das multinacionais e dos "intermediários parasitas", afungentamos o capital europeu e norte-americano, desmantelou-se a indústria pesada e metalomecânica, impediu-se a transição das indústrias propedêuticas para estádios mais exigentes de aplicação tecnológica e qualificação, condiciou-se a procura e a concorrência e deu-se rédea solta ao poder do funcionalismo público, que cresceu de 200.000 (1966) para 700.000 (2000). O dinheiro da rodos chegado da Europa entreteve a ilusão do crescimento. A este acrescentou-se o sonho do dinheiro barato, do crédito sem restrições, dos gastos sobre gastos do Estado e da nova elite dirigente - que cresceu de 5000 quadros superiores dirigentes para cerca de 100.000 comensais cativos [no parlamento, nos ministérios, nas secretarias de Estado, na Câmaras Municipais, nas fundações, nas Forças Armadas] - ao ponto de se perder o controlo da dívida pública.


Agora, não há dinheiro fácil, não há empresas portuguesas, nem marcas portuguesas, nem investimento português ou estrangeiro que se consigam lobrigar na complexidade crescente da trama económica global. Perdemos em Portugal, perdemos no "espaço económico português", perdemos na corrida à fixação de novas tecnologias, perdemos cérebros e vamos, lenta e inapelavelmente, voltando aos concursos de costureiras, às inaugurações de nada, às visitas de estrelas de cinema "em busca de sol e praia". Não deixa de ser significativo o facto de, a partir de finais da década de 90, Portugal regredir cada ano nas estatísticas da OCDE e do Banco Mundial. Corremos o grave risco de sermos ultrapassados pela totalidade dos Estados do ex-bloco comunista e de, acorrentados à fatalidade espanhola, dependermos das flutuações e ritmos da economia vizinha.


Como se vê, a política não é uma prioridade. Sem economia, a política reduz-se a um fazer de conta de vida e a uma liturgia vazia. Começo a compreender, finalmente, que Portugal ganha muito pouco por se manter agarrado ao regime e de estarmos condicionados pela imobilidade e trama de privilégios que este foi tecendo. Há quem queira o fim do regime. Porém, o fim do regime não é - não pode ser, não deve ser - o fim da democracia, mas a substituição de um modelo imperfeito por um novo quadro institucional que faça crer aos portugueses que somos um país pobre. Viver na pobreza não quer dizer que sejamos miseráveis; quer, sim, dizer que devemos viver na exacta medida das nossas possibilidades, que devemos premiar o esforço e o trabalho, que devemos ter os melhores a dirigir, que se deve restaurar o princípio da poupança e dos sacrifícios. Viver modestamente não quer dizer que vivamos em penúria, mas que sejamos os primeiros a reconhecer que o tipo de figurino que nos impuseram se transformou na maior causa de frustração para quantos acreditaram poder viver como europeus ricos e ociosos.


12 julho 2009

Cidades de mortos: cemitérios de Banguecoque












Lugares votados ao abandono, última morada antes do esquecimento e da poeira. Os vivos que os enterraram também já partiram, pelo que os túmulos deixaram de ter qualquer função memorial. Os mortos a enterrarem os seus mortos. Em Sillom - artéria comercial da capital - ainda há dois ou três destes locais escapados ao camartelo e à sanha das empresas imobiliárias. São cemitérios cristãos, chineses e farsis, os únicos existentes na Tailândia budista que crema os seus mortos. Histórias mudas de comunidades migrantes, gente que nesta terra fez fortuna e se impôs. Depois, o silêncio guardado por matilhas de ferozes cães que fizeram das cidades dos mortos o seu reduto na selva da grande cidade de betão.