04 julho 2009

Novamente o escaravelho estercorário

Os cornos com que Pinho brindou os parlamentares são, sem tirar, o espelho daquilo a que aqui em tempos chamei de raleficação galopante do ethos português. É evidente, gente ordinária, imunda e canalha sempre existiu, detendo até a maioria no censo dos bípedes implumes. No pressuposto que a nobreza de atitudes, a correcção e a afabilidade só se decantam após porfiado esforço de expulsão dos demónios que habitam desde o primeiro dia o coração dos homens - a hominização não joga, decididamente, com humanização - e aceitando de barato que a maioria dos hominídios jamais chega aos umbrais da humanidade, devemos viver em constante sobreaviso e nunca abandonar o radical e são pessimismo sobre a natureza das criaturas com as quais nos cruzamos.

Acontece, porém, que o reles, o canalha e o roncante viveram sempre no zoo das formas imperfeitas de humanidade, ficando de fora na copa, no jardim, na estrebaria, invisível, inaudível e, logo, incapaz de induzir exemplo. Porém, as coisas mudaram. Onde antes havia uma elite carregando o peso da responsabilidade e daquelas virtudes cardinais da justiça, da temperança, da fortaleza e da prudência, que não são teologais, mas virtudes éticas, às quais se acrescentavam a paciência, a caridade, a modéstia e a generosidade, hoje temos o império da escumalha impondo a norma. Não é, pois, de estranhar que a canalha, que sempre foi canalha e disso jamais se libertará, tenha encontrado no mundo moderno e seus mitos igualitários o argumento de ouro para impor a sua lei. Se a canalha sempre foi maioria, por que razão não não deverá o mundo viver ao ritmo dessa maioria ?

Alguns, inadvertidos, julgaram que bastava dar mais dinheiro, mais consumo, mais objectos e, até, mais diplomas universitários para atenuar o peso da canalha. As coisas são como são: a canalha cresceu em receitas, em viagens aos Brasis, em apartamentos, em trapos, em computadores e telemóveis, subiu aos ministérios, envergou as vestes talares e as togas da magistratura, dominou as academias militares, fez-se polícia, conquistou os media, fez cinema, escreveu livros mas não se conseguiu libertar da ontologia canalha. Para o escaravelho estercorário - aquele que arrasta por montes e vales a sua imensa bola de esterco - o mundo é o vasto horizonte onde, sem barreiras, a bola de esterco se agiganta, é admirada e aplaudida pelos escaravelhos concorrentes na corrida à maior obra.

O gesto de Pinho é um verdadeiro manifesto. Onde antes havia canalha nas tabernas, nas docas, nas ínvias ruelas e nas esquinas onde se remoíam as biliosas segregações ácidas da inveja solitária e da fúria da insignificante e odiosa pequenez, hoje temos a canalha a dirigir bancos, universidades e parlamentos. Abro a maioria dos blogues e aí vejo o triunfo da impunidade canalha. A educação formal não responde, decididamente, a esta praga. Não é por se ensinar um hominídio a abrir um computador, a investir na bolsa, a cobrir-se de trapos de "marca" e conduzir Mazeratti que se diliu a mortal influência da canalha. Creio que melhor seria que a escola ensinasse meia dúzia de coisas essenciais - não insultar, não apostrofar, não invejar, respeitar o trabalho alheio, as leis e as autoridades, amar a pátria - que fingir que liberta as pequenas e adoráveis crianças do inapelável chamamento da canalha ao facultar-lhes as biologias, as matemáticas, as linguísticas, as informáticas e as robóticas, as economias e as filosofias teóricas. A cloaca maxima transbordou e inundou Roma até aos píncaros do Quirinal !
Confesso que não invejo Pinho. Aquele parlamento transformou-se numa verdadeira escola de grosseria capaz de quebrar a resistência emocional ao mais coriáceo dos homens. Contudo, a melhor resposta à canalha é o desprezo. Se Pinho se tivesse levantado, arrumado os papéis e saído, esperando que a canalha se amansasse, teria dado uma lição de civismo e dignidade. Mas não, julgou que respondendo à canalha com um gesto canalha anularia o efeito das provocações. Aprende-se com a vida todos os dias da vida.

03 julho 2009

Bizarrias tailandesas: A&B ou a arte de sobreviver em época de crise

Três ou quatro vezes por semana frequento uma biblioteca para os lados de Sukhumwit, uma das maiores avenidas de Banguecoque (e do mundo) que se estende por mais de 400km, do coração da capital tailandesa a Trat, perto da fronteira cambojana. Antes das nove da manhã, vou ao café das irmãs A&B. Há cerca de seis meses disseram-me que o negócio ia de mal a pior, sem clientes, muitos credores, rendas em atraso, bancos batendo à porta com ameaças de despejo. Há menos turistas; logo, as receitas foram minguando com o arrastar da crise que o senhor Madoff teve a gentileza de espalhar pelo mundo.


Mas o cafézinho tinha que sobreviver e vai daí recorreram a uma terapia de choque. A&B mudaram da noite para o dia, cobriram as cabeças com perucas flamejantes, vestiram a condizer e o negócio começou de novo a prosperar. Hoje de manhã lá estavam infatigáveis a correr de mesa em mesa a atender uma clientela inteiramente masculina (pudera) que parecia lá estar mais pelo simpático serviço que pelo café matinal. Os tailandeses são assim: despem-se de medos e medinhos e lutam pelo dia-a-dia com criatividade, mas sem nunca se precipitarem no ridículo ou no reles. É um povo que merece ser copiado.

02 julho 2009

A falsa Aliança Democrática com fado e tudo


O Presidente da Real Associação de Lisboa, João Matos e Silva, fundador do CDS, acaba de enviar a Paulo Portas carta anunciado desfiliação do partido por considerar a inclusão do vão PPM de Câmara Pereira na coligação AD à CML um insulto aos monárquicos, dadas as posições que o fadista tem assumido em relação à figura do Chefe da Casa Real Portuguesa, Senhor Dom Duarte de Bragança; logo, uma gratuita agressão à esmagadora maioria dos monárquicos portugueses que ao Senhor Dom Duarte tributam o respeito devido aos sucessores legítimos dos reis de Portugal. Com efeito, a direcção do actual PPM tem desenvolvido ao longo dos últimos meses inaceitável campanha contra o Chefe da Casa Real. Nesta sórdida campanha, que se diz à boca cheia cumprir a agenda anti-monárquica das celebrações republicanas de 2010, não faltam adjectivos soezes - difamação pura - e o envolvimento de pessoas que nunca tiveram qualquer actividade monárquica conhecida, para não referir outras cujo percurso é, no mínimo, suspeito.

O PPM - o verdadeiro PPM de Ribeiro Telles - que se bateu sempre por um projecto lisboeta livre das negociatas e especulação mafiosa, nada tem a ver com este "ppm" sem ideias e sem quadros. Fazer crer aos lisboetas que a Aliança Democrática se restaura com a inclusão de tal partido sem votos e sem cérebros é uma impostura.

Felizmente, não estarei em Lisboa para votar nessas eleições, pois, tão claro como a água, não votaria jamais nessa "AD". Sempre admirei Santana Lopes e o seu "PPD", que creio ter sido repetidamente injustiçado e traído pelo PSD do arranjismo e do trepadorismo. Pena é, no caso vertente, que Santana Lopes não tenha sido devidamente esclarecido e esteja a avalizar a inclusão de um microscópico partido sem votantes e sem o apoio daqueles (os monárquicos) que diz representar.

30 junho 2009

Grande vitória portuguesa na Tailândia


Há duas semanas aqui noticiámos o início das celebrações dos 500 anos da chegada dos Portugueses à Tailândia. O governo tailandês, através do seu MNE, fez chegar às Necessidades a intenção de comemorar em grande formato o mais antigo tratado de amizade entre um Estado europeu e uma nação asiática. À vinda de jornalistas portugueses convidados pelos tailandeses, junta-se a realização de um grande simpósio, hoje realizado em Ayuthia, capital do Sião até 1767 e onde se fixou durante mais de 200 anos um importante bandel português. Intitulado 500 Anos de Relações entre Tailandeses e Portugueses, o simpósio foi organizado pelo Departamento de Belas Artes de Silapakorn e reuniu um importante friso de historiadores tailandeses. As autoridades governamentais não deixaram de acorrer ao evento: o Vice-Ministro da Cultura, o Director Geral do Departamento de Belas Artes, o governador de Ayuthia e outros quadros superiores dirigentes do Estado marcaram presença, numa manifesta demonstração de interesse e apoio a todas as iniciativas que decorrerão a partir de hoje em solo tailandês evocando a chegada de Duarte Fernandes, enviado ao Sião em 1511 por Afonso de Albuquerque para estabelecer relações com o Rei do Sião.

Antes de se iniciarem os trabalhos, o embaixador António de Faria e Maya trocou demoradas impressões com as autoridades tailandesas e exprimiu plena adesão de Portugal à ideia de celebrações conjuntas que se desenvolvam em distintas linhas de investigação e permitam a participação de instituições dos dois países. Faria e Maya ofereceu aos representantes do Estado tailandês trabalhos historiográficos relacionados com as relações entre os dois países, não deixando de apontar com uma das prioridades a publicação de outros trabalhos, nomeadamente fontes documentais, que permitam o desenvolvimento de estudos subsequentes. O Vice-Ministro da Cultura e o Governador de Ayuthia corroboraram as palavras de Faria e Maya, afirmando que tudo se fará em conformidade com o plano que em breve será desenhado pelas duas partes e realizado com o maior empenho, profissionalismo e visibilidade.


Uma grande surpresa aguardava-nos. Julgámos tratar-se de uma reunião de académicos e quadros do Ministério da Cultura da Tailândia. Mas não, ao entrarmos no salão do hotel onde se realizou o simpósio, fomos confrontados com uma verdadeira multidão. Duas centenas e meia de participantes - professores universitários, uma mole de jornalistas, muitos estudantes universitários, investigadores, editores, funcionários do Estado, autarcas, operadores turísticos e curiosos haviam ocupado literalmente o vasto recinto para ouvir falar de Portugal. Pela perspectiva que oferecemos, sem maquilhagem e exercícios de estilo, aqui fica a imagem da grande simpatia que Portugal goza entre os tailandeses e a certeza que das celebrações de 2011 poderá abrir-se um novo e importante ciclo de relações que ultrapassam largamente a contabilidade comercial e assentam numa amizade recíproca jamais maculada. Portugal é, como aqui já o dissemos e repetimos, uma potência histórica, e tudo deverá fazer para se afirmar na Ásia dos nossos dias como um agente de aproximação entre o Ocidente e o Oriente. A boa imagem de que gozamos - com provas que ultrapassam largamente o interesse - é capital que outros jamais disputaram.

Os trabalhos iniciaram-se com uma palestra sobre os Portugueses e a Ásia, da autoria de Suprachai Yimcharoen, professor catedrático da Universidade de Chulalongkorn. O conferencista apresentou o quadro geral da expansão portuguesa, da costa de África ao Extremo-Oriente, seus demarcadores institucionais e administrativos, religiosos e culturais, afirmando peremptoriamente que Estado Português da Índia, de Goa a Nagasáqui, foi o grande agente de mudança no Oriente entre inícios do século XVI e meados do século XVII. A tecnologia bélica, a religião e o comércio de especiarias mudaram para sempre a face do continente. Seguiu-se-lhe a professora Bulong Srikanok, que desenvolveu com entusiasmo contagiante um verdadeiro recitativo das glórias portuguesas. Bulong, mais que uma historiadora, é uma verdadeira amiga de Portugal e possui assinaláveis predicados como divulgadora de qualidade que aplica em documentários sobre história da Tailândia. Ao terceiro conferencista, o padre católico Teerapan, coube enunciar a um público budista o vector religioso e missionário da presença portuguesa no Sião.

O campo arquelógico de Ayuthia mereceu duas intervenções. De Patipat Poompongpat, uma longa como bem humorada Investigação Arqueológica em Ayuthia, onde não faltaram hilariantes comentários sobre as atribulações por que passaram as ruínas do ban portuguet: chuvas, inundações e lama que misturaram os ossos do cemitério onde repousam duzentos dos nossos, numa tal confusão de restos que "as almas passaram um mau bocado para encontrarem os respectivos corpos". A análise dos despojos mortais indiciou que a generalidade dos sepultados morrera por padecimentos vários, à cabeça dos quais os surtos de varíola, mas também a insidiosa sífilis, "posto que nas proximiddes do bandel existiriam as casas de prazer da capital do Sião".Nós, os portugueses, rimo-nos a bom rir neste ambiente de descontração tão característico dos thais. Ao contrário de outras paragens, onde uma inibição quase doentia dos académicos asfixia o prazer de comunicar, aqui prevalece o sanuk - divertimento - e as mais chocantes revelações. Um dos arqueólogos afirmou sem qualquer reserva que durante os prolongados trabalhos de escavação, o maior temor que experimentou foi o de trabalhar com despojos humanos de portugueses, "não fossem estes segui-lo vingativamente de volta a Banguecoque". Para vincar o absoluto convencimento nas forças do além, afirmou em tom de brincadeira assertiva que "os cães da vizinhança uivavam em desespero sempre que um esqueleto era resgatado das entranhas da terra". Prapit Pongman, por seu turno, apresentou um estudo sobre os esqueletos, afirmando que as análises periciais demonstram tratar-se de europeus, rebatendo uma tese chinesa que afirmava terem pertencido os esqueletos a um velho cemitério chinês existente no local antes do estabelecimento do bandel português.

O dia terminou com uma visita de estudo ao campo português de Ayuthia, tendo como cicerone o arqueólogo responsável pelas campanhas dos anos 80. Após oito horas de trabalhos, os participantes deslocaram-se sem deserções ao velho bandel e entusiasmaram-se - como nós - pelas grandes melhorias entretanto realizadas: paredes caiadas de fresco, relva aparada, iluminação eléctrica restituída, limpeza dos baldios adjacentes.

Mas a história de Portugal na Tailândia ainda não acabou. Um homem de inconfundíveis traços portugueses - o "senôr André", católico luso-siamês - dirigiu-se-nos com um sorriso de orelha a orelha e ali estivemos uma boa meia hora trocando impressões sobre a sua vida e falando dos seus antepassados "que um dia chegaram de Portugal". Ali vive, colado ao campo português, como viveram os seus pais, avós e bisavós, resistindo sempre e agarrado àquela terra que foi um dia o centro do povoado português no velho Reino do Sião.

No seu perfil, nas marcas profundas que lhe sulcam o rosto, na atitude altiva, queixo levantado e crucifixo ao peito, vejo um velho pescador da Nazaré, um habitante dos bairros populares do casco medieval lisboeta ou um daqueles lobos do mar que até há poucos anos partiam para a Terra Nova em busca do bacalhau. Este é um monumento antropológico vivo, o eco de um tempo em que estes homens serviam como remadores das barcas reais do Sião ou nas primeiras linhas dos exércitos de Ayuthia, batendo-se furiosamente em defesa desta terra que adoptaram e onde deixaram prole.

Quando o tempo terminou, regressados ao carro, o Senhor André seguiu-nos como quem acompanha familiares que há muito não via. Ao nosso Embaixador apertou demoradamente a mão e, depois, ali ficou parado, de largo sorriso acenando um adeus enquanto o carro partia. Foi um dia em cheio.

29 junho 2009

Antologia siamesa: um herói português alado em Banguecoque (1924) / คนขับเครื่องบินคนโปรตุเกสเยี่ยมกรุงเทพมหานครในปีค.ศ.1924


"Quando entramos no vale do Menam (...), a planície alonga-se em várias em vastas campinas de vegetação baixa que nos atraem, num convite mudo a voar mais baixo, sob um céu de iluminura, tão azul como o céu de Portugal. Não há estradas. Apenas uma linha férrea riasca na coloração uniforme do terreno, um traço de carvão. Sobre Ayuthia, os campos alagados recomeçam e o voo retoma o seu carácter de farandola irritante. Perto das duas horas, a esplanada do aeroporto de Don Muang recorta-se como quadrilátero branco no horizonte. E aterra-se com prazer, porque a pista é magnífica e o voo durou cinco horas e quinze minutos. A aviação siamesa recebe-nos como todas as aviações nos receberam: espírito de classe, entusiasmo, simpatia e amizade. O general comandante da base, que nos esperava no campo com vários oficiais, informa-nos em francês de que temos à nossa disposição uma equipa de mecânicos e o combustível necessário para enchermos os depósitos. É necessário substituir um cabo de comando do leme de profundidade e remendar a tela da fuselagem. Disto informamos o director do hangar de montagem, oficial piloto que nos escuta atentamente, e a quem deixamos entregue o Pátria II. Pelas quatro horas, tomamos lugar no comboio que nos leva a Banguecoque, vinte quilómetros ao sul, e ali somos recebidos pelo Chefe de Estado-Maior, irmão do rei, e pelo cônsul interino de Portugal, italiano melífluo e poseur que tem para connosco atitudes cerimoniosas de ministro. Para sermos recebidos no consulado é necessário que nos anunciem com alguns minutos de antecedência e que esperemos um quarto de hora num salão de mau gosto, com pretensões a Luís qualquer-coisa. Oferece-nos [o cônsul] um jantar no hotel, e reflecte-se-lhe na face bem barbeada, cuidadosamente barbeada, que uma camada de pó-de-arroz amacia, a indiferença que lhe merecemos e a amabilidade forçada do cargo oficial. No clube, porém, há um minuto de verdadeiro entusiasmo, entre franceses, ingleses e aviadores siameses, que brindam pelo nosso êxito, sinceramente. Modesto, quase humilde, o macaense Joaquim António é uma alegria íntima a querer traduzir-se em palavras, a querer expandir o que sente. Nas lembranças que nos oferece, as suas mãos põem frémitos de dedicação espontânea, de simplicidade cativante. Na manhã do dia seguinte – 10 de Junho – o comboio leva-nos de novo a Dawn Muang, de onde não conseguimos descolar por se encontrar avariada uma das bombas elevatórias de gasolina, cuja reparação indicamos como deve ser feita e fica entre mãos de um mecânico siamês.Para matar o tempo e tédio, percorremos as instalações das oficinas e depósito de Dawn Muang, que nos surpreendem, que nos maravilham – e porque não confessá-lo ? – que nos entristecem ao recordar a miséria em que vive a nossa aviação.Na pista imensa (cerca de dois quilómetros quadrados de terreno), os oito hangares de alvenaria deixam ver pelas grandes portas abertas, numerosos aviões de escola, de caça, de bombardeamento, de observação, limousines e ambulâncias. Esta multiplicidade de tipos de avião resume-se, contudo, a três únicas marcas: o Nieuport, para escola; o Nieuport-Delage para caça; e o Breguet para o resto.Não muito longe, as oficinas em cujo acabamento se trabalha, estão cheias do labutar ruidoso das máquinas que preparam material para os aparelhos, cuja célula é inteiramente construída ali, sendo exclusivamente importada parte do material de construção e o motor. O serviço postal aéreo, feito por oficiais do exército, funciona regularmente, trazendo para a aeronáutica uma receita importante. E como os setenta e dois aeródromos que polvilham o território siamês inspiram confiança aos amantes do ar, o número de passageiros vai aumentando dia-a-dia. A gente observa, escuta, e inconscientemente compara. Como é grande, na realidade, a diferença entre o critério dos governantes siameses e o da maioria dos governos portugueses... Ali, naquela nação longínqua dos confins da Ásia, onde julgávamos encontrar um povo selvagem, a aviação é olhada como arma indispensável na paz e na guerra. Por certo, se pretendermos compará-la com os exércitos aéreos das grandes potências, o Sião está longe de ter atingido aquele desenvolvimento colossal. Pequena potência como nós, no entanto, a sua aviação pode ser considerada já como modelar."
BEIRES, José Manuel Sarmento de. De Portugal a Macau: a viagem do Pátria. Lisboa: Seara Nova, 1925

28 junho 2009

Incomunicabilidades


"Os vossos costumes são tão opostos aos nossos: vocês escrevem sobre papel branco, nós sobre papel preto; vocês levantam-se em sinal de respeito, nós sentamo-nos; vocês descobrem a cabeça perante um superior, nós descalçamos os sapatos". (Príncipe Mekkara, tio do rei Bagyidaw da Birmânia ao embaixador britânico Burney, 1830)


Os britânicos arrolavam-nos na categoria de bárbaros. De bárbaros tinham pouco (vide belo catálogo aqui) para além de praticarem periódicas chacinas intra-palatinas e enterrarem vivas pessoas nos pilares dos palácios em construção, seguindo a crença que os imolados se transformariam em nat (espíritos) protectores. Em contrapartida, eram afáveis e diligentes para todos os forasteiros, nunca matavam ou maltratavam um prisioneiro de guerra, exibiam tolerância religiosa digna de respeito, veneravam as florestas e todos os seres vivos, sabiam ler e escrever a partir dos sete anos de idade, possuiam vastas bibliotecas, monumental literatura sapiencial e organizavam sínodos budistas que reuniam centenas de estudiosos oriundos da Ásia do Sul e do Sudeste. Eram os birmaneses (ou birmanes), o mais poderoso e temido povo indianizado do sudeste-asiático. Fizeram a vida negra a siameses e indianos, derrotaram os franceses, esmagaram militarmente os chineses e desafiaram altivamente os britânicos, com os quais se bateram em três guerras, no rescaldo das quais cairam sob o jugo da Union Jack. De bárbaros tinham, realmente, muito pouco. Os letrados da corte rivalizavam com a astronomia ocidental no cálculo dos eclipses lunares e as fórmulas matemáticas de que se serviam batiam os estudos publicados pela Royal Society de Londres.


Em meados do século XIX, durante o reinado de Mindon Min, procuraram a via do Ocidente para se furtarem à pressão britânica: entregaram-se afanosamente ao estudo das ciências e tecnologia ocidentais, converteram-se ao vapor e aos caminhos de ferro, lançaram o telégrafo, entusiasmaram-se pela imprensa, criaram escolas onde se ensinava o inglês, a economia, as ciências naturais e a teoria da evolução, apoiaram missionários católicos e protestantes na criação de dispensários, orfanatos e hospitais, edificaram uma soberba capital segundo o cânone ortogonal iluminista (Mandalay). Em 1871, enviaram à Grã-Bretanha um embaixador de grandes predicados e curiosidade intelectual digna de nota. kwun Mingyi não foi tratado como embaixador, mas como uma raridade exótica. Os ingleses não estavam interessados em manter relações com os birmaneses; só pensavam na teca das florestas do reino de Ava e nas gemas.

Despojos humanos dos artilheiros "portugueses" católicos da Alta Birmânia aos pés dos conquistadores britânicos (1885)
O diário de kwun Mingyi é um raro documento que merece ser lido por quantos pensam que o Ocidente possuiu deveres de civilização perante mundos que desconhece, o tão repetido Fardo do Homem Branco. Muito do que hoje condenamos nas práticas do governo de Myanmar é resultado desse momento em que os britânicos se recusaram dialogar com uma sofisticada cultura que lhes estendia a mão.