27 junho 2009

O bairro católico de Banguecoque


Elsa Resende, jornalista da Lusa que aqui esteve a convite do governo tailandês, deixou o seguinte testemunho da sua visita ao "bairro português" da capital tailandesa. A ler com atenção, pois revela a sobrevivência de uma comunidade que manteve com coragem e tenacidade o orgulho da sua ascendência.


Jirawach Wongngernyuang não chegou a conhecer o seu bisavô, mas foi por causa dele que aprendeu português. O jovem é o único luso-tailandês que fala o idioma dos seus antepassados num bairro católico da cidade budista de Banguecoque. O bairro chama-se Santa Conceição e fica numa das margens do rio Chao Phraya, na zona de Dusit. O seu nome deve-se à Igreja da Imaculada Conceição, construída em 1837por missionários franceses no local outrora ocupado por uma igreja portuguesa. Atrás da Igreja da Imaculada Conceição há uma outra igreja, mais pequena, construída em 1674 pelo padre Luís Laneau para a comunidade portuguesa.
Hoje, vivem em Santa Conceição 1.500 tailandeses, 90 por cento dos quais católicos devido à influência, no passado, dos missionários cristãos europeus. Vinte e uma famílias têm ascendência lusa. Jirawach Wongngernyuang, 21 anos, é um dos membros dessas famílias. O seu bisavô paterno, Pinto Dias, de quem tem poucas referências, era português. Foi embaixador na Itália ao serviço da Tailândia durante dez anos e morreu antes do jovem nascer, encontrando-se sepultado no cemitério católico, por trás da Igreja da Imaculada Conceição.
É também neste cemitério que está o jazigo da família Costa, o único que conserva inscrições em Português e que remonta à primeira metade do século XIX. Jirawach Wongngernyuang conheceu Portugal há quatro anos quando, ao abrigo de um intercâmbio escolar, foi estudar para Algueirão, no concelho de Sintra, onde completou o liceu ao fim de uma estada de dez meses.
O seu interesse pela língua de Camões deve-se ao bisavô Dias porque o avô e o pai, ambos tailandeses, não sabem português. "Como tinha família [de ascendência] portuguesa, quis aprender a língua", justifica à Agência Lusa, num português perceptível mas que necessita de ser aperfeiçoado. O jovem é o único membro da sua família e da comunidade luso-tailandesa de Santa Conceição que fala e escreve português. No ano passado, voltou a Portugal para rever a família Bica, que o acolheu durante o tempo em que estudou em Algueirão, e os "muitos amigos" da escola, com quem comunica, em português, através da Internet. "Assim vou praticando...[a língua]", refere. Deseja ir novamente a Portugal, mas desta vez com os pais e a irmã, que não conhecem o país e com quem vive numa apertada e rudimentar casa em Santa Conceição.
Jirawach não sabe quando é que o desejo será cumprido, "a viagem é cara". Estuda em Banguecoque, a cidade-capital colorida da Tailândia feita de contrastes, a metrópole dos táxis amarelos, rosa, azuis, laranjas e verdes, do emaranhado de bancas de rua de fruta, flores, bugigangas e artigos falsificados, dos arranha-céus colados aos templos budistas.
Jirawach toca numa banda de "hard rock" e quer ser piloto da aviação civil.
Em Portugal, viveu como qualquer estudante português, com a diferença de que, nos primeiros três meses, apenas sabia sorrir, como bom tailandês que se preze, e dizer "olá".
Agora que se ajeita no português, deposita a esperança de, tirado o "brevet", trabalhar numa companhia aérea e voar regularmente para a terra do bisavô, que quer conhecer melhor.

26 junho 2009

A morte de uma certa América



A América da pop culture das indústrias de entretenimento - do consumismo de massas, do lazer programado e da "baixa cultura" - está a desaparecer. É a despedida dos ícones populares dos anos 70, da geração tv e do mito da felicidade colectiva que se exprimia nesses ajuntamentos multitudinários sem precedentes que iludiam a crescente solidão dos homens e anomia imparável das sociedades urbanas. Com David Carradine, Farrah Fawcett e Michael Jackson fina-se o tempo da televisão todo-poderosa - agora uma sombra disputada por milhares de concorrentes servindo públicos à la carte e pelo triunfo da cultura DVD - e cortam-se as últimas amarras de uma cultura familiar que, a custo, conseguira contornar a tão falada incomunicabilidade intergeracional.
Com a morte dos três morre, também, a ideia de uma América do melting-pot em transição para a nova sociedade mestiça e para a pseudomorfose cultural (Spengler) : Carradine tinha ascedência irlandesa, espanhola, italiana, ucraniana e cherokee, Fawcett era católica, reivindicava ancestralidade francesa, inglesa e índia Choctaw e Jackson era negro. Representavam o triunfo dos enclaves étnicos em afirmação ao longo dos anos 60 e 70, a riqueza e a popularidade pelo mérito e respondiam de certo modo a uma necessidade de realização individual à qual os "valores tradicionais" já não conseguiam responder: Carradine com o seu orientalismo bric-a-brac de um monge shaolin em terras do Oeste Selvagem, Jackson e o seu estilo de Geração X fingindo uma infância e ingenuidade eternas que sepultaram Peterpan e Alice, Fawcett lutando pela beleza nas páginas da Playboy após os 50 anos.
O trágico fim deste ícones é, também, sem apelo, a morte dos últimos vestígios do american dream: Jackson transformado numa máscara viva, cortando cerce a mentira da indústria cirúrgica estética, Fawcett destruida pelo cancro e o septuagenário Carradine encontrado estrangulado e em condições deploráveis num quarto de hotel em Banguecoque.



I wanna rock with You (Michael Jackson)

22 junho 2009

Da burca e dos calções curtos


Sarkozy pronunciou-se pela pragmática do trajar à ocidental no Ocidente, recusando o relativismo civilizacional e afirmando que especificidades não cabem no corpo da república francesa. É a velha questão da soberania do Estado sobre os cidadãos que o liberalismo francês sempre afivelou. Não há cidadania sem o acatamento do império da lei, lei que é para todos e não tolera excepções. No discurso de Sarkozy está, sem tirar, tudo o que a Revolução impôs como dogma do contrato político: o Estado é a instância de autoridade certificadora e produtor de direitos e liberdades a os cidadãos se devem submeter, no pressuposto que a vontade geral produziu um determinado tipo de comunidade política organizada em Estado. Estas questões não se punham no tão insultado Antigo Regime, onde os súbditos detinham as liberdades decorrentes das suas especificidades - regionais, profissionais, religiosas - e delas podiam fazer uso conquanto não ofendessem a ordem pública.

A burca é um pretexto e não podemos exagerar-lhe a importância. Quem diz a burca, diz a djebala, a exibição de crucifixos ao peito, o kipá judaico, as botachas madeirenses ou a branqueta e o saiote dos sargaceiros da Apúlia. O trajo "europeu" é invenção da burguesia e não me parece que é no trajar que se pode ofender a ordem pública. Quando a vaga ocidentalizadora se abateu sobre os Estados em busca de respeitabilidade e reconhecimento pelas potências ocidentais, as autoridades locais impuseram a pragmática ocidental no trajar, da Turquia ao Egipto, do Sião ao Japão. Estar vestido à ocidental era exibir civilização.

Contudo, a verdade é que a burca passou a ser nos últimos dez ou quinze anos um elemento carregado de intencionalidade para quem o veste. Na Europa, quer dizer : "eu não me submeto às vossas leis", "sou contrária às leis que proclamam a igualdade da mulher e do homem", "a minha tradição específica está acima do império das vossas leis". É um declarado acto de provocação, sem dúvida, podendo ser interpretado como auto-exclusão e, até, recusa de um tipo de sociedade e dos valores sobre os quais esta se estabelece. No sudeste-asiático anterior à recepção do fundamentalismo islâmico, as mulheres há muito que haviam deixado de exibir os véus, os crepes e as máscaras. Só quando as multimilonárias fundações árabes iniciaram a política de difusão de um certo modelo de islão - o wahhabita - as falsas "raízes" do Islão voltaram a fazer moda entre populações com substrato absolutamente distinto do árabe.

Vejo, com frequência, aqui na Tailândia, milhares de turistas oriundos do Golfo. Eles, de calções e camisas de alças, cuspindo altaneiramente na tradição do "trajar à árabe"; elas, cobertas de negro da cabeça aos pés, com mascarilha ou véu, docilmente submetidas à tradição. Aqui reside a certeira crítica. Para o Islão dito moderno, a mudança é aceite pelos homens e para os homens. Para as mulheres, o chicote da tradição. Neste aspecto, Sarkozy tem plena razão. Felizmente, a "revolução islâmica" parece estar a aproximar-se do fim. Teve o seu período de expansão e contaminação, mas no seu elã não conseguiu evitar discutir com o mundo moderno aquilo que não é específico e local, mas universal. O Islão vai perder, pois não mais fez que agarrar-se desesperadamente a um tipo ideal sociedade e à mítica ideia a-histórica da superioridade da "civilização árabe". Podem estar certos que ainda veremos de novo as iranianas de calções e as muçulmanas do sudeste-asiático de cabelos ao vento. A hipocrisia acaba, sempre, por perder.

21 junho 2009

Iranologia sem americanice

Os estudos iranológicos são praticamente desconhecidos entre nós, se bem que testemunhos históricos de grande relevância atestem um intenso passado nem sempre pacífico nas relações entre Portugal e a Pérsia, do século XVI ao XVIII. A Pérsia dos Safávidas , o império Mughal e Omã foram os mais sérios obstáculos à fixação dos europeus no Índico, tendo-nos feito frente e, até, derrotado por várias vezes na disputa de zonas-chave do comércio internacional. Em 1972, a Fundação Gulbenkian publicou um importante catálogo sobre as relações luso-persas balizado cronologicamente entre 1500 e 1758. Depois, as vicissitudes políticas portuguesas, e logo de seguida as iranianas, deram por encerrado um auspicioso relacionamento entre os académicos dos dois países.

É pena, pois a ausência de uma forte escola portuguesa de estudos orientais - que continua a subsistir graças a investigadores de excepção trabalhando isoladamente ou animando institutos pouco apoiados pelo Estado: Luís Filipe Tomás, António Vasconcelos de Saldanha, João de Deus Ramos e Jorge Flores - tem impedido a formulação de uma teoria geral portuguesa sobre as relações internacionais no Índico até à afirmação do Raj britânico em meados do século XIX Com excepção dos autores contemporâneos acima referidos, os "estudos orientais" em Portugal continuam a ser confundidos com monografias sobre Goa e Macau, retirando compreensibilidade à incontestada presença e influência globais dos portugueses nas "ásias" (média, do Sul, de sudeste e extrema) e obrigando-nos a aceitar modelos interpretativos e até preconceitos profundamente instalados na perspectiva anglo-saxónica e, até, francesa.


Quando há dois meses o Professor Vasconcelos Saldanha aqui proferiu em Banguecoque uma conferência sobre o Bandel Português de Ayuthia, senti incómodo e crispação entre muitos assistentes, pois o conferencista ofendeu as crenças historiográficas de muitos europeus [e norte-americanos] que continuam a fixar os momentos altos das relações Ocidente-Oriente nas mal sucedidas tentativas francesas dos séculos XVII (Índia e Sião) e XVIII (Birmânia) e na consolidação do poder britãnico na Índia, só definitivamente selado após o Grande Motim de 1857.
Hoje passei a tarde na maior livraria da capital tailandesa e deparei com uma verdadeira exposição de títulos referentes ao Irão. Serão mais de cem as obras que versam a história iraniana, demonstrativas que o interesse dos académicos sobre o país dos Aiatólas acompanha a escalada de enfrentamento entre o Ocidente e a antiga Pérsia. Sentei-me, consultei índices e folheei passagens das obras que evidenciavam melhor compleição. Afinal, para os americanos, o Irão resume-se ao islamismo radical, à proliferação nuclear, aos "estudos do género" e da sexualidade, ao sequestro dos diplomatas americanos em Teerão e a patéticas tentativas de biografar os fundadores da República Islâmica. Tal como em relação ao Vietname, os americanos são falhos no labor historiográfico, desconhecem fontes documentais anteriores ao século XIX, não compreendem que é a espessura do tempo longo que dita o comportamento dos estados, sociedades e indivíduos, pelo que os "estudos" produzidos nos EUA se limitam à factologia, ao opinarismo jornalístico ou mesmo ao sensacionalismo mais escancarado.

Reparei, também, que a vaga de papel cobre conflitos genericamente marcados pelo jihadismo, do mahadismo do Sudão de finais do século XIX aos separatismos islâmicos nas Filipinas, na Tailândia e Índia, são ligeiramente interpretados como o pan in herbis de Ossama bin Laden, do talibanismo e do Estado teocrático iraniano. Esta cegueira, confusão de planos, locais e povos de diferentes níveis e fases de islamização parece sintomática da incapacidade americana em percepcionar um mundo diverso daquele que o ideologismo estreito e simplificador aponta. Afinal, a incapacidade ocidental em lidar com os fenómenos do tempo presente deve-se a mais esta exibição de imaturidade cultural dos EUA.

Tudo isto acaba por produzir uma deplorável política regional dos EUA, trágicas confusões como aquela que teimou em ver nos "reformistas" iranianos a anunciada vaga democrática e incapacidade para influenciar o curso dos acontecimentos. Os EUA teimam em impor um figurino que não joga com os dados e em tudo ver aquilo que não existe, pura e simplesmente, na fenomenologia inerente à região.



Goudarz Khorassani: Iranian Wedding Music n.1