12 junho 2009

A única Europa que interessa



Comemorou há semanas 95 anos uma das mais fascinantes figuras do pensamento político europeu. Uma biografia exaltante, o combate ininterrupto pela defesa das raízes fundadoras e contra os trágicos mitos que mutilaram a unidade da nossa civilização: o tribalismo imperialista dos Estados-nação, o centralismo codificador e regulamentador, a cidadania sem pés [nem cabeça], a demagogia totalitária e a democracia sem arrimo na história, a luta de classes, os socialismos de direita e de esquerda, o capitalismo sem o sentido da propriedade, a usura contra o trabalho. Otão de Habsburgo continua, quase centenário, a impressionar pela coerência e é certamente um dos poucos militantes da ideia europeia que merece ser ouvido e seguido. Alguém em Portugal o segue ?


Polca Pizzicato (J. Strauss)

10 junho 2009

10 de Junho quer dizer futuro


É assim que se vive o patriotismo, evocando o passado que não pode ser negado e olhando para o futuro com a tremenda responsabilidade que está nas mãos daqueles que querem um Portugal livre, independente e orgulhoso. Hoje não deve haver português em parte alguma do mundo - o Portugal para além dos oceanos e das montanhas, o Portugal das comunidades em diáspora e o Portugal dos luso-descendentes - que não sinta esse chamamento. Banguecoque celebrou hoje com grande dignidade o Dia de Camões, oferecendo um belo espectáculo de fado na voz de Carminho, que encheu o auditório do Sun Wattatatam Hêeng Phrathét Thay (Centro Cultural da Tailândia). Fiquei surpreendido com a voz, poderosa e dominadora, mas mais espantado com a facilidade com que dominou um auditório desconhecedor da nossa língua. Ao cantar a Bia da Mouraria, o público ovacionou demoradamente e rendeu-se à jovem portuguesa. Depois, foi uma sucessão de reentradas entre fortes aplausos. E dizem que o fado é coisa portuguesa ! Ora, hoje foi dia de fado tailandês.

À saída, entre o corpo diplomático e as autoridades tailandesas, forte representação da comunidade católica portuguesa-siamesa que aqui vive desde o século XVI, gente apegadíssima a Portugal e fiéis entre os fiéis ao nosso bom nome. É comevedor saber que esta comunidade, que a tudo sobreviveu - a guerras, perseguições e até à estupidez de Lisboa - se sente tão portuguesa como nós e ainda espera que num qualquer ministério alguém se lembre que no outro lado do mundo há pessoas que exibem com altivez os apelidos Siqueira, Costa, Antunes e Pereira. Perguntem aos holandeses, franceses e britânicos se têm gente desta. Não, porque fomos diferentes e é nessa diferença que reside a nossa sobrevivência. Sim, somos como os judeus. Resistimos teimosamente e parece que a a todas provações podemos sobreviver.

O Embaixador António de Faria e Maya não deixou passar a oportunidade para os lembrar, agradecendo-lhes em nome do Chefe de Estado tudo quanto têm feito para manter na Tailândia o nome de Portugal. Falou em inglês e em Português. Os nossos luso-siameses ficaram emocionados, pois há entre eles um tão fervoroso culto da pátria distante que algumas famílias, com grande sacrifício, enviam os filhos a Portugal para aí aprenderem a língua dos seus avós. O Instituto Camões bem podia atribuir anualmente meia dúzia de bolsa de estudo a estes outros portugueses nascidos nas margens do menam Chao Phraya.

Com os meus amigos luso-siameses Saravut, Capitão-engenheiro da Marinha Real e Net, cadete piloto-aviador da Real Força Aérea da Tailândia. Ontem como hoje, os portuguet soldados.

Acabado o espectáculo, recepção e jantar na embaixada de Portugal. E que jantar, com direito ao bacalhau que não via desde 2007, o vinho das nossas adegas e a doçaria portuguesa conventual que os thais tão bem conhecem, pois adoptaram-na como sua desde que Maria Guiomar de Pina a ensinou aos mestres culinários da corte siamesa em Ayuthia.

A um canto, sentado aos pés de um retrato da nossa D. Maria I, um diplomata luso-canadiano, ex-embaixador do Canadá em Singapura, homem culto e grande conhecedor da nossa história asiática. Conversa interessante, com partilha plena de pontos de vista e uma esperança que teima em não morrer num Portugal restaurado. Soube-me o breve diálogo tão bem como o café. Afinal, Portugal não conhece cartões de identidade e passaportes. Portugal é uma ideia. Acudiu-me de novo a letra da Bia da Mouraria: "embora qualquer dos noivos tenha pouco mais que nada". Isto soa-me ao nosso patriotismo. Não importa saber se somos ricos ou pobres, se os outros têm os bancos e as negociatas que conspurcam o mundo. O importante é saber mantermo-nos portugueses e impedir que nos transformemos em gente de bazar. Um amigo chamou-me a atenção pela não exibição da bandeira europeia na cerimónia da tarde. Pensei no assunto. Erro protocolar, omissão ? Depois, falando com os meus botões concordei: a Europa não é aqui chamada para nada. Nós somos do mundo, um pouco na Europa, muito nas Américas e em África, um bom pedaço na Ásia. Ora, não precisamos da Europa para nada.

Acabou a noite. Um agradecimento especial à Carminho e à nossa embaixatriz Maria da Piedade, que fizeram a festa e nos preencheram a alma saudosa de Portugal.



Fado Português (Amália)

09 junho 2009

Bizarrias tailandesas

Os tailandeses são surpreendentes: tímidos, comedidos e quase inseguros, explodem em exuberantes manifestações caprichosas, despem o sentido do ridículo que afivelamos e nos faz tão cinzentos e fazem festa com pouco. É um povo a um tempo teatral e protocolar. São os dois extremos que mais me fascinam numa sociedade que sabe onde está a ordem, mas sabe também brincar.
Café gratuito no Metro de Banguecoque
Oficial da Polícia entrevistado em estúdio de televisão

Vendedora de skates

Distribuidor de publicidade

08 junho 2009

Quatro nótulas avulsas sobre as "europeias"


De longe, seis horas avançado sobre o fuso de Greenwich, segui a noite eleitoral portuguesa e retirei conclusões [pessoalíssimas] que só me assustam, pois reconheço ter-me transformado num mau cidadão. Entre a indiferença de um apolitiscismo galopante e o quase desprezo pelos ardores que ainda mobilizam analistas, agitadores de bandeiras e distribuidores de autocolantes, vi de fora, comparei com outros e passou-me pela alma uma sombra.

Parece que Portugal está a ficar para trás, ou antes, poderá estar na dianteira do processo de pinderização e meia-tigelização que se vai instalando por um continente que há quarenta era governado por homens com biblioteca e piano na sala, há trinta por pessoas que ainda sabiam usar os talheres e hoje por uma fulanagem vão-de-escada que tudo diz sobre o ocaso da vida pública. Vi a Bulgária - ali ainda há um antigo rei no pleito - vi o Reino Unido com os seus Tory fato-às-ristas, vi a França, que não obstante o cabotinismo Sarkozy ainda apresenta salas cheias de Descantons de Montblanc, Dianous de La Perrotine, Montaignac de Chauvance e Chevrier de Varennes de Bueil que lembram as melhores adegas vitivinícolas.

1. Manipulação infantil: Os resultados não compaginam com as sondagens. A partir de hoje, recuso crédito e qualquer pretensão a esses auxiliares menores da intrigalhada politiqueira que dão pelo nome de institutos de sondagens. Andaram semanas a afiançar 2% para o CDS e, afinal, o CDS quase atingiu dos dois dígitos. É escabroso, é indecente, é anti-deontológico. Tudo soa a sorteio viciado de quermesse de aldeia.

2. Campanário. As intervenções de vencedores e derrotados foram de uma pobreza só comparável àquelas peças de jornalismo de província que cabiam no Cavaleiro da Imaculada, nas Notícias de Fafe ou no Mafra Regional: uma pobreza de meter dó, umas discursatas à António Silva no clube das costureiras de bairro, com agradecimentos ao Paulo, à Maria e ao José, beijinhos e abraços. Salas pequenas, com direito a coro e estribilhos a meia dúzia de vozes, a demonstrar que os números de "aparelhos" e votantes quase coincidem. A coisa está pela hora da morte.

3. Triqueixização. Já os não via há dois anos. Caramba, como estão velhos, gastos e macerados os homens e mulheres que ainda se agarram à profissão mais bem paga. Foi a custo que os vi aparecer, um a um, uma a uma, na pantalha, com entradas a subirem, sulcos profundos que só canivetes poderiam obrar, comissuras pendentes, barrigas desproporcionadas. Antes falava-se na senilização da brigada do reumático; hoje falaria no triunfo da bordalização do Albúm das Glórias do regime.

4. Vazio quase sem palavras. E o discurso [ou o que dele sobra], de uma dolorosa como inconsciente pobreza, repetitivo, a puxar ao clubismo, à defesa do ordenado e à aritmética da dispensa de secos & molhados ? O que leva aquela gente para as noitadas nas sedes ? Porque se acotolevam atrás dos líderes para aparecerem na tv, como só vejo nos noticiários sobre o Iraque ou o Curdistão ? Acabou a encenação, a pose, a gravidade. Agora é um empurrar para furar, mostrar à família e amigos lá do emprego que se é importante e que se está na ribalta de coisa nenhuma. E a geringonça dos opinadores cativos, com Pacheco e Marcelo quase tão gastos como as cariátides do Vitrúvio ? O que é um ciclo, um contra-ciclo, o início de mudança, um cartão vermelho ? Ouvi-os e desliguei. Chego à conclusão que a política está para mim como os futebóis: não existe.

Compreendem agora o meu afastamento ? Portugal precisa de uma boa mudança ou não volto. Cansei-me e já nem quero saber.

07 junho 2009

A arte que liberta

Não há sociedades livres sem artistas. Ao artista é dado crédito quando faz da insubmissão ao mau gosto, à falta dele ou aos gostos de ontem uma afirmação de independência. Aliás, a arte de encomenda, aquela que se satisfaz com o preço da mercadoria e cumpre a expectativa de quem a compra não é arte, mas artesanato. Anteontem foi inaugurada em Banguecoque uma exposição sobre os novos rumos da pintura tailandesa. Trabalhos executados por finalistas da Universidade de Silpakon - jovens artistas de vinte e poucos anos - demonstram que a Tailândia ultrapassou há muito aquele estádio de copismo que ainda marca as chamadas belas-artes de países saídos da colonização ocidental.
É sabido que a independência artística de um povo nasce após a independência política. A independência literária do Brasil, por exemplo, só se verificou em finais do século XIX, como a independência literária de Moçambique consumou-se com Mia Couto. Países há, porém, que nunca conseguiram encontrar a expressão artística correspondente à sua diferença; outros, até, colonizaram-se a extremos de indignidade, importando sem critério e destruindo as fontes milenares da sua especificidade. A China comunista atingiu nesto domínio a mais degradante auto-colonização ou vergonha de si ao adpotar o "realismo socialista". Hoje, finalmente, a arte contemporânea chinesa está a destruir um a um os pilares do socialismo. A Tailândia, que nunca foi colonizada, seguiu durante décadas a cartilha do aplicado estudante das artes ocidentais. Finalmente, libertou-se e emerge com pletórica demonstração de saber fazer sem pedir por empréstimo ao Ocidente.

Nestas telas não há "exotismo" nem "orientalismo", lugares-comuns do discurso artístico do Oriente para o Ocidente, nem uma imaginada diferença: há pessoas, lugares e situações de hoje, comuns às grandes cidades tecnologicamente avançadas, uniformizadas e habitadas por pessoas que conduzem, usam computadores e telemóveis, vestem, viajam, compram livros, vão ao cinema e às grandes superfícies comerciais como todos nós no Ocidente.