Não há sociedades livres sem artistas. Ao artista é dado crédito quando faz da insubmissão ao mau gosto, à falta dele ou aos gostos de ontem uma afirmação de independência. Aliás, a arte de encomenda, aquela que se satisfaz com o preço da mercadoria e cumpre a expectativa de quem a compra não é arte, mas artesanato. Anteontem foi inaugurada em Banguecoque uma exposição sobre os novos rumos da pintura tailandesa. Trabalhos executados por finalistas da Universidade de Silpakon - jovens artistas de vinte e poucos anos - demonstram que a Tailândia ultrapassou há muito aquele estádio de copismo que ainda marca as chamadas belas-artes de países saídos da colonização ocidental.
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É sabido que a independência artística de um povo nasce após a independência política. A independência literária do Brasil, por exemplo, só se verificou em finais do século XIX, como a independência literária de Moçambique consumou-se com Mia Couto. Países há, porém, que nunca conseguiram encontrar a expressão artística correspondente à sua diferença; outros, até, colonizaram-se a extremos de indignidade, importando sem critério e destruindo as fontes milenares da sua especificidade. A China comunista atingiu nesto domínio a mais degradante auto-colonização ou vergonha de si ao adpotar o "realismo socialista". Hoje, finalmente, a arte contemporânea chinesa está a destruir um a um os pilares do socialismo. A Tailândia, que nunca foi colonizada, seguiu durante décadas a cartilha do aplicado estudante das artes ocidentais. Finalmente, libertou-se e emerge com pletórica demonstração de saber fazer sem pedir por empréstimo ao Ocidente.
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Nestas telas não há "exotismo" nem "orientalismo", lugares-comuns do discurso artístico do Oriente para o Ocidente, nem uma imaginada diferença: há pessoas, lugares e situações de hoje, comuns às grandes cidades tecnologicamente avançadas, uniformizadas e habitadas por pessoas que conduzem, usam computadores e telemóveis, vestem, viajam, compram livros, vão ao cinema e às grandes superfícies comerciais como todos nós no Ocidente.
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Em finais dos anos 30, o discurso oficial de Banguecoque apresentava flagrantes coincidências com a doutrina alemã do "espaço vital": falava-se numa Grande Tailândia, na expulsão dos chineses, considerados os "judeus do Oriente", na "thaificação das minorias", numa sociedade decalcada da hierarquia castrense. Aos tailandeses era lembrada a sua bravura imemorial, a sua identidade jamais conspurcada pela colonização europeia, a superioridade da espiritualidade oriental sobre o materialismo ocidental.





