06 junho 2009

Lembrando 6 de Junho de 1944: o estranho contrário



As memórias de Wicha Thitawat foram publicadas em 1948, republicadas com alterações nos anos 50 e 70 e recentemente redescobertas pelo grande público. Khon Thay náy kong thap nasi - tailandeses no exército nazi - é um livro duplamente interessante: oferece aos tailandeses de hoje uma história quase picaresca de um tailandês apanhado numa guerra europeia e ofende muitas certezas sobre a posição deste país durante a segunda Guerra Mundial. A Tailândia foi aliada do Japão durante a guerra, facto inquestionável mas desprezado pela generalidade da historiografia correctiva que se fez no imediato pós-guerra. O fascismo tailandês estava no poder quando a guerra eclodiu e tirou partido do súbito colapso da França metropolitana. Após o armistício de 1940, as possessões francesas na Indochina tornaram-se objecto de crescentes reivindicações nacionalistas de Banguecoque. O regime do marechal Phibun Songkhram reclamava a devolução de territórios integrados nos protectorados franceses do Laos e Camboja, outrora pertencentes ao Sião. Entre Outubro de 1940 e Maio de 1941, a Tailândia desenvolveu intensa guerra fronteiriça contra o exército colonial francês, mas não logrou atingir os seus objectivos. A mediação do conflito foi imposta às duas partes pelo Japão, entretanto já estabelecido na Indochina. A França de Vichy aceitou a ocupação de facto do Vietname e pediu apoio aos japoneses para aplacar os impetos tailandeses.


Quando o Japão iniciou a guerra do Pacífico (Dezembro de 1941), a Tailândia permitiu a passagem do exército imperial no ataque que este desenvolveu contra a Malaia Britânica, a sul, e a Birmânia, a oeste. A Tailândia declarou então guerra aos Estados Unidos, mas as suas forças armadas mantiveram-se sempre em solo nacional. Como espólio do aparente triunfo nipónico, a Tailândia recebeu três sultanatos malaios, três províncias ocidentais do Camboja e os Estados Shan pertencentes à colónia britânica da Birmânia.


Tecnicamente, a Tailândia era membro menor do Eixo Berlim-Roma-Tóquio. A admiração que os siameses tinham pela Alemanha não era recente. Durante décadas, para contrariar a pressão colonialista francesa e britânica, o Sião aprofundara relações comerciais com o Império Alemão. Nas vésperas da Grande Guerra, a Alemanha era o segundo parceiro do Sião, detinha importantes concessões e desenvolvia grandes projectos de obras públicas, comunicações e ferrovias, para além de aí ter cerca de duas centenas de técnicos e conselheiros nas forças armadas e nas alfândegas, bem como nos ministérios dos Estrangeiros e da Economia. A contragosto, o Sião foi obrigado a declarar guerra à Alemanha e enviou para o teatro de operações europeu ocidental um corpo expedicionário. Na Alemanha viviam dezenas de aristocratas siameses frequentando universidades e academias militares. O pai do actual Rei foi cadete o recebeu galões de oficial da marinha alemã nos anos que precederam a guerra de 1914.

Em finais dos anos 30, o discurso oficial de Banguecoque apresentava flagrantes coincidências com a doutrina alemã do "espaço vital": falava-se numa Grande Tailândia, na expulsão dos chineses, considerados os "judeus do Oriente", na "thaificação das minorias", numa sociedade decalcada da hierarquia castrense. Aos tailandeses era lembrada a sua bravura imemorial, a sua identidade jamais conspurcada pela colonização europeia, a superioridade da espiritualidade oriental sobre o materialismo ocidental.



Wicha era estudante de comunicações militares na Bélgica quando a Whermacht irrompeu pelo país em Maio de 1940. Entusiasta da Alemanha, rumou para Berlim onde terminou o curso de oficiais, recebeu galões e participou na guerra integrado numa divisão blindada alemã. A embaixada tailandesa em Berlim reconheceu-o como adido militar mas não o impediu de participar em combates, facto insólito a atestar estreita cooperação entre as autoridades dos dois países. Ainda se Wicha fosse caso único, talvez tudo não tivesse passado de caso insólito. Mas não, nas forças alemãs integraram muitos outros jovens thais que nutriam profundo ódio pela França e Reino Unido. Os voluntários thais foram incorporados em divisões SS e lutaram até aos últimos dias do conflito. Quando a guerra terminou, os norte-americanos, então muito preocupados com o ascenso do comunismo na Ásia, libertaram-nos e regressaram à Tailândia. Wicha chegaria ao posto de embaixador tailandês na Dinamarca e Noruega nos anos 60.

05 junho 2009

O mia bella Napoli


Fascinante panorâmica sobre a história cultural da mais latina das cidades italianas, a irmã gémea de Lisboa aos pés do Vesúvio. É evidente que Milão é "alemã" e que a Roma ladrona foi a desgraça do mito da unidade italiana. Nápoles, sim, a do Reino das Duas Sicílias, ciosa da sua autonomia, que se bateu em desespero perante o imperialismo de Mazzini e Garibaldi, é a grande e orgulhosa lembrança dos tempos em que a Europa era diversa e livre. Livro a não perder. Um verdadeiro atentado à teoria da decadência meridional que teima em manter-se ao arrepio da verdade histórica.


Rudi Schuricke: O mia bella Napoli (1938)

04 junho 2009

O que não ouvi dizer nestas eleições para a Europa


Nesta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu muito se falou sem nada se dizer sobre a Europa e sobre Portugal. A paupérrima esquerda e a não menos esfarrapada direita portuguesa de todos os quadrantes não sabem bem ao que andam, sem um conceito arrimador sobre a civilização em que nos integramos, sem saber identificar o vínculo que nos liga à Europa e sem sequer equacionar o interesse nacional. Ouvi muito, não aprendi nada. Falam por cifras, frases feitas para cada um dos supostos "problemas", tomam a núvem por Juno no alinhavar de lugares comuns carregados de superstição ideológica e de rodriguinhos importados destinados a clientelas há muito estabilizadas; em suma, a campanha não serviu para nada.

Qual é, antes de mais, o problema central a que os cérebros sem leitura não conseguiram chegar ? É, obviamente, o de saber definir o que é Portugal, porque está nesta Europa e que vantagem desta associação conjuntural tiramos. Infelizmente, a tese contratualista e voluntarista de Rousseau prevalece em todos os discursos, com a manifesta ignorância que o homem abstrato não tem direito à existência, pois não existe em parte alguma. Todos somos criaturas com envolvente familiar, social, cultural e histórico: não escolhemos a nossa família de nascimento e não escolhemos a pátria em que nascemos, pois estas são-nos impostas pela natureza no acto do nascimento. As pátrias não são negócios contratuais, existem antes e depois do cidadão, pelo que Portugal não nos pertence, mas somos nós que pertencemos a Portugal. Portugal é uma fundação de destino e a identidade está disseminada pelo passado e pelo presente, nos mortos e nos vivos. Portugal não é um estar aqui negociável, não cabe em programas nem se pode reduzir a "propostas". Não cabe aos portugueses de hoje questionarem-se sobre a viabilidade ou inviabilidade de Portugal, mas cabe-lhes lutar por uma ideia portuguesa na Europa e da Europa. Ora, o que ouvi foi o contrário.

Em primeiro lugar, a Europa não é uma fatalidade nem o fim de Portugal. Fora ou dentro da Europa, poderemos indicar mil e uma alternativas no quadro do interesse nacional sem afrontar a unidade de destino inscrita na história desta comunidade deste o momento da sua criação, há quase novecentos anos.

Todos, da extrema-esquerda à direita extrema, exibem um doloroso seguidismo não português (e muitas vezes até, anti-português) que se contenta em situar os problemas contemporâneos da nação por referência a problemas específicos dos restantes estados do continente. A agenda de todos os partidos parece um químico das supostas "famílias ideológicas" em que cada formação se integra, desconhecendo que o interesse francês, alemão ou italiano colide, quase sempre, com o interesse português, não apenas na identificação dos problemas como na sua resolução. Neste particular, da extrema esquerda à direita extrema, há muita Europa e nenhum Portugal: são cópias de cópias pedindo protecção externa.

Ouviram falar de Portugal, do Portugal fora do portugalinho dos 500X200 km, do Portugal de ontem que está presente em todos os continentes, feito de brancos, mulatos, negros e asiáticos, dessa ideia de fraternidade universal que criámos e fecundámos ao longo de meio milénio ? Ouviram falar do espaço português extra-europeu, que se projectou no Atlântico e tem hoje no Brasil uma potência económica em crescente afirmação ? Ouviram falar em políticas de robustecimento dessa unidade global que carrega na língua o elemento aglutinador que nos condena ao irreversível entendimento ? Não. De facto, não foi Portugal que entrou na Europa, mas a União Europeia que entrou em Portugal.

03 junho 2009

Quando um blogue se faz papel


O João Gonçalves dispensa apresentações, mas certamente merece ser apresentado ao outro país - o que não lê blogues nem tem internet - por aquilo que vai infatigavelmente fazendo ano após ano, inacessível ao desalento, sem medo e sem meias-palavras. É, decerto, coisa rara entre os portugueses. Dele dizem muito mal e muito bem. Ora, sempre senti atracção especial por pessoas mal vistas, criticadas, difamadas até, pois nesse vozerio eriçado de indignação postiça esbarro sempre com meia dúzia de palavras que nunca se confessam mas estão por toda a parte: inveja e ciúme, imbecilidade fingida em boas maneiras, iletrismo camuflado em pronto-a-pensar, bajulice à procura de umas moedas caídas da mesa das secretarias e dos ministérios; no fundo, a pequena arte de arranjar cabidela, um patrocínio, uma tença. A política portuguesa fez-se e faz-se com essa feromona com que as pequenas potestades impregnam todos os cantos da teia que os ampara, das juntas de freguesia aos lugares de alta direcção, da mais pequena sinecura a Belém e S. Bento: dar dinheiro, calar pelo suborno, dar um lugar a cicrano, fazer um favor a beltrano, promover o medíocre, amputar o homem de valor. Ora, leitor atento do Portugal dos Pequeninos desde 2003 ou 2004, não concordando com tudo, mas com tudo concordando na indignação, impaciência e exasperação que revolve de cima a baixo o João na sua demolidora dissecação do país político, só posso confessar a minha alegria por ver o Portugal dos Pequeninos subir às estantes onde se preserva o pensamento que fica. Talvez, dentro de setenta ou oitenta anos, quando se fizer a história da prosa doutrinária e do "inquérito à vida" no Portugal dos primeiros anos deste século, o João possa ser relido como referência de uma atitude, de um estilo e de um pensamento odioso para aqueles que vai acusando, provocando e fazendo em tiras. Não sei porquê, mas ao olhar para a capa do seu livro, só me acode o nome de Fialho. No fundo, o João é um poeta, acredita no valor das palavras armadas, na razão furiosa e no voltar da página sobre a noite que caiu sobre Portugal. Talvez um dia se levante o sol e os portugueses vejam que têm duas pernas, duas mãos e uma voz. Y ya tu canto es de todos los hombres /

Je suis Français, pardonnez-moi !


Honte d’être Français. Deux faits récents, très éloignés l’un de l’autre, ne peuvent qu’indigner tous ceux qui se berceraient encore d’illusions quant à la mentalité collective des Français. Dimanche 31 mai, Rafael Nadal perd un match à Roland-Garros face à un public imbécile déchaîné, applaudissant à toutes ses fautes. Rafa est un grand sportif, sympathique, courtois et comme l’on dit familièrement en langage jeune, « bien dans sa tête ». Je ne peux qu’approuver les propos tenus sur des radios espagnoles par son oncle et entraîneur, Toni Nadal, dénonçant la bêtise et la jalousie du public français. Un autre événement, dramatique celui-là, vient ajouter à ma honte face à mes compatriotes. Un avion de ligne Air France s’est perdu en vol au-dessus de l’Atlantique, entre Brasilia et Paris. Plus de chance de retrouver des survivants parmi les 228 passagers et hommes d’équipage. Les médias du monde entier ont relaté l’événement et compati au sort des victimes et à la douleur des familles. La présentation de l’événement par la chaîne de télé France2, relayée à travers le monde par TV5Monde, ne peut que soulever mon indignation. Lors du journal de 20 heures du lundi 1er juin, le commentateur-vedette de la chaîne, David Pujadas, donne le bilan des victimes : 73 Français. Le lendemain, mardi 2 juin, il récidive : 73 disparus. Mais alors, il ne mentionne même plus qu’il ne s’agit que de Français. Les autres, oubliés, définitivement. Le chauvinisme des spectateurs, la considération de la douleur que de seuls Français, n’est-ce pas la forme de racisme la plus quotidienne et la plus insidieuse ? Qui ne souffre, elle, d’aucune réprobation. Un Français moyen n’en a même pas le moindre soupçon. Pour lui, c’est normal ! Cette France est définitivement aveugle au monde. Seule. S’il lui arrive malheur et que tous les autres s’en moquent, elle l’aura bien voulu.

Paul-Henri

01 junho 2009

Lembrando Luís Cabral: das vítimas


(...) Luís Assaul, Sold 2ª CC; Fobé Baio, 1º Srg 1ª CC; Braima Baldé, Alf 1ª CC Bambadinca; Dabo Baldé, Fur 2ª CC, Portogole; Malan Baldé, Alf 3ª CC, Cumeré; Samba Baldé, Fur 1ª CC; Silvério Samba Baldé, Fur 2ª CC; Armando Carolino Barbosa, Ten 2ª CC; Braima Bari, Fur 2ª CC; Mamadú Saliú Bari, Alf 2ª CC; Américo Lamine Camará, Fur 2ª CC; Braima Camará, Fur, Gr Vingadores; Bubacar Camará, Fur 3ª CC; Granque Camará, Sold 3ª CC; Mussa Camará, Fur 1ª CC; Quecumba Camará, 1º Srg 2ª CC; Tomás Camará, Ten 1ª CC; Alfa Candé, Fur 2ª CC; Aruna Candé, 1º Srg 2ª CC; Aliu Sada Candé, Alf 2ª CC; António Samba Juma Djaló, Alf 1ª CC; Bacar Djassi, Ten 3ª CC; Bailo Djau, Alf 2ª CC; Alfa Embaló, Fur 2ª CC/Gr Vingadores; Anastácio Moreira Ferreira, Fur BCmds; Augusto Filipe, 2º Srg 1ª CC; Francisco Alenquer Imbadé, Fur 3ª CC; Cube Jaló, Sold 3ª CC; Abdulai Queta Jamanca, Ten 1ª CC; Manga Mané, Fur 1ª CC; António Mendonça, Fur 2ª CC; Belente Mepe, Fur; Marcelino Moreira, Alf 2ª CC; Marcelino Pereira, Alf 2ª CC; Col Quessange, 1º Srg 3ª CC; José Aliú Queta, 1º Srg 2ª CC; Tumane Queta, Sold BCmds; Amarante Saja, Fur 3ª CC; Zacarias Saiegh, Cap 1ª CC; Demba Cham Seca, Alf 1ª CC; João Uloma, Alf 1ª CC; António Vasconcelos, Alf 3ª CC; Cicri Marques Vieira, Ten 2ª CC, (...).


Boinas Verdes (1970)

Luís Cabral voltou a ser português


Cantam os jornais de hoje os costumeiros ditirambos lavrados para a necrologia de marcar-o-ponto a respeito de um tal Cabral, de seu nome Luís, que por Portugal viveu mais de um quarto de século sem que alguém se atrevesse levá-lo à barra dos tribunais. O homem foi um inimigo de Portugal - o que é isso, caramba, coisa de somenos, quando os mais implacáveis adversários da ideia portuguesa se consideram, eles também, portugueses ? - e mandou matar, por atacado, sem dó e sem reserva mental milhares de portugueses negros cujo único crime fora o de servirem o Exército Português Africano. O culto do banditismo político tem sido prática num país que se delícia em escrever a sua anti-história e juntar nomes de vítimas e assassinos, absolvendo as criaturas mais cavilosas a coberto de uma suposta inelutabilidade dos actos individuais, tomados como azares determinados pelas tais "leis históricas" e cobrir de ridículo aqueles que souberam manter a fidelidade a Portugal. Cabral experimentou, como tantos da sua geração - v. Pinto de Andrade - o maior e mais contraditório percurso político: quis ver a África independente, mas transformou-a em campo do experimentalismo do totalitarismo soviético nos trópicos; lutou contra os portugueses para, depois, pedir-lhes misericordioso acolhimento; abriu as portas da selvajaria e foi vítima dela. Luis de Almeida Cabral era a personificação desse desastre que foi a descolonização e o abandono da África.

Vi-o uma vez pelas ruas de Lisboa brincando aos senhores delicados. Quem diria que aquele contabilista Luís de Almeida Cabral, burguês e filho de literato, bolseiro da Casa dos Estudantes do Império, irmão de Amílcar - engenheiro do quadro do Ministério do Ultramar, Inspector-Geral do Comércio da colónia, investigador da Junta de Investigação do Ultramar e assistente universitário - fora durante meia dúzia de anos o mais implacável verdugo de tanto desgraçado atirado de mãos atadas para as valas comuns que deixou como espólio da sua presidência. Depois, quando a lei da cadeia alimentar o tocou de perto, fugiu para Cuba, onde não se conseguiu aclimatar, preferindo colocar-se sob protecção dos portugueses, que tanto detestara, deles recebendo casa e pensão vitalícia.