23 maio 2009

O maior inimigo do espírito

El gran masturbador (S. Dali, 1929)

Vai realizar-se em Tomar um colóquio sobre o surrealismo em Portugal. Curioso, mas em qualquer das notícias vertidas por essa máquina de inteligência activa que dá pelo nome de comunicação social lobriguei o menor interesse pela recepção e ambientação do movimento que do início dos anos 20 à década de 30 se expandiu como um vírus e popularizou a moda dos temas da "psicologia das profundidades". No noticiário só leio salazarismo, regime, censura e resistência. Da luta, terrível, insultuosa, feita das mais soezes calúnias que o PC - então aboletado na casa do neo-realismo - moveu contra os animadores do surrealismo português, nem uma linha. Se houve em Portugal maior inimigo da independência do espírito crítico, da liberdade artística e da abertura às correntes estéticas internacionais, esse não foi o tal "salazarismo", mas o PC, antes e no imediato 25 de Abril. Há que acabar de vez com a ocultação da verdade: aos inquisidores o que é dos inquisidores. O PC e o seu neo-realejo meia-rota, caras chupadas pela tísica e ceifeiras suadas foi a praga que chegou por imposição de Idanov e do seu Cominform cultural e teimou em ficar, apodrecendo nas bancadas, inibindo o mundo artístico português até aos anos 80. Parte apreciável do sub-desenvolvimento das artes e letras - mas também das ciências sociais - deve-se a essa paralisia.


You're the Cream in My Coffee (1929)

20 maio 2009

Velhos reis ou quando o mundo era ligeiramente menos poluído





Os retratos de Mongkut (Rama IV) do Sião (r. 1851-68), Radama II de Madagáscar (r. 1861-63), Kalakaua do Havaí (r. 1874-1891) que visitou Lisboa em 1881, Menelik II da Etiópia (r. 1889-1909), D. Pedro VII do Congo (r. 1923-1957), Sisavang Vong do Laos (1946-1959), do Kabaka (rei) Mutesa II do Buganda (r.1939-1969) e Sobhuza II da Suazilândia (r. 1899-1982), o mais longevo reinado nos anais da história, merecem ser observados. Antecedem em décadas ou mesmo em poucos anos o triunfo do mundo moderno. Depois, com o progresso, o desenvolvimento, as cartas universais, os direitos, os socialismos, as libertações, o mercado e tantas outras superstições contemporâneas vieram outros dirigentes que melhor ilustram o tempo presente: Idi Amin, Hailé Mariam, Pol Pot, Bokassa e Machel, Neto e Saddam Hussein, Macias Nguema, mais os Ches, os Castros, os Kim il Sungs e os Duvalier Papa & Baby Doc. Vivemos num mundo maravilhoso. Para quê olhar o passado ?

18 maio 2009

A fatalidade histórica do Ceilão: o português Fonseka derrota os comunistas



Finalmente, a brutal guerra que os Tigres Tamil impuseram ao Sri Lanka chegou ao fim. De um lado, o Estado da maioria cingalesa, budista e de grande abertura à realidade multiétnica que tanto faz lembrar a generalidade dos Estados do sudeste-asiático; do outro, os secessionistas hindús Tamil, cuja proverbial agressividade e brutalidade, o nacionalismo paroxístico e uma vaga ideologia inspirada no "socialismo revolucionário" e numa "sociedade sem classes" era vazado da fôrma do sovietismo com aclimatação tropical. Foram décadas de assassinatos, bombas, massacres e escaramuças. Os Tigres Tamil socialistas tiveram sempre o beneplácito concedido aos "movimentos de libertação" pela imprensa bem-pensante ocidental: quando perpetravam os mais repugnantes banhos de sangue, os noticiários calavam; quando sofriam retribuição das forças governamentais, o carpideirismo excedia-se em campanhas de solidariedade, pressões sobre o governo e outras formas bem conhecidas de chantagem. Como pode o Ocidente condenar o terrorismo se abre tantas excepções, do Curdistão ao Sri Lanka, do País Basco à da Irlanda do Norte, do Saara Ocidental ao Kosovo e ao Nepal ? Certamente, a factura retardada de tanto patrocínio dada durante anos às "justas causas" tornou-nos campeões da duplicidade; logo, indignos de lavrar protesto.

As forças armadas cingalesas mataram hoje Velupillai Prabhakaran, impiedoso comandante dos Tigres. Prabhakaran escudava-se no argumento do catolicismo da sua família para ganhar simpatias entre os desinformados no Ocidente, mas é evidente que o seu movimento não fazia a mais leve alusão ao catolicismo, antes pugnando por um Estado homogéneo submetido à tradição hindú. Ainda há dias aqui alinhavámos algumas reflexões sobre a mediação de última hora tentada pelo sueco Carl Bild, conhecido caixeiro viajante das causas justas. É evidente que essa mediação era ditada pelo desespero. Era como se alguém tentasse uma intermediação entre os Aliados e Hitler em Abril de 1945 ! Por detrás dessa arremetida benemérita estava, claro, a intenção de agradar à Índia, nova gruta de Alibabá dos investments, opportunities e demais nobres modalidades com que o Ocidente exporta empresas, abre mercados e explora e faz milhões. Felizmente, o Sri Lanka não se deixou vergar. As suas forças armadas venceram metro a metro o inimigo, derrotaram-no inapelavelmente e - contradição das contradições - lançaram grande campanha de apoio às populações tamil utilizadas como escudos humanos pelos bravos Tigres. O grande vitorioso desta contenda, o artífice desta paz pela vitória sobre o terrosrismo, é Sarath Fonseka, Tenente-General cingalês de ascendência portuguesa. Deve ter por antepassado um desses "casados" que viveu, deixou prole e combateu por Portugal até ao fim da nossa presença (1505-1658). Estes Fonsecas, Sousas, Britos e Silveiras, capitães ou simples soldados deixaram sulco profundo. Quando sobreveio a invasão holandesa, estes "burghers" refugiaram-se no centro montanhoso da ilha e mantiveram desafiante atitude para com os ocupantes. Depois, regressaram à costa, instalaram-se e ensinaram os holandeses a falar o português, língua franca do Índico entre os século XVI e XIX.

Aqui está um caso em que Portugal poderia tomar posição, explorar esse veio de dedicação e memória, estreitar laços e ganhar vantagem. Haverá quem o queira ou saiba fazer ?