18 abril 2009

Europa mínima

Miss Pearls, incansável globetrotter, envia-nos deliciosos postalinhos de Bruxelas, a vila quase-aldeia que, de aglomerado provinciano cercado por imenso batatal se transformou na capital da Europa burocrática, codificadora e mercadora. Bruxelas é, sem tirar, o emblema de uma Europa que já não se reivindica mãe das artes, das ciências e da guerra, mas contenta-se com a abundância de chocolates, restaurantes de luxo e moradias de curta estadia para os emissários tribais vindos dos [vinte e] sete bantustões da Europa pagar o tributo de vassalagem a uma entidade acéfala.

Outrora, a Europa ia à Roma divina. Ora lá entrava de canga ao pescoço nas paradas triunfais dos augustos, ora de lá saía sobraçando os cursus honorum com as nomeações para questores, edis, pretores, governadores e censores enviados para a Lusitânia, a Mauritânia, a Mesopotâmia, a Arménia, a Britânia, a Dácia ou a Récia. Depois, Roma foi a cabeça da Res publica christiana, intermediária entre os homens e o Altíssimo. A monumentalidade de Roma era justificação suficiente para lhe renderem respeito. Quando tudo se desagregou e o continente se partiu definitivamente no século XVI, as sucessivas capitais da Europa em disputa imitaram Roma com os seus arcos triunfais, obeliscos, edifícios de Estado, paradas e cerimónias.

Hoje, a Europa é aquele Petit Julien de 60 cm a urinar torrencialmente decretos, decisões, regulamentos e directivas sobre a dimensão do carapau, a percentagem de sebo dos champús, as compatibilidades electromagnéticas das máquinas de barbear, a segurança dos brinquedos, a elasticidade dos preservativos, as medidas preventivas contra a febre aftosa, a dimensão das seringas e outras coisas da mais alta relevância. Uma Europa de fulaninhos e fulaninhas rendendo culto ao positivismo de contabilidade, sem sonho e sem luz, uma Europa do misiserabilismo que se esconde por detrás das gestões, dos marketings, das estatísticas sem estadística, das finanças sem economia, da politiquice sem Política. É uma pena, mas é a realidade que teima em cobrir de ridículo a Europa. E Bruxelas enfia como uma luva a imagem desta Europa que já não quer, já não pode e já não manda. Ali fala-se de tudo, em todas as línguas. Mau sinal, pois em Roma, do Tejo ao Tigre falava-se o latim e entendia-se o mundo conhecendo Horácio e quando chegava a ordem de Roma essa era compreendida por todos os cidadãos do império. Hoje não há ordens porque não há autoridade, e se as há, para além da torrente de decretos que encontram risos escancarados da Escócia à Sicília, nunca serão aplicados porque falta à Europa uma ideia, um sonho e um objectivo.


Respighi: As Fontes de Roma

17 abril 2009

Londonistan: o inimigo dentro de portas

O livro não é novo, mas exige leitura. Confesso que o tenho lido em pequenas doses quando vou à livraria da esquina, como quem lê um seriado daqueles que os jornais de outroram debitavam semanalmente. Contudo, não se trata nem de ficção nem de jornalismo superliterário. É um cerrado libelo à incompetência das autoridades britânicas, ao criminoso desleixo quantas vezes de mãos dadas à ignorância e cegueira políticas, bem como ao complexo de superioridade que anima tanta estupidez inteligente. O terrorismo islâmico vive paredes-meias com as nossas instituições, leis e modo de viver, nutre-se de indesculpável ressentimento e de um ódio profundo inacessível ao tão propalado diálogo entre as civilizações. Os terroristas não se recrutam entre os pobres, como alguma esquerda no imediato 11 de Setembro fez crer, não são nem analfabetos nem excluídos. Provêm, pelo contrário, de casos bem sucedidos de integração social - pais com negócios estabelecidos - tiveram todas as condições para progredirem e vencerem e, até, não raro foram contemplados com bolsas de estudo. Vivem com todos os adornos de cultura material próprios das sociedades ricas do Ocidente, consomem, viajam, desenvolvem actividades que o ócio proporciona. Contudo, esta minoria religiosa foi segregando uma cultura de ingratidão e resistência face à sociedade tolerante que a acolheu, quis aprofundar a sua especificidade no quadro dos direitos contemplados pelas leis ocidentais, reivindicando esse direito à diferença para legitimar, in extremis, a destruição do Ocidente.

O grande mistério deste terrorismo é a atracção que sente pelo Ocidente. Estabelecidos, vivendo na opulência como nenhum dos seus antepassados ou sem os padecimentos e angústias dos cidadãos dos seus países de origem, encaram a Europa como terra de conquista. Os europeus, por seu turno, imobilizados pelo multiculturalismo descartável, permitiram que esse cancro progredisse. É a primeira vez na história do Ocidente que uma minoria religiosa rompe com a tácita liberdade de culto garantido pelo império das leis e pretende conquistar o direito à supremacia política, obrigando a cultura dominante a aceitar o específico como regra.

A resposta à propagação desse perigo não foi assumida, por ora, pelas autoridades democráticas. A imparável progressão de forças políticas anti-imigração parece estar a criar o campo para a mudança da paisagem política europeia. Onde falharam os governos, as leis e os políticos sensatos, estão a triunfar agitadores, demagogos e alarmistas que poderão, a prazo, ditar o colapso das instituições liberais e proporcionar o advento de uma vaga autoritária. O extremismo anti-imigração não é, assim, mais que o reflexo de políticas suicidas de destruição das regras e condições que haviam feito da Europa um oásis de tolerância cultural e religiosa. O perigo é iminente. Só não vê quem não quer, ou, querendo-o, nela identifica a possibilidade de destruir um tipo de sociedade que detesta. A aliança entre a extrema-esquerda e o islamismo militante parece estar a crescer em simultâneo com o recrudescimento de forças políticas anti-democráticas reactivas. Ao aprofundar-se, induzida, esta bipolarização de duas irracionalidades fora da tradição ocidental, está-se a matar o múnus do Estado democrático, cada vez mais separado da realidade que campeia nas ruas.
Convido também os meus leitores para a inteligente reflexão de Riaz Hassan sobre a possibilidade de conter o islamismo, fora ou dentro da Europa, pela adopção de uma clara atitude de impugnação pelo esclarecimento. Como qualquer irracionalismo, o islamismo pode ser detido pela argumentação, como foi detido o comunismo na Europa Ocidental entre os anos 40 e 70 e antes o nazismo nas sociedades democraticamente maduras no período entre.guerras.


Riaz Hassan: conferência sobre o fracasso do islamismo no mundo contemporâneo (2008)


Sura do Arrependimento

16 abril 2009

A melhor prenda que podia receber


"Vale a pena começar por contar esta história rápida: há dois anos, mais ou menos, convidei para vir aqui à Antena 1 conversar comigo, sobre blogues e sobre a vida, Miguel Castelo Branco, autor de um dos blogues que sigo com regularidade, o Combustões. Cidadão do mundo, ele escreve sobre todo o tipo de temas, o que fez com que não me apercebesse do óbvio. Mas o óbvio veio na resposta ao meu convite: que sim, que tinha muito gosto em vir à Antena, mas tinha um pequenino problema. É que vivia na Tailândia, em Banguecoque...
Pois é evidente que me lembrei logo de Miguel Castelo Branco nestes dias de brasa que se têm vivo naquelas paragens. E o que vos posso dizer é que temos ali, no blog Combustões, um verdadeiro diário da crise, bem escrito, explicado e mesmo fotografado."
(...) "O resto, desafio os ouvintes a irem ler ao blog Combustões – ali está o jornalismo do futuro, feito por quem tem dois olhos e vê, e sabe usar a cabeça para mais do que segurar um chapéu. Eu é que tiro o chapéu ao Miguel Castelo Branco, que dá abadas diárias às matérias dos jornais....".

Há coisas que nos enchem de orgulho; outras que nos desabam em cima com o tremendo peso da responsabilidade. Hoje sinto-me orgulhoso e angustiado por receber do Pedro Rolo Duarte tamanho elogio. Pedro, há uma pequenina correcção: eu sou Miguel, e não Manuel. Aliás, há um segundo reparo: o jornalismo do futuro será infelizmente mais pobre, pois é para o corta-cola do correctês que se caminha. Um abraço, penhorado e admirado.

Para ouvir o Pedro, consultar a versão mp3 do JANELA INDISCRETA: a reportagem jornalística também na blogoesfera nacional.


Lale Anderson - Einmal Noch Nach Bombay

Há que saber ouvir os trabalhadores

Portinari: o cafeeiro (1939)

As revoluções e as rebeliões não nascem do nada. Se encontram quem lhes dê rosto, uma ideia condutora ou uma justificação, os motivos profundos que as desencadeiam não são acidentais nem se prendem com a vontade de poder e a estratégia de um só homem ou de um grupo. Há que saber ouvir o povo chão, compreender a revolta daqueles que se sentem ultrapassados, repelidos ou humilhados por uma dinâmica que não conseguem acompanhar. Para os poderosos e para as elites que jamais tiveram fome, problemas de emprego e angariação de subsistência, que não sabem o que é penar para reunir o mínimo para manter a dignidade, há que encontrar o termo adequado que permita a uns dormir descansados e aos outros não acordarem em ira cega e destruidora. Saber mudar a tempo, saber abrir generosamente a mão do supérfluo para manter o essencial, não acreditar, jamais, que a vantagem de hoje é caução para todo o sempre; eis o segredo de um sistema justo. É certo que o acto de governar desenvolve-se em esferas diversas. Se visa manter o Estado e os grandes princípios que fazem de uma sociedade uma unidade de destino, deve também preocupar-se com a soma das coisas pequenas que justificam a cidadania, o estar em sociedade e o viver em conjunto por uma ideia de justiça e felicidade que a todos deve premiar. Se aos trabalhadores não cabe governar, cabe ao Estado e à elite no poder governar prioritariamente para os trabalhadores. Aprendi isto há muito: quem pouco tem, contenta-se com pouco, conquanto sinta que por ele se compadecem e abeiram os poderosos. É este o segredo da arte de governar. O acto de governar é um acto de caridade. E se de tal se rirem as elites, há que dizer-lhes que os trabalhadores, quando exasperados, são coisa terrível à solta.

As flores do mal

Ontem, por ocasião do aniversário do falecido Kim il Sung, os altares da Coreia do Norte encheram-se de Kimilsungia e Kimjongilia. As recentes confissões de um médico hematologista japonês que assistiu o tirano nos derradeiros anos de vida, revelam os arcanos mais perturbadores. Kim il Sung - tal como Tito da Jugoslávia, que bebia leite de rena e recebia hormonas de macaco para ludibriar a morte - recebia contínuas transfusões de sangue retirado de virgens, velha crença que pouco terá evitado o atalhar do inapelável veredicto biológico. É desta gente que se nutriu a esquerda planetária ao longo de décadas. Aqueles que haviam decretado a morte de Deus, brincando como impotentes mágicos, entregues à charlatanice de ervanária em busca da vida eterna para cá da morte. Nem Mary Shelley teria ido tão longe.


A marcha do Marechal Kim il Sung


A megalomania dos outros é bela, mas só se dela estivermos longe !

15 abril 2009

O poder ou é teatral ou não é [poder]


Aqui d'El Rei


Foi anteontem apresentado ao público em Lisboa o livro Aqui d'El Rei, antologia de textos publicados ao longo dos últimos anos na imprensa escrita por João Matos e Silva, Vasco Teles da Gama e Nuno Pombo. Não me podendo pronunciar sobre o seu conteúdo, pois só nas próximas semanas terei acesso a um exemplar, não posso deixar de assinalar a probidade dos autores e a crescente afirmação de um pensamento monárquico português que se autonomizou de linhas de força datadas e de questões hoje absolutamente irrelevantes como contraproducentes para a afirmação de uma opção monárquica no quadro do tempo presente. Acabou o tempo dos reposteiros, das heráldicas e das genealogias, como acabou o tempo dos "corpos intermédios", da teimosa recusa do governo representativo e da concepção, errada como perigosa, de uma chefia de Estado dinástica com atribuições executivas. Intérpretes desta mudança, os autores terão reunido sistemática, coerente e atraente bateria de argumentos que tornam possível aos novos monárquicos desenvolverem a defesa da restauração como imperiosa necessidade de aprofundamento das liberdades individuais e da preservação da identidade nacional.

14 abril 2009

Última hora: rendição

A insana aventura dos vermelhos acabou hoje com humilhante rendição dos líderes thaksinistas às Forças Armadas. Aquela que estava destinada a ser uma gloriosa jornada revolucionária, acaba sem glória, sem mártires e com a reputação de Thaksin afectada. A Tailândia assiste o Thermidor de uma longa crise política iniciada em 2006. Esgotados, os partidários de Thaksin estarão muito diminuídos e a sua credibilidade feita em tiras após dias em que lançaram mão da política de terra queimada que afectou, sobretudo, a população e cujas cicatrizes se encontram um pouco por toda a capital. No extremo oposto, os "amarelos", terão por sua vez sido ultrapassados e perderam o lugar de destaque que detinham na luta contra Thaksin, posto que o governo mostrou-se à altura do desafio e parece reunir a maioria silenciosa.

As Forças Armadas mostram esplêndida fibra e deram provas de profissionalismo e auto-domínio dignos de registo. São, juntamente com a monarquia, o funcionalismo do Estado e a Shanga budista, os mais fortes esteios da unidade nacional. Enganou-se quem julgou precipitadamente que a Tailândia havia mudado. No fim desta jornada, até os vermelhos se entregaram à protecção daquelas instituições que haviam afrontado. Combustões volta, pois, à rotina e dá por encerrado este capítulo.

Estranhas coincidências


Tenho para mim que o fracassado golpe vermelho foi urdido com apoio de forças e interesses não-tailandeses, na Tailândia ou fora dela, visando destruir no estádio inicial o governo de Abhisit Vejjajiva. Para tal, recorreu-se à intoxicação da opinião pública internacional através das grandes cadeias noticiosas, tentando-se descredibilizar e lançar dúvidas sobre a legitimidade constitucional do governo em exercício. Importa rememorar três ou quatro incidentes que surgiran ex nihilo no decurso das úiltima semanas e que agora, com toda a justeza, podemos caracterizar como preparatórios à insurreição plutocrática e caciquista de Thaksin.
1. O caso dos rohinya, que fez o noticiário de meio mundo. Dizia-se que as Forças Armadas da Tailândia haviam morto meio milhar de rohinya no alto mar. Há provas ? Foram divulgadas ? Tratava-se de lançar sobre as FA's o ónus do odioso, paralizando-as em momento crítico.
2. A tensão militar entre a Tailândia e o Camboja. Os cambojanos, amigos de Thaksin, recorreram ao longo das últimas semanas a uma infindável série de provocações visando uma resposta enérgica. É evidente que tal manobra reclamaria da comunidade internacional uma unânime condenação, o isolamento do governo thai e a imposição de uma guerra impopular para a generalidade dos tailandeses.
3. Ao longo dos últimos dias, num dos jornais em língua inglesa publicados em Banguecoque, apercebi-me, pela primeira vez, da utilização de jargão ofensivo da imagem e autoridade moral da Coroa. Pela primeira vez dei com as expressões "clique da corte", "forças imobilistas" e "reaccionárias" que me levaram de imediato a lembrar a terminologia com que em tempos passados os comunistas procuravam desgastar as instituições que lhes faziam frente.
O que estava preparado, perdoe-se-me o atrevimento, era levar o primeiro ministro a resignar no sábado passado, após a vergonhosa invasão e paralização da cimeira da ASEAN, abrir um vazio de poder e exercer pressão de rua sobre o poderoso Conselho Privativo do Rei, a única entidade remanescente que poderia agir em defesa da Coroa em situação de emergência.


Esperava-se que Abisit fugiria e que as Forças Armadas assumissem uma posição dúbia. Nesse quadro, o prosprito Thaksin regressaria à Tailândia e imporia o poder da rua ao Rei. O golpe falhou. Os homens revelam-se na adversidade. Abhisit mostrou-se sereno e firme, mostrou uma coragem física digna de registo, não negociou com vândalos, falou ao país três vezes por dia e sai desta crise com uma força moral que o levará, estou certo, a dirigir as necessárias reformas políticas e sociais que impeçam a repetição do thaksinismo. A cinco três dias do drama que viveu Banguecoque, convido os meus leitores a visionrem a peça em duas partes aqui disponibilizadao. Dir-se-ia que a jornalista da BBC sabia exactamento o que estava na forja. Coincidência ou tlvez não !

13 abril 2009

Explicar a situação tailandesa


Ao longo do dia recebi mais de meia centena de mensagens, fui entrevistado por meia dúzia de estações de rádio e televisão, duas das quais brasileiras. Aos portugueses em geral, sobretudo aqueles que seguem e querem conhecer o que se passa neste país, aqui deixo uma curta antologia de textos sobre cultura, história e política tailandesas que tenho produzido ao longo dos últimos meses.

Aqui fica:

O estertor de Thaksin: Combustões no acampamento vermelho

Nunca me fiei nos noticiários, como também nunca fui entusiasta dos mentideros e rumores. Como dizia Frei Amador Arrais, se "Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, tal implica que devemos falar duas vezes menos do que ouvimos". Acrescentar-lhe-ia: se "Deus nos deu dois olhos e uma boca, tal exige-nos ver antes de falar". Se os acontecimentos ocorrem em baixo da nossa janela, por que raio os seguimos pela rádio ou entregamos a nossa inteligência à comunicação social ? Ontem deitei-me e não consegui dormir. Senti, como em finais de 2008, quando os amarelos Tradicionalistas ocuparam a Casa do Governo, que tinha de lá ir ver. Afinal, estando a estudar na Tailândia a sua história e cultura, tinha história a acontecer a meia dúzia de quilómetros. Nunca me desculparia se um dia assomasse, implacável e fria, a razão por não haver ido: o medo, que se pinta e esconde amiúde com a dita prudência e, tantas vezes, se arma de argumentos para se justificar.


Montei uma motorizada e lá fui pelas longas, silenciosas e escuras avenidas que levam ao complexo de edifícios governamentais. Pelo caminho não lobriguei vivalma. Só um carro ou outro das forças de segurança e, poucos, muito poucos táxis. Chegando às imediações da versão tailandesa do Palazzo Ca'd'Oro de Veneza - foi desenhado por um arquitecto italiano nos anos 20 - desci e dirigi-me à primeira de quatro barricadas vermelhas. A segurança não foi amistosa como aquela que encontrara nas bandas amarelas. Olharam desconfiados, fizeram perguntas e por fim deixaram-me passar. Depois de voltar a casa, as agências noticiosas informaram que os estrangeiros não se deviam aventurar em tal lugar, pois a direcção vermelha anunciou ter deixado de lhes assegurar protecção.
Em torno de um palco iluminado, um ajuntamento de duas ou três mil pessoas. Na orla, exaustos, dormitando, comendo ou simplesmente ouvindo com olhar parado, homens, mulheres e crianças ali estão há dias confiando na vitória que Thaksin e seus mandatários lhes prometeram.

É povo das províncias, sem dúvida. Nos gestos, forma de falar e na posição de descanso que assumem - sentados sobre as pernas, como o fazem todos os camponeses do Sudeste Asiático - é gente de trabalho, pele escura e tisnada pelo sol, dessa gente que tanto gosto, com um sorriso que dir-se-ia fazer parte do rosto e prolonga a gentileza de um povo amável e que pouco conhece dos artifícios da população urbana. No meio deles, dando ordens, os homens de chapéu à far west - os caciques de Thaksin - destoam pelas unhas arranjadas, pelo gesto brusco e imperativo, pelo bigodinho cortado à Clark Gable, os anéis de grandes pedras nos dedos. Foi neles que Thaksin depositou a esperança de um assalto da cidade pelo campo, foram eles que organizaram milícias e lançaram o país no caos.


No palco, fazendo comício ininterrupto, a liderança vermelha, sentada em cadeiras vermelhas, vai discursando. Vozes inflamadas, palavras de ordem, apelos à resistência, ataques ao Conselho Privado do Rei, às Forças Armadas e ao governo. Como aqui dissera há dias, um discurso simples, sem elaboração e centrado no grande ausente - Thaksin Shinawatra - que todos os dias apela ao seu povo algures de parte incógnita para oferecerem as vidas pela sua causa. Entre os discursos, entoam-se marchas nacionalistas thais dos anos da ditadura de Phibun e reparo não haver foto, bandeira alguma ou a mais pequena alusão ao Rei. É a velha tensão entre a monarquia e o nacionalismo thai, que atravessou a primeira metade do século XX e foi resolvida, em finais da década de 50, pelo compromisso de um desenvolvimento económico que a todos premiaria sob o manto da concórdia e união proporcionada pela monarquia.

O nacionalismo thai, com invocação da lei da maioria, parece encerrar não só uma profunda contradição nos termos, pois as minorias [étnicas e religiosas] são quase 20% da população e a minoria social que se recusa submeter a Thaksin constitui o segmento da população responsável pelo inegável progresso a que o país assistiu nos últimos quarenta anos. Se o Estado tailandês fizesse tábua rasa da realidade multétnica e multireligiosa do país, reeditando a tragédia dos anos 30, surgiriam de imediato regionalismos recalcados. Afinal, os vermelhos são vítimas do desenvolvimento e instalação do capitalismo, da economia de mercado e da sociedade de consumo de atingiu de forma desigual uma população tradicionalmente austera.

Os vermelhos serão, assim, as vítimas da lógica da instalação de um modelo económico que eliminou uma a uma as estruturas sociais do mundo rural thai - a aldeia, as comunas, o consumo de subsistência, a entreajuda dos vizinhos, a família extensa - e acreditou no salto para uma sociedade indústrial que asseguraria ipso facto limiares de riqueza e bem estar próprios das economias desenvolvidas. O paradoxo desta fronda de caciques dominados por Thaksin utilizando o poder moral facultado pela lei da maioria, mas aplicado sobre um corpo eleitoral domesticado por chefes locais, é que Thaksin não é, como eles, nem um camponês nem um proletário. É dos homens mais ricos da Ásia e tudo aquilo que representa, nas crenças e valores que propala, é uma incongruência que só se salva pela velha e persistente crença thai no homem providencial e no líder carismático.


Um dos líderes vermelhos que ouvi atentamente, chegou a extremos oratórios raros numa língua que se caracteriza pela evitação da violência. Pediu a morte do primeiro ministro, o caos generalizado, o assalto aos ministérios, a paralização de toda a actividade económica.

Enfastiado, fui à procura de gente. A um canto do recinto, um altar exigia o incenso e orações dos manifestantes. Espanto. Não era um altar budista, mas um altar nacionalista, do género de "altares cívicos" que se popularizaram na Europa de Oitocentos. Ali rezava-se ao general-rei Taksin, não o Thaksin vivo, mas o homem que em 1767, após a queda de Ayuthia, antiga capital do Sião, dirigiu o seu povo na luta de resistência contra os birmaneses. Esse rei Taksin, que fundou Tonburi, hoje a margem oposta de Banguecoque, governou os siameses durante quinze anos. A sua conduta foi-se alterando com os anos e dizia-se merecedor de respeito igual ao do Buda, pelo que a crescente loucura de que dava sinais, a extrema violência da sua conduta e o perigo que constituia ter no trono um homem de comportamento errático exigiram a sua deposição. No fim, um golpe de Estado militar afastou-o do trono. Após julgamento sumário, foi executado. A similitude dos nomes Taksin/Thaksin não deixa de ser espantosa. Thaksin teve tudo, mas quis mais: quis destruir o equilíbrio político e hoje parece inclinar-se para o impronunciável. E como hoje já não se fazem novas dinastias, parece ter querido insinuar a república, coisa considerada abominação pela esmagadora maioria dos tailandeses.

Ali perto, um grupo olha com ansiedade a pantalha da tv que dá conta do primeiro assalto das forças governamentais ao perímetro exterior, a dois ou três quilómetros. Uma mulher diz-me que saia, pois os militares são "uns assassinos". Não me convence. O exército tem sido boníssimo e de uma tolerância quase budista. Onde outros dissseram haver desorganização das forças da ordem, vi cuidado extremo em evitar derramamento de sangue. Onde outros quiseram ver desagregação iminente do Estado e o poder na rua, vi a mão do primeiro-ministro que, após a crise, surgirá, contra Cassandras e sempiternos angariadores de cenários de catástrofe, como a grande revelação política tailandesa.

Começa a amanhecer. Um cheiro nauseabundo a excrementos humanos e lixo acumulado ao longo de dias invade o terreiro da Casa do Governo. Tenho de sair e transponho uma a uma as barricadas.

Há por todo o lado autocarros sequestrados pelos vermelhos, pneus furados e atravessados ao longo das avenidas. Contei mais de trinta, um caso raro de destruição de património público para evitar o inevitável. Os tanques e carros blindados do governo ultrapassarão tal barreira sem esforço.

A última linha. Ao longe em Ding Deng, ouve-se o disparo de armas do exército e o fumo branco do gás lacrimejante. As centenas de homens armados de paus, bastões de ferro e pistolas não poderão deter a arremetida do exército. Ao olhar pela última vez para trás, só lhes desejei sorte, que abandonassem as catanas e as barras de ferro e voltassem para as suas famílias.

Uma carrinha da polícia, abandonada anteontem aos revoltosos, assinala o fim do pequeno reino de Thaksin no coração de Banguecoque. Volto a casa. Daqui assistirei aos últimos episódios desta louca aventura de um homem que quis que milhares de tailandeses se oferecessem em sacrifício aos seus desígnios de mando. Abro a televisão e o hino do Rei toca. Parece que acabou o pesadelo. Thaksin está a horas de acabar. A Tailândia vai agora recobrar a unidade perdida. Só a monarquia é capaz de realizar essa necessidade. Que as reformas sociais necessárias sejam aplicadas para bem de todos e pelo futuro da Tailândia.


Hino real tailandês
Fotos de MCB
PS: Desculpas aos leitores pelo tom desalinhado do texto, escrito de jacto e sem leitura posterior.

12 abril 2009

À aventura

São quatro e meia da manhã. Parto daqui a minutos para a área da Casa do Governo cercada pelos vermelhos. Não posso deixar de ver o que se passa e espero poder tirar fotos para esclarecimento dos leitores. Desejem-me sorte.

Banguecoque entre o recolher obrigatório e a batalha da água / สงกรานต์

Pistoleiro vermelho em pleno ataque à viatura de um Secretário de Estado.

Os gangues vermelhos atacam indiscriminadamente. O condutor de um carro do governo espancado pelos bandos thaksinistas

Fui há pouco entrevistado pela SIC e limitei-me a fazer o quadro da situação, que estimo muito empolada por certa comunicação social global. Os vermelhos pró-Thaksin - o ex-primeiro ministro com mandado de captura por crimes de corrupção no exercício de funções - tentaram hoje um pouco por toda a capital repetir os actos de rebelião e vandalismo que ontem assolaram a estância turística de Pattaya. Os ajuntamentos que conseguiram realizar foram de imediato dispersados pelas forças militares e militarizadas sem recurso ao emprego da violência. Pelas catorze horas locais, o governo deu instruções para que as grandes superfícies comerciais fossem encerrados e decretado o fecho do metropolitano para as 22 horas. Passeando pela baixa de Banguecoque, dir-se-ia que a cidade tinha sido evacuada, tão poucos os peões que encontrei.

Paragon, o maior centro comercial da Tailândia, de portas fechadas ao público (16.30 horas)

Almoço num restaurante sem clientes (17.30 horas)

Estação de Metro de superfície vazia (21 horas)

Carruagem de Metro sem passageiros (21.10 horas)


A Praça Siam, habitualmente dominada por engarrafamentos às 22 horas

Inquieto pelo silêncio que me encheu de presságios, fui a Silom, o coração da diversão de Banguecoque. Uma mole humana a perder de vista, sorridente e despreocupada, entretinha-se em lutas sem sangue. Estamos em pleno ano novo thai - o Songkran - que é festejado pela população com verdadeiras batalhas de água. Não vi um só camisa vermelha mas reparei que muitos dos folgazões vestem as cores do Rei (amarelo e azul). Passando pelo ginásio, a dois quarteirões da estação de metro, entretanto encerrada, encontrei meia dúzia de amigos que se preparavam, eles também, para a batalha da água. A minha amiga Fá, que trabalha num ministério como quadro superior dirigente do Estado, disse-me: "não se preocupe, os vermelhos vão perder o fôlego se não lhes ligarmos".

Silom, a luta da água e da farinha branca

As únicas armas que disparam em Banguecoque

Um temível guerreiro das águas

Festa para todas as idades


Deep night. Rudy Vallee and His Connecticut Yankees (1929)
Fotos: as duas primeiras, retiradas do Daily Life; as restantes de MCB