11 abril 2009

O prodígio de Banguecoque

Não é um cão: é um bezerro de 50 quilos, nova atracção para turistas e locais desde que um canal da tv japonesa com ele deu, deitado como sempre em frente do centro comercial perto de minha casa. Desde então, é uma procissão diária de bípedes implumes que a seus pés se ajoelham para lhe mendigarem uma foto. É o cão-bezerro do MBK. Passa meio dia a comer e outro meio a tirar fotografias. Presumo que os novos guias turísticos de Banguecoque o passem a apresentar como destino incontornável.


Ben Selvin Orch - Have You Forgotten Waikiki 1930

Chegou o momento das Forças Armadas


O poder possui sempre a ultima ratio regum. Quando lhe treme a mão e vacila, perde a legalidade e o Estado ameaça sucumbir ante o poder da rua. Ontem estranhara a ausência das milícias vermelhas na rotunda do Monumento à Vitória. Pensara, ingenuamente, que um pouco de bom senso levara os caciques de Thaksin a retirar das ruas gente tão pouco recomendável. Ontem, um pouco por toda Banguecoque, foram os civis que chamaram a si a responsabilidade de confrontar os piquetes de gangues vermelhos que obstruiam o trânsito. A opinião pública começa a reagir espontaneamente ao terrorismo dos auto-proclamados "democráticos" que lembram o pior do nosso famigerado PREC dos idos de 74 e 75.


Hoje, não contentes por penalizarem a vida a milhões de tailandeses que se preparavam para abandonar a capital com destino às suas terras na província, por ocasião do Songkran - ano novo tailandês - os vermelhos fizeram o inaudito: atacaram a cimeira da Asean que decorria na estância balnear de Pattaya. Uma tremenda humilhação para o governo e o Estado tailandeses, um acto de aberta rebelião e, porque não, um acto de traição ao país. Diz-se à viva voz que Thaksin está no Camboja - onde possuiu bancos e uma estação de televisão - e tem sido o agente por detrás da escalada da tensão militar entre cambojanos e tailandeses na disputada zona de fronteira a que aqui aludismos há dias. Ou seja, o proscrito ex-primeiro ministro ameaça juntar às condenações in absentia outras ainda mais graves de inteligência com países estrangeiros visando trazer a guerra ao seu próprio país.

Cai por terra a ideia de um movimento pacífico e acatador dos valores próprios à ética democrática. A gente que hoje vandalizou, ameaçou e agrediu em Pattaya é, com toda a propriedade e literalidade, ralé contratada entre o lumpen da criminalidade organizada, o submundo de uma Tailândia que nunca tinha tido oportunidade de se mostrar. Dir-se-ia que os vermelhos cometeram a proeza de reunir de uma assentada todos os presidiários do país e dar-lhes uma bandeira política. As pessoas mais moderadas e sensatas com quem falei, as dezenas que são entrevistadas pela tv e o povo chão que pelas ruas anda começam a pedir uma terapia de choque que evite o pior. Creio ter chegado o momento das Forças Armadas assumirem as suas responsabilidades. O dia de hoje permitiu desvelar a verdadeira face desta arremetida vermelha. Mostrou ao país e ao mundo o tipo de gente que se abriga sob o chamado thaksinismo. Espero, pois, que ante qualquer intervenção cirúrgica do Exército, não venham as Cinderelas e as Brancas de Neve costumeiras bradar aos céus pelo golpismo da única instituição capaz de fazer regressar a Tailândia à paz e à ordem.
Sei que há muito tolo no Ocidente que vive agarrado a "romantismos de acção", a messianismos revolucionários e outras expressões de adolescente imaturidade. No fundo, as "revoluções" só acontecem porque não encontram pela frente um regimento disciplinado que reponha a autoridade nas ruas controladas pelos díscolos. Sabe-se hoje que a mitificada Marcha sobre Roma teria sido varrida em minutos se os carabineiros sobre ela tivessem descarregado, que as turbas de Khomeiny não teriam ido tão longe se o Exército imperial tivesse agido a tempo e que a falseada jornada da tomada da Bastilha teria sido tudo - motim, altercação, rebelião - mas nunca o início de uma revolução, se o comandante da fortaleza, em vez de negociar com a ralé, tivesse feito o que lhe pedia a sua formação militar. Avesso a golpes de Estado, lembro aos mais aguerridos civilistas que DeGaulle recorreu a um golpe militar em 1958, e em 1968, perante o caos em que mergulhara a França, voou para a Alemanha e aí deu instruções para um novo golpe militar visando salvar a França do desastre.

10 abril 2009

Combustões na operação policial no Monumento à Vitória


Telefonema às quatro da tarde. O meu vizinho, oficial da polícia, diz-me: "Khun Miguel, vamos limpar os vermelhos que estão deste anteontem a impedir o trânsito no Monumento da Vitória. A operação vai começar dentro de uma hora." Desliga. O Anusawari Chai Samoraphum (อนุสาวรีย์ชัยสมรภูมิ) fica a poucos quilómetros de minha casa, distando a três estações pelo Metro de superfície. Apanho o BTS e lá estou um quarto de hora antes da hora indicada. Desço da plataforma com vista sobre o obelisco que exalta os feitos do exército siamês na sua guerra contra a França em 1940 e dirijo-me aos vermelhos. Não são muitos e tudo indica não serem de Banguecoque, pois não os compreendo na sua fala dialectal do Issan, região do nordeste da Tailândia. Esta gente está a impedir o tráfego desde anteontem e provoca engarrafamentos a perder de vista, criando raiva entre a população. Ontem ouvi uma mulher idosa dizer: "se isto continua assim, é preciso que o exército reponha a ordem".


Quem são estes vermelhos ? Não me parece gente de militância política. Há, entre eles, uns senhores com ar provinciano, chapéu de cowboy e bem vestidos, que dão ordens e em torno dos quais se concentram homens trajando fardas militares. Dizem os Amarelos [monárquicos] que esta gente é paga e trazida para Banguecoque para fazer confusão. Pois, os tais homens com toques de country thai serão os famosos caciques da quadrícula que Thaksin mantém em algumas zonas do país. Pelo tom e modos, são homens duros - eventualmente trabalhadores agrícolas - que destoam da população urbana, mas não me pareceram perigosos como aqueles que anteontem vi e fotografei na mesma área. Pelo contrário, parecem muito interessados nas objectivas dos jornalistas, mandam-me parar para os fotografar e até querem saber quando "vai sair a notícia". A gente do Issan é proverbialmente gabada pela simpatia e pelos gestos quase infantis com que dá largas à sua simplicidade. É uma população de pele escura-avermelhada e são muito parecidos com os khmeres do Camboja. Foram incorporados no Mandala siamês em finais do século XVIII, no período da restauração da independência thai face aos birmaneses. Na década de 1820, os principados laocianos revoltaram-se contra Banguecoque. O Rei Rama III enviou uma expedição punitiva e após os derrotar, transferiu-os de região e deu-lhes terras de cultivo no actual Issan.


Entre a pequena multidão identifico um outro grupo regional muito apegado a Thaksin. É gente de fisionomia diferente, de fala arrastada, carácter fleumático e indumentária própria dos "povos da montanha". É gente do extremo-norte da Tailândia, o outrora La Na, que foi reino tributário de Banguecoque até inícios do século XX e considera-se uma entidade distinta no quadro étnico thai. Thaksin é originário dessa região e possui aí forte votação.


Aos camponeses fardados juntam-se taxistas e mototáxis, grupo profissional muito "vermelho" e responsável pelos últimos incidentes em Banguecoque. À mistura, como quem brinca, miudagem exibe-se em gincana com as suas motorizadas, cerram punhos, gritam "fora o governo" e pouco mais. Parece um fim de festa, pois já terão recebido a intimação para não oferecerem resistência à polícia que entretanto começa a descarregar efectivos de camiões colocados no extremo oposto da grande rotunda.

De repente, uma sirene anuncia o início da operação de limpeza. Os polícias avançam sem cuidados e dão ordens aos manisfestantes para saírem da rua. Uma dúzia de guardas remove cartazes e faixas pró-Takhsin, enquanto outra dúzia inicia a desmontagem das tendas instaladas em plena via pública. Não há resistência e os homens de chapéu à cowboy dão ordens aos seus para evacuarem o local. Um circo de motorizadas montadas por dois ou três homens inicia o cortejo de saída da praça. Não há incidente algum. Em poucos minutos, o gigantesco tráfego volta a tomar de assalto o asfalto do Monumento à Vitória. Depois, chegam as brigadas de limpeza da municipalidade. Acabou a barricada e agora os vermelhos conglomeram-se em torno da sede do governo. Parece que o último fôlego de Thaksin não deu os resultados previstos. A sua gente não parece ter a fibra dos Amarelos que visitei em Dezembro e tudo soa a uma divertida desorganização que só o dinheiro que vai chegando de fora consegue disfarçar. No fim, só e esquecido, ficou um cartaz artesanal com os dizeres raw rak Thaksin ("Nós amamos Thaksin), que ninguém se atreveu remover. Os thais não são gente de ódios mortais. Na televisão, os dignitários do governo e até os mais radicais entre os amarelos continuam a referir-se-lhe como Khun Thaksin. Khun é o equivalente thai ao khan mongol e durante séculos foi exclusivo dos reis e grandes senhores. Hoje, democratizado, todos os thais são khun. Assim, por que razão Thaksin não pode ser, também ele, tratado com o distintivo khun ?


Fotos de MCB

09 abril 2009

O cartão de visita


Todos temos nos bolsos dos fatos pendurados no armário, espalhados por livros fazendo de marcadores de leitura, nas gavetas da escrivaninha, na carteira de documentos ou no porta-moedas esse estranho papelucho rectângular chamado cartão de visita. É adereço tão fundamental como os sapatos, as meias e a gravata, mas nunca pensámos verdadeiramente o que significa. Os asiáticos deles jamais se esquecem e o jogo social não funciona sem que um fulano que se preze os tenha sempre à mão para iniciar uma conversa, por mais anódina que seja.

O cartão de visita diz pouco, quase nada, mas está lá tudo o que interessa, o demarcador de estatuto (a profissão) e o status que o indivíduo pensa deter ou que os outros lhe poderão dar pelas funções que desenvolve. Há cartões de visita absolutamente excêntricos, como aquele que um espanhol um dia me ofereceu com os dizeres "español por la gracia de Dios y franquista hasta la muerte". Nos cartões de visita não estão nem a religião nem as crenças do portador. Está, apenas, o lugar que o proprietário ocupa num qualquer sistema: médico, advogado, professor, general, Papa, vendedor, ministro.

Um tolo australiano ria-se há dias da prática asiática de por tudo e por nada se oferecer um cartão de visita. A ignorância tem por hábito rir-se do que desconhece, pelo que o descendente mais que certo de um cardador de lãs ou lenhador não ver no cartão de visita mais que uma bizarria.
Ora, o simples cartão de visita tem historial longo no Oriente sinizado. No sistema confuciano, alicerçado num ideal de ordem, hierarquia, respeito e clareza nas relações entre subordinados e superiores, cada um sabia ou devia saber o lugar exacto que lhe cabia na ordem social rigidamente estratificada do topo à base. O poder do Filho do Céu descia da Cidade Proibida à mais recôndita aldeia da China rural através da omnipresente burocracia. Teoricamente, o sistema funcionava plenamente, sendo possível a um mero regedor fazer chegar a sua voz ao trono, ou inversamente, colocar em contacto o Imperador com o mais humilde dos seus servidores. No Vietname, que foi e é uma realidade chinesa adaptada ao Sudeste-Asiático, o imperador podia e sentia necessidade de manobrar e estabelecer relações de mando pessoal sobre os seus burocratas, pelo que qualquer burocrata, para além de se submeter a provas de destreza intelectual, era obrigado, pelo menos uma vez na vida, a encontrar-se com o seu Filho do Céu.
Acresce que lhe era exigido que tivesse sempre à mão uma caderneta de bolso em papel vermelho contendo o sumário da sua vida em não mais de trezentas palavras: ascendência e historial de serviço dos seus antepassados à coroa, funções desempenhadas, punições e louvores passados. Ao abeirar-se de um superior, retirava a caderneta do bolso e nada dizia até que lhe fossem colocadas questões pelo superior. Estes "cartões pessoais" não podiam ser escritos segundo a fórmula literária, mas deviam ser claros. Era o bilhete de identidade do servidor do Estado. Aqui está o segredo que o australiano não compreende. Por detrás de cada gesto há centos de anos. Para quem não tem história é difícil compreender estas "chinesices" !


Mostra-nos o Caminho (China)

08 abril 2009

A luta derradeira

Abhisit Vejjajiva
É a última, a desesperada carga banzai dos assalariados de um homem que teve o país nas mãos e depois enveredou pelo associativismo criminoso. Esperavam hoje os vermelhos 300.000. Ora, pelas contas avisadas, não terão passado de 50.000, muito empolados - comme il faut - pelos jornalistas ocidentais aqui estacionados nos hotéis de luxo e sempre prontos, entre a praia, as compras ou os bares, a dizerem mal da Tailândia e picarem o ponto do correctês político europeu, feito de cavalheiros tão ilustres e probos como o cavalieri ou de acontecimentos de somenos como a anarquia em que caíu Atenas há semanas.

A monarquia está de betão e bem armada e ontem pela primeira vez alguém ousou dizer que aquilo que anima Thaksin é o plano para derrubar o regime. É um segredo de Polichinelo, pois até ao espírito mais obtuso esse falso segredo não passa de coisa que todos sabem mas ninguém ousa proferir.

As ruas estão cheias de turistas - acabou o efeito Dezembro - e hoje foi-me difícil arranjar lugar num imenso restaurante, tão preenchido estava com famílias inteiras de europeus. Como aqui disse em Dezembro, a crise política acabou. O que pelas ruas vai é o canto do cisne de um magno plano em fase minguante. Prometo fotos esclarecedoras para os próximos dias. Tirei-as ontem e lá estava o lumpen do lumpen da banditagem armada, de varapaus, matracas, catanas e camuflados, punhos cerrados aos gritos pela liberdade, "contra a ditadura" (qual?) e contra os "privilégios". Ora, se há privilegiado nisto tudo é o mandante que lhes paga e acicata, que vive fora da lei algures num potentado do Golfo e vai pagando, corrompendo e intrigando.

O Primeiro-Ministro, que mantém a actividade corrente e não fugiu para parte incógnita, tem dado mostras de grande sensatez e autodomínio. Ontem, um bando de rufias bloqueou-lhe a passagem da caravana e estiveram segundos de o esfolar vivo. Minutos depois, Abhisit Vejjajiva participava num encontro com a imprensa e ria-se sem vestígio de susto. É destes homens que a Tailândia precisa para resolver de vez o equívoco e clarificar quem está pelo Rei e quem contra a monarquia cobardemente conspira sem se atrever dizê-lo.

Pela noitinha ouvi um pateta americano, correspondente da maior caixa de mentiras global que dá pelo nome de CNN. Lá estava na discursata combinada a verborreia do dinheiro que gosta de brincar ao povo e às revoluções: a alusão à "clique palaciana", ao exército, à burocracia e à monarquia. Claro, terão de passar sobre 300.00 militares e um milhão de funcionários da Coroa, mais três milhões de quadros liberais para, finalmente, aqui instalarem umas novas Filipinas. Terão, sobretudo de passar por cima de um povo compacto que nasceu, foi educado e cresceu ao longo de décadas no culto da lealdade para com a monarquia. Esse dia, estou certo, nunca acontecerá.

Pois, se querem saber da minha sensibilidade digo-o: sou pela monarquia, pela aristocracia, pelo exército, pela Tailândia culta e preparada para dirigir um Estado moderno. Sou, sobretudo, por este povo que amo como ao meu e que atravessa hoje a linha de fogo que separa a dignidade do abastardamento. Se os tais vermelhos plutocráticos vencessem, dentro de dez anos a Tailândia seria apenas mais um entre os países subdesenvolvidos da Ásia que foi primeiro colonizada e depois comunizada.

Há dias em que me apetece escrever ao correr dos sentimentos, sem rodriguinhos e sem fazer estilo.



เพลงเทิดพระเกียรติ

Combustões no Diário de Notícias

Foi com indisfarçável surpresa que recebi dos meus irmãos Nuno e Ângela a notícia de uma referência a Combustões nas páginas do Notícias Sábado. A pedido de um jornalista que teve a gentileza de me abordar, enviara em meados de Fevereiro algumas notas soltas sobre o blogue, mas pensei que se tratasse de trabalho que o signatário estivesse a redigir com finalidade académica. Grato ao DN e satisfeito pela companhia de equites que só lustram esta humilde tribuna (João Gonçalves, Rui Castro e Pedro Vieira) aqui fica curto recorte do artigo de Tiago Salazar

06 abril 2009

Só a literatura não mente: a propósito de Os Quatro Reinados, de Kukrit Pramoj


Tinha-o lido em férias passadas na praia e dele ficara a vaga impressão de uma grande obra literária e pouco mais. Na altura, da Tailândia pouco conhecia, quase nada: umas noções vagas da sua história e cronologia régia, impressões colhidas em passagens apressadas pelas praias das ilhas do Sul e pelo Norte montanhoso, uns museus e templos na capital, conversas de circunstância com thais.

Kukrit Pramoj em grande regalia aristocrática

Há cerca de dois meses, retirei-o da estante e comecei a estudá-lo como um o faço com bibliografia científica. O espanto foi grande nesta mudança de atitude. De leitura recreativa, passei a ler os Quatro Reinados (The Four Reigns = สี่แผ่นดิน) como fonte de recolha de informação sobre a transição do velho Sião para a nova Tailândia. De facto, se bem que a verdadeira literatura não pretenda nem queira ser o espelho da realidade - como gosto do escapismo - nela estão toda a Filosofia, toda a estética, toda a religião, a política, os hábitos e atitudes de um tempo. É uma obra avassaladora, escrita pelo maior escritor tailandês e certamente uma das mais perfeitas novelas históricas que li ao longo da vida. Exigia ser traduzida para a nossa língua, pois sem ela os portugueses muito perdem e só com dificuldade compreenderão esta vasta região do planeta. Qualquer turista culto devia tê-la na mão e na cabeça antes de aportar a estas paragens.


O autor, Kukrit Pramoj (1911-1995), é figura fascinante. Nascido na aristocracia thai, era homem de méritos vários - se fosse europeu chamar-lhe-ia um príncipe renascentista - e percurso carregado de rara grandeza: estudante em Oxford, actor, dançarino clássico, escritor, jornalista, deputado e primeiro-ministro da Tailândia. Fundador do mais prestigiado jornal do país (Siam Rath) e fundador do Partido da Acção Social (พรรคกิจสังคม), deixou extensa obra literária e ensaística, hoje considerada património de grande valor para a sedimentação da literatura tailandesa moderna. Foi, também, um grande coleccionador de arte e amigos, sendo a sua casa em Banguecoque - hoje museu - local de visita para gerações de jovens em busca de conversa séria, aconselhamento e formação cívica. Kukrit a todos recebia nessas maratonas onde não havia temas proibidos, como não os há, de todo na cultura budista. A sua maior obra - Os Quatro Reinados - é sem sombra de dúvida um dos maiores livros do século XX.

Rama V em 1881

Decorre a novela entre 1892 e 1946, cobrindo quatro reinados. A heroína, Mé Phloi, nasce durante o reinado de Rama V e aos dez anos é enviada para educação na Cidade Interior, o gineceu do monarca, apenas povoado por mulheres e pela imensa prole de crianças nascidas do Rei e suas concubinas. No palácio aprende as artes, a etiqueta e o código de conduta da aristocracia thai. Para a jovem Phloi, o Rei era o pilar do mundo e o Senhor da Vida de toda a nação. "Ele era o sol, o centro do universo cercado pelos planetas" (I:564). Depois, segue-se o desfiar da sua vida. Nesta novela, as personagens não guiam a história. São os eventos políticos e a dinâmica social de uma nação em transição que manobram e condicionam as personagens, que agem como actores numa peça em que o escritor faz de demiurgo. Uma vida longa. Sob Rama V, a infância e o casamento de Mé Phloi, o nascimento dos seus três filhos (An ♂, Ot ♂ e Praphan ♀), a carreira ascendente do seu marido. Depois da morte do grande monarca, sucede-lhe Rama VII, rei-poeta cercado de "gente bonita" e o teorizador do nacionalismo thai. Nestes anos (1911-1925), os filhos partem para receber educação no Ocidente, um dos quais regressa com um diploma e uma farang francesa como mulher. No reinado de Rama VII, tempo de crise económica e mudança política seguido da revolução de 1932, com subsequente abdicação do Rei e luta pelo poder entre os líderes revolucionários, Phloi assiste à morte do seu marido, ao divórcio do seu filho mais velho e à cisão da família entre tradicionalistas e revolucionários. Seguem-se anos duros de ditadura para-fascista, de supressão das liberdades, da entrada da Tailândia na Segunda Guerra Mundial ao lado do Japão, dos bombardeamentos aliados à capital. Quando termina a guerra, a esperança volta a bater à porta. Um novo Rei, Rama VIII, parece corporizar a restauração da paz e da liberdade. Contudo, o jovem rei é encontrado morto nos seus aposentos, um mistério que nunca se conseguiu desvendar. Entretanto, a filha de Phloi casa com um ambicioso chinês, um dos seus filhos renuncia ao mundo e entra num templo budista e Mé Phloi prepara-se para morrer.

Rama VIII

Muito atacado pelos esquerdistas, por verem em Mé Phloi a aristocrata servidora da monarquia, Quatro Reinados é muito mais que uma obra de circunstância. Publicada em 1953, é um afresco da história, mas deve ser lido como um guia sem equivalente para o entendimento do espírito thai. Kukrit realizou obra de génio. Cabe a todos os portugueses cultos e sobretudo aos amantes do Oriente conhecê-lo. A partir de hoje só abordo questões relativas à Tailândia após me certificar que o meu interlocutor conhece o Sii Phaen Din, ou os Quatro Reinados.


เพลงเฉลิมพระเกียรติ