06 Abril 2009

Só a literatura não mente: a propósito de Os Quatro Reinados, de Kukrit Pramoj


Tinha-o lido em férias passadas na praia e dele ficara a vaga impressão de uma grande obra literária e pouco mais. Na altura, da Tailândia pouco conhecia, quase nada: umas noções vagas da sua história e cronologia régia, impressões colhidas em passagens apressadas pelas praias das ilhas do Sul e pelo Norte montanhoso, uns museus e templos na capital, conversas de circunstância com thais.

Kukrit Pramoj em grande regalia aristocrática

Há cerca de dois meses, retirei-o da estante e comecei a estudá-lo como um o faço com bibliografia científica. O espanto foi grande nesta mudança de atitude. De leitura recreativa, passei a ler os Quatro Reinados (The Four Reigns = สี่แผ่นดิน) como fonte de recolha de informação sobre a transição do velho Sião para a nova Tailândia. De facto, se bem que a verdadeira literatura não pretenda nem queira ser o espelho da realidade - como gosto do escapismo - nela estão toda a Filosofia, toda a estética, toda a religião, a política, os hábitos e atitudes de um tempo. É uma obra avassaladora, escrita pelo maior escritor tailandês e certamente uma das mais perfeitas novelas históricas que li ao longo da vida. Exigia ser traduzida para a nossa língua, pois sem ela os portugueses muito perdem e só com dificuldade compreenderão esta vasta região do planeta. Qualquer turista culto devia tê-la na mão e na cabeça antes de aportar a estas paragens.


O autor, Kukrit Pramoj (1911-1995), é figura fascinante. Nascido na aristocracia thai, era homem de méritos vários - se fosse europeu chamar-lhe-ia um príncipe renascentista - e percurso carregado de rara grandeza: estudante em Oxford, actor, dançarino clássico, escritor, jornalista, deputado e primeiro-ministro da Tailândia. Fundador do mais prestigiado jornal do país (Siam Rath) e fundador do Partido da Acção Social (พรรคกิจสังคม), deixou extensa obra literária e ensaística, hoje considerada património de grande valor para a sedimentação da literatura tailandesa moderna. Foi, também, um grande coleccionador de arte e amigos, sendo a sua casa em Banguecoque - hoje museu - local de visita para gerações de jovens em busca de conversa séria, aconselhamento e formação cívica. Kukrit a todos recebia nessas maratonas onde não havia temas proibidos, como não os há, de todo na cultura budista. A sua maior obra - Os Quatro Reinados - é sem sombra de dúvida um dos maiores livros do século XX.

Rama V em 1881

Decorre a novela entre 1892 e 1946, cobrindo quatro reinados. A heroína, Mé Phloi, nasce durante o reinado de Rama V e aos dez anos é enviada para educação na Cidade Interior, o gineceu do monarca, apenas povoado por mulheres e pela imensa prole de crianças nascidas do Rei e suas concubinas. No palácio aprende as artes, a etiqueta e o código de conduta da aristocracia thai. Para a jovem Phloi, o Rei era o pilar do mundo e o Senhor da Vida de toda a nação. "Ele era o sol, o centro do universo cercado pelos planetas" (I:564). Depois, segue-se o desfiar da sua vida. Nesta novela, as personagens não guiam a história. São os eventos políticos e a dinâmica social de uma nação em transição que manobram e condicionam as personagens, que agem como actores numa peça em que o escritor faz de demiurgo. Uma vida longa. Sob Rama V, a infância e o casamento de Mé Phloi, o nascimento dos seus três filhos (An ♂, Ot ♂ e Praphan ♀), a carreira ascendente do seu marido. Depois da morte do grande monarca, sucede-lhe Rama VII, rei-poeta cercado de "gente bonita" e o teorizador do nacionalismo thai. Nestes anos (1911-1925), os filhos partem para receber educação no Ocidente, um dos quais regressa com um diploma e uma farang francesa como mulher. No reinado de Rama VII, tempo de crise económica e mudança política seguido da revolução de 1932, com subsequente abdicação do Rei e luta pelo poder entre os líderes revolucionários, Phloi assiste à morte do seu marido, ao divórcio do seu filho mais velho e à cisão da família entre tradicionalistas e revolucionários. Seguem-se anos duros de ditadura para-fascista, de supressão das liberdades, da entrada da Tailândia na Segunda Guerra Mundial ao lado do Japão, dos bombardeamentos aliados à capital. Quando termina a guerra, a esperança volta a bater à porta. Um novo Rei, Rama VIII, parece corporizar a restauração da paz e da liberdade. Contudo, o jovem rei é encontrado morto nos seus aposentos, um mistério que nunca se conseguiu desvendar. Entretanto, a filha de Phloi casa com um ambicioso chinês, um dos seus filhos renuncia ao mundo e entra num templo budista e Mé Phloi prepara-se para morrer.

Rama VIII

Muito atacado pelos esquerdistas, por verem em Mé Phloi a aristocrata servidora da monarquia, Quatro Reinados é muito mais que uma obra de circunstância. Publicada em 1953, é um afresco da história, mas deve ser lido como um guia sem equivalente para o entendimento do espírito thai. Kukrit realizou obra de génio. Cabe a todos os portugueses cultos e sobretudo aos amantes do Oriente conhecê-lo. A partir de hoje só abordo questões relativas à Tailândia após me certificar que o meu interlocutor conhece o Sii Phaen Din, ou os Quatro Reinados.


เพลงเฉลิมพระเกียรติ

04 Abril 2009

Guerra entre a Tailândia e o Camboja ? / กองทัพบกไทย


Questiona-me um leitor sobre o conflito armado que parece iminente entre o Camboja e a Tailândia. Para sossego dos turistas que aqui chegam todos os dias - tenho encontrado portugueses por toda Banguecoque, facto que registo com apreço - não há mais que esporádica troca de tiros entre tropas de ambos os países numa pequena zona disputada. Não há perigo para a Tailândia, bem entendido, se bem que para o Camboja constitua grande ousadia envolver-se numa escalada com Banguecoque. O exército tailandês é uma temível força de choque, possui forças terrestres muito bem apetrechadas, bem comandadas e experimentadas, uma força aérea numerosa e moderna e a mais forte marinha de guerra da região, equipada com modernas fragatas e um porta-aviões. Acresce que a Tailândia possui forças especiais - comandos, para-quedistas e grupos de intervenção especializados em operações de guerrilha - que garantem operar no interior das fronteiras de qualquer Estado limítrofe. Estou certo que, se houvesse guerra, esta duraria meia dúzia de dias, tamanha a desproporção numérica e qualitativa das forças em presença. Os thais não são belicosos, são pacientes e não se deixam provocar com facilidade. O Camboja usa a questiúncula fronteiriça para angariar simpatias, sobretudo do Vietname, mas não ultrapassará o risco, pois sabe que não pode contrariar a mais pequena retaliação do Exército Real Tailandês. Um oficial da Real Força Aérea que aqui reside no prédio, disse-me ontem sem o mínimo assomo de riso: "se houver guerra, tomamos o pequeno almoço na fronteira e jantamos em Phenom Phen".



Marcha patriótica tailandesa

02 Abril 2009

Compreender a genética do poder para salvar a liberdade

"O grande problema da nossa época é que os homens não querem ser úteis, mas importantes" (Winston Churchill)
Abaixo de cão:
A política tailandesa pouco me diz e sobre ela assumo uma atitude, senão indiferente, distante. Ocasiões há, porém, em que a tento compreender, evitando dela aproximar-me de forma acalorada mas compreender-lhe as manifestações.

Desde há dias que se verifica pequena agitação em Banguecoque em torno do Palácio do Governo. Uma manifestação de estipendiados do ex-primeiro ministro insiste em copiar - em versão desengonçada, já sem novidade e sem graça - a vaga amarela que em Dezembro obrigou à saída de um governo absolutamente incapaz de se fazer respeitar. É evidente que a agitação vermelha não alterará o estado das coisas e poderá, até, levar os tailandeses a retirar aos partidários de Thaksin a influência de que ainda gozam em algumas regiões do país. Esta gente não é, bem entendido, aquela falange de amantes da ordem e do civismo que alguns jornalistas aqui estacionados pretendem fazer crer aos incautos leitores de Londres, Washington e Berlim, mas gente perigosa que tem atacado indiscriminadamente, por todo o norte e nordeste da Tailândia, caravanas do governo, partidários amarelos e até ajuntamentos de natureza social e cultural que consideram indesejáveis.

Passei hoje em frente da sede do governo e verifiquei aquilo que aqui dissera quando estive há meses numa manifestação vermelha no Estádio Nacional. A maioria não sabe o que por lá está a fazer, foi trazida das aldeias, alimentada e vestida. Dá dó ver tanto idoso arregimentado pela cacicagem, repetindo com olhar vazio palavras de ordem sem sentido. Depois, ao chegar a casa, assisti pela televisão ao debate requerido pelos deputados vermelhos. O vice primeiro ministro, Suthep, calmo, didáctico e correcto, lá tentou explicar a posição do governo e asseverar que não lançará a policia de choque contra os manifestantes, ao contrário do que aconteceu no "Outubro sangrento", quando muitos amarelos [monárquicos] morreram e outras centenas foram feridos em brutais cargas das forças da ordem. Os deputados vermelhos - apercebi-me agora, pois já compreendo suficientemente a língua para me inteirar do que dizem - são de pobreza argumentativa digna de piedade, deles não se esperando grandes voos de erudição nas artes parlamentares. Como acontece em todas as formas decaídas de democracia, o abaixamento da qualidade dos representantes concorre para matar a reputação da democracia, oferecendo em bandeja aos seus críticos argumento para a desprezar e derrocar. O direito ao voto universal e à participação dos cidadãos é inquestionável conquista das sociedades contemporâneas. Contudo, quando a democracia se transforma em mero artifício, há que saber encontrar a forma correcta de a conjugar com o tipo de sociedade em que se instala. Percebo melhor agora aqueles que pedem o reforço da autoridade real e a existência de um parlamento que faça representar deputados eleitos por sufrágio universal e quadros especializados, aqueles que com conhecimento são os garantes do bom funcionamento do Estado e da nação.


Nada disto é novo:
Compreendo que a ignorância de jornalistas estrangeiros que jamais leram sobre a história política e institucional deste país os leve a procurar paralelismo no Ocidente. Contudo, este país sempre foi terra de liberdade, desde o remoto reinado de Ramkamhaeng. O grande monarca, para impedir os abusos de poder dos senhores feudais, decretou o acesso de todos os homens livres à pessoa do Rei ou o direito de ao soberano enviarem petições. Para o efeito, mandou instalar um gongo em frente do palácio, destinado a ecoar o pedido de qualquer súbdito. Além disso, qualquer homem ou mulher tinha o direito de parar a procissão real e gritar "isto vai agradar a Sua Majestade", posto que o Rei a recebia em mãos. Durante a presente era de Banguecoque. o gongo foi substituído por um tambor e tal direito de petição resistiu até 1932, quando o país substituíu a monarquia paternal pelo constitucionalismo. Como lembra Kukrit Pramoj(1), o mais brilhente homem de cultura tailandês do século XX, deste direito, se bem que não mais exista, ficou um profundo vínculo de afinidade entre o Rei e o povo. A velha relação entre a monarquia e o povo impediu a feudalização. A história do Sião clássico é o de uma Magna Carta ao contrário: o poder sempre foi do Rei e o povo com ele sempre esteve na luta contra o feudalismo.


Poder militar e poder civil:
Séculos volvidos, para garantir controlo sobre a sociedade, o rei Trailok dividiu a governação em duas áreas distintas: a militar e a civil. A divisão militar estava submetida à autoridade de um "primeiro-ministro militar" (Samuha Phra Kalahom) indicado pelo Rei, enquanto os assuntos civis trinham como responsável um "primeiro-ministro civil" (Samuka Nayok). Ainda hoje, o Estado faz-se representar nos grandes acontecimentos pelos membros da família real. Os ministros e os militares são apenas tidos como funcionários (instrumentos) da boa governação. Entre 1932 e 1959, os civis e militares apossaram-se da velha tradição da autoridade real e o resultado foi desastroso. Aliás, os civis, divididos e associados em facções, nunca se entenderam e proporcionaram sempre aos militares argumentos de peso para a intervenção das espadas. A Tailândia, ou será uma monarquia ou não será [Tailândia].



Poder espiritual:
No budismo não existe propriamente uma teoria do poder e das formas de governo, mas uma teoria sobre a origem histórica do poder, bem como a fórmula para o exercício do poder justo e benigno: aquele que impede a violência, aquele que congraça e partilha, aquele que protege, pune sem excesso e premeia o mérito. Tão importante como o poder profano - que deve ser entendido como a aplicação e decantação à vida comum dos ensinamentos do Iluminado - é o poder de intermediação que o Rei detém entre o mundo profano e o mundo sobrenatural, executado com apoio do Sangha, que justifica a existência da sociedade. Daí que a democracia, como nós ocidentais a entendemos - luta sem derramento de sangue entre visões distintas do homem, da sociedade e do Estado - não caiba nos parâmetros de uma mundivisão budista, que não sendo totalitária, é marcada por claro propósito de unicidade. Se a vida pública é perturbada e se os agentes políticos não conseguem encontrar o entendimento requerido por esta concepção de unidade, justifica-se o fim da perturbação. Só vendo o problema político tailandês nesta perspectiva - e não como crónica fulanizada - poderemos entender o que está em causa. Não é, pois, uma luta entre o Bem e o Mal, como alguns teimam, mas uma crescente tensão entre a anomia, o relativismo e a atomização característicos do mundo ocidental, por um lado, e a visão budista de uma sociedade fundada em valores.

(1) MANIVAT, Vilas; VAN BEECK, Steve. Kukrit Pramoj: his wit and wisdom: writtings, speeches and interviews. Bangkok: Editions Duang Kamol, 1983


เพลงเทิดพระเกียรติ

01 Abril 2009

Bernardo, o nosso anjo da guarda


O Nuno publica hoje, com a fantástica memória que tem - eu que não tenho cabeça para me lembrar de coisas tão importantes como o meu número de telefone - a nossa casa em Lourenço Marques. Na foto, destacando-se como uma torre entre a miudagem, o nosso Bernardo, uma alma pacífica, generosa e preocupada que era para nós como um anjo da guarda. As décadas passaram e não sei o que dele foi feito após a tragédia. Como gostaria de o rever e de lhe dizer OBRIGADO !

E porque hoje é o primeiro de Abril


Oferta de um amigo, abri-o e não o largo desde o passado domingo. É daqueles livros que provocam dependência e ansiedade desde as primeiras páginas, como quem revela terríveis segredos e convoca os mais sombrios pressentimentos. Trata-se da biografia de Tzu Hsi, a última imperatriz chinesa Qing, cuja vida pública transcorreu nas décadas de chumbo das agressões ocidentais, do lento apagar do Império do Meio e do nascimento da China contemporânea. Tzu Hsi foi cabeça de turco para uma certa imprensa ocidental ávida de sensações fortes, o seu nome e reputação justificaram todos os vexames à integridade territorial chinesa, a sua privacidade transformada em crónica pornográfica. Afinal, tudo o que desta mulher inteligente se disse não passava de um infindável rol de soezes mentiras e imposturas, a começar pelo sempre gabado baronete Edmund Backhouse. O impostor havia sido há muito impugnado pelo insuspeito Trevor-Roper, mas o recente acesso a abundantes fontes documentais oficiais e a leitura atenta das memórias daqueles que com Tzu Hsi conviveram exibem uma mulher tenaz, preocupada com o destino da China, hábil e sofrida. Vítima de atávicos preconceitos anti-femininos, das lutas intestinas entre os príncipes manchús e da crescente tensão entre conservadores imobilistas e reformadores, Tzu Hsi procurou restaurar a dignidade imperial e evitar o colapso. Os ocidentais, contudo, que queriam a China como Eldorado para fantásticas jogatanas e lucros, não a pouparam. Ao terminar o soberbo primeiro capítulo - Flowers in the back garden - dei comigo a estabelecer sinistro paralelo com o que se passa na Tailândia, onde se desenvolve, criminosa e cobarde, campanha contra a instituição real pela mão dos produtores de notícias globais. E porque a fúria das negociatas e do tilintante dinheiro raramente é sábia, a China cabou por ser comunista e não colónia da plutocracia. A Tzu Hsi voltaremos em breve.


PLA