04 abril 2009

Guerra entre a Tailândia e o Camboja ? / กองทัพบกไทย


Questiona-me um leitor sobre o conflito armado que parece iminente entre o Camboja e a Tailândia. Para sossego dos turistas que aqui chegam todos os dias - tenho encontrado portugueses por toda Banguecoque, facto que registo com apreço - não há mais que esporádica troca de tiros entre tropas de ambos os países numa pequena zona disputada. Não há perigo para a Tailândia, bem entendido, se bem que para o Camboja constitua grande ousadia envolver-se numa escalada com Banguecoque. O exército tailandês é uma temível força de choque, possui forças terrestres muito bem apetrechadas, bem comandadas e experimentadas, uma força aérea numerosa e moderna e a mais forte marinha de guerra da região, equipada com modernas fragatas e um porta-aviões. Acresce que a Tailândia possui forças especiais - comandos, para-quedistas e grupos de intervenção especializados em operações de guerrilha - que garantem operar no interior das fronteiras de qualquer Estado limítrofe. Estou certo que, se houvesse guerra, esta duraria meia dúzia de dias, tamanha a desproporção numérica e qualitativa das forças em presença. Os thais não são belicosos, são pacientes e não se deixam provocar com facilidade. O Camboja usa a questiúncula fronteiriça para angariar simpatias, sobretudo do Vietname, mas não ultrapassará o risco, pois sabe que não pode contrariar a mais pequena retaliação do Exército Real Tailandês. Um oficial da Real Força Aérea que aqui reside no prédio, disse-me ontem sem o mínimo assomo de riso: "se houver guerra, tomamos o pequeno almoço na fronteira e jantamos em Phenom Phen".



Marcha patriótica tailandesa

02 abril 2009

Compreender a genética do poder para salvar a liberdade

"O grande problema da nossa época é que os homens não querem ser úteis, mas importantes" (Winston Churchill)
Abaixo de cão:
A política tailandesa pouco me diz e sobre ela assumo uma atitude, senão indiferente, distante. Ocasiões há, porém, em que a tento compreender, evitando dela aproximar-me de forma acalorada mas compreender-lhe as manifestações.

Desde há dias que se verifica pequena agitação em Banguecoque em torno do Palácio do Governo. Uma manifestação de estipendiados do ex-primeiro ministro insiste em copiar - em versão desengonçada, já sem novidade e sem graça - a vaga amarela que em Dezembro obrigou à saída de um governo absolutamente incapaz de se fazer respeitar. É evidente que a agitação vermelha não alterará o estado das coisas e poderá, até, levar os tailandeses a retirar aos partidários de Thaksin a influência de que ainda gozam em algumas regiões do país. Esta gente não é, bem entendido, aquela falange de amantes da ordem e do civismo que alguns jornalistas aqui estacionados pretendem fazer crer aos incautos leitores de Londres, Washington e Berlim, mas gente perigosa que tem atacado indiscriminadamente, por todo o norte e nordeste da Tailândia, caravanas do governo, partidários amarelos e até ajuntamentos de natureza social e cultural que consideram indesejáveis.

Passei hoje em frente da sede do governo e verifiquei aquilo que aqui dissera quando estive há meses numa manifestação vermelha no Estádio Nacional. A maioria não sabe o que por lá está a fazer, foi trazida das aldeias, alimentada e vestida. Dá dó ver tanto idoso arregimentado pela cacicagem, repetindo com olhar vazio palavras de ordem sem sentido. Depois, ao chegar a casa, assisti pela televisão ao debate requerido pelos deputados vermelhos. O vice primeiro ministro, Suthep, calmo, didáctico e correcto, lá tentou explicar a posição do governo e asseverar que não lançará a policia de choque contra os manifestantes, ao contrário do que aconteceu no "Outubro sangrento", quando muitos amarelos [monárquicos] morreram e outras centenas foram feridos em brutais cargas das forças da ordem. Os deputados vermelhos - apercebi-me agora, pois já compreendo suficientemente a língua para me inteirar do que dizem - são de pobreza argumentativa digna de piedade, deles não se esperando grandes voos de erudição nas artes parlamentares. Como acontece em todas as formas decaídas de democracia, o abaixamento da qualidade dos representantes concorre para matar a reputação da democracia, oferecendo em bandeja aos seus críticos argumento para a desprezar e derrocar. O direito ao voto universal e à participação dos cidadãos é inquestionável conquista das sociedades contemporâneas. Contudo, quando a democracia se transforma em mero artifício, há que saber encontrar a forma correcta de a conjugar com o tipo de sociedade em que se instala. Percebo melhor agora aqueles que pedem o reforço da autoridade real e a existência de um parlamento que faça representar deputados eleitos por sufrágio universal e quadros especializados, aqueles que com conhecimento são os garantes do bom funcionamento do Estado e da nação.


Nada disto é novo:
Compreendo que a ignorância de jornalistas estrangeiros que jamais leram sobre a história política e institucional deste país os leve a procurar paralelismo no Ocidente. Contudo, este país sempre foi terra de liberdade, desde o remoto reinado de Ramkamhaeng. O grande monarca, para impedir os abusos de poder dos senhores feudais, decretou o acesso de todos os homens livres à pessoa do Rei ou o direito de ao soberano enviarem petições. Para o efeito, mandou instalar um gongo em frente do palácio, destinado a ecoar o pedido de qualquer súbdito. Além disso, qualquer homem ou mulher tinha o direito de parar a procissão real e gritar "isto vai agradar a Sua Majestade", posto que o Rei a recebia em mãos. Durante a presente era de Banguecoque. o gongo foi substituído por um tambor e tal direito de petição resistiu até 1932, quando o país substituíu a monarquia paternal pelo constitucionalismo. Como lembra Kukrit Pramoj(1), o mais brilhente homem de cultura tailandês do século XX, deste direito, se bem que não mais exista, ficou um profundo vínculo de afinidade entre o Rei e o povo. A velha relação entre a monarquia e o povo impediu a feudalização. A história do Sião clássico é o de uma Magna Carta ao contrário: o poder sempre foi do Rei e o povo com ele sempre esteve na luta contra o feudalismo.


Poder militar e poder civil:
Séculos volvidos, para garantir controlo sobre a sociedade, o rei Trailok dividiu a governação em duas áreas distintas: a militar e a civil. A divisão militar estava submetida à autoridade de um "primeiro-ministro militar" (Samuha Phra Kalahom) indicado pelo Rei, enquanto os assuntos civis trinham como responsável um "primeiro-ministro civil" (Samuka Nayok). Ainda hoje, o Estado faz-se representar nos grandes acontecimentos pelos membros da família real. Os ministros e os militares são apenas tidos como funcionários (instrumentos) da boa governação. Entre 1932 e 1959, os civis e militares apossaram-se da velha tradição da autoridade real e o resultado foi desastroso. Aliás, os civis, divididos e associados em facções, nunca se entenderam e proporcionaram sempre aos militares argumentos de peso para a intervenção das espadas. A Tailândia, ou será uma monarquia ou não será [Tailândia].



Poder espiritual:
No budismo não existe propriamente uma teoria do poder e das formas de governo, mas uma teoria sobre a origem histórica do poder, bem como a fórmula para o exercício do poder justo e benigno: aquele que impede a violência, aquele que congraça e partilha, aquele que protege, pune sem excesso e premeia o mérito. Tão importante como o poder profano - que deve ser entendido como a aplicação e decantação à vida comum dos ensinamentos do Iluminado - é o poder de intermediação que o Rei detém entre o mundo profano e o mundo sobrenatural, executado com apoio do Sangha, que justifica a existência da sociedade. Daí que a democracia, como nós ocidentais a entendemos - luta sem derramento de sangue entre visões distintas do homem, da sociedade e do Estado - não caiba nos parâmetros de uma mundivisão budista, que não sendo totalitária, é marcada por claro propósito de unicidade. Se a vida pública é perturbada e se os agentes políticos não conseguem encontrar o entendimento requerido por esta concepção de unidade, justifica-se o fim da perturbação. Só vendo o problema político tailandês nesta perspectiva - e não como crónica fulanizada - poderemos entender o que está em causa. Não é, pois, uma luta entre o Bem e o Mal, como alguns teimam, mas uma crescente tensão entre a anomia, o relativismo e a atomização característicos do mundo ocidental, por um lado, e a visão budista de uma sociedade fundada em valores.

(1) MANIVAT, Vilas; VAN BEECK, Steve. Kukrit Pramoj: his wit and wisdom: writtings, speeches and interviews. Bangkok: Editions Duang Kamol, 1983


เพลงเทิดพระเกียรติ

01 abril 2009

Bernardo, o nosso anjo da guarda


O Nuno publica hoje, com a fantástica memória que tem - eu que não tenho cabeça para me lembrar de coisas tão importantes como o meu número de telefone - a nossa casa em Lourenço Marques. Na foto, destacando-se como uma torre entre a miudagem, o nosso Bernardo, uma alma pacífica, generosa e preocupada que era para nós como um anjo da guarda. As décadas passaram e não sei o que dele foi feito após a tragédia. Como gostaria de o rever e de lhe dizer OBRIGADO !

E porque hoje é o primeiro de Abril


Oferta de um amigo, abri-o e não o largo desde o passado domingo. É daqueles livros que provocam dependência e ansiedade desde as primeiras páginas, como quem revela terríveis segredos e convoca os mais sombrios pressentimentos. Trata-se da biografia de Tzu Hsi, a última imperatriz chinesa Qing, cuja vida pública transcorreu nas décadas de chumbo das agressões ocidentais, do lento apagar do Império do Meio e do nascimento da China contemporânea. Tzu Hsi foi cabeça de turco para uma certa imprensa ocidental ávida de sensações fortes, o seu nome e reputação justificaram todos os vexames à integridade territorial chinesa, a sua privacidade transformada em crónica pornográfica. Afinal, tudo o que desta mulher inteligente se disse não passava de um infindável rol de soezes mentiras e imposturas, a começar pelo sempre gabado baronete Edmund Backhouse. O impostor havia sido há muito impugnado pelo insuspeito Trevor-Roper, mas o recente acesso a abundantes fontes documentais oficiais e a leitura atenta das memórias daqueles que com Tzu Hsi conviveram exibem uma mulher tenaz, preocupada com o destino da China, hábil e sofrida. Vítima de atávicos preconceitos anti-femininos, das lutas intestinas entre os príncipes manchús e da crescente tensão entre conservadores imobilistas e reformadores, Tzu Hsi procurou restaurar a dignidade imperial e evitar o colapso. Os ocidentais, contudo, que queriam a China como Eldorado para fantásticas jogatanas e lucros, não a pouparam. Ao terminar o soberbo primeiro capítulo - Flowers in the back garden - dei comigo a estabelecer sinistro paralelo com o que se passa na Tailândia, onde se desenvolve, criminosa e cobarde, campanha contra a instituição real pela mão dos produtores de notícias globais. E porque a fúria das negociatas e do tilintante dinheiro raramente é sábia, a China cabou por ser comunista e não colónia da plutocracia. A Tzu Hsi voltaremos em breve.


PLA

31 março 2009

Inveja e política


"A inveja é muito mais dolorosa que a fome, pois trata-se de uma fome espiritual". Não posso precisar se o aforismo é de Unamuno ou de Ortega y Gassett. Li-o algures há muitos anos e ficou-me gravado na memória, pelo que o transcrevo livremente. O mundo moderno é o império da inveja. As solenes, grandiosas e generosas proclamações, as juras de amor à humanidade, à igualdade e à justiça, a altissonante trilogia de 1789, as cartas magnas do esperanto do ilusionismo escondem - aprendi-o com a vida - o mais pequeno, mesquinho, desprezível e invisível veneno corrosivo de que se nutrem os homens. A inveja é diferente de outras emoções dolorosas. Ao contrário do ciúme, que é defeito de uma qualidade, a inveja é um sofrimento absolutamente gratuito e negativo. A inveja vive como um tumor psicológico que se compraz com o sofrimento alheio. Como não se quer reconhecer como tal, rodeia-se de escusas e fortalece-se com desculpas, tentando projectar nos outros - numa família, numa classe social, numa nação - aquilo que é atributo de um homem. Acreditei durante anos na benignidade do maior invejoso da tradição intelectual europeia (Rousseau), como muitos entre nós acreditaram na generosidade de um outro grande torturado (Marx). Não resta margem para dúvidas que um e outro tiveram um tremendo impacto sobre o pensamento ocidental ao longo dos últimos duzentos anos e que a polaridade positiva que se lhes opõem (Nietzsche) depressa caiu sob a furiosa gadanha dos horizontalizadores. Acabou o tempo dos heróis, dos grandes destinos e dos homens de missão, pois as pessoas não aceitam, não querem nem entendem que a diversidade e a riqueza da espécie dá a uns vantagem sobre os outros, que a inteligência, a lealdade, a criatividade e o esforço estão mal ditribuídos. O motto é "sejam iguais uns aos outros". Daí que não se permita a diferença que eleva e dá o exemplo. Hoje conversei com um fulano que teve a sinceridade de me confessar o cerne de todo o ódio que nutre pela monarquia neste país. Parecia culto e discorria com facilidade, sempre encavalitado em racionalidade e coerência, até que deixou cair, certeiro e implacável, o punhal sobre as suas anteriores afirmações: "eu só seria monárquico se tivesse nascido rei".
A inveja é um grave padecimento individual, mas quando se transforma em visão do mundo gera loucura colectiva (nazismo), empobrecimento colectivo (comunismo) ou, simples, comezinha e medíocre, a tirania dos homens pequenos que alguns teimam em confundir com a democracia e com a lei da maioria. Viram o retrato de família dos G-20 ? Ali está a inveja entronizada.

30 março 2009

Loucas correrias em Tuk Tuk


Não há turista farang que não se sinta tentado a uma corrida infrene pelas engarrafadas, poluídas e ruidosas avenidas de Banguecoque a bordo de um Tuk Tuk. Estes táeksi (táxis), barulhentas lambretas triciclo carregando às costas um banco para três passageiros, encimado por um dossel* de lona, são os descendentes dos velhos rickshaw chineses de tracção humana e dos cyclopousse que os franceses espalharam na sua Indochina. O Tuk Tuk está presente em todas as grandes cidades do sudeste-asiático, Índia e Sri Lanka e dá emprego a uma multidão de ousados e agressivos caçadores de clientes que seguem os peões, apitando, batendo palmas, emitindo silvos com a língua com eles estabelecendo o preço da corrida. Depois de acertada a tarifa - e porque tempo é dinheiro - exibem-se em loucas fintas, ultrapassagens, arranques e travagens bruscas. Confesso que me sinto voltar ao tempo dos meus sete ou oito anos em que a Montanha Russa e o "Pastel" rotativo do parque de diversões de Lourenço Marques me deixavam de pernas bambas e estômago enrolado. Uma correria de Tuk Tuk é um desafio e um excelente segregador de adrenalina. A sensação chega a ser tão forte que até o Bond, James Bond, a uma destas loucas máquinetas recorreu numa das suas fitas.


Dickie McBride & The Village Boys:Tulsa Twist (193-)

* A Sandra Figueiredo, sempre atenta, corrige certeiramente que dossel não se pode grafar "docel". Contudo, pontapeando a etimologia, dossel surge indistintamente "docel" e "dossel" em autores cuja probidade literária merece respeito. Os brasileiros escrevem "docel" - vide Constallat - e até o nosso Junqueiro cai no erro nos seus Contos para a Infância.

29 março 2009

A repetição de uma tragédia


Primeiro saiu de cena Robert McNamara. Foi em Fevereiro de 1968. A campanha de bombardeamentos indiscriminados do Vietname do Norte e do Laos não resultava, assim como não resultara o célebre Agente Laranja, a política dos aldeamentos e o controlo diurno dos arrozais seguido do recolher às bases ao entardecer. Os norte-americanos, tolhidos por um inimigo que não desarmava, faziam uma guerra de doze meses. Quando terminava a comissão, as tropas experimentadas no terreno eram rendidas e entravam mancebos absolutamente impreparados. A Ofensiva do Tet deixou a descoberto a fragilidade desse exército de cidade, ar condicionado e logística a perder de vista. Depois, chegou a vez de Westmoreland, que anunciou em Saigão o "novo plano para vencer a guerra". Corria o mês de Março de 1968. A nova estratégia para a guerra limitava-se a repetir ad nauseam a superioridade tecnológica e a colossal desproporção de forças, apostando no atrito como forma de obrigar o inimigo a desistir. Menosprezava-se o inimigo de pé rapado e teimavam em chamar-se-lhe "não convencional". A América carregava ainda o fardo da ilusão da repetição de retumbates vitórias ditadas pelo iniquilamento do adversário. Lançar carpetes de bombas, como acontecera na Alemanha, não funcionava, pois o inimigo não tinha nem fábricas nem cidades, aeroportos e portos. Daí que bombardear florestas não passava de conforto psicológico que em nada alterava o prosseguir do conflito. Como não se podia desautorizar o mais moderno exército do mundo, iniciou-se a campanha de descredibilização dos aliados. A culpa do eternizar da guerra era do governo do Vietname do Sul, estimado corrupto, bem como dos vizinhos cambojanos e laocianos, que permitiam o acesso ao seus territórios dos guerrilheiros comunistas. Em 1972 já ninguém acreditava naquela guerra. Os EUA aceitaram sentar-se à mesa com os comunistas, anunciaram o início da retirada, reconciliaram-se com os chineses e abandonaram à triste sorte os aliados.


O mesmo se está a passar no Afeganistão. Os Talibãns não desarmam, os bombardeamentos não intimidam, o governo de Cabul é alvo predilecto da campanha dos media americanos, o Paquistão é apontado como responsável pela crescente ousadia dos guerrilheiros e Obama anuncia a "nova estratégia". Sabemos qual será o desfecho. Karzai vai ser abandonado e imolado, o Paquistão vai cair e a guerra vai ser resolvida por negociações. Com esta derrota mais que esperada, que acontecerá dentro de dois ou três anos, os EUA abandonam a Ásia Central. Depois, talvez a Índia, nova coqueluche "pró-ocidental", a tão gabada "maior democracia do mundo" vai tentar conter mais um tremendo disparate que os americanos semearam e não souberam resolver. E dizem que a história não se repete !


Diana Ross & The Supremes: Stop in name of Love