21 março 2009

Revolução na blogosfera

O Estado Sentido inaugurou hoje com chave de ouro a cobertura em directo de eventos públicos, debitando reportagens hora a hora sobre um congresso político a decorrer em Lisboa. É uma página que se vira, um novo capítulo que se abre. O Nuno, o João e o Samuel estão de parabéns.

20 março 2009

Com Miss Pearls [in mente] na Tailândia



Um bom amigo de ginásio que não sabia ligado a estas andanças da moda telefonou-me ontem para me convidar para presenciar a inauguração da Fashion Week 2009. Não sendo uma pessoa dos trapos e ligando muito pouco às modas - que desde há um século, com excepção de Cocco Chanel e talvez Mary Quant se limita à lei do "desce o decote, corta na saia" - lá fui pelo amigo Anan, que logo descobri ser senhor importante, cercado por dúzias de fotógrafos e centos de amigos, mas que não deixou de me dar mostras da maior simpatia. Fi-lo também, confesso, pela amiga Miss Pearls, que aí por Lisboa parece não perder um desfile. Um corte com as coisas que estimamos "sérias", ver pessoas bonitas e estar com os amigos. Deste fim de tarde bem passado, aqui ficam algumas imagens. No próximo ano volta o "corta na saia e desce o decote".


Em todas as tailandesas há uma vocação para modelo, cantora ou actriz. É fascinante e elas não o escondem. Da empregadinha de balcão à princesa real, a tentação da passadeira, dos flashes e dos aplausos é mais forte que a cara com que cada uma nasceu. Pintam-se a esmeros de festa para ir para o escritório, penteiam-se vinte vezes por dia, vestem a condizer, andam como sobre ramas de algodão e não perdem de vista o mágico espelho que retiram da malinha cada dez minutos para confirmar dúvidas e sobressaltos. Depois, são excelentes e mansas na arte de se deixarem fotografar. Param, sorriem e assim ficam até que lhes façamos quantas fotos quisermos. Este povo é adorável.

O bom do Anan com uma senhora que para ele olha como se estivesse perante o Taj Mahal

NB: Esta concessão foi feita, unicamente, pela Isabel. Os direitos de autor revertem na íntegra para Miss Pearls.



Ann Pennington: Believe Me (1929)

20 hábitos vários tailandeses que subscrevo


1. Os estudantes, do primário à universidade, devem envergar o uniforme da sua escola, com indicação do nome e do ano que frequentam.
2. Os estudantes, do primário à universidade, são obrigados [e avaliados] a frequentar semanalmente seis horas de aulas de educação cívica e conhecer as instituições, os símbolos e história do país.
3. As crianças da primária são obrigadas diariamente a lavar os dentes, limpar as unhas e lavar-se sob supervisão dos respectivos professores.
4. Os funcionários do Estado em exercício devem trajar com uniforme com indicação do cargo e funções que ocupam.
5. Proibida a exibição pública de escritos e imagens considerados obscenos e infamantes do hino, bandeira e Chefes do Estado, nacional como estrangeiros, actuais como pretéritos.
6. Antes de sessões públicas de índole recretativa, cultural e desportiva, a assistência deve colocar-se em posição respeitosa, levantando-se para ouvir e entoar o hino nacional.
7. Às oito da manhã e seis da tarde, em todas as estações de Metro e Caminhos de Ferro, o hino nacional assinala o início e fim do dia de trabalho.
8. Proibido o acesso a museus, palácios e templos a pessoas em trajo de praia (calções, chinelas e camisolas de alças).
9. Proibido discutir política no local de trabalho.
10. Nunca falar de religião, discutir clubismos políticos e fazer afirmações de índole violenta.
11. Referir-se sempre ao Rei como Nay Luang (O Senhor dos nossos corações) ou como Senhor da vida.
12. Proibida a venda de bebidas alcoólicas a estudantes uniformizados.
13. Vedado o acesso a casas particulares a pessoas que não descalcem os sapatos que trouxeram da rua.
14. Quando se visitam amigos, oferece-lhes um ramo de flores.
15. Não levantar a voz, não esbracejar e não apontar o dedo à cara dos interlocutores.
16. Jamais colocar os pés em cima das mesas.
17. Tratar o interlocutor pelo nome e nunca pelo título. Jamais tratar alguém por tu.
18. Nunca abordar temas relacionados com a saúde e padecimentos físicos.
19. Tratar o pai por Senhor Pai e a mãe por Senhora Mãe.
20. Nunca interromper o discurso de um interlocutor, sobretudo se for idoso.
Contudo, a Tailândia é um país de gente libérrima. A educação, o respeito e autoridade nunca foram inimigos da liberdade, mas da balbúrdia.

19 março 2009

Katya e o Príncipe do Sião: a tentação do Ocidente

Katya, Chakrabongse e o filho do Rei

O príncipe Chula Chakrabongse

Uma história de amor que fazia uma boa fita. Chakrabongse Bhuvanath (1883-1920), Príncipe de Bisnulok, dezassete anos de idade, educado em Cambridge e filho predilecto do Rei do Sião, segue para a Rússia onde vai cursar a Academia Imperial de S. Petersburgo. Aí conhece a jovem plebeia russa Ekaterina Desnitskaya (1888-1960), enfermeira de profissão, por quem se apaixona e por quem se dispõe a tudo abandonar. O par sai da Rússia e vai casar-se secretamente em Istambul segundo o rito ortodoxo. Quando se dá pela ausência do hóspede de luxo de Nicolau II, escândalo na corte imperial russa, comoção em Banguecoque. Amansadas as iras paternas, regressa ao Sião com os galões de coronel dos Hussardos e uma farang como mulher. Este amor quase impossível - o rei nunca a quis ver, mas tinha grande amor pelo neto mestiço, o príncipe Chula Chakrabongse - ditou o afastamento do príncipe da corrida ao trono. O fruto do escândalo, uma criança europeia, foi enviado para longe do Sião. Na Grã-Bretanha cresceu e viveu como inglês, mas deixou importante obra historiográfica. Ainda hoje, para se conhecer a história da dinastia Chakry, que reina desde 1782, é requerida a leitura do The Lord of Life, assinado por esse filho indesejado.

Ilusões capitalistas

O bazar


É de manifesta evidência a impreparação da generalidade dos nossos empresários para arrostar com serenidade os desafios. A ausência de uma cultura de risco calculado, a crença nas árvores pataqueiras e nos manás chovendo graças celestiais na 25ª hora, o chupismo do subsidiarismo, o eterno recuso ao Estado que já foi Casa da Guiné e da Mina, Casa da Índia e até o Entreposto-holding que até dava emprego a muito imbecil que saía da metrópole e chegava às áfricas com adamanes de reinete. Em Portugal só houve economia de transporte, a indústria e os ofícios sempre foram olhados como estranhos à natureza dos portugueses, o Estado viveu sempre paredes-meias com as famílias que fizeram a banca, os seguros e a bolsa, a agricultura nunca passou de actividade de subsistência.


É estranho, pois, que os nossos capitalistas, agora tão euro-dependentes como outrora Estado-dependentes, se reivindiquem de um pensamento liberal que nunca vingou, pois a empresários destes sempre foi necessária a muleta do proteccionismo, do monopólio e do amiguismo que ganha concursos, que sufoca a competição e perpetua o medo dos pequenos em avançarem para o terreno do mercado. O pequeno, logo que reune meia dúzia de cobres, ora faz uma casa, ora abre um café ou uma retrosaria; tudo coisas importantes. Quando se fizer uma história do empresarialismo português afundar-se-ão todas as pequenas e grandes mentiras sobre o tão propalado como inexistente "capitalismo em Portugal".


Tudo começou com meia dúzia de homens sem escrúpulos que dizimaram o património do Infantado e das Ordens Religiosas, dividindo-o como saque no fim da guerra civil de 1832-34. Depois, essa dúzia de famílias, abriu portas ao capital inglês que comprou tudo o que havia para comprar no rectângulo e nas colónias. Nos anos de 20, dos telefones aos químicos, do carvão aos combustíveis líquidos, dos vinhos aos minérios, das ferrovias às madeiras, tudo era "anglo-português": ou seja, Portugal era, de facto, uma colónia económica britânica. Foi necessária a crise global de 29, o recuo da Albion e o ascenso das tendências autárcicas para extirpar tal dependência. A entrada de Portugal na Europa - que data do século XIX e não da adesão à EFTA ou da entrada aos empurrões na CEE - nunca beneficiou a generalidade do povo português. Beneficiou, sim, sempre e apenas, as tais "famílias" que, cansadas do controlo que Salazar exercia sobre os negócios e fortunas - que queria devedoras do paternalismo estatal - se viram de repente nas sete quintas do tudo poder fazer sem freio e sem contas a prestar.


E o que fizeram essas famílias com a oportunidade de ouro que lhe caiu nas mãos ? Mostraram capacidade de inovação, empenharam-se na mudança da cultura empresarial, criando um mercado competitivo, diversificado e agressivo voltado para o exterior ? Não, fizeram mais bancos, contraíram empréstimos a bancos estrangeiros, impuseram ao português inconsciente a ilusão do crédito - da habitação, do automóvel, da tv, do computador, das férias nas Caraíbas, da segunda casa - e hoje estamos endividados até aos gorgomilos. Com a ilusão de uma sociedade avançada, Portugal terceirizou-se, o rural quis-se fazer colarinho branco, o marçano técnico de informática, a bordadeira doutora.


Agora, a crise já não é só crise: é coisa para ficar para muitas décadas. Alguém responde por isso ? O causador desta coisa sem saída é só Sócrates ? Onde estão os "jovens agricultores", os "jovens empresários", os mangas arregaçadas que viveram todo este tempo dos milhões dados por um regime que seguiu com canina fidelidade as más lições do passado ? Onde estão os magos do economês, do marketinguês, do gestanês e toda essa geringonça de artifícios que não gerou uma marca, uma empresa reconhecida internacionalmente, um grande banco, uns reles ténis ou até uma descascadora de batatas made in Portugal ? A culpa é só de Sócrates ? Não, não é. É um estado de espírito. Leio que os gregos conseguiram comprar aos cubanos o segredo da confecção dos puros Havanos e passam a maiores produtores do mundo do cobiçado charuto milionário. É assim. O verdadeiro espírito capitalista não é parasitário, apela ao atrevimento. Mas dizê-lo aos nossos liberais é coisa tão estranha como explicar a um bosquímano que a garrafa de Coca Cola é apenas uma garrafa !

18 março 2009

Cartas entre a vida e a morte



Wann kommst Du wieder ? (1943)

16 março 2009

A propósito do texto anterior: os reis, defensores da economia ao serviço dos povos / พระบาทสมเด็จพระเจ้าอยู่หัว


Já aqui recomendei a leitura desta obra. Volto a fazer a sugestão. Só lendo-a compreendemos a animosidade que move meio "mundo dos negócios" contra a monarquia. O Rei di-lo sem rebuço: os conglemerados, as fusões, as deslocalizações, os transgénicos, as grandes superfícies, o consumismo, o culto do betão e do automóvel, a urbanização incontrolada e a rapidez com que se processa [artificialmente] a rotação tecnológica, induzida pelos fabricantes, estão a destruir o ambiente, a pauperizar os pequenos produtores e a provocar o nascimento de uma nova sociedade injusta, implacável e inimiga das nações. Profético.

A inveja serve-se com grosseria

Parece apenas um tema lateral destinado a esse pequeno mundo a que só temos acesso quando vamos ao dentista e somos obrigados a folhear as revistas ditas do coração. Mas não, é algo bem mais sério, pois repercute os sonhos e aspirações das pessoas ditas comuns num mundo que perdeu a magia e se deixou tragar no vórtice do mais estreito egoísmo plutocrático. Não, os príncipes e princesas, reis e rainhas não são, decididamente, figuras do jetset, das revistas cor-de-rosa e das croniquetas sociais. Os príncipes e reis que sobram serão, juntamente com os líderes espirituais - Papa, Dalai Lama, Patriarca Ortodoxo - e muitos sacrificados activistas das ONG's, os mais sérios, empenhados e incansáveis defensores das causas justas. Um homenzinho recusou ontem encontrar-se com o Príncipe Carlos, que desenvolve périplo na América do Sul em defesa da floresta, das espécies animais em vias de extinção e dos últimos vestígios da natureza ainda não conspurcada. É evidente que tal recusa, que contraria todas as regras elementares da boa educação, se deve a preconceito ideológico e social.
Os reis e príncipes não são, bem entendido, líderes políticos, não ocupam as suas funções em resultado de golpes de Estado, chapeladas eleitorais e conúbio com os endinheirados. São, até, inimigos naturais dos aventureiros, dos ditadores, dos homens de negócios sem escrúpulos. O Príncipe Carlos que o diga, pois não há figura mais perseguida, insultada e caricaturada que o herdeiro britânico. O seu desassombro perante os magnatas, a defesa que teima em fazer publicamente do desenvolvimento sustentado, da arquitectura tradicional, do património natural e paisagístico tornam-no objecto de um ódio de estimação dos horizontalizadores, dos falsos igualitaristas, dos manobradores e fabricadores de ilusões. Os plutoctratas - como no passado os comunistas e os fascistas - sempre os quiseram eliminar, reduzir a figuras decorativas ou, simplesmente, fingir que para eles não existia lugar no mundo moderno.
As recentes lições que Madoff teve a gentileza de proporcionar aos cegos destes mundo provam o contrário: os reis e as monarquias são o sal da diferença. Sem eles, a rédea solta do plutocrata analfabeto e dos "negócios primeiro" acentuariam ainda mais o tom espectral de uma humanidade alienada na lei da gamela, do consumo e da depredação. Aqui na Tailândia, como no Reino Unido, a realeza é o precioso elo que ainda teima em defender a civilização dos assaltos dos novos bárbaros. Tivessemos nós um chefe de Estado dinástico e não se teria cometido em Portugal um décimo das tropelias e vergonhas que o falso desenvolvimentismo cavaquiano perpetrou contra a integridade da paisagem portuguesa ao longo desses dez anos em que patos-bravos da construção, da comunicação e do "ensino" cometeram atentados irreparáveis contra o ethos do povo. É por isso que não querem ouvir falar em monarquia: querem, sim, umas barbies tolas, uns banqueiros a brincar ao fino, umas charutadas em casinos, umas vilas estilo D. João V, muito popó de alta cilindrada. São, no fundo, os pirosos, os atrevidos, os imbecis e os alarves que também sonham, à sua maneira, em ser reis de qualquer coisa. Só que essas realezas compradas são, sempre, inimigas das pessoas comuns.



Príncipe Carlos, BBC, Março de 2008, declaração de guerra à plutocracia

15 março 2009

Provas multigastronómicas


Na Ásia, em Banguecoque em particular, é-nos possível integrar na mesma refeição pratos diversos - de peixe, carne ou vegetarianos - de proveniências várias - Japão, Coreia, China, Malásia, Tailândia - frios e quentes, doces e picantes. Para os tailandeses, a refeição não é um ritual de sucessão (sopa, prato principal, sobremesa), mas um conjunto de provas entrecortadas com bebidas ou frutas. Hoje saí com amigos franceses e saltámos de restaurantezinho em restaurantezinho debicando as iguarias e especialidades de cada um. Começámos por um plaamêuk grelhado regado com molho de soja. O acompanhamento foi feito com uma salada de soja. Refeição muito ligeira, saímos e andámos calmamente falando das actividades que nos prendem. Meia hora volvida, entrámos numa casa muito pequena, com meia dúzia de mesas e pedimos uma sopa de arroz acompanhada por uns bolinhos de soja temperados com ervas. Esta sopa de arroz foi outrora muito gabada pelos viajantes europeus que pelo Sião andaram em meados do século XIX e trata-se, sem dúvida, de contributo da minoria urbana chinesa.


De novo em movimento, comprei uns kanomkáy - bolos de ovos - numa cozinha de rua. É um bolo que denuncia a aquisição pelos siameses da doçaria europeia - talvez portuguesa - e é excelente no acompanhamento de uma taça de chá preto ou café. Os bolinhos são feitos para o freguês, saindo directamente da forma para uns pequenos sacos em papel que lhes preservam a temperatura.


Finalmente, pedindo um café, fomos a uma confeitaria. Pedimos um gelado de chá verde, depositado sobre uma base em gelatina vermelha e comemos, também, um bolo de amoras com pêssegos e natas. Feitas as contas, cada um pagou a exorbitância de 400 Bath pela digressão gastronómica, ou seja, 7 Euro.


Confesso que gosto de comer. Comer bem não é propriamente encher a barriga até cair para o lado. No percurso, revoltado e quase entristecido, passei por muitos fast food abarrotados de basbaques ocidentais engolindo aquele lixo que a América espalhou pelo mundo ao longo das últimas décadas: as batatas fritas, os hamburguers a tresandar a gordura, com aqueles pestíferos molhos, os gelados-lixo, as saladas-lixo; eu sei lá, rações-lixo para a engorda e que são verdadeiro arsenal de doenças para a pandemia de gordos que vai transformando o Ocidente numa caricatura boteriana.