12 março 2009

A caixa de venenos e os punhais


O João Bonifácio Serra foi colega e amigo do meu pai na Faculdade de Letras. O João publicou ontem no seu blogue "O que andei" um apontamento, curto e cheio de dignidade, daqueles que vão rareando na proporção da lenta deriva e instalação do salve-se quem puder e da lei da canalhização. Tudo aquilo que diz e tudo o que não pode dizer constitui um libelo a tantos medíocres e invejosso que perseguiram o meu pai e só respiraram de alívio quando o viram sair de uma casa onde era, para alunos, professores e pessoal administrativo, a mais simpática, carismática e conhecedora figura da sua geração. Não descansaram enquanto o não torpedearam: da medinesca e horripilante criatura hirsuta a muitos cobartes e tratantes, todos assinaram o pacto camorrista, uns para pouparem as cabeças - homens que o meu pai havia convidado para assistentes e que foram, helás, os primeiros a pedir o punhal e a caixa dos venenos - outros porque a presença de um homem superior os colocava no lugar que lhes competia na escala da criação; ou seja, pouco acima dos invertebrados.

O meu pai é a imagem do país. Podia ter sido tudo se tivesse nascido na Alemanha, no Reino Unido ou mesmo numa Espanha. De convites para ministro moçambicano da Cultura a secretário de Estado em Portugal, de deputado a presidente de fundações, andou sempre uma turbamulta à volta a ver quem o trazia como troféu para o redil da escravatura dourada em que vivem enterrados os politiqueiros e os arranjistas de todas as cores e feitios. Sempre recusou, pois a sua vocação era o ensino. Ao regressar a Portugal no pós 25 A, António José Saraiva impôs que o meu meu pai fosse o seu assistente. Isto quer dizer muito, sabendo que o autor da História da Cultura não era propriamente um homem indiferente às qualidades e talante daqueles que com ele trabalhavam.

Ora, um belo dia, quando se pressentia que o Victor Wladimiro podia ascender a primeira estrela da companhia, as toupeiras, os rastejantes e as térmitas começaram a fazer o "mobbing". Passou o meu pai por coisas inenarráveis: telefonemas anónimos às 4 e 5 da manhã, cartas anónimas assinadas pelo "amigo", pressões, esquecimentos para reuniões; eu sei lá, tudo aquilo a que se dedicam os bandidos que abundam na Santa Casa da Cultura. Daquelas dezenas de amigos que por lá tinha, ficaram-lhe fiéis dois ou três: o malogrado Abílio Rita, o João Bonifácio Serra e pouco mais. Os outros, agora descansados na sua mansa e reconquistada mediocridade, deixaram de o ver, de o conhecer e de lhe telefonar. Depois, foi a saga da SPA: uma obra volumosa, produto de anos de investigação e trabalho. Publicada, verificou-se que nem o nome do autor exibia. Mais uma trapaça. É assim a sociedade portuguesa. O que fazer com essa gente não sei. Já não me interessa. Dizem-me os amigos: "volta". Ora, para quê ? Para passar pelo mesmo ? Para repetir o que já bebi, émulo do meu pai na arte de ser ofendido pela canalha ? Não, aqui estou melhor, posto em sossego e a trabalhar. As térmitas que se entretenham com o que sempre fizeram. Às térmitas o que é das termitas !

Fé menina


Ontem fez um calor de ananases, 36 graus à sombra, uma brisa de fornalha, as pedras ardendo. Passei pelo colégio católico para entregar a um padre amigo um convite para a conferência sobre Portugal que aqui em Banguecoque terá lugar em finais de Março. Época de provas e exames. Um silêncio de supulcro, aqui e ali cortado pela repetição de mnemónicas que alunos agrupados em torno de mesas no recreio repetiam à exaustão. Os asiáticos são estudantes sofridos. Aguentam oito, nove, dez horas lendo, relendo, recitando. A um canto, aos pés da Nossa Senhora, dois rapazes de joelhos e suados, rezavam. Ali estiveram quase um quarto de hora desfiando o rosário. São os católicos tailandeses, fruto da nossa presença. Haverá em Portugal algum miúdo que se ajoelhe durante um quarto de hora sob um sol inclemente pedindo a protecção da Virgem para os exames que se aproximam ? Estas coisas deixam-me a um tempo perturbado e cheio de alegria. Afinal, no mundo, ainda há espaço para a espiritualidade e para o valor teraupêutico da oração.

11 março 2009

Defender a sociedade dos indivíduos

Disse aqui há semanas que as pessoas devem ser vigiadas, seguidas, escrutinadas e inspeccionadas. Pois bem, numa escola na Alemanha, um jovem armado acaba de imolar dezasseis numa assentada. Dirão alguns que o culpado é o "mundo moderno", a "anomia incontrolável", a "juventude sem baias", os "jogos de computador", o "culto da violência", a "crise dos valores" e outras frases sem ponto de aplicação que tudo explicam e que nada querem dizer. A violência sempre existiu, assim como os comportamentos anti-sociais, a tentação da infracção e do risco absoluto. O problema não é de hoje, pois a literatura romana e até os papiros egípcios estão carregados de recriminações contra os "jovens de hoje, que já não querem trabalhar e até chegam a casa a horas proibitivas". O problema não é cultural, nem geracional, nem de género. O problema é o homem; o problema da violência é um antropema que se funda na profundidade das pessoas, que estimamos domesticadas, mas à primeira oportunidade dão largas à torrente de instintos primitivos que jamais valor algum conseguiu erradicar. A solução, bem entendido, preventiva ou punitiva, é sempre paliativa. Impedir uma criatura de violar, estrangular, roubar, queimar, torturar é tarefa vã dos policias, dos sociólogos, dos educadores e toda meia humanidade que profissionalmente se entrega a sarar ou evitar que a profundidade animal se instale. O que é elemento de toda a evidência é que as pessoas são perigosas e que se não sentirem, pendendo sobre as cabeças, a espada da retribuição dura, tentarão. Isto aplica-se aos governantes [naturalmente tentados à corrupção], aos militares e policias [naturalmente tentados a usar as armas que o Estado lhes entregou], aos médicos [naturalmente seduzidos pelo poder de vida e morte sobre os pacientes], aos legisladores [a quem é dado poder quase divino sobre a sorte daqueles que caiem sob o império das leis]. É por isso que as "sociedades autoritárias" tendem a não tornar-se Estados totalitários, como tendem, habitualmente, a não permitir excessos dos indivíduos. Na génese da violência estão culturas permeáveis à infracção, ao desprezo pela autoridade e à recompensa pelo acto atrevido. No fundo, o liberalismo foi sempre uma miragem optimista: quando se dá aos indivíduos rédea solta, salta um Madoff, um "médico da morte", um Landru ou um atirador sobre alvos em movimento. A autoridade, qualquer que seja, é sempre melhor que a falta dela. Portugal que o diga.

09 março 2009

Laos. A outra Tailândia, a das lágrimas

Pede-me um leitor deste blogue informação breve sobre um dos mais misteriosos países do Sudeste-Asiático, "um paraíso", como insiste, ainda quase livre do turismo que ameaça desfigurar outros países da região. Trata-se do Laos, que ocasionalmente aflora nas fitas norte-americanas, sempre com o ferrete de exportador de ópio. Aqui lhe deixo, como prometido, algumas notas soltas, bem como bibliografia introdutória ao conhecimento do Laos contemporâneo.



Ao olhar o mapa, assalta-nos a primeira surpresa. Um país encravado entre o Vietname, a Tailândia e o Camboja. A capital, Vientiane ("Vientjién") dir-se-ia estar colocada para receber uma agressão do outro lado do rio Mécongue, a poucas milhas de território tailandês, separada apenas pelas águas. O país não devia ter existido, pois não compagina com a ideia do Estado nação requerido pela teoria ocidental sedimentada no século XIX, nem tão pouco com a de um pólo de "poder universal" na tradição da autocefalia budista da região. Foi sempre expressão geográfica difusa na orla do Sião e do Vietname, que por ele terçaram armas e por fim estabeleceram um mudus vivendi que garantisse a paz possível entre o limes vietnamita sinizado e o mandala do Sião indianizado. Um conjunto de principados sem massa crítica demográfica e territorial, arrozais na planície trabalhados por um povo de língua e etnia thai, planaltos e montanhas habitados por povos anteriores às invasões thai. A generalidade dos laocianos guarda do passado a memória do Reino do Milhão de Elefantes - o Lan Chang - que nos século XIV e XVI foi mais um entre os reinos thais em luta pela supremacia entre cidades do vale do rio Kong (Mécongue/Mekong). Depois, encravado territorialmente, sem acesso ao comércio marítimo, foi-se partindo em pequenas unidades que se exauriam em lutas intermináveis: o reino de Luang Prabang, no norte, centro espiritual, colmeia de mosteiros e homens santos, o reino de Vientiane e, no extremo sul, o principado de Champassak. Nos séculos XVIII e XIX, finalmente, cairam na vassalidade, prestando tributo a Banguecoque. Tal como acontecia com os khmeres do actual "Camboja", os seus príncipes e reinetes eram educados na capital do Sião e seguiam para exercer a sua autoridade limitada assessorados por funcionários da corte siamesa.




Em finais do século XIX, após se apossarem do actual Vietname, os franceses lançaram mão da política de canhoneira e obrigaram os siameses, mediante sucessivos ultimatos, a abandonarem uma superfície maior que a França actual: o Laos e três províncias que hoje integram o Camboja. Foi um artifício dos franceses, logo trabalhado pelos missionários das Missions Étrangères de Paris, pelos historiadores da École Française d'Extrême-Orient e pelos administradores coloniais da Indochina Francesa. É como se um poder estrangeiro se apossasse da região de Miranda do Douro e provocasse a criação de um micro-nacionalismo local, banisse o português e dissesse aos mirandeses que num tempo muito distante haviam sido livres da opressão portuguesa. Cabia ao colonizador "protector" levar os laocianos [e cambojanos] a redescobrirem as fontes da sua outrora e esquecida liberdade. A engenharia resultou e manteve-se após a retirada francesa nos anos 50 do século XX. Ao partirem, os franceses promulgaram uma constituição escrita em francês e estabeleceram uma monarquia na família Khun Lo. O "Laos" - a expressão é semanticamente confusa, pois nunca houvera um Laos, mas um povo Lao (rao, raw), que em thai quer dizer "nós"- viveu desde o primeiro dia da "independência" de ajudas estrangeiras, apenas atenuadas pela exportação de ópio e pelas receitas da tributação fiscal que foi sendo aplicada pelo novo Estado. A herança da missão civilizadora reclamada pelos franceses foi miserável. Ao partirem, não havia quadros, licenciados nem técnicos, pelo que coube aos novos senhores da região - os EUA - forjarem uma elite urbana mediante selecção de candidatos enviados como bolseiros para universidades no Ocidente.


Nos primeiros anos da segunda guerra da Indochina (1954-1975), o Laos manteve uma neutralidade colaborante favorável aos americanos. Foram os anos dourados da ajuda a fundo perdido, das obras públicas, da chegada de hippies ocidentais em busca de um Changrilá, da revolução dos hábitos urbanos, da juventude cowboy, de botas e chapéus lembrando as fitas de John Wayne, da proliferação dos bares, bordéis e hotéis de curta estadia. A lupanarização do Laos só teve equivalente na Tailândia, onde a soldadagem americana deixou doenças venéreas, crianças orfãs e mutilou irreparavelmente o ethos local. Estima-se que a USAF, para conter a infiltração norte-vietnamita da "Pista de Ho chi Mihn" despejou tantas bombas sobre o nordeste do Laos quantas as deitadas sobre a Europa entre 1942 e 1945.

Contudo, nesses anos de fogo, graças a uma monarquia serena e realmente interessada em desenvolver económica e socialmente o território, o Laos constitui-se como um dos mais activos pólos de crescimento da região. O regime foi sempre democrático, a intervenção militar na vida política não se deu - ao contrário do Vietname do Sul - a corrupção foi limitada e a casa reinante, na figura do rei Savang Vathana, ganhou legitimidade acrescida pela boa vontade em resolver os problemas das populações. É evidente que os comunistas do Pathet Lao, o partido comunista criado por indução norte-vietnamita, força ultraminoritária e quase sem apoio, via na monarquia o grande obstáculo à propagação da demência colectivista, do boneco do poder "reaccionário e feudal" e da mentira de um poder "fantoche manobrado pelos imperialistas".

Chegou o fatídico ano de 1972, quando Nixon, agora amigo dos chineses, decretou o abandono da presença militar americana na região, entregando amigos e aliados fiéis à triste sorte da imolação pelos comunistas. Os comunistas, sabendo que o povo [tal como hoje na Tailândia] era muito apegado à monarquia, fizeram crer que aceitavam um governo de reconcialiação nacional sob a égide do Rei. Depois, como o haviam feito na Roménia, iniciaram as manifestações "espontâneas", as greves gerais, a intimidação dos opositores, os julgamentos públicos, as ocupações, o contrlo da comunicação social - que era libérrima e isenta de censura - e decretaram a instauração de uma República Popular. Os Hmong, povo das montanhas que sempre constituira temível dique de contenção anti-comunista, sofreram genocídio, milhares de monárquicos foram abatidos sem julgamento e outras dezenas de milhares atirados para campos de "reeducação", o exército e a polícia extintos. O mais negro regresso à lei da selva imperou durante a segunda metade da década de 70 e meados dos anos 80. Os comunistas - apodados khon paa (homens da selva) pelas refinadas classes dirigentes ocidentalizadas - trouxeram o caos. Impreparados, analfabetos, fanatizados e brutais, causaram danos maiores que a guerra. Em finais dos anos 70, o Laos era um imenso campo de trabalhos forçados. O país viu então partir 15% da população com destino à Tailândia - porto de abrigo para todos os perseguidos da região - e assim se fossilizou até ao desmebramento do bloco comunista. A família real - toda a família- foi enviada para um campo de reeducação e aí abatida ou morta por privação de alimentos e assistência médica. Tal com na França, depois na Rússia e no Iraque, a morte do Rei era condição para lançar sociedades inteiras numa espiral incontrolável de morte e violência. Há dias, foi inaugurada com pompa a nova ligação ferroviária entre a Tailândia e o Laos, precedida pela visita do primeiro-ministro tailandês a Vientiane. Em suma, a rendição dos cacos do comunismo mais impiedoso - agora corruptíssimo - ao passado. Diz-se que os tailandeses controlam já 60% da economia do país e que se as coisas progredirem no sentido da satelização laociana, o próximo chefe de Estado após o colapso mais que certo do comunismo será... o Rei da Tailândia. Por outras palavras, se o Laos tiver autenticidade e for algo mais que um Estado-tampão, só tem de restaurar a monarquia para garantir a sobrevivência.