28 fevereiro 2009

Japonês tropical

Um restaurantezinho japonês no bairro. Barato, sossegado e com fundo musical de Biwa, variante do Pipa chinês. Sem fome, mas obrigado a comer, começo com Shuumai, legeiros bolinhos de massa recheada com porco e camarão demolhados em óleo de soja e mostarda.

Depois, um gratinado de camarão e caranguejo que lembra o nosso soufflé, mas sem o travo do queijo.

Depois, para terminar, um tempura, clássico da gastronomia nipónica, mas saído das mãos de um cozinheiro que há muito reside na Tailândia. O resultado é superior ao modelo, pois mais apaladado. Não me tomem por glutão, pois o pratinho terá o tamanho de um pires que habitualmente faz companhia a uma das nossas chávenas de chá.


Como sobremesa, dois ou três "nhók" frescos, fruta tropical que dir-se-ia ter saído do parque jurássico, tamanho o emaranhado de espigões e tentáculos que o protegem. O sabor lembra o kiwi, mas mais doce. Sem café, pois acordei cedíssimo para comparecer na inauguração do bazar do corpo diplomático, regresso a casa para dormir uma sesta prolongada. Esta noite tenho de voltar ao estudo da escrita thai, coisa bem menos fácil.

Vem a conta. Na Europa pagaria 30 Euro por tal refeição. Aqui pedem-me 350 Bath, mais ou menos 7 Euros. Como é bom comer na Tailândia.

26 fevereiro 2009

Quando há crise...fala-se de sexo



A receita é velha e não há quem escape à lei universal: quando há crise, ansiedade, medo e frustração, o sexo e o crime funcionam como poderosas forças de atracção e repulsa. Em sociedades transidas e sem futuro, aqueles que por ela deviam zelar - aqueles que a governam e não querem responder pelos maus resultados - inventam processos judiciários, escândalos, escandaletes e leis que distraem e mobilizam o que de pior as pessoas conseguem segregar. Foi assim no fim dos anos 20 e princípio da década de 30 após a débâcle da Wall Street. A imposição do moralão código Hays - o tal que proibia a exibição de beijos, danças sensuais e "pecaminosas", alusão ao adultério e a casais mistos, doenças venéreas, ditos e graças tidos por ofensivos aos "bons costumes" e à religião, críticas às instituições - cobria com o alvo manto da ilusão uma sociedade em que o gangsterismo produzido pela estúpida Lei Seca campeava, onde se realizavam humaníssimos concursos em que as pessoas por refeições e meia dúzia de dólares caiam mortas nas pistas de dança (lembram-se do Os Cavalos Também se Abatem ?) e a prostituição e a sífilis atingiam proporções de praga.


Foi o tempo do caso do bebé Lindbergh nos EUA, dos casos Belbenoit, Émile "Mimile" Buisson e da Cagoule em França, dos Brighton Trunk Murders e Jack "Spot" Comer no Reino Unido. Há crise ? Desemprego ? Pois, invente-se algo que preencha a sede de fantástico e a necessidade de ajuste de contas.


É em tais períodos que os moralões investem forte. Nos EUA da depressão, o Ku Klux Klan procurou criminosos colectivos - nos judeus, nos católicos, nos negros, nos sindicalistas - e fez campanha pela restauração dos grandes valores, mesmo que o seu Grande Dragão, Stephenson, fosse inculpado pelo rapto, violação e morte de uma rapariga. Na Alemanha, com Hitler, foi o que se sabe: em nome da lei natural levaram-se para os campos do Lebensborn milhares de raparigas, obrigando-as a reprodução assistida como se de coelhas se tratasse, proibiu-se que as mulheres fumassem em público, que os cabarés e o fascinante mundo musical que lhe estava associado fosse proscrito, que a música "negra" e a arte degenerada fossem substituídas por duvidosas obrinhas de consultório médico e que a literatura abandonasse o onírico e se envolvesse na promoção de uma espécie de idanovismo ao serviço da "raça". Na Itália, caiu-se nas fitas de "Telefone Branco", estórias sem história, de futilidade absolutamente imbecilizante.

Soube, com dois ou três dias de atraso, da apreensão em Braga de uma obra que exibia a Origem do Mundo, de Courbet, considerada "pornográfica" pelas eruditas autoridades pina-maniqueiras da Cidade dos Arcebispos. É evidente que o preboste que tal ordem deu desconhece Courbet, que só leu Tânias, Ginas e outros monumentos literários, que nunca entrou numa galeria de arte e até desconhece o Cantico Canticorum, essa coisa pornográfica existente em todas as igrejas. O problema nisto tudo é que o preboste faz parte da atmosfera de crise. Há fábricas em falência ? Há milhares de milhões em crédito mal parado ? Ora, invente-se um caso sexual. Assim, sim resolve-se a crise. E porque não mandar cobrir com o púdico veludo negro as escandalosas representações de sexo e violência nas telas do Museu de Arte Antiga ? Porque não criar uma talibanesca Liga dos Bons Costumes para andar pelas praias a mandar cobrir as pernas, as nádegas e os ombros das jezebéis e das madalenas ? Porque não munir de tesoura uma bibliotecária amante dos bons costumes e cortar a eito as iluminuras medievais cheias de corpos nus e demais provocações ? Por mais que queira compreender as nobres intenções de um polícia - instituição que aqui jamais ataquei - não posso concordar com a bondade e ingenuidade de argumentos como estes, pois sem darmos por isso amanhã teremos censura de volta, sobretudo daquela quase analfabeta e de galões que deixava passar o mais venenoso marxismozinho e só se interessava pelas "mulheres nuas". O mal disto tudo não está no sexo e no nu: está na cabeça das pessoas e, para mim, o maior tarado sexual está sempre escondido na pele de um moralão. São os piores: só vêem aquilo que ninguém vê. É o nosso velho gene semita vetero-testamentário a trabalhar para reprimir, punir, inibir e comprazer-se com chamas purificadoras. Esse "deus" e a sua cornucópia de medos nada me diz.

24 fevereiro 2009

Santa nostalgia


Anda por aí um aceso debate sobre o conteúdo dos manuais escolares. É assunto velho, tão pergaminhado como caduco que sobre tal matéria não mais me pronunciarei. Da negociata verdadeiramente veneziana que ronda os manuais sobressai a rendição do Ministério da tutela às editoras, com os seus lóbis, pressões, amiguismos e favores. É nauseante, cansa e desilude qualquer professor que ainda alimente uma réstia de fogo educativo saber que os manuais servem para enriquecer as editoras, para impingir matérias que jamais serão leccionadas, tão manifesta é a falta de tempo para as leccionar mas, sobretudo, a total incapacidade dos alunos delas poderem retirar algum proveito.


Falando com a liberdade de quem de fora se encontra, lembraria que durante décadas, até à chegada de Veiga Simão e do experimentalismo rebenta-quarteirões, os alunos foram educados -dos caboucos da escola primária aos liceus e escolas técnicas - a ler, escrever e contar através de manuais que eram (e ainda são) modelos de clareza, precisão e rigor. Ao acabar a escola, qualquer que fosse o grau, o aluno sabia escrever uma carta, ordenar ideias e argumentos, argumentar e destrinçar o nível de língua requerido. Depois, com o preparatório e o liceu, a cultura e informação desenvolvia-se em espiral cumulativa no conhecimento da História de Portugal e Universal, na Filosofia, na Literatura e nas línguas vivas e mortas (sim, o latim e o grego, sem os quais não se pode aspirar às humanidades). Abro, ocasionalmente, os manuais de literatura de Maria Ema Tarracha Ferreira, os manuais de Matoso pai e até a sempre jovem História de Portugal de Oliveira Marques. Ali está um programa: clareza didáctica, pilares sólidos, português escorreito e sem rodriguinhos pós-qualquer-coisa.


Passaram quarenta anos de teorias e "ciências da educação", formatação ideológica, relativismo e demolição. Se a "desconstrução" deu cabo das faculdades, a "desconstrução" nas escolas e liceus e o seu afã de negatividade e crítica gratuita estropiaram para todo o sempre jovens - hoje adultos com trinta, quarenta ou mais anos de idade - ao ponto de se terem transformado em maus profissionais e maus cidadãos. A cultura respondona, o desprezo pelas fontes da autoridade, o quase criminoso vandalismo anti-português, em suma, a arte de matar o amor pátrio e de o substituir por coisa alguma [europeia] são hoje dados incontornáveis. Pois, acabe-se com essa pirâmide perdulária, reinstitua-se o livro velho, quase eterno, deixem as famílias descansadas livres do imposto revolucionário sugado ano após ano e voltem a ensinar as crianças a ler, escrever e contar, mais as dinastias portuguesas e cronologia indispensável, ensinem os miúdos a saber localizar os Açores ou Macau no mapa, a conhecer a fauna e a flora, mais uns versos, os contos populares, canto coral, os exercícios de redacção e a tabuada. O mais virá com o tempo. Esta é a nossa santa nostalgia, mas que deu frutos.
Eu até faria mais, mas não o digo, pois sairiam de imediato a terreiro os habituais vociferadores, quiçá os mesmos que um dia - se é que não foi ontem - apanham um tabefe ou um encontrão de um aluno. Criámos monstrozinhos e agora é difícil ensinar-lhes que não se esmurra um professor, não se grafitam as escolas nem se fumam charros no intervalo !


Perhaps (Deanna Durbin, 1939)

23 fevereiro 2009

O meu corno de África

Eu e os meus irmãos Ângela e Nuno há mil anos

Lembranças que o tempo levara, trazidas de novo pelo Nuno . Que delícia, em criança fui uma peste. Trancava os mainatos na dispensa e lá os deixava durante horas, cobria-me de tintura de iodo e enchia a boca de massa de tomate para simular acidentes, até chegar a ambulância e fugir a sete pés, bombardeava as casas dos vizinhos com abacates podres até ouvir a sirene da carrinha da polícia, fazia telefonemas para o restaurante do hotel pedindo lautos jantares em nome de um Marquês de Carabas, pedia ao criado Eugénio que fosse à casa ao lado pedir uma garrafa de leite de mamute - que ele, coitado e simples, lá ia pedir - e escondia-me em baixo da mesa da sala da avó durante todo o dia até entrarem em pânico com a minha volatilização. A infância é um conto de fadas. Depois, ficamos chatos e fechados, cinzentões e a fazer de conta. É a força misteriosa que nos empurra, adultos, para o sem sentido e para o cansaço de viver.

22 fevereiro 2009

Isto não é boutade, é o que penso


Se há coisa feliz no meio desta tremenda catástrofe financeira e económica em que o mundo mergulhou pelas artes e manhas de uma camarilha de criminosos comuns, é o colapso do ícone mais pernicioso do chamado "bem-estar". O maldito automóvel - como é extensa a sua lista de crimes - está a viver maus dias, do estreito de Bering à Califórnia, da Islândia à Suazilândia. Um automóvel é mais perigoso que um milhão de fumadores. Um só destes caixotes de lata armados sobre quatro rodas emite, em cada quilómetro, o equivalente a dez (10) maços de tabaco, mata mais gente por ano que a soma do Somme, Verdun e Estalinegrado, exige mais e mais autoestradas, pontes, túneis e circulares, devastando a natureza, contaminando-a com resíduos químicos e é a primeira causa de morte violenta e gratuita de animais. Como seria o mundo sem este nefasto reduto de "conforto" (outro palavrão que rima com obesidade e invevitável sequela de acidentes cardio-vasculares), como seriam as florestas e as cidades sem essa praga incontrolável ? Lembram-se da bela e pacata Lisboa dos anos 70, antes dos arrumadores, dos automóveis sobre os passeios, dos vinte mil acidentes anotados pelas autoridades, dos hospitais sem os centos de jovens mutilados, inúteis e acamados para o resto da vida, os milhões gastos na patética "prevenção" ? Pois, essa é a factura com que o pequeníssimo burguês pagou - com endividamento, cartões de crédito e sacrifícios inenaráveis - a entrada no mundo do "conforto" e exibição de status. Depois, olhando para as guerras do petróleo, chegamos à conclusão que o automóvel retirou ao Ocidente liberdade, obrigando-o a envolver-se mais e mais em guerras pela posse do ouro negro. Se temos um Chávez, um maluquinho nuclear no Irão, mais o vespeiro do Iraque, isso deve-se à necessidade de conforto do burguesito europeu e norte-americano.

Como seria diferente a vida sem o caixote de lata sobre rodas. Eu dele nunca precisei. Se quero ir a um sítio, apanho metro, autocarro ou vou a pé. Fui, avant la lettre, um conspirador contra o império da lata de luxo. Hoje, delicio-me com o finamento de tal monstro.
Sou lunático ? Pois, se forem a Veneza perguntem onde estão os carros e pensarão que estão loucos. Banguecoque, com os seus milhões de habitantes, também foi uma cidade quase sem automóveis. Era o velho tempo em que não havia carros e as pessoas chegavam a todos os lugares, quando hoje, todos com carro, ninguém chega a lugar algum. Ah, a minha costela anti-moderna a vir ao de cima, como sou um bom ecologista !