21 fevereiro 2009

700 milhões

Entra na coluna dos amigos de Combustões. É o 700 milhões.

O dilema da liberdade



Mais uma história de escroqueria a somar à admirável ousadia criminosa de Madoff. Stanford foi apanhado e aguarda-se que outros discípulos de Charles Ponzi venham a cair nas malhas da lei; em suma, a clara demonstração pelos factos que aos homens não se pode dar absoluta liberdade, pois amiúde só a sabem utilizar para enganar o próximo. Para aqueles que acreditaram piamente na iniciativa privada sem baias, num Estado mínimo e numa sociedade dirigida pelas misteriosas "leis do mercado", esta crise vem exigir do liberalismo o retorno àquele tempo em que os liberais - flagelados entre o desejo de se ser escravo dos socialismos de signo negro ou vermelho então emergentes e o sonho irrealizável de uma "sociedade antiga", autárcica, estamentária e bucólica - pediram ao Estado o papel subsidiário e regulador. O Estado existe porque a liberdade dos indivíduos contraria a segurança colectiva. Não há teoria sobre a origem do Estado que não aponte essa anarquia primeva em que os homens foram lobos do próprio homem, até ao momento em que estabeleceram em pacto transferir parte da sua liberdade para o Estado. E porque os homens são incorrigíveis, há que os vigiar, saber o que fazem, por onde andam, com quem se dão e o que dizem. É isto que assusta, pois ao fazê-lo, inventam um Estado muitas vezes mais criminoso que os criminosos que são apanhados, pois ao Estado ninguém pode apanhar, dado ter consigo as leis, os códigos, os tribunais, as polícias e as prisões.

20 fevereiro 2009

Antípodas semióticos: no país que ama a suástica


Para desacreditar de vez qualquer "gramática universal" e para demonstrar a ilusão da pseudomorfose civilizacional - uma civilização mundial única partilhando os mesmos símbolos - aqui deixo quatro saudáveis provocações aos meus leitores. Fui ontem à estreia do tão aguardado como polémico filme de Tom Cruise sobre o atendado falhado contra Hitler em 20 de Julho de 1944, protagonizado pelo coronel conde Claus von Stauffenberg. À entrada do grande complexo de salas de cinema, um hall que faria inveja ao estilo "Kolossal" de Speer, bandeiras nacional-socialistas emprestavam à atmosfera patética marca de anacronismo. Não era uma, nem duas, nem três, mas um mar de bandeiras, faixas e flâmulas que na Europa cairiam de imediato sob alçada das leis que impedem a divulgação e exposição pública de tal símbolo. Terminada a fita, que estimo regular e contrastante com o escândalo que acompanhou as filmagens, muitos assistentes, ao passarem pelas bandeiras faziam a vénia com que os tailandeses exibem respeito por pessoas ou símbolos estimados superiores, elevando as mãos juntas à testa.



Semanas antes, nos quiosques e livrarias de Banguecoque, uma revista tailandesa especializada em comunicação e publicidade exibia à largura da capa uma versão pop da suástica e desenvolvia extenso historial de um símbolo muito próximo da religiosidade oriental, esclarecendo que a "cruz gamada" era património do budismo, que por sua vez o tinha recebido da Índia védica.


Um amigo fez-me chegar a foto de um automóvel literalmente coberto de suásticas, afirmando com acerto que tal símbolo político diz muito pouco aos tailandeses. A suástica é aqui muito respeitada, encontrando-se por todo o lado em templos e mosteiros, pendendo à entrada das casas como talismã protector ou usada como amuleto que as pessoas levam ao peito. Encontro-a, também, em automóveis, motorizadas e, até, como elemento decorativo da louça servida em restaurantes. Quando vou à piscina, deparo amiúde com pessoas que se fizeram tatuar com suásticas no peito ou nas costas, pois persiste a crença que tal as protege de acidentes ou doenças. Hitler não inventou nada. No tempo em que a Europa se abria com curiosidade às chamadas filosofias orientais e numa Alemanha regorgitante de interesse pelas teosofias e ocultismos para todos os gostos, a suástica foi usada como misterioso elemento mágico de identificação para os anti-cristãos, décadas antes de se converter em bandeira de uma ideologia racista. Fez parte, durante dois milénios, do património do arco civilizacional indo-europeu e entranhou-se no budismo - nascido na Índia - chegando a converter-se em símbolo do imperador Assok, o maior dos soberanos da dinastia Maurya.


Lembro-me agora que na última vez que estive em Hong Kong deparei com uma manifestação da seita Falun Gong, que protestava contra as perseguições de que tem sido alvo pelas autoridades de Pequim. Ora, a bandeira da organização é uma suástica cercada por quatro ying e yang (as polaridades do equilíbrio), inscritos sobre um círculo açafrão. O laranja, que entre nós só se vende com a Fanta ou com o PSD, é a cor da pureza monacal com que os religiosos se cobrem. Como são diferentes as culturas, como é rica a diversidade humana. Por favor, quando vierem à Tailândia, não façam qualquer reparo à suástica. Se o fizerem, terão uma multidão em fúria defendendo um dos seus mais estimados e reverenciados símbolos.



Walkürenritt (Wagner; grav. 1921)

19 fevereiro 2009

Banho lustral



É facto assente que a reverência devida ao titular da chefia do Estado está ancorada no respeito durante séculos tributado aos nossos Reis. É elemento psicológico fortíssimo este que impede o mínimo reparo, crítica ou contestação às iniciativas e palavras do presidente. Em Portugal funciona, de facto, informal mas duríssima, a figura da lesa-majestade. O maior trapalhão, o mais escancarado ebencerragem sem obra e sem mérito, logo que alcandorado ao cadeirão do palácio rosado, passa a ser alvo do maior incesório, rapapés, prostrações e vénias quase bizantinas.


Infelizmente, os senhores presidentes são homens de partido, não exercem função arbitral e são parte conflitante no jogo político. São, amiúde, antigos primeiros-ministros, sobraçaram pastas ministeriais e ocuparam a presidência ou secretaria geral dos partidos. Tiveram responsabilidades, foram odiados, insultados, espezinhados enquanto políticos, pelo que parecem guardar desse tempo - que a todo custo querem fazer esquecer - secreto anseio de ajuste de contas e, até, uma ponta de crueldade pela sorte daqueles que como eles foram responsáveis pelo poder executivo.


É por isso que não os posso respeitar nem compreender no seu papel supostamente independente. Os presidentes, todos - com excepção de Eanes, que pagou cara a sua demarcação - governaram tão bem ou tão mal que hoje o país está como está. Foi durante os anos em que detiveram o poder que Portugal malbaratou milhares de milhões em jipes, montes alentejanos, cursos do FSE, alimentou camarilhas de locupletadores de bens colectivos, alienou a indústria, desmantelou a frota pesqueira e a marinha mercante, dinamitou a agricultura, negociou as políticas europeias como um general que capitula sem condições e sem um tiro, promoveu a ascensão de uma nova elite dirigente parasitária, promoveu o novo-riquismo dos favoritos do capitalismo de subsidiação. Tiveram tudo para que nos industrializássemos, tiveram todo o tempo do mundo para operar a estafadíssima "mudança de mentalidades", promover o mérito, o trabalho, a criatividade, a inventiva e o bom sucesso, não aquele dos medíocres espertos, mas o dos "experts".


Ao contrário do que muitos de curta memória repetem à náusea, o primeiro-ministro não é o responsável pela crise. Vão bater à porta dos senhores presidentes, agora tão arrogantes no apontar de falhas, e perguntem-lhes o que fizeram com o tempo em que foram primeiros-ministros !

17 fevereiro 2009

Si, Si, Si, Si, Si


Há alguém que me explique qual a razão que leva um ditador a procurar nos votos aquilo que detém na ponta dos fuzis ? Ou não será a democracia, que tanto dizem detestar, o grande recalcamento dos ditadores ? A semântica da democracia ao serviço dos regimes que a negam é vasto campo para a psicanálise: das "democracias orgânicas" às "democracias musculadas", das "democracias populares" às "democracias directas", tem sido de prodigiosa criatividade a capacidade dos ditadores de mentirem a si mesmos. Isto está para a política como a religião para os ateus, que de tanto detestarem Deus, se tornam obcecados pela Sua presença, que acabam por reconhecer.

Der Untergang des Abendlandes, nova versão



Sem a grandeza faustiana de Spengler e sem o toque erudito e refinado de Paul Valéry, Fareed Zakaria oferece o quadro-diagnóstico do princípio do fim da era americana, aqui ontem apontada. Depois do triunfalismo de Francis Fukuyama, cantado sobre as ruínas do comunismo caído sem glória, chegou o tempo da crise. A crise não é do capitalismo, bem entendido, mas a crise da civilização do negócio, do homem improblemático e banal que a América quis elevar à condição de modelo antropológico de uma sociedade tecnologicamente avançada, mas privada de missão universal. Afinal, o único fardo que reclamou o império americano foi a democracia e sua evangelização. Privado de profundidade, limitou-se a entender a democracia como um credo e uma aspiração sinárquica. Um a um, os acontecimentos vieram demonstrar que essa aspiração não passava de ilusão de óptica, pois a vaga democrática, fugaz como a acne, não mais foi que acomodação ao tom dominante. Hoje, quando os EUA recuam, as pulsões autoritárias recobram posições e voltam a predominar fora do Ocidente.

16 fevereiro 2009

A vida e morte dos impérios


A adesão norte-americana à ideia de império data de 1899, quando o Havai foi anexado após um golpe de força dos residentes americanos nessa paradisíaca monarquia do Pacífico. Meses antes, o Tratado de Paris, firmado entre os EUA e a Espanha, havia selado o fim do império espanhol, com a entrega aos americanos de Cuba e das Filipinas. Depois, entre 1900 e 1950, foi meio século de imparável ascensão capitalizada à custa da Europa. Entre meados dos anos 50 - com a Guerra da Coreia e o início do envolvimento no conflito do Vietname - e o fim da URSS, os EUA consolidaram posições e planetarizaram o seu poder. Foram, aproximadamente, 50 anos de consolidação. Com o ataque a Nova Iorque, os EUA iniciaram a fase descendente do seu ciclo imperial. Há quem atribua a culpa do início da decadência norte-americana a Bush. Contudo, para quem gosta de exercícios de história comparativa, parece existir uma lei histórica da longevidade dos impérios que raramente falha na detecção da estrutura tricíclica de ascensão seguida de consolidação e, logo de imediato, de irreversível queda. Atendo-nos à experiência dos impérios mundiais modernos (Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra) - não contando aqui os impérios falhados, o mais curto dos quais foi o de Hitler, que durou apenas seis anos - verificamos que a lei funciona para todos os casos.


A Espanha iniciou a ascensão imperial com a conquista do México e do Perú nos anos 20 e 30 de 1500, certificando a sua categoria de potência hegemónica entre a assinatura da Paz de Augsburgo (1542) e a batalha de Lepanto (1571) - ou seja, cinquenta anos - seguindo-se meio século de consolidação, que abriu as primeiras brechas a partir de 1630, quando o curso da Guerra dos Trinta anos se voltou contra o império dos Habsburgos, o tal em que o sol jamais se punha. A fase minguante decorreu, pois, entre 1630 e 1680, com a derrota dos terços na Europa e a lenta satelização da Espanha pela França de Luís XIV, que seria confirmada poucos anos depois pela ascensão ao trono de um familiar do rei francês.


Portugal iniciou o seu ciclo imperial global em 1488, com a viagem de Bartolomeu Dias. Nos cinquenta anos que se seguiram, dominou sem oposição as costas ocidental e oriental de África e o comércio a longa distância da Ásia. Meio século depois, durante a década de 1530, sob D. João III, iniciava a consolidação, abrindo mão de posições indefensáveis no norte de África e reavaliando a sua estratégia global nos grandes espaços do Índico e Atlântico. Por fim, entre 1580 e 1640, perdeu capacidade planetária e passou à defensiva.


A Holanda teve igual sorte. De 1581 (criação das Províncias Unidas) à grande ofensiva marítima e comercial dos anos 30 de 1600 - que culminou com a tomada de Malaca aos portugueses, em 1641 - a Holanda foi predatória, assestando rudes golpes no declinante império português e esgotando a força militar dos Habsburgos numa luta sem fim. De 1640 a 1684 (fim da Quarta Guerra Anglo-Holandesa), manteve-se como protagonista cimeiro na intriga internacional e alvo da invejosa competição de franceses e ingleses. Por fim, isolada e esgotada, passou a satélite da França revolucionária.


A Inglaterra parece epitomizar a lei. Não compaginando com autores que situam o "primeiro império inglês" entre finais do século XVI e a independência norte-americana - pois tal império ocupava zonas marginais e pouco disputadas do globo - o império britânico nasceu com a derrota final de Napoleão (1815) e expandiu-se até finais da década de 60 do século XIX. Depois, entre a década de 70 e os anos 20 do século XX, lutou para manter a hemegonia em África e na Ásia. Com o fim da Grande Guerra, e até aos anos 60, foi abandonando posições para a emergente potência marítima global, os EUA, até se satelizar aos objectivos permanentes do império americano.


Estamos, pois, a assistir às primeiras décadas do ciclo imperial terminal dos EUA. Guerras localizadas, declínio do prestígio entre aliados e crescente agressividade dos inimigos, com lenta afirmação da recusa do seu modelo e visão do mundo, incapacidade para resolver crescentes tensões internas, substituição da elite dirigente, perda de competitividade comercial, todos estes factores são eloquentes na confirmação do plano declinante a que não fogem os EUA. Se tudo correr de acordo com a genética imperial, os EUA terão terminado a sua projecção de força externa planetária lá para a década de 40 ou 50 do presente século. Resta saber - eis a grande amargura - se os impérios planetários terminaram e se o poder mundial, como se desenha, será disputado entre potências hegemónicas circunscritas às respectivas esferas de influência. Se assim for, a multipolaridade, mais que um agente aplacador da conflitualidade, restaurará uma ordem internacional para a qual não mais lugar haverá para os grandes areópagos, para as cartas universais e para a ilusão de uma aldeia global onde todos os protagonistas são, teoricamente, iguais. O mundo que se aproxima será certamente pior, mais violento, imprevisível e irrefreável na vontade de poder inerente aos Estados e aos homens.


Rule Britannia