14 fevereiro 2009

Heróis a preto e branco


Uns russos que aqui vivem perto de casa trouxeram-me dois DVD's com uma "série muito antiga, do tempo do comunismo", que "teve tanto impacto em todo o bloco socialista que o actor chegou a ultrapassar em popularidade as fitas do James Bond, que era proibido, mas passou a ser visto por toda a gente com a chegada dos vídeos". Afinal, o herói que me propunham era o Capitão Kloss, velho amigo nosso que passou na tv portuguesa lá para 1976 ou 77. Assim passei seis horas seguindo as peripécias e aventuras do agente polaco-soviético infiltrado na Abwher. O Kloss era um womanizer e não havia secretária que não suspirasse pelo espião em troca de segredos da máquina de guerra alemã. Foi uma tarde bem passada, um retorno ao princípio da adolescência, quando ainda não sabia que ser-se agente soviético era coisa infamante para a reputação de qualquer oficial polaco, pois tão repelente como a brutal política nazi de conversão da Polónia em bantustão do Grande Reich foi a matança, às mãos do NKVD, de toda a elite aristocrática polaca nas fossas de Katyn. O meu velho herói não passava, afinal, de um traidor.


Para quem gosta do género, recomendo vivamente Katyn, de Andrzej Wajda, que foi tão gabado e galardoado, mas ainda não passou em países onde os comunistas possuem ainda a falsa aura de lutadores pela liberdade. É pena que a resistência à aceitação da verdade histórica, quase hemiplégica, persista em separar vítimas de genocídios e que se teime em negar ao comunismo lugar de honra entre as maiores máquinas de extermínio metódico e industrializado que cobriram a geografia do século XX de ossários.


Zarah Leander - Davon geht die Welt nicht unter (1942)

Davon geht die Welt nicht unter,
sieht man sie manchmal auch grau.
Einmal wird sie wieder bunter,
einmal wird sie wieder himmelblau.
Geht`s mal drüber und mal drunter,
wenn uns der Schädel auch raucht,
: davon geht die Welt nicht unter,
die wird ja noch gebraucht.

12 fevereiro 2009

Os desterrados


O João, o Nuno e Medeiros Ferreira assinalam a coragem de Eanes. O país precisa tanto de uma profunda reforma económica como uma reforma política. Com os seus setenta e três anos, o general parece mais jovem e aberto à mudança que pode salvar Portugal nesta 25ª hora que muitos quarentões ainda crentes na possibilidade deste regime se emendar. Descredibilizada, sem obra nem autoridade, abeira-se a III República daquele momento fatal em que os regimes, invocando a legitimidade formal, já a perderam no coração dos cidadãos. Eanes vai mais longe: pede a restauração monárquica, sem a qual só se abre a possibilidade da instauração do caos, ou, pior, de uma qualquer tirania adamada com adereços de democracia. Confesso que já pouco leio ou me interessa o que vai pela vida pública portuguesa. Só vejo ranger de dentes, insultos, remoques, gente crispada vazando pús, maldade e agressividade, uma frustração que mobiliza o que de pior podem as pessoas segregar. O rectângulo, emparedado e sufocado, quase já fora da Europa e já sem o Mar de qualquer aventura como porta de saída, vai-se parecendo cada vez mais com os oito palmos por quatro de uma cova colectiva. Quanto tempo mais poderá resistir a esta amachucante mediocridde ? Um ano ? Dois anos ? Cinco anos ? Eu saí, abandonei, pois já não podia aguentar. Aos que ficaram restam duas escolhas diletámicas: fugir para dentro, para um qualquer jardim secreto, fingir que tudo está bem, ou exigir que as coisas mudem. Quem dará o primeiro passo ? Ou antes, quem se oferece para seguir o general ?

10 fevereiro 2009

Estendal de erros: precisa-se um Dalgado, imediatamente



Às vezes, no revolto mar de estupidez iluminada que estadeia pelos amplos espaços da chamada comunicação social, dou comigo a testar a exemplaridade de Leites de Vasconcelos e outros gigantes do estudo e da erudição, os tais que devendo ter lugar cativo na estante e mesa de trabalho de qualquer pessoa que se considere civilizada, tão esquecidos andam no afã "corta-cola" de alguns dos nossos jornalistas.

Lendo as notícias que os principais diários portugueses vão debitando graciosamente em linha (nunca "on-line") nos seus sítios internet (nunca "sites") , lanço as mãos à cabeça, tamanho o estendal de erros semeados a eito.

Se nos referimos a Berlim e não Berlin, Moscovo e não Mokba, Munique e não München, por que insistimos em cometer erros facilmente evitáveis ? É Burma em vêz de Birmânia; é o Mar de Andaman em vez Andamão; Beijing em vez de Pequim; Kwangzu em vez de Cantão; Yangoon em vez de Rangun; Aceh em vez de Achém; Sorabaya em vez de Surabaia; Molucas em vez de Moluco; Mombay em vez de Bombaim; Taiwan em vez de Formosa; Bangkok em vez de Banguecoque; Seychelles em vez de Seicheles; Guyana em vez Guiana; Muscate em vez de Mascate; Oman em vez de Omã; Ammam em vez de Amam. Este tremedal anda a reboque da chamada "cultura americana", da ilusão de um prontuário universal, já sem arrimo no latim, no grego e no sâncrito - as línguas universais da sabedoria - e sem qualquer respeito pela etimologia, a ciência do rigor sem a qual não se pode pensar.

Para os nossos pródigos inventores do já inventado, recomendaria como instrumentos de consulta obrigatória o Glossário Luso-Asiático, de Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, À margem dos Lusiadas: alguns nomes geográficos, de Pedro Augusto Pinto e o monumento que dá pelo nome de Glossário Toponímico da Antiga Historiografia Portuguesa Ultramarina: nele se identificam os reinos, províncias, distritos, cidades, portos, vilas, aldeias, lugares, serras, mares, rios, lagos, esteiros, etc: designados, em impressos e manuscritos da antiga historiografia portuguesa untramarina, 3 vols. , do Visconde de Lagoa.



O grande problema do nosso tempo é o do improviso, da falta de método, da dissolução das categorias formais que estabelecem a comunidade do conhecimento. Toda a gente, investida sei lá por que direito, julga que pode pensar e escrever livre do arbítrio da gramática, do dicionário, do prontuário, dos conceitos e dessa coisa com um nome tão pomposo a que agora dão o nome de metalinguagem, mas que os antigos chamavam, simplesmente, de lógica. Quem não sabe português não pode escrever nem pensar. É por isso, na onda da fuga para o vazio que campeia, que as teses universitárias se vão alargando em títulos "pós-qualquer-coisa" que ninguém percebe (está aí o segredo), que o são latinório deu lugar a umas coisas americanas tiradas a ferro das pobres ciências da computação, dos marketings, das gestões e outras filhas bastardas do conhecimento.

09 fevereiro 2009

Eles andam por aí, impunes

Para que a terra não esqueça.

Qualquer dia dirão que "Portugal nunca existiu"


Fábio Pestana Ramos afirma o que já se sabia desde os anos 50 do século passado: a Escola de Sagres nunca existiu e é confabulação do romantismo nacionalista português de Oitocentos. Vai daí, o afã revisionista lança-se em furiosa catilinária contra tudo o que lembre aos nossos irmãos brasileiros o facto de Portugal haver criado o Brasil. Depois da revoada castelhanista que precedeu a celebração dos quinhentos anos do achamento da Terra de Vera Cruz, em que se quis a todo custo esquecer Álvares Cabral e atribuir o feito a Vicente Yáñez Pinzón, veio o debate de signo indigenista sobre a semântica da "descoberta", pois que inspirada pela desconsideração do "Outro" (como detesto a pedante expressão), o que quer dizer que Portugal conquistou e subjugou violentamente os povos aí existentes. Mas falamos do Brasil, não no império Inca. Falamos de uma extensão imensa de terra, povoada aqui e ali por comunidades recolectoras sem contacto umas com as outras [ou em furiosa luta umas com as outras], de grupos e línguas distintos e de completa ausência daquela uniformidade institucional e cultural que, somadas, produzem a civilização.


Fábio Pestana vai mais longe. Afirma que o Brasil foi tido pelos portugueses de Quinhentos como uma terra do Demo, um purgatório destinado ao sofrimento de lançados e criminosos. É estranho que o insigne historiador se esqueça do texto fundador da historiografia brasileira, a Carta de Vaz de Caminha, ou do impressionante documento que dá pelo nome de A História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pero de Magalhães de Gândavo, de 1576. Aí o Brasil, ainda sem o nome confirmado mas com o projecto de terra da promissão, é entendido como o paraíso luxuriante de riquezas e encantos que excedem a capacidade de entender a felicidade dos europeus quinhentistas, habituados a fomes, pestes e rudeza quase dóricas.


Há cerca de trinta anos, antes da fase indigenista, uma certa historiografia brasileira quis exercitar a possibilidade de uma história do Brasil, mas sem Portugal. Foi o tempo de ouro do "Brasil holandês", com hinos e incensório a Maurício de Nassau, ainda persistente entre alguns retardatários. Sim, os holandeses estavam no Brasil para implantar a industrialização avant la lettre, promover a difusão do conhecimento científico, aplicar tecnologias que libertariam o escravo negro do brutal regime da sanzala. Se assim fosse, por que razão haviam tomado S. Paulo de Luanda, porta de saída da mão de obra escrava destinada ao Brasil holandês ? A mesma perspectiva volta contraditoriamente à carga na análise da guerra entre "brasileiros" e holandeses, a qual terminou nos Guararapes (1648). O facciosismo quis ver nessa vitória a certidão de nascimento do Brasil e da "brasilianidade". Coubera aos "brasileiros" reconquistar a sua terra ocupada pelos próceres da VOC e nessa empresa não precisaram nem do Rei de Portugal nem de soldados vindos da Europa.


A verdade que querem esconder é que se houve Brasil, essa foi obra portuguesa, não obra do acaso e das errâncias e feitos de homens duros, como os Bandeirantes, mas de um escopo legislativo que produziu e conformou o imenso espaço a uma unidade irreversível que se veio a realizar com a independência do país. Das capitanias hereditárias às capitanias gerais e aos municípios, aí viveram portugueses e não "brasileiros", pois era essa a designação que ostentavam. Havia "portugueses de Angola", "portugueses de Macau", "portugueses da Índia", divididos entre reinóis (nascidos na Europa) e nascidos no território, mas todos portugueses. O que aqui aflora é, somada à ignorância, a vontade de minorias recém-chegadas em imporem a sua "brasilianidade", nomeadamente os italianos, os alemães, os judeus e até os libaneses e japoneses. Não sendo agentes de construção do Brasil, mas imigrantes que foram ganhando protagonismo e riqueza ao longo das últimas décadas, querem a todo custo impor a sua primazia na fabricação da identidade e do Estado.



Brasil: hino