31 janeiro 2009

Mais uma questão dos sapatos, versão teoria da conspiração


TANAKA, Giichi; CROW, Carl (introd). Japan's Dream of World Empire: The Tanaka Memorial. New York: Harper & Brothers, 1942.
Peça de propaganda anti-japonesa, inicialmente posta a circular na China Nacionalista em finais dos anos 20, depois aproveitada por revistas de duvidosa credibilidade ao longo dos anos 30 e finalmente usada no decurso da Segunda Guerra pelos serviços de propaganda dos EUA. Tanaka fora primeiro ministro do Japão entre 1927 e 1929 e entregara, segundo rezam os editores de tão discutido documento, um longo memorando ao Imperador Hirohito, no qual apresentava o magno plano de domínio do Extremo Oriente pelo Sol Nascente. Primeiro a Mongólia e a Manchúria, depois a China, a que se seguiriam a península indochinesa (o termo Sudeste-Asiático só seria cunhado no decurso da Guerra) e finalmente a Ásia do Sul.
Sabe-se hoje que o documento foi escrito por funcionários da Internacional Comunista visando acelerar a crispação sino-nipónica, ou levar o Kuoumintang a reaproximar-se da esfera de Moscovo após os trágicos incidentes de Março de 1927 em Xangai, que culminaram com o massacre da ala comunista dos Nacionalistas e o início da guerra civil que só terminaria em 1949. Ao serviço do esforço de guerra norte-americano, o texto foi submetido a revisões: inclusão de capítulos de acintoso racismo anti-branco, alargamento geográfico da incidência do plano Tanaka, com inclusão do Havai, da costa ocidental dos EUA e América do Sul como objectivos do expansionismo japonês. Ainda hoje, provada a absoluta falsidade de tão grosseira peça, há quem a ela recorra para justificar a eliminação do poderio japonês, selada com a capitulação, mas, sobretudo, como inibição de qualquer intervenção do Japão (superpotência económica) na política internacional.


Kimigayo (versão tradicional)

Almoço azul e branco


Amanhã, 1 de Fevereiro, pelas 13.00 horas, almoço de monárquicos no restaurante/cervejaria Trindade, ao Chiado, Lisboa. Lá estarão os amigos e leitores dos Carvalhos do Paraíso, do Estado Sentido e de Combustões. Não podendo estar presente - pois vivo na Ásia - não posso deixar de apelar aos amigos desta tribuna para que participem. A situação do país parece abeirar-se de momentos de grande turbulência, pelo que seremos chamados, uma vez mais, a terçar convicções por Portugal. A defesa da pátria exige dos monárquicos lucidez e responsabilidade, coerência e abertura aos dados do tempo presente. Não o fazer, permitindo que outros o façam, é demissão que não toleramos nem compagina com o nosso carácter . Tenho recebido, ao longo das últimas semanas, muitas mensagens de estímulo. Quase inacessível ao chamamento da actividade política, pois sou arredio a toda e qualquer forma de grupismo, não posso deixar de registar tantas e tão expressivas manifestações de amizade. O tempo dir-nos-á quando e de que forma poderemos oferecer os nossos pobres predicados à defesa de Portugal e da sua liberdade.


Elgar: Pomp and Circumstance March nº 4 em G Major

30 janeiro 2009

Pereiras de Brito, Leitões Cabrita, Pachecos da Costa & etc


Eu não sou leitor de jornais, confesso. Faço-o, contrafeito, pela manhã - nunca mais de dez minutos - entre uma taça de café amargo e uma tosta de ovo mexido. Os jornais só me interessam se tiverem mais de cem anos, bem amarelinhos, traçados e encadernados por atacado. A leitura dos jornais de politiquice coloca-me as mesmas dificuldades que jornais de 1893 ou 1902.


Todos aqueles ministros pereiras, silvas, deputados pachecos, ambrósios e justinos, eurodeputados manuéis, flávias e cátias, mais opinativos cabritas, coelhos e leitões fazem parte de um mundo que desconheço. Se há tanto para ler, perder tempo com ignotas inteligências em expansão debitativa parece-me coisa inútil, sobretudo se o tema for a pequena trama de fulanismo, paixão de mandar e "prótagonismo" (sic Jaime Gama) cujo traço se esvai mais rápido que um fulminante.


Hoje tive grande dificuldade em ligar os nomes às coisas ao tentar informar-me sobre a luta de batidores que se trava no PSD. Se não deixa de ser pertinente perguntar o que é o PSD - um partido que nunca existiu ideologicamente, que muda em função do mercado de opiniões - mais difícil será encontrar o motivo que leva o país a perder tempo com pessoas que impunemente se apresentam como Paulos na Estrada de Damasco. Há anos, fez-se campanha promocional pelo "novo Cavaco", na iminência do 70º ou 89º congresso. Durante semanas, pontual como o quartzo, lá surgia o candidato a líder salvador, um homem redondo e aborrecido com a capacidade de expressão de um boião de iogurte, apresentado como "gestor de sucesso" - como se o facto de ser gestor o libertasse da prestação de provas. Depois, como falhou em telegenia, desapareceu e voltou aos negócios. É assim o PSD.

Daquela mole de notoriedades, só me ocorrem dois ou três nomes: Paulo Rangel, Vasco Graça Moura e Assunção Esteves, que fariam carreira pelas próprias pernas onde quer que estivessem. O resto, serve para encher páginas de papel.

29 janeiro 2009

A "questão dos sapatos"


O tema mantém plena actualidade. Em 1885, a pretexto do fincapé birmanês na estrita observância da etiqueta existente na corte de Ava /Mandalay - que obrigava os visitantes a retirar os sapatos à entrada da sala do trono, bem como o de não se apresentarem perante o Rei de chapéu e exibindo armas - os britânicos encontraram um casus belli para declaração de guerra, invasão e anexação do que sobrara do outrora poderoso reino da Birmânia.

As razões invocadas, atiçadas e servindo o declarado interesse da câmara do comércio britânico em Rangun (a outrora capital da Birmânia, ocupada no decurso da segunda guerra anglo-birmanesa, em 1852), epitomizam o desprezo dos ocidentais por tradições consideradas "bárbaras", mas mostram a que ponto a actividade diplomática é bifronte. A campanha anti-birmanesa começou na imprensa londrina, espalhou-se pelos jornais em língua inglesa do Raj, ecoou na Câmara dos Comuns e serviu de lançamento de Randolph Churchill (pai de Winston) para uma brilhante como rápida carreira política.

As acusações feitas aos birmaneses incidiram inicialmente sobre a "criminosa natureza do despotismo birmanês", dos defeitos e crueldade de carácter do Rei Tibhaw - um "criminoso" que era, afinal, um homem de cultura absorvida ao longo de sete anos num templo budista - das práticas selvagens de eliminação de adversários, do carácter pérfido das suas consortes, do ambiente de orgia do harém real. Era, o que se pode chamar, atiçar a canalha londrina e criar atmosfera que permitisse uma guerra popular.


Depois, subitamente, saído do nada, surgiu nos escapartes uma obra de Archibald Colquhoun intitulada "Burma and the burmans: the best unopened market in the world", depressa um êxito editorial pedindo consecutivas reimpressões. Meses volvidos, novas revelações fantásticas sobre a aquisição de armas feitas pelois birmaneses aos franceses - que concorriam com os britânicos do Sudeste-Asiático na abertura de uma fronteira económica com a China - e que essas poderosas armas poderiam cobrar a vida a milhares de mancebos britânicos, caso surgisse uma guerra.


A verdade é que a Birmânia se estava a modernizar e industrializar, que o Estado se estava a adaptar ao regime europeu de tributação, que a fiscalização sobre a actividade ilegal de madeireiros e garimpeiros britânicos encontrava crescentes obstáculos e que as exportações de arroz britânico para Mandalay iam declinando na proporção do crescimento da produção agrícola birmanesa, em acelerada fase de industrialização. Os madeireinos e os garimpeiros pagaram a jornalistas, pagaram a príncipes birmaneses exilados em Calcutá para entrevistas insultuosas ao Rei Tibhaw, fizeram lóbi nos Comuns e cobriram o Vice-Rei da Índia de prendas e abaixo-assinados; em suma, nada de novo, pois já o lóbi do narcotráfico havia feito o mesmo quarenta anos antes para encontrar desculpas para desencadear a "abertura do mercado chinês", naquela que ficou conhecida como a Primeira Guerra do Ópio.


Quando o caldo emocional estava preparado, o Vice-Rei da Índia enviou um Ultimato absolutamente inaceitável aos governo birmanês, exigindo coisas tão absurdas - sabendo de antemão que seriam tidas como impraticáveis - como a de um pedido pessoal de desculpas do Rei birmanês aos enviados britânicos, desculpas que teriam de ser feitas a bordo de um navio inglês, a exigência que os britânicos não se submeteriam a qualquer "prática humilhante" (retirar os sapatos) e que o Rei birmanês deveria punir os funcionários que se habviam limitado a aplicar as leis do país no combate aos especuladores madeireiros e garimpeiros.


O Rei não aceitou, obviamente. Ao expirar o prazo do Ultimato, dez mil soldados britânicos entraram em território da Birmânia do Norte, varreram sem dificuldade as débeis defesas do país, ocuparam a capital e deram "dez minutos, nem mais um" ao Rei para que entrasse numa carroça de bois. O Rei seguiu para o exílio na Índia britânica, os tesouros do palácio foram pilhados pela soldadagem britânica - um dos grandes tesouros do Sudeste-Asiático - e os madeireiros e garimpeiros apossaram-se de terras e minas do território. Em suma, há sempre que encontrar uma "questão de sapatos" para lançar guerras justas ao serviço dos plutocratas.


Começo a compreender o terror que aos birmaneses inspira a intromissão dos ocidentais nos seus assuntos internos.


Para saber mais







28 janeiro 2009

Uma pergunta pertinente



Perguntava-me hoje um amigo tailandês por que razão não tinha Portugal um Rei. Aduziu: "vocês, que tiveram o mais longo império, os primeiros e os últimos a abandonar as possessões que tinham em África, na América, na Ásia e na Oceania, gente tão orgulhosa do passado grandioso que tiveram, país tão pequeno que tem uma das línguas mais falados no mundo, que..., que..., que....". Assim se prolongou em perífrase demonstrativa do interesse que lhe suscita o nosso país. Fiquei encantado por assistir a tal lição até que, para terminar, deixou a seguinte observação: "bem, se países tão ricos e progressivos como o Reino Unido, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, o Luxemburgo, o Japão e até a Espanha preservaram as suas monarquias, Portugal talvez a tenha perdido porque perdeu a razão e se esqueceu do que fora". Não encontrei palavras para lhe dizer que assim fora, que um grupo insignificante de pistoleiros e gente mesquinha e medíocre nos havia morto o Rei em plena rua, que desde 1910 Portugal se tinha, primeiro mexicanizado, depois cloroformizado e agora não sabia o que fazer com o futuro. Senti vergonha, confesso, por um siamês nos olhar como uma Albânia, uma Guiné Papua ou uma República Dominicana. Mas tinha razão. Deixámos que se perdesse o arrimo fundamental da autenticidade portuguesa, substituímo-lo por generais sem batalhas, almirantes sem frota, pequenos plumitivos sem obra, agitadores e homenzinhos escolhidos por paixão partidária, impostos pelas espadas ou sorteados por grupos, camarilhas e facções. Perdemos tudo, não ganhámos nada. E não somos só nós: os gregos, os romenos, os húngaros e os búlgaros queixam-se do mesmo. É fácil destruir as monarquias, mas depois fica para todo o sempre o remorso, o vazio e o sem sentido de toda uma comunidade.

Ano novo lunar com superstição e sabor português / เทศกาลตรุษจีนที่กรุงเทพมหานคร


Até 1932, quando aqui eclodiu a revolução constitucional, os tailandeses regiam-se por quatro calendários: o da era budista, o da era cristã, o ano lunar chinês e reinado do monarca em exercício. Hoje, limitam-se a contar o tempo pelo passamento do Iluminado (2552), pelo ano chinês e pela era cristã (2009).

Os últimos dias têm sido de festa pela entrada do ano do boi. A comunidade chinesa, já muito assimilada, faz os possíveis para manter a tradição, mas dizem-me os mais velhos que dentro de duas gerações pouco restará, porquanto os mais novos, totalmente desinteressados das suas raízes ancestrais, se limitam a festejar pelo prazer de quebrar a normalidade, como o fazem com o dia dos namorados, o Natal e outras festividades onde a dimensão comercial parece dominar.


Como manda o costume, fui a uma cartomante pedir contas ao futuro. A cartomante disse-me o que queria ouvir, pintalgou-o com romance, dinheiro, saúde e sucesso. Perguntei-lhe tudo o que queria. A pequena deusa com ares de procuradora do destino, asseverou-me que seria um ano cheio de dinheiro, boas notícias, uma viagem longa e um inesperado convite. Convite para quê ? Ahhhh, não sei, um convite. Pois, a viagem sei que a farei para visitar a família e o convite poderá limitar-se a um café pago por um amigo. Já não tenho ambições. Se me dissesse que me convidariam para ministro, fugia já para o Camboja ou para o Butão, recolhia-me a um templo e esperaria que se dissipasse o mau agoiro.


A grande manobradora em plena perscrutação do meu futuro. Acertou em tudo, não acertou em nada, pois tudo está por acontecer.


A conjugação do tarot. Poucos problemas, com a justiça e o imperador a velarem pela minha pálida estrela de exilado voluntário.

Para me libertar das estrelas e da sorte, acabei o dia a comer um frango à piri-piri num restaurante perto de minha casa, propriedade de um chinês de Hong Kong que abriu uma cadeia de comida portuguesa pela Ásia. Para mim acabou, finalmente, a festa do boi. Amanhã volto a referir-me ao ano em curso como 2009 ou, para os thais, 2552.

27 janeiro 2009

Diplomacia portuguesa em alta / นักการฑูตโปรตุเกสที่ทำงานให้ประเทศอย่างจริงจังและดีที่สุด



Hoje tive oportunidade de passar os olhos pela imprensa mais lida - os chamados jornais de referência - e o unânime aplauso pela iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros em oferecer aos americanos os préstimos no acolhimento de alguns detidos na base de Guantânamo surge de manifesto. Pesando a gravidade das acusações que impendem sobre muitos dos detidos , o oferecimento de Portugal é demonstrativo de lealdade, coerência e coragem. Enquanto outros estados europeus balbuciam desculpas e evasivas, a nossa diplomacia deu o passo correcto, mostrando que Portugal foi sempre, no quadro histórico de hegemonia dos EUA em que vivemos, um aliado de palavra. É assim que se faz política externa, com realismo, clareza e coragem. Só temos a ganhar - na OTAN, na União Europeia, nas relações bilaterais - quando sabemos harmonizar o interesse nacional com o interesse da maior potência planetária. No passado, assim foi com a Grã-Bretanha; hoje, quaisquer que sejam as nossas dúvidas e sensibilidade pessoais sobre os EUA, há que o fazer, reforçando o papel e influência de Portugal noutros dossiers e questões que se confundem com a existência de Portugal. A diplomacia é uma arte que exige maleabilidade, algum sentido do risco e decisão pronta. Os países fracos devem, pois, possuir um apurado sentido das oportunidades, permitindo-lhes aumentar o poder negocial, visibilidade e boas relações com os estados dirigentes da ordem internacional. Assim se fez. Assim se faça, sempre, no interesse último do país.

26 janeiro 2009

Ataques repetidos à Tailândia / ศัตรูของประเทศไทย



O veneno anda à solta, em grandes doses, pelas parangonas daqueles ditos orgãos de informação que só se escandalizam depois de avisados da benignidade de mais uma cruzada pela "civilização". Depois do sensacionalismo sobre o "massacre em alto mar" supostamente perpetrado pela marinha tailandesa contra "opositores ao regime militar birmanês" - por acaso todos homens, nem uma mulher ou criança, atestando um típico caso de entrada ilegal de imigrantes indocumentados - agora vem a telenovela do pobre australiano que se atreveu defrontar o trono tailandês. Duas numa semana é obra. Só por encomenda ... Para bom observador, não são necessárias mais explicações. Há um governo novo em Banguecoque, por sinal a governar a pleno gás, os amigos de Thaksin estão em apuros, perdendo consecutivas eleições e importa abrir novas frentes.

Se há país nesta região que tem sido amigo dos apátridas, dos espoliados e perseguidos, esse tem sido a Tailândia. Recebeu no fim da década de 1970 cerca de dois milhões de boat people fugidos às maravilhas do concentracionarismo vietnamita, recebeu um milhão de cambojanos que recusaram a "reeducação" de Pol Pot, mais uns centos de milhares de Karenes, Mon's e Shan's fugidos da Birmânia.

Se há país mais amigo e tolerante em relação aos "farangs", esse tem sido a Tailândia, que sempre os desculpou pelos excessos de bebida, noitadas, altercações e até, ofensas graves às leis, crenças, modos e hábitos do país. Fosse o jornalista australiano detido no Laos, na Birmânia ou no novo Eldorado do business mafioso da região - falo, claro, do Vietname - e não mais haveria que uma nótula de 5ª coluna, depressa resolvido com a intervenção da embaixada da esquina.

Não, aqui importa rezar missa todos os dias. Uma estória cada semana - se possível duas - para não deixar adormecer o pagode. Os direitos do homem, expressão redonda que quer dizer tudo e por vezes até não quer dizer nada, bem se podiam interessar pela sorte de populações inteiras escravizadas por governos intrínsecamente ilegítimos, instalados pela força, geridos pela ameaça e entregues a camarilhas de bandidos. Mas não, em vez de mandarem delegações à Birmânia e ao Laos indagarem das práticas mafiosas, dos campos de concentração e do trabalho escravo, dos desaparecimentos no Camboja, da vergonhosa legislação segregacionista existente na Malásia, mandam uns meninos à Tailândia, bem vestidos, bem comidos e bem bebidos, bem instalados e bem guiados para dizer mal de um país que os recebe de braços abertos. Eu por mim, continuarei a olhar este país, este povo e este Rei como modelos extremos de santa paciência e comedimento.
Lendo o artigo que o João cita, só me resta desculpar. No fim, tudo não passa ... de falta de leitura. A leitura, bem entendido, não se limita a papéis despachados pelas agências noticiosas - aquelas que falavam das armas de destruição massiva no Iraque, dos progressos do último plano quinquenal soviético ou da maravilhosa vida que os judeus tinham em Theresienstadt - mas de livros (sim, essa coisa aborrecida de se ler, longos e cheios de páginas). À jornalista que não tenho o prazer de conhecer- até escreve bem e demonstra boa fé - só posso dizer que sobre a Tailândia li, ao longo dos últimos seis ou sete anos, cerca de trezentas obras e milhares largos de páginas pintadas com tinta e continuo sem comprrender muito do que aqui se passa. Essa é a diferença entre o estudo - o amor ao conhecimento - e a militância. Quem estuda quer mais e sente-se, a cada passo, inseguro. Quem milita e vive no agit prop, só quer sangue e coisas escaldantes. São dois estilos. Há lugar para tudo no mundo !


"A jornalista Inês Nadais escreveu um artigo no jornal Público. Não sei se foi uma "tradução" de outrém ou um artigo de fundo. O que me atraiu foi o pasmo, boquiaberto, exclamativo e tão insurgido sobre "o tempo em que havia leis lesa-majestade: o nosso tempo". Muito poderia escrever sobre esse "pasmo" mas o que me importa referir é que existem leis lesa-majestade, leis lesa-presidente da república, lesa-ministros, lesa-cidadãos. Existem leis. A Inês Nadais deve estar incomodada com o facto "majestade". Ainda bem."

O tempo da frioleira


"Como bem o saberás, o que está na moda e na prática é ser-se "politicamente correcto!". Os fogos verbais (do pensamento do Liberalismo e da I República) esgotaram-se e a criatividade passou-se para o lado dos desmiolados, dos analfabetos encartados com um diploma, dos destemperados, dos abusadores e dos oportunistas. (...) Arranjaram um novo tipo de escrita que tem como suportes a frioleira e o rendilhar da prosa. É a Europa em festa."

(Carta de um amigo)


Tem este blogue um contingente de bons e leais leitores. Serão cerca de trezentos - como os Espartanos de Leónidas - aqueles que diariamente seguem as andanças (e atrevimentos) de Combustões. Não são muitos, poucos também não o são. Estimo tratar-se de uma maioria de razão e sentimento portugueses, indiferente às coisinhas e bagatelas do não-pensamento, da anti-cultura, do ideologismo estreito e da xenomania para todos os gostos, da esquerda encavalitada nos textos de Oitocentos à direita à procura de pais espirituais nas bancas do extremismo anos 30, nas vulgatas de um liberalismo só aplicável aos EUA ou de um vago centrismo sem local, sem rosto e sem cérebro.
Há quem deteste e julgue tratar-se de inútil arremetida contra moínhos de vento. Há quem o julgue dispensável, pois não faz serviço a ninguém, não bajula, não faz parte de grupos, não busca lugar algum e, absurdo dos absurdos, não recorre ao insulto pessoal próprio da politiquice canalha, do bota abaixo e do quanto pior melhor. Assim ficará até ao fim, para bem dos Trezentos de Leónidas, para mal dos analfabetos encartados com um diploma, dos destemperados, dos abusadores e dos oportunistas.