24 janeiro 2009

Os portugueses exterminados por Pol Pot / คนโปรตุเกสในประเทศกัมภูชา


Um antropólogo francês, muito versado nas coisas do Camboja, informou-me como quem debita uma estatística, já não haver portugueses no Camboja. Nas suas andanças pelo país indagou, falou com os mais idosos das vilas das cercanias da capital, foi a Sianoukville (outrora Kampong Som) - único grande porto de mar do Camboja, onde outrora vivera numerosa comunidade católica - entrevistou sacerdotes católicos e nada; não há vestígios da comunidade portuguesa cambojana, tragada pelo vórtice genocida do regime comunista de Pol Pot.


Quando o aventureiro e explorador alemão Adolf Bastian esteve no Camboja na década de 1860, a comunidade católica era constituída quase integralmente por "portugueses". "Muitos dos cristãos são de ascendência portuguesa. O actual rei do Camboja [Norodom I] atribui parte da sua educação ao bispo católico [Monsenhor Michè]. (...) Os cristãos constituem a guarda de honra do Rei, que gosta de os observar enquanto fazem exercícios de fogo com artilharia pesada"(1).


Bastian seguira as pisadas de Henry Mouhot, um anglo-francês que anos antes se internara no Camboja vindo do Sião e morrera com as febres endémicas que dominavam a inóspita geografia do país. O Camboja era então um vassalo de Banguecoque, mas mantinha adereços de autonomia. O Rei mantinha corte, administração e exército. No exército e administração pontificavam os "portugueses": "muito imitativos (...) sentem orgulho em vestir-se com trajos europeus, alguns fatos segundo a moda do século XVII, especialmente entre os descendentes dos portugueses, que são numerosos" (2).


Artilheiros, intérpretes, guardas reais e remadores das barcas do Rei, proximidade atestando a grande confiança que neles depositavam - no Sudeste-Asiático, os reis eram figuras semi-divinas que nem de soslaio podiam ser olhadas - a comunidade "portuguesa" prosperou durante séculos, deixando marcas profundas na vida da corte. A comunidade católica portuguesa não era, contudo, uma relíquia blindada na recordação de grandes dias, nem sobrevivera graças a matrimónios endogâmicos. Ainda no século XIX, portugueses continuavam a chegar à capital. O mais famoso destes recém-chegados foi Kol de Monteiro (1839-1908). Prosperou, ganhou os favores do Rei e foi conselheiro real. O seu filho, Pitou de Monteiro, foi conselheiro dos ministros da Justiça e da Educação e um neto seu, Kenthao de Monteiro, educado em França, foi vice-presidente da Assembleia Nacional, Ministro da Educação e diplomata de reconhecido mérito, tendo ocupado funções de embaixador do Camboja na Jugoslávia, Taiwan e Egipto e recebido as mais altas condecorações por serviços prestados, a mais relevante das quais a de Cavaleiro da Legião de Honra, atribuída por De Gaulle durante a visita oficial do presidente francês ao Camboja. Morreu nos EUA, em 2006.


Kenthao de Monteiro

Hoje, tal como na Tailândia, a doçaria mais requintada é ainda a portuguesa. Os Samanah Meas, servidos no fim de repastos, não mais são que os nossos fios de ovos, figuram nos tratados gastronómicos da cultura cortesã khmer e são tidos como "doce nacional". Nos anos de 1950, a princesa Rasami Suthanot, tia do Rei Sianouk, compendiou velhas receitas cambojanas e considerou os "fios de ovos" a quinta-essência do bom gosto gastronómico. Outra marca da influência dos "portugueses" é língua. A moeda nacional do Camboja, o Riel, não é outra senão o nosso velho e desaparecido Real.




Em finais da década de 1950, o Camboja conseguira libertar-se da tutela francesa e ensaiava os primeiros passos na turbulenta política regional, já marcada pela investida comunista no Vietname. Nesses anos, privados do corpo administrativo colonial francês, as autoridades de Phenom Phen tiveram de recorrer às minorias étnicas mais operativas: os chineses, admirados e invejdos pelos seus talentos e riqueza; os sino-cambojanos, produto da miscegenação khmer-chinesa; os vietnamitas, muito odiados pela população e os euro-asiáticos. "Os euroasiáticos eram descendentes dos portugueses chegados ao Camboja no século XVII (...). Perderam desde então todos os traços fisiognómicos europeus, mas retêm os apelidos (...) portugueses: Men de Dias, Col de Monteiro, Norodom Fernandes. Possuem ainda influência na administração cambojana" (3). O rei Norodom Sihanouk, pai do actual monarca, teve como mimistros alguns portugueses, entre eles destacando-se membros da família De Monteiro, cujos sobreviventes se fixaram na Austrália após a tomada do poder pelos Khmeres Vermelhos.




Em 1975 - que foi ano de desgraça para todas as lusotopias, de Angola à Guiné, de Moçambique a Timor e também no Camboja - Phenom Pehn caíu nas mãos de Pol Pot e do Angka, designação pública para o invisível e misterioso Partido Comunista do Camboja. Depois, foram quatro anos de massacres e limpeza étnica de todos os "elementos impuros" da sociedade. Dois milhões de mortos - uma em cada quatro pessoas - e a imposição da Utopia agrária: evacuação das cidades, proibição do dinheiro, abolição da escola e da medicina ocidentais, bem como dos "bacilos" do colonialismo. A Igreja católica e o Islão - os Cham malaios, cuja população era maioritariamente urbana, logo mais exposta aos verdugos comunistas - foram objecto de particular animosidade, deles restando hoje poucos vestígios. Os templos foram dinamitados, os arquivos queimados, os sacerdotes sumariamente executados e os crentes distribuídos pelos campos de morte. Dos sessenta e cinco mil católicos que viviam no Camboja em 1975, menos de mil sobreviveram à fúria assassina dos comunistas. Quando o antropólogo francês me referiu o fim destes nossos irmãos - os Dias, os Silvas, os Pereiras e Fernandes de Phenom Phen - fui acometido de uma sensação de perda. Eles eram também, à sua maneira, nossos compatriotas, dizimados, afogados ou mortos à fome por serem diferentes, por serem cristãos, ou seja, por serem portugueses. Lembro agora que a subida ao poder de um deliquente como Pol Pot foi aclamada pela UDP, pelo PC, MES e muitos devotos do actual BE como uma conquista histórica na luta pelo progresso, pelo socialismo e pela igualdade.


Inimigos do povo e do socialismo: executados

Alimento a derradeira esperança que alguns destes outrora milhares tenham sobrevivido. Talvez a Igreja portuguesa, o MNE e alguma fundação se pudessem associar e enviar uma missão de estudo ao Camboja, pedir a colaboração do governo desse país e proporcionar a esses nossos irmãos a ajuda necessária à restauração da dignidade social e cultural perdidas. Seria uma grande obra de restauração da presença indirecta de Portugal num país que renasce de uma das maiores tragédias do século XX. Lembrando Frei Gaspar da Cruz e Diogo do Couto, que à Europa deram em primeira mão notícia das grandezas da civilização khmer, aqui fica o recado para quem o quiser receber.



(1) BASTIAN, Adolf. A journey in Cambodia and Cochin-China (1864): Adolf Bastian's travels in South East Asia. Bangkok: White Lotus Press, 2005, vol. 3
(2) MOUHOT, Henry. Voyage dans les royaumes de Siam, de Cambodge, de Laos et autres parties centrales de l'Indochine. Londres: sn, 1863
(3) STEINBERG, David J. Camboja, its people, its society, its culture. New Haven: Hraf Press, 1959

23 janeiro 2009

100 anos de vergonha republicana



A não perder, no Portugal Contemporâneo, o desmascarar do mito da República. De referir que na década de 1880, Portugal igualava ou ultrapassava países do norte da Europa. Acabou-se a lenda que alimentou as diatribes da Maldita Geração de 70, literaturas à parte.

Obrigação a que não nos podemos furtar


Cumprem-se esta semana 150 anos sobre a assinatura do primeiro tratado de amizade e comércio entre Portugal e o Sião da era Banguecoque (1859). A dois anos das esperadas comemorações evocativas da primeira embaixada enviada por Afonso de Albuquerque ao Sião (1511), espero com ansiedade que os dois governos se resolvam, finalmente, a aplicar um programa à altura do significado de tais relações, as mais antigas e ininterruptas entre uma nação europeia e um Estado asiático. (MCB)


"No segundo mês (Fevereiro de 1859) o Rei de Portugal enviou Isidoro Francisco Guimarães, governador de Macau, para vir ao Sião como seu embaixador, com José Maria da Fonseca como vice-embaixador e Sìsùkoomeewáruuprassù [Francisco de Mello Baracho] como terceiro enviado, todos acompanhados de outros nobres portugueses.

Chegaram a bordo de um vaso chamado Mongdikoo [Mondêgo]. O comandante do navio era Triikonggarii [José Severo Tavares ?].

(...) O Rei ordenou que os enviados portugueses fossem recebidos e trazidos para Banguecoque. (...) Foram hospedados no edifício de tijolo destinados a visitantes estrangeiros, o qual se situa no canal phadung krungsaseem.

(...) O Rei recebeu-os no dusidmahaapraasaad (sala do trono do palácio real) e estes ofereceram-lhe um samovar de prata, uma grande carpete, duas cenas de batalhas emolduradas, um livro sobre a Rússia, uma caixa contendo perfumes, um telescópio e duas caixas de frutas cristalizadas. Outras ofertas destinadas ao Rei Phrapinklao [Phrabat Somdet Phra Pinklao Chao Yuhua, segundo rei de Rama IV] incluíam um samovar de prata, um par de molduras, uma caixa de perfumes, binóculos, um óculo e duas caixas de licores doçes (1)

(...) O Rei indicou o comité para o representar (...). O tratado consistia em vinte e sete artigos. No dia da assinatura do Tratado e aposição dos sêlos, vinte e uma salvas foram disparadas no forte Widchajeentharáprasàd e o vaso de guerra português [que estava fundeando em frente do palácio] correspondeu à saudação com vinte e uma salvas."

in: CHAOPHRAYA THIPHAKORAWONG. The dynastic chronicles. Bangkok era, the Fourth Reign, BE 2394-2411 (AD 1851-1868). Tokyo: The Centre for East Asian Cultural Studies, 1966, pp. 197-199

Chók dee, thii ráw mii Nay Luang = Grande sorte por termos Rei

22 janeiro 2009

Point final : la gifle…



Cette nuit du 20 au 21 janvier, j'ai moi aussi regardé la télé. C'était bien la nuit à Bangkok. Une nuit noire de fin de mois lunaire… Cette cérémonie qui se voulait grandiose m'a paru bien ringarde, porteuse autant d'inquiétude que d'interrogations graves. Ma pensée vagabonde parcourt ces huit années de règne de George W. Bush. Deux évènements, par leur mise en scène, m'auront particulièrement marqué, ponctuant cette longue période : le 11-Septembre, la pendaison publique de Sadam Hussein. Une mise en scène étincelante pour le premier, sordide pour l'autre quoique illuminée du courage extraordinaire du supplicié… La morale n'a rien à voir dans mon propos…Je ne suis sensible qu'à l'aspect esthétique des choses… Bien ou mal, c'est une autre question… Mon manichéisme ne porte que sur l'esthétique. C'est beau ou c'est laid. Je me garderai de juger l'action politique de George W. Bush, je pense seulement qu'il aura été un piètre metteur en scène.Je parlais d'évènements ayant ponctué cette présidence de George W. Bush. Cette nuit est arrivé le point final : Barak Hussein… prête serment. La gifle ! Catholique, sinon vraiment pratiquant, mais catholique au plus profond de mon cœur, je ne puis qu'être saisi d'effroi face à cette évocation appuyée toute la soirée d'un Dieu nationalisé, du Dieu d'un peuple autoproclamé élu. Décidément je ne suis ni juif, ni musulman, sans affinité aucune pour tous ces chrétiens évangélistes. Mon Dieu n'est pas un Dieu effrayant, un Dieu vengeur, un Dieu méchant. Ce n'est pas un Dieu collectif. C'est un Dieu d'amour, qui habite le cœur de chacun de nous. Un Dieu intime. Un Dieu qui pardonne, et nous demande de pardonner. Un Dieu qui nous a confié à sa mère, la Vierge Marie.

Paul Henri


While the music plays on (Ambrose Mayfair Hotel Orchestra, 194-)

Combustões também em francês

A partir de hoje passa o nosso blogue a incluir a valiosa contribuição de um bom amigo, Paul Henri, académico francês que tive a ventura de conhecer como colega de carteira no curso de língua tailandesa em Banguecoque. Acabou o percurso solitário. Doravante bilingue - talvez trilingue, logo que o thai se encontre em condições de se apresentar em público - Combustões alarga o espectro temático. Estou certo que a grande cultura de Paul Henri dará a esta tribuna novo fôlego.

O que fizeram aos nossos heróis


1975 – Quartel dos RALIS) – “(18 de Maio) Apareceu depois das 24h00 um indivíduo alto, forte e de cabelo e barba compridos intitulando-se 2ª comandante do Ralis – mas depois vim a saber que se tratava de um militante do MRPP conhecido por Ribeiro –, que me estendeu um papel para aí eu escrever tudo o que sabia do ELP. Uma vez que jamais tivera uma ligação com o ELP ou qualquer outra organização, respondi-lhes negativamente. (...) Após isso fui agredido 7 vezes com uma cadeira de ferro nas costas. Fiquei muito ferido. (...) depois apareceram mais dois, um de barba postiça. Mandaram-me despir a camisa e encostar à parede. Um deu-me uma bofetada, eu dei-lhe um murro e o tipo caiu. Entraram soldados, agarraram-me, puseram 3 algemas nos braços e nos pulsos, começaram-me a bater com cadeiras de ferro, partiram-me a bacia e quatro costelas e aleijaram-me seriamente a coluna; às vezes não consigo respirar nem urinar.

21 janeiro 2009

Comer na Chinatown de Banguecoque

Fazem-se já grandes preparativos para o ano novo lunar chinês, que ocorrerá este ano no próximo dia 25. Resolvi, pois, na companhia de um amigo chegado de Portugal, ir a Yaowarat (เยาวราช) bairro chinês de Banguecoque e lugar de peregrinação para os apreciadores de gastronomia sino-tailandesa. Como o movimento não cessa até às cinco da manhã, há quem ali também vá adqurir chá e fruta em lojas pertencentes à poderosa minoria chinesa. O bairro existe desde o século XIX e os chineses, mesmo que bem integrados nesta sociedade - que sempre foi multiétnica e multicultural - persistem em dar uma ambiência vincadamente chinesa às ruas, com o característico formigueiro da actividade, as incessantes cargas e descargas e, claro, o gosto pela comida. Dir-se-ia, em Yaowarat, que a China, com a sua persistente e vincada identidade, possuiu o exclusivo de se reproduzir fora do seu berço com tal naturalidade que parece assim ter sido sempre. Contudo, os chineses nem sempre foram bem recebidos neste país. Até aos anos 50, o chinês era um súbdito olhado de soslaio, um invasor cultural com tal desenvoltura que despertou apreensão de gerações de governantes. No início do século XX, tantos eram os chineses em Banguecoque que se suspendeu a abertura do regime autocrático e a sua inevitável evolução para um sistema representativo por medo da influência eleitoral que tal minoria poderia deter numa câmara de deputados. Nos anos 30, finalmente nacionalizados, aculturados e assimilados, os chineses diluíram-se no corpo social e converteram-se em leais cidadãos, ocupando hoje relevantes posições na vida económica e financeira, académica, cultural e política do país.

O jantar começou com um Kra-praw-pla, uma deliciosa sopa de estômago de peixe, com cogumelos chineses e caranguejo moído.

Seguiu-se um ped-yang, pato assado à moda chinesa, com gengibre, nabo chinês e molho de soja.

Como a fome apertava, veio um koy-jo, um bolo de caranguejo frito, servido com vegetais e molho agridoce. Para terminar, uma sobremesa ligeira, sem açúcar: o tao-huy-yen, gelatina de soja verde coberta de pêssegos e ananás. O acompanhamento foi feito com chá verde frio. Feitas as contas, pagámos 440 Bath, ou seja, 10 Euro.

20 janeiro 2009

Que o desastre não se repita


- Fez-nos a vida negra, armou os terroristas da UPA que cometeram atrocidades inomináveis no norte de Angola e, no fim, foi ao MPLA que coube o poder em Luanda.
- Abandonou Cuba aos guerrilheiros da Sierra Maestra e depois não deu aos anti-castristas o apoio de que necessitavam para evitar a implantação do regime concentracionário de Fidel.
- Envolveu os EUA na guerra do Vietname e tudo fez para que o regime católico de Ngo Dihn Diem (Vietname do Sul) fosse deposto por uma camarilha de generais corruptos amestrados nas academias norte-americanas. Dez anos volvidos, os EUA saíam derrotados do Sudeste-Asiático.
- Facultou pleno apoio à preparação e execução do golpe de Estado do Ba'ath no Iraque. No fim da década, o Iraque estava alinhado com a URSS e convertera-se na mais bem conseguida experiência totalitária no Médio Oriente.
- Prometeu maior liberdade e direitos civis, mas não teve coragem para ir mais além, pelo que coube a Lyndon Johnson o papel de verdadeiro emancipador dos negros norte-americanos.
JFK foi um logro, produto da política de lóbis, da imensa fortuna da família e dessa infantil crença de um sonho que parece só bafejar a plutocracia que se pode dar ao luxo de vestir, falar e pensar como as "working classes". Quando vejo tanto entusiasmo por Barack, só lhe desejo que não siga as funestas pisadas desse falso aristocrata do dinheiro em cuja presidência se cometeram tantos erros. No fim desta maratona-festa de investidura, ficou a sensação de uma enorme campanha de relações públicas destinada ao pouco sofisticado universo mental dos americanos - onde não faltou a patética dança do casal presidencial - e, sobretudo, um imenso paternalismo denunciando o jamais resolvido problema racial. Para bem de todos nós - e continuo a pensar tratar-se de um senhor e um ser bem intencionado - espero que Obama consiga fazer uma boa presidência.

Sabemos mas não dizemos


Um dos mais precupantes sintomas do paulatino apagamento da consciência crítica das pessoas manifesta-se em coisas tão simples como o evitar falar de questões tidas por inoportunas, desagradáveis, fomentadoras do atrito. Em suma, não se fala de religião, de política, de arte, de costumes, pois tudo isso recobre matérias delicadas, sensibilidades feridas, paixões e animadversões subjectivas que importa respeitar.


É preciso encontrar temas do tal consenso que tanto se proclama mas ninguém sabe o que é. O pensamento único, com as suas frases-feitas pronto-a-dizer e a converseta redonda, ao invés de representar o triunfo da concórdia, do bom senso unificador, parece transportar a anulação voluntária, a invisibilidade, a diluição do sujeito. O medo de opor, o terror de ofender, a paralisia de opinar, julgar e criticar leva-nos a perder a faculdade essencial da língua que é o acto de comunicar com os outros.


Dizem que o homem pode viver numa masmorra, corpo enjaulado e encadeado, mas permanecer livre no espírito. Esse sofisma, de que se serviram sempre os totalitarismos para contornar a sua monstruosidade, ou os medrosos que a eles jamais se quiseram opor, não tem valimento. Ninguém é livre se não se sentir liberto de constrangimentos, se não disser o que pensa, se não lhe for dada voz quando chega o momento fatal em que tem de exibir a sua diferença. Sei, de experiência, que a generalidade das pessoas não quer essa liberdade para nada. Troca-a, de bom grado, pela segurança e pela aconchegante sensação de estar com outros, de cantar o mesmo salmo, repetir o mesmo estribilho, agitar a mesma bandeirola. No fundo, até desconfio que a maioria das pessoas não possui vida interior, tão esgotada fica no rescaldo do acatamento que a ordem sobre elas exerce. Com tanta inquisição , com tanto tribunal do pensamento, tanta censura e tanta inibição, acabámos por semear o carácter de armadilhas, alçapões, arame farpado, trincheiras e paredões.


A Europa, outrora ufana e orgulhosa ao ponto de se proclamar rainha do pensamento, transformou-se neste deserto que sabemos. O embotamento tem o seu preço. Hoje, tão iguais uns aos outros, deixamos de ter razões que nos levem a estar uns com os outros, pois nada há a tratar com quem não quer, não deve nem pode falar sem medo de represálias. É preciso sair longe dessa atmosfera para recobrarmos o direito natural de falar, razonar e contrapor.


Há anos tive uma experiência desagradabilíssima. Participava, a convite do Miguel Esteves Cardoso, numa das suas actividades de campanha para o Parlamento Europeu. O lugar ao lado do meu fora reservado ao João Aguiar, cuja obra me havia interessado superficialmente num certo período do fim da minha adolescência. Eu ali estava como dirigente da Nova Monarquia, que era, de longe - e ainda o é, pois nunca mais movimento monárquico algum lhe chegou aos tornozelos - e ele estaria como monárquico. Ora, quando se apercebeu que me tinha como companheiro de circunstância, levantou-se sobressaltado como se estivera sentado ao lado de um leproso e debandou pedindo "quero um outro lugar, que horrrrror".


Hoje tive uma experiência inversa e a todos os títulos gratificante. Em torno de uma mesa de jantar, falámos, meia dúzia de pessoas civilizadas, sobre política portuguesa e tailandesa, sobre arte, cinema e história sem que jamais aflorasse um silêncio. Não éramos todos iguais; éramos todos diferentes: monárquicos e republicanos, de direita e de esquerda, críticos e defensores dos governos (de cá e o daí). Prevaleceu aquilo a que os espanhóis chamavam de oposiciones, essa saudável prática de esgrima que trata de colocar sem máscara as razões de cada em cima do tampo da discussão. Ora, que me apercebesse, ninguém saíu melindrado. Sinto, até, que depois de defenderem a sua visão do mundo, as pessoas se tornam, de novo, mais libertas para o aprofundamento de tudo aquilo que as pode aproximar. Esta é a verdadeira pedagogia da liberdade. Porque os homens não são ilhas e possuem espírito e inteligência, há que lhes restituir essa humanização que o estreito ideologismo e a falsa uniformização perverteram.


The Japanese Sandman (Artie Shaw, 1936)

19 janeiro 2009

A Ágora

Um dos melhores blogues, cinco anos de vida. Para o João Pedro, que até gosta de futebol e eu não, os parabéns de um admirador.

Ora bolas, Barack !

Das coisas que mais me revoltam, o apossamento de direitos autorais encontra-se certamente em lugar de destaque. Porquê ? Porque a inteligência não se empresta, com não se emprestam os dons, as competências específicas de cada um - produto de anos de afinco e canseiras - e essas qualidades que fazem de um escritor um escritor, de um pintor um pintor, de um compositor um compositor.

A oratória política, hoje tão de novo em voga em selectas ou antologias de citações, se constitui parente pobre da literatura, não deixa de ser um género menor a que os teóricos da literatura apõem a designação de "prosa doutrinal". Deixando de parte a micro oratória política portuguesa dos últimos decénios - com as celebérrimas como miseráveis peças do "é só fumaça" e o "discurso da tanga" - há que realçar que o género teve, entre nós, cultores exigentes, modelos de equilíbrio formal, rigor gramatical, riqueza vocabular e mesmo alguns rasgos de genialidade, como são os casos dos nossos tribunos de Oitocentos (os irmãos Passos), o fundibulário António José de Almeida e, muito elevado sobre estes, Oliveira Salazar cujos discursos, como dizia António José Saraiva, poderiam servir para ensinar o idioma português a qualquer estudante de línguas.


Sabemos que Mussolini assinou por baixo um texto filosófico de Giovanni Gentile - "La Dottrina del Fascismo", nada mais que um tardio nascimento intelectual do movimento, nove anos após a Marcha sobre Roma - e que muitos políticos (Franco, Estaline) se apossaram de textos alheios para exibirem méritos de pluma. Se Mussolini não precisava de tal roubo, pois era homem culto e um jornalista de grande fôlego, como de tais misérias Franco poderia prescindir, pois, mesmo com a cartilha de infantaria a dominar-lhe a formação, foi guionista de uma fita (Raza), Estaline comportou-se com um verdadeiro pirata: duzentas páginas da Enciclopédia Soviética exibiam a sua assinatura. Um prodígio para homem que mal sabia escrever, que leu meia dúzia de livros durante a vida e que se chegava a gabar nunca haver lido um texto de Marx.


Hoje foi um dia de pesar. Sabe-se que Obama não mais fará que ler um discurso escrito por Clarence Jones, também autor do celebérrimo I have a dream, que Luther King proferiu na grande marcha contra a discriminação racial e o "apartheid" norte americano. Entra mal um homem que não consegue redigir um discurso de investidura, o fim da sua carreira como político e o início de uma fase nova como estadista. Se eu soubesse que um político que admiro fizesse tal coisa, era suficiente para deixar de votar nele e pedir a presença do verdadeiro político escritor que se esconde na sombra do anonimato. Ora bolas, Barack, o que diriam um Demóstenes, um Péricles ou um Churchill a esta habilidade ?


Melancholy Baby (Benny Goodman, 1935)

18 janeiro 2009

Estes estrangeiros que fizeram a Tailândia / ฝรั่งผู้นี้ได้ทำคุณประโยชน์ทางด้านศิลปะให้กับคนไทยและประเทศไทยเป็นอย่างมาก





Quanto mais progrido nos estudos thais, maiores as surpresas que se me vão deparando. A construção do Estado Moderno no Sudeste-Asiático data de meados do século XIX. Aqueles elementos definidores que a ciência política comumente aponta - população, território e soberania - mais as instituições que efectivam o exercício do poder (tribunais, forças armadas e policiais, burocracia) já qui existiam no quadro da Mandala siamesa (a monarquia "clássica e patrimonial) mas foi grande a engenharia de legitimação (interna como externa) que possibilitou o reconhecimento do Estado como entidade dotada de um passado e actualidade que tornassem possível a sua aceitação pela comunidade internacional e pela população ocupando o território. Aqui como na Europa Oitocentista, a construção da cidadania fez-se mais pela intepretação historiográfica, pela decantação do "espírito nacional" e suas realizações espirituais, literárias e arquitectónicas, que pelos elementos formais externos que a definem.

Já aqui havíamos falado dessa plêiade de italianos expatriados aos quais coube a incumbência de fazer a mise en scène da monarquia absoluta sob os reinados de Rama V (1868-1910) e Rama VI (1911-1925). Nesse notável grupo de latinos contratados pelos reis destacou-se Corrado Ferocci (1892-1962), que chegou ao Sião em 1923. Coube-lhe descobrir e estudar as belas artes siamesas e interpretá-las à luz da História da Arte. No processo de modernização e ocidentalização que decorria, a xenomania permitiu a destruição de um património milenar, tido como escolho ao progresso. As artes tradicioais - o muralismo, a escultura sacra, a ourivesaria e a joalharia, a lacaria - haviam deixado de interessar, as encomendas da corte cessaram e os ofícios e seus mestres, morrendo por falta de estímulo, procuraram outras actividades. Qualquer cadeirão, peça ou pano, castiçal de gosto duvidoso, tapeçaria ou espelho vindo da Europa era disputado pelas famílias da aristocracia de sangue ou pela alta burocracia como marcas de civilização dos seus possuídores. Tudo se copiou. O Sião autocolonizava-se a partir do modelo europeu e a identidade - o fundamento da diferença e da liberdade de uma comunidade - ia-se apagando.

Na vigésima quinta hora, o Rei Rama VI - formado na Europa e muito impressionado com a teorização nacionalista - lançou um vasto programa educativo visando estancar a perda de identidade, fixar o carácter thai e reintroduzir práticas culturais em desuso. Assim, preservou o teatro e a dança tradicionais, reintroduziu as procissões das barcas reais, salvou da desaparição a literatura oral, defendeu a música e instrumentos ameaçados pela adopção da música ocidental, fundou os Arquivos e a Biblioteca Nacional e lançou um programa de conservação e restauro dos monumentos que, por falta de uso, haviam sido devorados pela floresta ou transformados em simples pedreiras. Para completar a restauração artística e cultural, convidou Ferocci para aplicar no Sião o modelo das escolas de belas artes europeias, com a dupla consigna da preservação da memória e estímulo à criatividade no quadro da cultura do seu tempo.


Pelo Sião ficou Ferocci durante três décadas, fazendo trabalho de valências múltiplas, ora como arquitecto de monumentos públicos - Monumento à Democracia: Anusawari Pracha-Athipathai = Monumento à soberania nacional, 1939-40; Monumento à Vitória / Anusawari Chai Samoraphum, 1942) - ora dedicando-se à investigação e publicação de extensos relatórios sobre o património artístico. Em 1943, com avultados meios proporcionados pelo governo fascista tailandês, criou a Universidade das Belas Artes de Silpakorn. Por esta altura, já falava, lia e escrevia correctamente o thai, pelo que se havia transformado num homem da terra. Rodeado de grande corte de admiradores, Ferocci tornou-se cidadão tailandês e passou a chamar-se Sin Phirasri (ศิลป์ พีระศรี). Ao regressar a Itália, no ocaso de uma vida plena, o Estado Tailandês tributou-lhe as maiores condecorações e honrarias. É hoje venerado pelos milhares de alunos da Universidade que fundou e até tem direito a efígie nos selos postais e moedas comemorativas. Todos os dias, pela manhã, aos pés da sua estátua são depostas flores e doces e do seu dedo pende um fio de algodão, símbolo da pureza longeva.



Rák Meuang Thai = Amar a Pátria Tailandesa (1942)