17 janeiro 2009

Salvatori mundi


A necessidade da crença é património psicológico dos homens. Hoje, finalmente recuperado, passeei pela grande livraria do Paragon e verifiquei quão alta é a expectativa em torno do novo imperador norte-americano. São dezenas os títulos sobre uma figura até há pouco tempo quase desconhecida dos norte-americanos e do mundo: cartas, entrevistas, biografias, panegíricos, memórias, iconografia inundam os escaparates. Vai ser, a partir da próxima semana, o mais poderoso dos líderes mundiais. Contudo, os Estados não são os homens. Obama poderá fazer lifting e cirurgia localizada, mas não pode mudar os grandes vectores que condicionam, interna e externamente, o comportamento dos EUA. Talvez, quem sabe, daqui a meia dúzia de meses terá de decretar uma qualquer guerra localizada, uma expedição punitiva, um bombardeamento. Nessa altura, pela enésima vez, os sempre felizes goliardos do "novo homem" cobrirão os muros de dichotes OBAMA GO HOME e OBAMA CRIMINAL, dedicados àquele que é aguardado como o salvatori mundi.


Ele é a nossa glória (1938)

16 janeiro 2009

O herói


"Quando fores grande não vais à guerra porque esta guerra vamos vencê-la" (Daniel Roxo, 1969, a uma criança portuguesa africana).
Invoco aqui também exemplos outros de "militares não profissionais" que abalam até à base a ideia do "profissional das 9 às 5": Marcelino da Mata e D. Francisco de Bragança van Uden. Como cantava a Cilinha num fado hoje proscrito, "em torno da bandeira não há praças nem galões, mas só soldados de Portugal".
Para os nossos jovens, intoxicados com essa porcaria humana que dava pelo nome de Che, Roxo foi um verdadeiro exemplo de combatente e símbolo de tudo por que lutávamos. Homem humilde, com a 4ª classe, foi mais general que muitos que não ousaram defender Portugal quando este mais precisava. Mas morreu bem, na terra africana que amava. Só me angustia saber se a mulher negra com quem casou e a criança que deixou foram algum dia apoiados pelo Estado Português. Continuo a acreditar que a mais nobre maneira de se morrer é pela pátria. E daqui não saio. Sei que para muitos isto é chinês !

14 janeiro 2009

Expressões que detesto (5): "exército profissional"




Nunca compreendi a entusiástica opção pelo chamado "exército profissional" e o falso debate que antecedeu a adopção de tal medida. Sopesadas as razões invocadas, tudo me cheirou a mera contabilidade eleitoral, a decapitação da autonomia de um pilar essencial da defesa nacional, à subjugação do corpo de oficiais ao regime, à destruição da ética militar - necessariamente autónoma - e à imposição do espírito de funcionários públicos aos militares.


A questão do profissionalismo é daquelas mentiras insultuosas com que têm de viver aqueles que juraram pela bandeira defender a pátria com o sacrifício da própria vida e vêem reduzidas as suas carreiras a negociações para a obtenção de subsídios, regalias, tabelas, descontos e reformas. Se ao menos as Forças Armadas se tivessem aprimorado nas vocações, no perfil técnico e na capacidade de desempenho. Mas não, se ontem era obrigação de todo o mancebo cumprir o Serviço Militar Obrigatório - onde aprendiam a respeitar horários, a ordem, a hierarquia, os símbolos nacionais - hoje as Forças Armadas vivem em absoluta penúria, a ela chegando quase e só aqueles que no "mercado de trabalho" não encontraram lugar.


Servi durante seis anos na Infantaria, sempre em unidades operacionais. Aí aprendi a ordenar e obedecer, percorri milhares de quilómetros por montes e vales, dormi no chão, no frio e no calor em tendas que eram verdadeiros trapos, comi centenas de rações de combate, passei centenas de noites em serviço e não me queixo. Foi para mim uma excelente escola. Se por lá não tivesse passado teria perdido muito do que sou como carácter. Olhando para a balbúrdia que vai pelas universidades, pela cultura respondona do protesto, pela incapacidade da maioria dos nossos jovens em aceitar a autoridade e o trabalho de equipa, só posso deplorar o fim desse SMO que era, para muitos, a primeira e verdadeira escola de dever (e até de asseio) que lhes permitia arrostar os desafios da vida profissional.


Invocam os "civilistas" que gostam de brincar aos soldados em mestrados e doutoramentos que a guerra se tornou demasiado complexa para poder ser feita por gente impreparada. Pois, comparemos o desnorte que vai pelos profissionais americanos no Afeganistão e no Iraque, comparemo-lo com a prontidão e eficiência das máquinas de guerra de Israel e da Rússia e daí tiremos conclusões. Se estivesse nas minhas mãos, reinstituiria imediatamente e sem apelo o velho e saudoso SMO.

Moscovo saúda-vos (2002)

Mais caridade, menos "políticas sociais"



SM o Rei deu ordens expressas para que todas as crianças pobres da Tailândia recebessem hoje, nas escolas primárias e secundárias, uma camisola e uma manta que lhes garantam protecção contra as temperaturas frias que se têm feito sentir nos últimos dias. Eu, que sou mais pela caridade, acto de oferta e partilha sentida que nasce da generosidade e da responsabilidade individual, compreendo o apelo do monarca. Logo, as fábricas ofereceram dois milhões de agasalhos. Não se esperou por uma reunião extraordinária do Executivo, nem pela demorada discussão sobre as verbas a afectar ao OGE, nem houve debate parlamentar, muito menos saíram a terreiro sociólogos de serviço e outros especialistas nas dores alheias. O Rei ordenou e na manhã seguinte o exército cumpriu: os industriais foram contactados, as escolas reuniram as crianças transidas de frio e num ápice estavam vestidas e resguardadas. O Rei é visto como pai e protector. É por isso que me atrai o poder personalizado, com rosto e coração. Há quem não goste dos pobres e os matematize e transforme em estatísticas. O Rei mostrou que a caridade, mais que as "políticas sociais" - eufemismo para burocratas frios a brincarem aos deuses - é a resposta para as urgências.

Thaksin amnistiado ?


O Nuno acaba de transmitir algo que estava a ser ventilado como solução para encerrar a prolongada crise em que viveu imersa a Tailândia. Sobre isto já tínhamos falado e concordado: há que enterrar bem fundo a crispação, dar o benefício da dúvida, evitar a vingança sobre os derrotados, tratá-los com dignidade. Parece, decididamente, que o bom senso triunfa e a Tailândia demonstra a benignidade da sua cultura política e carácter cultural. No passado, os reis siameses eram conhecidos pela magnanimidade com que tratavam os proscritos, os inimigos derrotados e os dissidentes. O caso de Thaksin não é o primeiro nem será o último. Sempre que o seu nome é referido, ocorre-me o nome do Príncipe Prisdang (lê-se Prissadang), meio-irmão de Rama V (Chulalongkorn), que depois de muitas viagens diplomáticas pelo Ocidente quis ver um Sião constitucional e acabou homiziado no Ceilão como monge. Voltou muitos anos depois e foi perdoado e reabsorvido pela corte. As monarquias têm o dom de perdoar e sobre todos estender a capa protectora. À mudra do Buda magnânimo chama-se Abhaya. Hoje, se se confirmam os rumores, Thaksin deporá aos pés do Buda Abhaya o incenso e as flores e sentir-se-á livre para retornar ao seio dos seus. Isto seria impensável no Ocidente, que sempre cultivou a vingança como corolário da luta política: quem ganha tem direito a esmagar o vencido, transformá-lo em cabeça de turco, diabolizá-lo e enjaulá-lo para gáudio dos vitoriosos. Aqui funciona uma outra psicologia política: quem vence só tem o dever de perdoar. Thaksin é um homem com grandes qualidades e muitos defeitos. A prová-lo, o ódio e o amor que muitos lhe tributam. Talvez, quem sabe, venha a ser de novo no futuro um grande empresário e até tenha revisto [e compreendido] a falta que um Rei faz a esta politéia. Numa república, Thaksin passaria o resto da sua vida exilado ou seria, até, abatido. Aqui acaba por triunfar o ethos budista. Excelente lição.

O caso das ambulâncias em boas maõs

13 janeiro 2009

É crime desprezar o futebol ?


Caramba, estive a estudar até tarde e quando abro a caixa de correio electrónico recebo vinte e dois indignados, afrontados, iracundos exigindo desculpas. Não as dou, claro, pois haveria ofensa se estivessemos a tratar de matéria nobre. Mas não - repito - o futebol é coisa insignificante e tola, com a agravante de ser escola de crime, corrupção, alienação, atraso mental e factor de perturbação, fora e dentro dos estádios. É um jogo, porventura paupérrimo, e não lhe vejo arte alguma. O assunto "futebol" está encerrado, pois disso não quero saber, não me interessa, evito e até finjo que não existe.
Nunca li nenhum desses portentos que são os jornais dos futebóis - é deveras espantoso como sobre coisa sem substância se pode escrever tanto - fui meia dúzia de vezes empurrado para assistir a jogos e até adormeci, tamanho o interesse que a coisa me inspirou.
Não compreendo, simplesmente, o que anda à solta na cabeça e coração dos "torcedores" e de que "mística" falam, não sei o que é "atirar a toalha para o chão", nem o que é "ganhar o jogo nos balneários" ou uma "chicotada psicológica". Tento decifrar, em vão, o discurso de dirigentes, treinadores, jogadores e fãs, naquelas noitadas até às três e quatro da manhã em que uns senhores sem o sentido do ridículo, velhos e gordos, falam de coisa que não existe com enlevo de crianças. Vê-los com aqueles cachecóis, as bandeiras, os apitos, os bombos, hurrando e guinchando, fazendo gestos, levando as mãos à cabeça, eufóricos ou despedaçados, tudo fica áquem da minha capacidade para entender essa festa. Um fim de semana de cãibras estomacais, seguidas de três dias a discutir o que se passou num estádio, seguidos de três dias discutindo o que vai acontecer no próximo domingo num outro estádio. Piada ? Nenhuma.
Aos fanáticos dessa coisa só lhes posso recomendar: se a vida é tão curta e há tanta coisa interessante para conhecer- tantos livros, tantos quadros, tantas fitas e tanta música - por que razão malbarateiam as meninges com tal voyeurismo ? Se ao menos os fanáticos da bola fossem desportistas, ainda lhes recomendaria uma piscina, um ginásio, uma pista de corrida ou de obstáculos. Mas não, os religiosos da bola não cultivam a força, não têm flexibilidade nem coordenação motora. O principal combustível da religião da bola é a cerveja - essa bebida intragável com sabor a baratas - pelo que a forma dos seus fãs oa vai aproximando lentamente do esférico. Porque será ?

O paraíso canalha


Aos poucos, dão cabo de tudo. Vale tudo. Em todo o lado. Pois é, por todo o lado se espraia, imensa, imparável e avassaladora a mancha da canalhização horinzontalizadora, por todo lado se compara aquilo que é superior, que inspira e eleva com aquilo que é medíocre, baixo e acicatador do reles. É a desdita do nosso tempo, a de fazer crer que tudo é igual, que tudo é estimável e que tudo pode jogar com tudo. É o totalitarismo, eventualmente o pior por que inconsciente, com a sua raivinha, o seu vedetismo e atrevimento e uma quase criminosa inclinação para sujar e deformar tudo aquilo em que põe as manápulas. É a americanização, dizem os fatalistas; é a democratização, dizem os optimistas. Mas que não, se a democracia é isto, isto é um ultraje à justiça, um freio à genialidade, à criatividade e à liberdade. A democracia exige homens cultos e preparados, exigentes, inquietos, questionadores. A democracia pede mais liberdade em nome de um direito natural que a todos deve contemplar e recobrir: o direito ao reconhecimento pelo gabarito, pela inteligência e pela livre expansão dos dons com que cada nasceu. Democracia não é oclocracia, nem plutocracia, nem demagogia. Se assim for, estamos condenados, irremediavelmente condenados a uma era de embotamento glorificador de futebolistas, jogatadores da bolsa e patetas. Infelizmente, é para lá que se caminha. Nesta nódoa, que falta faz um pouco de Versailles e de Ancien Régime, com os seus chevaliers d'épée, as suas academias, os jogos de erudição, os duelos de honra e o serviço do Rei. Tudo isso passou, a canalha não quer subir à aristocracia de maneiras e espírito, mas o inverso: é o momento em que aqueles que poderiam aspirar à aristocracia descem ao nível da canalha.


La foule (Edhit Piaf)

12 janeiro 2009

A Tailândia é uma cozinha


Com a crise sanada, arrumadas as armas e a normalidade a instalar-se, vejo turistas por todo o lado. Passou o choque da ocupação do aeroporto, os europeus congestionam-se nos guichets das chegadas internacionais, os táxis e tuk tuk andam numa rodaviva transportando forasteiros carregados de sacos de compras. Os pequenos hotéis da minha vizinhança estão lotados, como lotados estão os restaurantes para todos os bolsos e paladares. Após cinco dias de febre, apeteceu-me sair e passar o domingo entregue ao dolce fare niente. Para quebrar o jejum imposto pelo "incidente clínico", aqui vos deixo a relação das iguarias do dia de ontem.

Pequeno almoço tardio. Entrada: Meang kam, receita que data do primeiro reinado da actual dinastia. Folha de betel guarnecida com gengibre picado, cebolinha vermelha picada, amendoim, camarão seco, lima, massa de coco seco e molho agridoce.







Prato: Khao na moo, porco frito com arroz japonês, ovo e cebolinha.

Almoço (muito tardio): Como entrada, Kung wan, camarão seco agridoce, servido frio. Seguiu-se uma japonesice siamezada: Yakisoba (massa japonesa com algas e soja), acompanhado por shushi e pastéis de carne com molho de salmão. A acompanhar, um caldo misui.

Jantar (tardíssimo). Começo por um "set" de hamburguer japonês, acompanhado de legumes fritos em manteiga, arroz, salada e kim ji.

Como sobremesa, rotee, um doce muçulmano do sul da Tailândia: ovos, açúcar e leite condensado.

Fiz contas ao fim do dia. As três refeições custaram-me 420 bath, ou seja 9 Euro. Barato, não ?

11 janeiro 2009

Como matar o cesarismo e a demagogia



Resultados das eleições parciais hoje realizadas na Tailândia, destinadas a preencher 29 lugares para deputados, cujos titulares haviam sido impugnados no exercício das suas funções: 20 lugares para a coligação monárquica no poder, 9 lugares para a oposição afecta aos thaksinistas. Ou seja, após um mês de governação, um primeiro-ministro sereno e civilizado e o anúncio de programas de reforma social, a demagogia e adeptos dos métodos caciquistas sofrem tremenda derrota eleitoral, confinando-se agora a redutos no norte e nordeste, onde ainda funciona a malha do controleirismo. A nota mais saliente vai para o inexpressivo resultado da coqueluche de Thaksin, o recém criado Pheu Thai ("Para a Tailândia"), que se confunde com o Movimento Contra a Ditadura (os "vermelhos"), que obteve cinco lugares. Como aqui disse há semanas, acabou a turbamulta, a paz voltou às ruas, o governo governa, a polícia policia e o trabalho retomou a normalidade. Os adeptos do quanto pior melhor sofrem uma penalização inesperada, pois a situação económica não é favorável, facto que aumenta a expressão da vitória monárquico-governamental.


Li há tempos no Human Smoke: the beginnings of World War II, the end of civilization, de Nicholson Baker, uma curiosa análise sobre a inépcia do governo alemão nos dois anos que precederam a ascensão de Hitler ao poder. Se os governos de Weimar tivessem operado com determinação e mão de ferro para assegurar a vigência da democracia, se os sociais democratas tivessem então travado o duelo com o Partido Comunista e se os conservadores e monárquicos se recusassem a qualquer pacto com o Partido Nacional-Socialista, tudo teria sido diferente. Aliás, em finais de 1932, a crise económica estava virtualmente ultrapassada, Hitler havia perdido para Hindenburg as eleições presidenciais de Março e o partido nazista estava em acentuada queda eleitoral (de 38% para 33%). O que fizeram ? Em vez de o perseguir judicialmente pelas mil e uma ilegalidades cometidas pelos seus seguidores, medidas que poderiam até envolver a extinção do NSDAP por crimes contra a Constituição, deram-lhe voz. Os banqueiros forneceram-lhe crédito ilimitado, retirando da agonia os cofres do partido, a sua imprensa em ameaça de fechar portas e o lumpen de desempregados que servia o partido para as arruaças sem vencimento, a Igreja Católica não exprimiu qualquer indicação de voto aos 40% de alemães a ele fiéis e o exército (maioritriamente monárquico) afivelou suicidária imparcialidade. Hitler teria ficado na ribalta por mais quatro ou cinco anos até se perder na vida grupúscular do extremismo sem votos. Teria sido, porventura, jornalista ou editor, animando publicações de circulação restrita destinadas a cultores do esoterismo. Dele teria ficado pouco, ou nada.


O cesarismo e a demagogia combatem-se com a lei e serenidade, pois o extremismo requer o caldo de agitação, crispação, medo e irracionalidade que leva as pessoas a fazer o que nunca fariam sem o acicate da perturbação. Aqui na Tailândia foi hoje a enterrar o cesarismo e o espectro do caudilhismo plutocrático. Hoje encerrou, de vez, a "crise tailandesa". Thaksin, que tem perdido milhões com a sua estrela declinante, vai regressar, mais tarde ou mais cedo para se dedicar aos negócios. Será, eventualmente, amnistiado e dele perder-se-á o rasto.


Adieu, mein kleiner Gardeoffizier (Richard Tauber, 1930)