10 janeiro 2009

Um debate sem mortos nem feridos Portugal-França


Restabelecido das febres e a convite de Xavier Galland - historiador francês aqui estabelecido e que tem publicada obra apreciável no domínio das relações franco-siamesas - travei hoje interessante debate na Faculdade de Belas Artes de Silpakorn. Muitos alunos e professores, curiosidade e alguma perplexidade por verem um português numa sessão sobre a cultura francesa na Ásia. Não houve nem mortos nem feridos na contenda, pois tratava-se de matéria há muito sanada:


- A imposição pela Santa Sé e da famigerada Propaganda Fide a Portugal da submissão aos vicários apostólicos que Luís XIV quis ver no sudeste-asiático;
- O ultraje do nosso Padroado do Oriente às mãos da Société des Missions-Étrangères;
- O clamoroso fracasso dos bons prêtres gauleses na conversão dos siameses;
- A revolução "xenófoba" de 1688 e o triunfo moral dos portugueses, que salvaram do esquartejamento os "bons padres" e continuaram em terras do Sião após a partida dos soldados que o Rei Sol aqui enviou.


Foi difícil, pois os predicados de Galland tornaram-me a tarefa penosa. Os franceses possuem a rara qualidade de falar bem e com éclat, expor com clareza e terem, sempre, a lição bem alinhavada. Eu, como português, vali-me da nossa emérita prosápia e capacidade do improviso, que sempre fazem o seu efeito devastador, pois perante tanta segurança tomam-nos por peritos. Eu, do Sião do século XVII pouco mais li que o Journal de l'abbé de Choisy, as Mémoires du comte de Forbin, a Relation des Révolution arrivée à Siam dans l'année 1688, de Desfarges e a bibliografia contemporânea que trata da revolução siamesa de 1688. Pois bem, mas guardara uma arma secreta para a utilizar no momento derradeiro.


A França aqui chegou com promessas de ajuda contra holandeses e britânicos, semeou copiosa intriga contra os portugueses, instalou-se e, no fim, quis obrigar o Rei Narai à conversão e estabelecer-se manu militari no Sião. Tratou-se de uma verdadeira intriga internacional. Em Versalhes, os padres das Missions Étrangères, protegidos pela amante do Rei (ou antes, sua mulher secreta, Madame de Maintenon), quiseram fazer crer ao Rei Cristianíssimo que o Sião estava maduro para aceitar a missionação e conversão a Roma. Foram ao Papa, mentiram-lhe e prometeram-lhe um novo Japão, ou seja, um absoluto sucesso de conversões.


Daí, com a ajuda de um aventureiro grego (Constantine Phalkon) que pelo Sião subira tão alto que se transformara em valido do rei de Ayuthia, encheram a cabeça do monarca siamês de projectos expansionistas, construíram-lhe um palácio de pedra e água corrente, edificaram-lhe um observatório astronómico e convenceram-no que grandes dias estavam para chegar. Phalkon, que trabalhara como embarcadiço na fleet da Honourable East India Company e que depois estivera em Java trabalhando por conta própria em negócios de "import-export" que roçavam a pirataria, era casado com uma luso-japonesa. Falava e escrevia bem a nossa língua, como se impunha a qualquer homem de negócios, pois que o português era e permaneceria até meados do século XIX língua franca nas relações internacionais do extremo-oriente e sudeste-asiático.


Mentiu a ingleses, trapaceou persas - que aqui possuiam importante actividade comercial - e tentou mentir aos portugueses. Os portugueses de então não eram propriamente ingénuos nestas andanças, pelo que tudo fizeram para impedir a aventura francesa, lesiva para os interesses portugueses e igualmente perigosa para a minoria católica luso-siamesa existente em Ayuthia. O Professor Galland ofereceu uma imagem vívida da embaixada do Rei Sol, encabeçada por um tolo arrogante que dava pelo nome de Chevalier de Chaumont, huguenote recém convertido ao catolicismo, logo mais católico que os católicos, mais zeloso na exibição da recente fé e cheio de afã apostólico roçando a agressividade. O Grego, sabendo os franceses absolutamente virgens em tudo o que tocava o protocolo asiático, disse ao embaixador de Luís XIV que o Rei de Ayuthia o receberia do cimo de uma varanda e que ele [embaixador] devia depositar a carta de Luís XIV numa bandeja de ouro. Depois e mil e um acertos, os franceses lá se predispuseram e foi realizada cerimónio de recepção em Lopburi, cidade a norte da capital. Ora, afinal o embaixador francês fez papel de vassalo, pois os vassalos do Sião não se podiam colocar à altura do Grande Rei Narai e limitavam-se a vê-lo de baixo.


Foi aqui que lancei a minha V2 de algibeira. Tirei da carteira a Embaixada ao Sião de Pero Vaz de Siqueira (1684-1686), transcrita na íntegra do pó dos arquivos por Leonor de Seabra, traduzida magistralmente para o inglês por Alan Baxter e publicada em 2005 pela Universidade de Macau graças ao empenho do Professor António Vasconcelos de Saldanha enquanto Presidente do Instituto Português do Oriente. Nesse extenso relato de 400 páginas, o que salta à vista é coisa que espantou os nossos amigos franceses: o Embaixador português não foi recebido na varanda, sentou-se frente ao Rei Narai de botas e espada e com ele travou de igual para igual as matérias relevantes da missão que o levava ao Sião. Assim, para os siameses, as únicas relações de Estado a Estado eram com Portugal e os outros, franceses, ingleses e holandeses estavam ao mesmo nível das delegações de Patani, dos Shan, dos principados laocianos e outros tributários. Era como se quisessem fazer crer ao actual embaixador de França em Banguecoque que o Rei tailandês só o recebia se aquele se deitasse ao comprido no chão e o saudasse com as mãos em posição de oração um pouco acima da testa ! Os franceses fizeram-no e o Rei siamês pensou que não passavam de enviados de um seu admirador na distante Europa.


Enganados os franceses, tratou-se de enganar os siameses, enviando-lhes uma embaixada a França para fazer crer ao Rei Sol que novos súbditos se haviam constituído no remoto Oriente. A embaixada, a bordo do Soleil D'Orient - com elefantes, animais exóticos, muito ouro e prata - afogou-se nas Tormentas. Nova embaixada se preparou, desta vez com arribada bem sucedida à Europa. Ora, em Versalhes, o embaixador siamês Kosa Pan, foi confrontado com a imposição da "ajuda militar" francesa ao Sião; por outras palavras, como se hoje um qualquer governo pedisse ajuda à França e esta lhe enviasse, não conselheiros e meios, mas um exército. Assim chegaram ao outro extremo do mundo seis meses depois. Lançaram pé em terra e ocuparam Banguecoque. Logo, um levantamento nacional anti-francês levou a um golpe palaciano, o Grande Rei Narai "foi acometido de morte súbita" e o seu valido Grego despedaçado. Caçados como lebres, os franceses fugiram e acabou em tragédia uma enorme teia de mal entendidos. A França estava, decididamente, virgem em tudo que ao Oriente dizia respeito. Por tais paragens só se voltariam a ver em meados do século XIX !
Foi uma tarde bem passada entre pessoas inteligentes e dialogantes, tratando daquilo que me apaixona; ou seja, do passado, pois que o presente pouco me diz. Talvez daqui a trezentos anos me venha a interessar pelas andanças da politiquice portuguesa e siamesa de inícios do século XXI.

09 janeiro 2009

Eu andava a sujar-lhe o blogue



Vieram dizer-me, espantado fiquei, ingénuo sou, que um homem que aqui apresentei há tempos como exemplo de coragem se havia queixado a amigos - barbadinhas barrigudinhos e sorridentes, como devem ser os adeptos da inteligência esclarecida - que o seu blogue, com os seus 50 leitores diários, se estava a "sujar com tantas visitas vindas das bandas monárquicas". Obrigado pela sinceridade. Para não lhe pesar on bloguímetro, trata de saltar borda-fora o nome do falso homem de diálogo. É assim que vamos conhecendo a estreita trama dos cerebrozinhos dessa maldita geração de 60 que, quase defunta, teima em querer dar-nos lições de democracia e tolerância.

06 janeiro 2009

Fogo, frio e delírio


Finalmente, catorze meses no Sudeste-Asiático cobrados pela natureza. Um febrão misterioso, chegado com a fulminância de um raio, deixa-me imóvel na cama, com picos de 40 graus, uma transpiração aluvial e um frio gélido que atinge o tutano. Ontem, após doze horas de convulsões, até tive uma alucinação. É verdade, a luz do dia passou a ser vermelho, de um vermelho cor de sangue e cheguei a perder acuidade auditiva. Valeu-me uma alma caridosa, uma vizinha que passou a tarde a ouvir o Barbeiro de Sevilha que eu comprara na antevéspera. Pensei ser o dengue ou a febre amarela, mas o médico sossegou-me: tenho, apenas, uma "pequena febre". "Você reage bem, parece um asiático, isso vai passar", aduziu. Ele não sabia que sou filho, neto e bisneto de portugueses nascidos em África e que estamos, como um dia lembrou Almerindo Lessa, imunizados contra estes assaltos. Compreendo agora como foi impossível que até finais do século XIX os ocidentais aqui se instalassem e que os Portugueses, já muito rodados em todos os padecimentos tropicais, prosperassem em tais paragens. Amanhã quero por-me de pé, pois tenho de ir de madrugada ao aeroporto receber um amigo vindo dos gélidos confins da Europa. Desculpar-me-ão os leitores pelo silêncio. Não é nada, apenas uma pequena febre de 40 graus, curada com o Barbeiro de Sevilha e chá verde.


Largo al Factotum

05 janeiro 2009

A república, essa trapalhona


Ainda há dias, falando com dois amigos portugueses aqui em férias, levantou-se a questão da República em Portugal, dos mitos que a envolvem ou das feridas que jamais sararam, do sulco profundo de ressentimento que deixou e da ausência de obra material e cívica. A República foi um desastre:

- Invalidou a transição do liberalismo para a democracia, fenómeno que estava em germinação através da contestação aos clubes-partidos do rotativismo;

- Impossibilitou a criação de uma esquerda programática e respeitadora do gradualismo inerente à social-democracia reformista do princípio do século XX, caucionando o surgimento de uma esquerda radical que predominaria até aos anos 70 do século XX;

- Atirou a direita para o extremismo e para a auto-exclusão, fazendo crer que o mal era a democracia; logo, tornou-a refém de soluções autoritárias.

Os 100 anos de vida nacional que transcorreram desde essa fatídica data demonstram que a República, nada tendo resolvido quando chegou o seu momento, deixou como herança um estendal de problemas que ainda hoje pagamos.


Liebeslied (Kreisler)