
O caríssimo Tiago Moreira parece ter ido beber ao panfletarismo republicano tardo-Oitocentista para reunir dois argumentos hoje absolutamente indefensáveis:
1. A monarquia é um privilégio familiar. Argumento movido pelo acicate do despeito, desconhece que a monarquia não é o Rei, que se submete a leis e a um juramento de serviço sem o qual não é investido. De facto, na constituição histórica como no liberalismo, o Rei é imputável e responsável pelos seus actos, no exercício de funções ou fora delas. Um Rei que não cumpra as suas obrigações ou não se submeta às disposições constitucionais e à herança consuetudinária é substituído através de mecanismos de substituição (vide D. Afonso VI, v. Eduardo VIII). O filho do Rei será Rei se, e apenas se, aceitar a incumbência no respeito pela constituição. Os regimes ditatoriais sentiram a tentação de manipular o princípio da primogenitura régia e a introdução de um princípio electivo, como aconteceu na Itália fascista. Os fascistas queriam que a sucessão fosse aprovada pelo Grande Conselho do Fascismo, pois o Príncipe Humberto de Sabóia não era fascista e constituía um travão à expansão do programa totalitário de fascistização da Itália. O "republicanismo fascista" nasceu, assim, da compensação de, não podendo domesticar a monarquia, substituí-la por uma chefia de Estado agrilhoada. A monarquia, forma não democrática de escolha e sucessão da chefia do Estado é, assim, o melhor garante da Liberdade colectiva e de uma chefia de Estado independente e imparcial. A monarquia é caução de democracia.
2. A "monarquia absolutista". Sabe o caríssimo Tiago Moreira que tal "monarquia absolutista" jamais existiu e foi cunhada a posteriori pelos partidários da Revolução. A "monarquia absolutista" é tão inexistente como o "Despotismo Esclarecido", pois nunca tratadista algum do século XVIII usou tal conceito para defender o princípio da superioridade monárquica. Antes pelo contrário, "o tal absolutismo" estabeleceu a "indiferenciação dos súbditos perante o Rei", abrindo portas para a superação da sociedade de ordens e a aceitação do princípio da ascensão pelo mérito, que funcionava, de facto, em França nas vésperas da Revolução.
Um lamentável equívoco, quando nos lembramos que até a mais vilipendiada figura da história do Portugal Contemporâneo (D. Miguel) teve de mandar reunir cortes - as primeiras desde 1683 - para se proceder à sua aclamação como Rei de Portugal, quando D. Pedro "IV" se limitou a conquistar o trono pelas armas e impor uma Carta sem ouvir os representantes da nação. Podemos tomar partido emocional pelos miguelistas ou pelos pedristas - movimento absolutamente insignificante como inconsequente - vendo no primeiro o catalizador de "ideias antigas" e no segundo o advento de uma nova idade. Contudo, não se pode deixar de encarar a ideia de realeza de D. Miguel no momento em que assumiu o desafio de lutar pela lusitana antiga liberdade como absolutamente honesta e coerente com a ideia de um pacto com o seu povo, que D. Miguel quis restaurar.
Lembraria igualmente que os "reis absolutos" franceses (Luís XIV, Luís XV e Luís XVI) não podiam quebrar os foros e privilégios das províncias, comunas e cidades livres, tendo até, de pedir autorização aos deputados e representantes dessas unidades territoriais o direito de passagem e pernoita. Foi o Estado codificador, legislador, centralizador e confiscador dos direitos, liberdades e privilégios, o Estado do jacobinismo, que impôs o soberanismo radical, a ideia de um ente moral distinto dos homens que Samuel Pufendorf anunciara, de um indutor da "Vontade Geral" com que Rousseau resolveu o problema da pluralidade e a antecâmara do totalitarismo, ou seja, da apropriação dos indivíduos e da sociedade por uma ideia abstracta(Amendola). O absolutismo existiu, de facto, mas sob a república de 1793. Depois, chamou-se nacional-socialismo, comunismo e, até, democracia, tal como transparece da agressividade de alguns intolerantes da tolerância que julgam que a democracia, mais que a aceitação da soberania popular e um método, é um dogma.